Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Meditação diária

setembro/2020

  • Oração pela nossa terra

    Deus Onipotente,
    que estais presente em todo o universo
    e na mais pequenina das vossas criaturas,
    Vós que envolveis com a vossa ternura
    tudo o que existe,
    derramai em nós a força do vosso amor
    para cuidarmos da vida e da beleza.
    Inundai-nos de paz,
    para que vivamos como irmãos e irmãs
    sem prejudicar ninguém.
    Ó Deus dos pobres,
    ajudai-nos a resgatar
    os abandonados e esquecidos desta terra
    que valem tanto aos vossos olhos.
    Curai a nossa vida,
    para que protejamos o mundo
    e não o depredemos,
    para que semeemos beleza
    e não poluição nem destruição.
    Tocai os corações
    daqueles que buscam apenas benefícios
    à custa dos pobres e da terra.
    Ensinai-nos a descobrir o valor de cada coisa,
    a contemplar com encanto,
    a reconhecer que estamos profundamente unidos
    com todas as criaturas
    no nosso caminho para a vossa luz infinita.
    Obrigado porque estais conosco todos os dias.
    Sustentai-nos, por favor, na nossa luta
    pela justiça, o amor e a paz.

    Papa Francisco

  • As coisas virão a ti

    Joga as máquinas ao mar, eu te conjuro, as coisas mecânicas com que te enganas, e caminha com um passo pesado de senhor, em tua pobreza de homem sozinho: então as coisas virão a ti e os pássaros virão comer em tuas mãos.

    Jean Sulivan

  • Uma família saudável

    Saudável seria a família a um tempo protetora estimulante, que nesse difícil equilíbrio deixasse o filho criar asas e, na hora certa sair do ninho – continuando atenta, sem ser controladora: uma asa quebrada, uma pata ferida, um desastre poderiam ser consertados até mesmo numa breve visita.

    Lya Luft
    Múltipla escolha
    Record, p. 79

  • Felizes os pobres

    Felizes são aqueles e aquelas que caminham livres e leves vida afora. Não é necessário que andem rasgados, sem lenço nem documento. Basta que caminhem pelas sendas da vida com pouca bagagem sabendo que dependem dos outros, que não podem considerar-se “a” obra prima da natureza, que não tenham doentia vontade de sempre falar de si e, com sua pseudo superioridade queiram sempre dizer a definitiva palavra. Não dependem de ninguém. Vivem e sabem que pássaros dos céus têm alimento e as aves dos céus de vestem de requintados modelos. O Senhor não poderá esquecer-se deles.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Sempre é Pentecostes

    O vento costuma nos descabelar. O sopro do Espírito tem a peculiaridade de deslocar as coisas paradas, estagnadas, inférteis. Vem para desatar nossas âncoras presas pelo medo e falsas certezas. Abala as paredes de nossos guetos. Varre as fronteiras. Não para destruir, mas para construir, para edificar o novo. Pentecostes é anti-Babel. Babel é a confusão das línguas, o acanhamento dos nacionalismos, a guerra das culturas, o afrontamento das religiões.

    Pentecostes proclama o amor como “língua universal”, sem apagar nada dos idiomas que se enriquecem com o Espírito. O Sopro Sagrado forja a unidade pela comunhão das diferenças. Faz de todo homem um cidadão do mundo e um artífice do Reino, este país sem territórios nem fronteiras onde o todo e cada parte vibram no diapasão da universalidade.

    A experiência de Pentecostes é de uma encarnação onde não se pode confundir nem separar carne e espírito, espiritual e político.

    Texto inspirador:
    Pentecôte sur l’ Europe
    Fabien Deleclos, franciscano belga

  • Ouvidos que escutem

    O abandono está no coração de Cristo,
    o perdão no seio do Pai,
    o dom no vento do Espírito.
    Glória a ti, único Trino,
    ensina-nos a fazer de nossos machucados
    ouvidos que escutem,
    bocas de oração
    e lábios de amor.

