Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

5º domingo do Tempo Comum

Quinto Domingo do Tempo Comum

Mas aí veio a pandemia…

 

Frei Gustavo Medella

Desde março do ano passado, temos sido obrigados a conjugar os verbos no futuro do pretérito, seguidos pelo refrão “mas aí veio a pandemia”. “Iríamos nos casar neste ano, mas aí veio a pandemia”; “Viajaria para o exterior no mês que vem, mas aí…”; “Papai completaria 100 anos em outubro, mas aí…” são alguns exemplos de expressões que foram e continuam sendo amplamente utilizadas. O vírus se impôs de tal maneira que muitos planos tiveram de ser mudados e tantos sonhos precisaram ser adiados.

Ao vir à tona a doença, emerge, com ela, a fragilidade humana e a urgência da cura. De repente a humanidade se percebe enferma e prisioneira, passando a sonhar saudosa com a liberdade de poder ir e vir sem máscaras. Junto ao vírus, outros males eclodiram e vêm causando prejuízos tão ou mais danosos do que aqueles provocados pelo patógeno. Entre estes males paralelos e mortais destacam-se:

Negacionismo – o que a princípio poderia ser um mecanismo de defesa diante de uma verdade que assusta e se impõe, aos poucos vai adquirindo traços de insanidade. Negar a doença, a transmissão, dar de ombros aos cuidados prescritos e desacreditar a vacina e todo trabalho da ciência e da medicina são atitudes obscurantistas que fazem aumentar o potencial destrutivo e desagregador da pandemia, especialmente quando tais atitudes partem de autoridades e/ou formadores de opinião.

– Indiferença – Demonstrar descaso e despreocupação para com os que sofrem mais diretamente os efeitos sanitários e socioeconômicos é falta de empatia. “E daí?” Solidarizar-se com os mais frágeis e com os que viveram perdas importantes neste tempo é atitude que se espera de um cristão.

– Corrupção – Aproveitar a situação de emergência para se ganhar dinheiro com especulação, desvio e outras práticas criminosas revela o quanto a ganância e a cobiça, quando tomam o coração humano, levam a atos de extrema crueldade nos quais a vida e a dignidade da pessoa humana são submetidos à mesquinhez e ao egoísmo.

No Evangelho deste 5º Domingo do Tempo Comum (Mc 1,29-39), o cuidado e a reverência dos Apóstolos para com a sogra de Pedro que estava enferma fizeram com que eles imediatamente contassem a Jesus. É a atitude do respeito e do carinho por aquele que vive o drama da doença. Jesus, por sua vez, logo se interessa pelo caso, vai ao encontro daquela senhora e lhe estende a mão. Está curada! Passa a servi-los.

O itinerário que o texto bíblico propõe, além de apresentar Jesus Cristo como cura e salvação, mostra o quanto uma postura sincera de amor ao próximo pode criar uma verdadeira “corrente do bem” que irradia a mais bela expressão da humanidade: o amor-serviço. A sogra de Pedro, percebendo-se amparada, sente-se chamada a amparar. Tão mais bonito e edificante seria se, em meio a esta traumatizante pandemia, a postura dominante fosse esta. Muitos sinais bonitos estão sendo apresentados, é verdade! Mas muitos outros também poderiam se manifestar.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.


Imagem ilustrativa de Frei Fábio Melo Vasconcelos

Leituras bíblicas para este domingo

Primeira Leitura: Jó 7,1-4.6-7

Jó disse: 1“Não é acaso uma luta a vida do homem sobre a terra? Seus dias não são como os dias de um mercenário? 2Como um escravo suspira pela sombra, como um assalariado aguarda sua paga, 3assim tive por ganho meses de decepção, e couberam-me noites de sofrimento.

4Se me deito, penso: Quando poderei levantar-me? E, ao amanhecer, espero novamente a tarde e me encho de sofrimentos até ao anoitecer.

6Meus dias correm mais rápido do que a lançadeira do tear e se consomem sem esperança. 7Lembra-te de que minha vida é apenas um sopro e meus olhos não voltarão a ver a felicidade!


Salmo Responsorial: Sl 146

— Louvai a Deus, porque ele é bom/ e conforta os corações.

— Louvai a Deus, porque ele é bom/ e conforta os corações.

— Louvai o Senhor Deus, porque ele é bom,/ cantai ao nosso Deus, porque é suave:/ ele é digno de louvor, ele o merece!/ O Senhor reconstruiu Jerusalém,/ e os dispersos de Israel juntou de novo.

— Ele conforta os corações despedaçados,/ ele enfaixa suas feridas e as cura;/ fixa o número de todas as estrelas/ e chama a cada uma por seu nome.

— É grande e onipotente o nosso Deus,/ seu saber não tem medida nem limites./ O Senhor Deus é o amparo dos humildes,/ mas dobra até o chão os que são ímpios.


