Vida CristãLiturgia dominical

Liturgia para a Vigília Pascal

A história não acabou

1ª Leitura: Gn 1,1-2,2 ou 1,1.26-31ª
2ª Leitura: Gn 22,1-18 ou 22,1-2.9ª.10-13.15-18
3ª Leitura: Ex 14,15-15,1
4ª Leitura: Is 54,5-74
5ª Leitura: Is 55,1-11
6ª Leitura: Br 3,9-15.32-38; 4,1-4
7ª Leitura: Ez 36, 16-17ª.18-28
8ª Leitura: Rm 6,3-11
Evangelho: Mc 16,1-8

-* 1 Quando o sábado passou, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé, compraram perfumes para ungir o corpo de Jesus. 2 E bem cedo no primeiro dia da semana, ao nascer do sol, elas foram ao túmulo. 3 E diziam entre si: «Quem vai tirar para nós a pedra da entrada do túmulo?» 4 Era uma pedra muito grande. Mas, quando olharam, viram que a pedra já havia sido tirada. 5 Então entraram no túmulo e viram um jovem, sentado do lado direito, vestido de branco. E ficaram muito assustadas. 6 Mas o jovem lhes disse: «Não fiquem assustadas. Vocês estão procurando Jesus de Nazaré, que foi crucificado? Ele ressuscitou! Não está aqui! Vejam o lugar onde o puseram. 7 Agora vocês devem ir e dizer aos discípulos dele e a Pedro que ele vai para a Galiléia na frente de vocês. Lá vocês o verão, como ele mesmo disse.»

* 16,1-8: Estes versículos são o final primitivo do Evangelho de Marcos. O túmulo vazio é o sinal de que a ação de Deus em Jesus não termina aí, na morte e no medo. Jesus de Nazaré ressuscitou e vai estar de novo no lugar onde havia começado sua atividade: na Galiléia (1,14). Os discípulos só poderão encontrar-se de novo com Jesus, se continuarem o projeto por ele iniciado. Jesus ressuscitado não é apenas um corpo redivivo, mas uma presença contínua entre aqueles que continuam o seu caminho. O Evangelho de Marcos é somente o começo (1,1), a introdução de um livro muito maior, que deverá narrar a Boa Notícia de Jesus, o Messias, o Filho de Deus, através dos seus discípulos em todos os tempos e lugares.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

ACOMPANHE A REFLEXÃO EM VÍDEO

A Reconstituição do Rebanho

A “conclusão breve de Mc” (*) (16,1-8, evangelho) termina, aparentemente de maneira pouco pascal pelo silêncio das mulheres a respeito do sepulcro vazio. Ora para Mc, Jerusalém e o lugar da incredulidade e Galiléia, o lugar da fé do pequeno rebanho: o anúncio da ressurreição não foi feito logo em Jerusalém mas primeiro se devia reconstituir  o rebanho na Galiléia: Jesus Cristo ressuscitado é o pastor que “precede” (verbo usado em Mc 16,7, cf. 14,28) o rebanho que seria disperso (Mc 14, 27-28 / 16,7). Agorajá não são “ovelhas sem pastor” (cf. Mc 6,34). Eles são o início da “reunião dos eleitos dos quatro ventos” (13,27).

Depois da morte e ressurreição de Jesus, o grupo dos “galileus” encontrou em Jerusalém apenas um vazio. Jerusalém tinha desperdiçado seu privilégio (Mc 12,1-11, aludindo à rejeição de Jerusalém e à ressurreição de Cristo). Os “galileus” eram os primeiros do novo povo de Deus, da Nova Aliança, aguardando para breve a nova vinda de seu Senhor, com a glória do céu (Mc 14,62). A ressurreição significava a entrada do Cristo na glória, para, voltando em breve, realizar a consumação daquilo que ele iniciara: o Reino de Deus. Na realidade, Jesus não voltou tão logo assim, mas isso não diminui a responsabilidade do novo povo de Deus, antes, pelo contrário. Pois quem deve continuar a obra iniciada por Cristo somos nós. Páscoa significa, então, que nós devemos assumir aquilo que esperamos da Parusia de Cristo: o Reino de Deus, a presença de Deus junto aos homens.
Páscoa significa, portanto, nossa constituição como povo escatológico do Cristo na terra, povo testemunha de que ele é o Senhor da História. Este povo não é constituído no “centro do mundo”, Jerusalém, mas na “Galiléia dos pagãos”: não corresponde às categorias deste mundo (nem mesmo em termos religiosos), mas à mera eleição gratuita de Deus. Tanto mais grave é a responsabilidade do testemunho, porque este não é a “consequencia natural” de categorias humanas, mas cumprimento de um chamado divino, recebido na consciência do sentido de sua morte e glorificação. Porque Jesus morreu e ressuscitou e porque nós o sabemos, deveremos testemunhar seu caminho diante do mundo. Devemos ser seu povo-testemunha “na Galiléia”, na periferia do mundo.

(*) Chamada assim à diferença da “conclusão longa” ou “canônica”, Mc 16, 9-20, que é, de fato, um acréscimo canônico ao texto original (cf. Ascensão)

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

Um grande silêncio: o rei está dormindo

Sábado Santo

Estamos no dia do silêncio. Aquele que viera da parte de Deus e se aninhara no seio de Maria, aquele que veio beber as águas de nossas fontes, cantar nossos cantares, chorar nossas lágrimas, depois de morto, foi tirado da cruz e colocado num sepulcro em que ninguém ainda havia sido sepultado. Os apóstolos já haviam abandonado a cena. A desolação havia tomado conta dos corações.

A missão de Jesus ainda não tinha terminado. Conhecidíssima uma antiga Homilia no grande sábado santo faz Jesus nos falar de coisas bonitas e delicadas: “ Que está acontecendo hoje? Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e uma grande solidão. Grande silêncio porque o Rei está dormindo; mas a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos. Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos”. Sim, ele foi buscar Adão e Eva cativos que agora seriam libertados de seus sofrimentos.

O autor da Homilia conversa com os que Adão.

“Por ti, eu, teu Deus, me tornei teu filho; por ti, eu, o Senhor tomei a condição de escravo. Por ti, eu que habito no mais alto dos céus, desci à terra e fui até mesmo sepultado debaixo da terra; por ti, feito homem, tornei-me alguém sem apoio, abandonado entre os mortos. Por ti, que deixaste o jardim do paraíso, ao sair de um jardim, fui entregue aos judeus e, num jardim, crucificado.

Vê em meu rosto os escarros que por ti recebi, para restituir-te o sopro da vida original. Vê em minha face as bofetadas que levei para restaurar, conforme a minha imagem a tua beleza corrompida (…). Adormeci na cruz e a lança penetrou no meu lado, como Eva surgiu do teu, ao adormeceres no paraíso. Meu lado curou a dor do teu lado. Meu sono vai acordar-te do sono da morte. Minha lança deteve a lança que estava dirigida contra ti”.

Depois que entregou o última suspiro ele foi à mansão dos mortos para tirar das trevas aquele todos que haviam se deixado iludir e se envolver pelas trevas….

Este é o grande sábado. O sábado do grande silêncio.

Estamos em estado de vigília para celebrar a festa da luz e da transfiguração…Mas hoje é dai de reflexão e de silêncio. O Rei dorme…

Pai, cheio de bondade, vosso Filho unigênito desceu à mansão dos mortos e dela surgiu vitorioso: concedei aos vossos fiéis, sepultados com ele no batismo, que, pela força de sua ressurreição, participem da vida eterna com ele.