    Jean Bancal

  • Encontrar a alegria

    A dificuldade de encontrar alegria parece-nos hoje particularmente aguda. A sociedade tecnológica tem podido multiplicar as ocasiões de prazer, mas ela dificilmente tende à alegria porque a alegria vem de outra parte. É espiritual. O dinheiro, a comodidade, a higiene, a segurança material não faltam muitas vezes e, contudo, o vazio, a inquietude, a solidão, a tristeza permanecem o quinhão de muitos. Isto gera a angústia e o desespero que a febre de consumo, o frenesi por uma felicidade instantânea e os paraísos artificiais não conseguem fazer desaparecer. No fundo a nossa cultura vive de desencontro com a alegria. Percorremos caminhos que, por um lado, gritam a nossa ânsia de alegria, mas também a nossa incapacidade de mergulhar até o fundo na alegria, na alegria autêntica (…). Todas estas situações não podem impedir-nos de falar da alegria e de viver na expectativa de seu advento.

    Papa Paulo VI
    Gaudete in Domino
    Ano de 1975

  • Depoimento de uma enfermeira

    Minha vida de oração conjuga-se com minha vida profissional ou com meu serviço junto a pessoas doentes; é oração de contemplação. Jesus Cristo é Isabel totalmente paralítica desde os 30 anos. Jesus Cristo é Janine que vive três deficiências graves. O Reino de Deus está ali naquela sala com vinte idosos, lugar onde nos maravilhamos.

    É de joelhos que tenho vontade de me colocar diante da grandeza dessas vidas de sofrimento, assumidas no silêncio, na pobreza, na humildade, na paz e na alegria. Tais vidas me revelam e me falam dos segredos de Deus que são: Pobreza, Paz e Alegria.

    As provações (quem não as tem?!) são o meu relacionamento com essas pessoas cheias de carências que me mantém unida com o Senhor.
    Esta unidade de vida se faz dia após dia entre o momento de oração em que Deus me fala fazendo que eu seja penetrada de sua palavra deixando-me transformar pelo Espírito do Evangelho e a própria natureza de meu trabalho que me faz prestar serviço aos mais necessitados. Somente Deus pode dar suficiente humildade para encontrar Jesus Cristo no pobre.

    Revista Prier
    Março de 1981

  • A vida espiritual e o silêncio

    De silêncio sim, não de um tolo mutismo, mas de um silêncio fecundo. Silêncio de ruídos externos, mas sobretudo dos berros e gritos que emanam de nosso interior, de nossos loucos e insaciáveis desejos marcadamente egoístas e interesseiros e fortemente barulhentos. Precisamos reservar espaço e tempo para ouvir o rumor de Deus. A transformação do bulício em silêncio, do tumulto do borbulhar em serenidade, a ebulição trepidante em calma dos ruídos externos e internos pertencem à arte de viver.
    Silêncio antes da oração, silêncio durante a oração, silêncio depois da oração. Silêncio no quarto antes de dormir. Silêncio é antes de tudo como uma qualidade do coração.
    Há solidões cruéis. Nem toda solidão, no entanto, é nefasta. Pode ser uma urgência para se saber quem se é. E para prestar atenção às eventuais batidas do Senhor à nossa porta.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • A quem pertencemos?

    A vida, essa vida de todos os dias, pode ser desgastante, estressante, de modo particular nas grandes cidades. Corremos de um lado para outro. Trânsito insuportável, gritos, berros, buzinas e panelaços, congestionamentos, motoboys corajosos e quase sem juízo, borbotões de gente no metrô e nos trens. Gente na contramão. Ninguém conhece ninguém. Anonimatos. A vida vai passando. Vivendo ou vegetando? Em certos momentos brota essa pergunta em nosso interior: A quem pertencemos? De quem somos? Não somos apenas uma peça anônima na engrenagem da cidade, da vida e do mundo. Mas, afinal de contas, a quem pertencemos?

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Fonte de todo amor

    Ó Deus, tu és o amor é a fonte
    de toda paternidade e de toda maternidade,
    carnal e espiritual
    que teu Espírito criador renove nosso desejo
    de viver para fecundar o amanhã e
    sermos “parteiros da vida”.

    Que teu Espírito criador
    seja coragem para todos que incansavelmente,
    nas dores e alegrias da parturição
    ajudam os pobres, os excluídos, os explorados
    a “renascer” tomando consciência de sua dignidade.

    Que teu Espírito criador
    se faça presente em cada um de nossos relacionamentos
    para que nosso olhar, nossas palavras e nossos silêncios
    sejam para os outros fonte de crescimento
    e façam de nossos encontros “visitações”
    onde renasçam amor e esperança.

    Que teu Espírito criador
    faça de nós humildes colaboradores
    do nascimento imenso de novos céus e de uma Terra nova.
    Que ele seja inspiração para nossos engajamentos e preces.

    Michel Hubaut

  • Escutar o Verbo

    Indispensável se faz necessário colocarmo-nos à escuta do silêncio de Deus, apesar de tudo. Escutar o Verbo que presidiu à eclosão do mundo, rasgando as trevas com a luz, que dialogou com os profetas, depois de fez Carne e retornou ao seu afastamento inicial. Audição impossível, insustentável? Sim e não – de qualquer maneira o que importa é afirmar a urgência desta escuta mais do que sua impossibilidade. Para que a audição possa se realizar é preciso forçar a escuta ao extremo, lutar contra a própria surdez, por mais resistente que seja até conseguir transmutar o silêncio em murmúrio, em canto de delicadíssimo silêncio (…). O silêncio é uma não-matéria cindível, necessário quebra-la à força da escuta e da interrogação até conseguir provocar a emanação e efusão da imensa reserva de energia que comporta.

    Sylvie Germain
    Les échos du silence
    Albin Michel, p. 107

  • Sermão da montanha

    O cristianismo é uma vida. Carregamo-la em vasos de barro. Somos convidados, com a ajuda da graça, a crescer até atingir a plenitude de Cristo. Exercitamo-nos do crescimento da vida, de modo particular, com a leitura e meditação do Sermão da Montanha (Mateus 5-7). Seres pobres diante do Senhor, sal da terra, orantes com a porta do quarto fechada, olhando com gratidão os lírios dos campos, cultivando a não-violência, chorando por não amarmos o Amor como deveria ser amado, luz do mundo, construindo a casa sobre a rocha. Sem constantes revisões de nossas vidas corremos o risco de deixar que nosso coração endureça. Felizes os misericordiosos, os mansos, os construtores da paz. O Sermão da Montanha coloca o ideal de vida para os que carregam em si a vida nova de Cristo Jesus.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Oração da esposa

    Senhor, tu me deste um esposo
    para partilhar com ele meu destino.
    Que eu possa aliviar seu cansaço
    e reconforta-lo com a ternura do coração
    e com a doçura de uma companheira equilibrada.
    Faze com que eu saiba tornar mais leves
    suas preocupações procurando serenar seu espírito
    e ser indulgente com seu temperamento por vezes difícil.
    Que suas alegrias sejam minhas alegrias.
    Que minhas atenções amenizem suas penas
    e que eu possa ser para ele uma companheira
    sempre fiel nos bons e nos maus momentos.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • “Reprodução de Cristo” em nós

    Os cristãos, nos momentos importantes e sua vida e no corriqueiro da existência, sempre encontram no Evangelho as luzes e forças de que necessitam. Somente uma frequentação assídua e constante do Evangelho permite uma transformação profunda de todo o nosso ser à imagem de Cristo. Madeleine Delbrêl dizia: “Penso que o essencial é a “reprodução” do Cristo em nós pelo Evangelho, por sua assimilação orante e realista”. Para ser efetiva uma tal transformação deve se inscrever na duração e numa determinação firme dando condições a uma profunda interiorização. A Palavra assim recebida será guardada durante o tempo da maturação, da gestação para produzir fruto e assim engendrar a vida de Cristo em nós.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Educação da sexualidade

    A sexualidade é, numa perspectiva de antropologia personalista, uma realidade prévia em que todos nos situamos. É força que nos afeta em tudo o que somos. E, precisamente, por isso é preciso educa-la. Tem sentido, assim, de falar de ‘educação da sexualidade’. Quando a sexualidade não é educada, mobiliada por valores de respeito e de abertura ao outro, diverso e diferente de nós, torna-se uma força violenta tais como tantas outras forças que nos constroem como pessoas: se não as educarmos, tornam-se descontroladas.

    Luís Manoel Pereira da Silva

  • Uma prece de São Francisco

    Éloi Leclerc, frade francês, escreveu muito sobre Francisco de Assis. Um dos seus livros sempre reeditado é: Sabedoria dum Pobre. O autor colocou nos lábios de Francisco uma oração quando nuvens escuras cobriam o céu de sua caminhada. Em tempos de dificuldade pode ser nossa. Uma prece de quem, na noite, não esquece dos seus.

    Senhor Deus, proferiu Francisco, apagaste a minha lâmpada e eis que estou mergulhado em trevas e comigo todos os que me deste. Tornei-me para eles um objeto de terror. Mesmo os que estavam mais ligados, fogem-me. Afastaste de mim os amigos, os meus companheiros das primeiras horas. Ah, Senhor, escuta a minha oração. Esta noite já não foi bastante longa? Acende um fogo novo no meu coração. Volta para mim o teu rosto e que a luz da tua aurora resplandeça novamente sobre a minha face a fim de que os que me seguem não caminhem nas trevas. Tende piedade de mim por causa deles.

    Sabedoria dum pobre
    Ed. Franciscana, Braga, p.70-71

  • Prece do esposo

    Senhor, em tua bondade tu me deste
    uma esposa que é para mim
    companheira inseparável.
    Que todas as minhas palavras e as minhas ações
    provem que ela tem em mim
    o mais fiel amigo e seu protetor;
    que confio nela e que meu coração
    nunca seja tomado pelo veneno
    da desconfiança e ciúme.
    Infunde em nossos corações
    uma santa comunidade de afeição
    para que venhamos a nos apoiar reciprocamente
    nas provações da vida.
    Que sob nosso teto reinem
    serenidade e paz.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Sistema de valores

    “Ter um inimigo é importante, não apenas para definir a nossa identidade, mas também para arranjarmos um obstáculo em relação ao qual seja medido o nosso sistema de valores e, para mostrar, no afrontá-lo o nosso valor. Portanto, quando o inimigo não existe, há que construí-lo”.

    Umberto Eco

  • Relação com o outro

    A simples reflexão não é suficiente para dar um sentido à vida. Somente quando alguém se engaja no dom de si num caminho – como humanitário, arte, pesquisa científica – que se descobre esse sentido. É, pois, em função de um engajamento que comporte o dom de si mesmo por alguma coisa que se ama e que se considera válida para todos. A verdade que se descobre precisará ser vivida, não definida apenas pela razão. Creio que abrir-se interiormente, fazer o vazio em si para acolher o que vem favorece a realização de encontros. Estes por sua vez, criam soluções nascidas precisamente do engajamento que assumimos com outros. As soluções aparecem na relação com o outro.

    Georges Haldas

  • Vida espiritual

    Não apenas um balbuciar de palavras e de fórmulas, mas uma intimidade amorosa com aquele que nos ama, que mora dentro de nós. Oração dos salmos. Alguns são difíceis. Outros são encantadores e nos levam a querer ficar perto daquele que nos olha. Oração no silêncio do quarto. Prática da meditação. Procurar colocar-se muitas e muitas vezes na presença do Senhor, em silêncio. Deixar-se impregnar de uma palavra da Escritura. Levar a Palavra à nascente de nós mesmos. Ter sempre em mente queixa do Senhor: não orar apenas com os lábios e ter o coração onde não pode estar. Seria uma reza farisaica.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • A oração

    “Senta-te no silêncio isolado, baixa a cabeça, fecha os olhos, respira silenciosamente, imagina-te olhando para dentro do teu coração e faz com que o teu raciocínio, isto é, o teu pensamento, passe da cabeça para o coração. Ao respirares, diz: “Senhor Jesus Cristo, tende piedade de mim!”, mexendo com os lábios silenciosamente ou somente em pensamento. Esforça-te por afugentares os pensamentos, não te impacientes e repete cada vez mais este exercício”

    Peregrino russo

  • Colocar flores na jarra

    Uma ação fica incompleta se é puro ativismo, repetido fazer. Bem-aventurados os que vivem uma história e a podem contar. Bem-aventurados os que colocam as flores na jarra e depois param extasiados. O pior que nos pode acontecer é ter uma vida em que vamos fazendo coisas, que até são boas e necessárias, mas em que se perdeu a capacidade do espanto, da contemplação, da delícia. Estes são os caminhos que permitem ao olhar tocar o sentido, tatear a plenitude. A alegria não vem, quando interrompemos a vida: a alegria nasce quando pegamos num de seus fios, seja ele qual for e somos capazes de leva-lo à plenitude. E a sua plenitude e sempre esse momento culminante.

    José Tolentino Mendonça
    Nenhum caminho será longo
    Paulinas, p. 139

  • A relação

    O encontro é semente de relações que nos leva a descobrimo-nos mutuamente. Toda relação é trinitária. Na minha maneira de ver a relação interpessoal com tudo o que implica de dinâmica, de descoberta, de sentido é verdadeiro oásis no deserto moderno. O deserto íntimo é a perda desta relação em amor, em poesia no plano espiritual. Os momentos de secura e de dúvida, porém, preparam reencontros com a relação. Bem no centro do desespero há uma espera inconsciente desse reencontro que se deve acelerar procurando retomar o diálogo.

    Georges Haldas

  • Diante do sacrário

    Quem foi perpassado vitalmente pela fé na presença de Cristo no tabernáculo sabe que ali tem um amigo esperando por ele, que sempre tem tempo e demonstra a mesma paciência e acolhimento para ouvir reclamações, pedidos explicações. Que tem o dom do conselho e ajuda em tudo mesmo nas maiores dificuldades. Ninguém, diante do sacrário pode se sentir abandonado. Sempre terá um refúgio onde possa reencontrar sossego e paz.

    Santa Edith Stein

  • Pai

    Pai,
    Jesus te dava um nome cheio de ternura.
    Murmurava as primeiras silabas de uma criança que estende os braços para seu Pai: Abba, Abba!
    Papai, paizinho, painho.
    Nenhum tradutor da bíblia jamais ousou te chamar de “paizinho” ou “papai”.
    Continuamos a dizer Pai, com uma reserva que parece criar distância.

    As palavras não são inocentes. Estão marcadas por atitudes e matizes.
    Quando Jesus balbuciava “Papai” estava inventando um “coração a coração”, uma liberdade, uma alegria desconhecida.
    Os relacionamentos dos homens contigo se transformavam.
    Não fomos capazes de continuar o caminho sussurrando “papai”.
    Estamos sempre às voltas com nossa rigidez e nossa preocupação com as boas maneiras.

    Dize uma coisa: não deveríamos correr o risco nos dias de sol, nas horas do cansaço, nas noites de tristeza, falar baixinho: “Papai”.

    Gérard Bessières

  • Tema da educação

    Em algumas linhas Lya Luft fala da educação:

    “Abrir as mentes para o assombro, dar coragem para o questionamento, flexibilidade para a assimilação de ideias e emoções novas. Incutir o respeito pelo planeta e pela natureza, pelo outro e por si mesmo e o interesse pela busca de um lugar no mundo.
    Esse seria o papel fundamental da família, independente e acima dos currículos. Pois a formação de um indivíduo, isto é, a educação começa na infância, ética também mesmo com as crianças muito pequenas. Noção de autoridade não com medo, mas com o sentimento de alguém que nos observa, nos ama e cuida de nós, também começa em casa. Olhar aberto para a natureza, humanidade, família, afeto e arte: começa em casa. Não de maneira didática, não com pedagogia, mas simplesmente no convívio mais natural, no dia a dia.

    Lya Luft
    A riqueza do mundo
    Record, Rio e São Paulo, 2011, p.86

  • Eucaristia

    Quando queremos manifestar o nosso afeto, a nossa admiração, o nosso amor por alguém, expressamos nossos sentimentos com algum presente. Quanto mais querida for essa pessoa, tanto mais carinhosa e generosamente oferecemos o presente. A Eucaristia é o presente que Cristo Jesus fez para nós, um presente todo particular. Não encontrou nada mais querido do que dar-nos ele mesmo. E o fez mediante sinais simples, ordinários, mas significativos, como são o pão e o vinho. Jesus instituiu a Eucaristia em um contexto, atrever-me-ia dizer de fracasso geral, devido à traição de Judas. Logo se encontrará sozinho diante da cruz, abandonado até pelo pequeno grupo de seus seguidores.

    Fr. Giacomo Bini, OFM

  • Crer

    Crer é saber-se precedido e amado na existência. Dar a adesão a Deus é descobrir aquele que é fonte e finalidade de minha vida, que suscitou minha liberdade e propõe-se a me guiar no caminho do amor. Uma tal experiência tem consequências práticas, porque minhas decisões e ações terão sentido na medida em que responderem carinhosamente ao dom e ao amor de Deus. Fé na vida. Fé que colore nosso dia a dia. Fé que jogar-se nos braços de Alguém que nos ama até o fim.

    Frei Almir Ribeiro Guimarães

  • Gostar da fé

    Anne Lécu, religiosa dominicana francesa, trabalha como médica em presídios desde 1997. Anda escrevendo textos humaníssimos ao sabor dos que gostam da fé como vírus que penetra todo o mistério de nosso ser de homens e ser mulheres. Em 2018, publicou pelas Éditions du Cerf, Paris, um livro sobre a Eucaristia. Passo a passo reflete sobre a missa como uma crônica teológica interessantíssima. Anne Lécu no texto que agora transcrevemos aqui faz um elenco de questionamentos e de perguntas que levamos para igreja quando vamos a missa:

    O que nos atravessa e queima por dentro, fundamentalmente, são as perguntas últimas da existência: morte e vida, morte na vida? Por que a doença e a morte daqueles que amamos? Por que conflitos e dilacerações? Por que essa nossa tão grande fragilidade? Por que é tão difícil a reconciliação? O que quer dizer viver na verdade? Será que desperdiçamos nossa vida? Como reparar o irreparável? Que fardo preciso carregar e que outro posso deixar de lado? O que transmitir a nossos filhos? Como? Estamos condenados à dispersão, a tantas opiniões, religiões, um relativismo diante dos quais nos sentimos desarmados? A que estamos nos tornando? O que acontece ou acontecerá conosco? O que fazer para suportar a existência? Para que ou para quem eu conto de verdade? A quem farei falta no dia que morrer? Existe algum fundamento para a implantação de uma terra de justiça para todos e um céu em que todas as lágrimas serão eliminadas? Isto é verdade para o hoje? O que resta de saldo de nossa vida? Se esperamos por Deus, o que ele espera de nós?

    Anne Lécu
    Una vita donata