Segunda Leitura: 1Cor 9,16-19.22-23

Irmãos: 16Pregar o Evangelho não é para mim motivo de glória. É antes uma necessidade para mim, uma imposição. Ai de mim se eu não pregar o evangelho! 17Se eu exercesse minha função de pregador por iniciativa própria, eu teria direito a salário. Mas, como a iniciativa não é minha, trata-se de um encargo que me foi confiado. 18Em que consiste então o meu salário? Em pregar o evangelho, oferecendo-o de graça, sem usar os direitos que o evangelho me dá.

19Assim, livre em relação a todos, eu me tornei escravo de todos, a fim de ganhar o maior número possível. 22Com os fracos, eu me fiz fraco, para ganhar os fracos. Com todos, eu me fiz tudo, para certamente salvar alguns. 23Por causa do evangelho eu faço tudo, para ter parte nele.


Ser livre para servir
Evangelho: Mc 1, 29-39

* 29 Saíram da sinagoga e foram logo para a casa de Simão e André, junto com Tiago e João. 30 A sogra de Simão estava de cama, com febre, e logo eles contaram isso a Jesus. 31 Jesus foi aonde ela estava, segurou sua mão e ajudou-a a se levantar. Então a febre deixou a mulher, e ela começou a servi-los.

32 À tarde, depois do pôr-do-sol, levavam a Jesus todos os doentes e os que estavam possuídos pelo demônio. 33 A cidade inteira se reuniu na frente da casa. 34 Jesus curou muitas pessoas de vários tipos de doença e expulsou muitos demônios. Os demônios sabiam quem era Jesus, e por isso Jesus não deixava que eles falassem.

Jesus rejeita a popularidade fácil -* 35 De madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto. 36 Simão e seus companheiros foram atrás de Jesus 37 e, quando o encontraram, disseram: «Todos estão te procurando.» 38 Jesus respondeu: «Vamos para outros lugares, às aldeias da redondeza. Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim.» 39 E Jesus andava por toda a Galileia, pregando nas sinagogas e expulsando os demônios.


Notas:

* 29-34: Para os antigos, a febre era de origem demoníaca. Libertos do demônio, os homens podem levantar-se e pôr-se a serviço. Os demônios reconhecem quem é Jesus, porque sentem que a palavra e ação dele ameaça o domínio que eles têm sobre o homem.

* 35-39: O deserto é o ponto de partida para a missão. Aí Jesus encontra o Pai, que o envia para salvar os homens. Mas encontra também a tentação: Pedro sugere que Jesus aproveite a popularidade conseguida num dia. É o primeiro diálogo com os discípulos, e já se nota tensão

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Reflexão do exegeta Frei Ludovico Garmus

5º Domingo do Tempo Comum

Oração: “Velai, ó Deus sobre a vossa família, com incansável amor; e, como só confiamos na vossa graça, guardai-nos sob a vossa proteção”.

  1. Primeira leitura: Jó 7,1-4.6-7

Encho-me de sofrimento até ao anoitecer.

Jó foi atingido pelas desgraças, perdeu todos os bens e a própria saúde. É visitado por três amigos, que tentam consolá-lo e convencê-lo que Deus o castiga por causa de seus pecados. Mas eles não conseguem consolar a Jó em seu sofrimento e, muito menos, que é pecador. Jó considera-se inocente e injusto o modo de Deus agir com ele. Lamenta-se e amaldiçoa até o dia em que nasceu. Revoltado contra Deus, Jó busca uma resposta para seu sofrimento. Mas é em meio ao seu sofrimento que Jó, pela primeira vez, se dirige diretamente a Deus como a um Tu, diante do qual se lamenta e a quem dirige sua súplica: “Lembra-te de que minha vida é apenas um sopro e meus olhos não voltarão a ver a felicidade”. Jó percebe sua limitação quando cai na desgraça, lamenta-se diante de Deus e pede a graça de ser feliz. O sofrimento de Jó não afasta, mas aproxima-o ainda mais de Deus. No diálogo com Deus, reconhece e louva a sabedoria de Deus manifestada nas obras da criação.

Na pandemia do coronavírus também sentimos o quanto somos limitados. Nossos planos de vida ficaram como que congelados. Tivemos que alterar nossa rotina diária. Talvez tenhamos perguntado: “Por que tanta morte e sofrimento? Onde está Deus em tudo isso”? Os caminhoneiros, acostumados a imprevistos, formularam um provérbio: “Eu dirijo, Deus me guia”. Deixemo-nos guiar por Deus. A verdadeira resposta ao problema do sofrimento está em Jesus Cristo, o Servo Sofredor. Ele foi solidário com os sofredores, assumiu o próprio sofrimento e foi obediente até a morte de cruz.

Salmo responsorial: Sl 146

Louvai a Deus, porque ele é bom e conforta os corações.

  1. Segunda leitura: 1Cor 9,16-19.22-23

Ai de mim, se eu não pregar o Evangelho.

Jesus podia ter voltado a Cafarnaum para receber aplausos do povo e ficar por ali mesmo. Mas Ele leva os discípulos a outras aldeias para anunciar também ali o evangelho (Evangelho). Paulo também sabe que é urgente continuar pregando o evangelho em toda parte: “Ai de mim se eu não pregar o evangelho”. É uma missão que recebeu do próprio Cristo. Recebeu esta missão por graça divina. Por isso, ele prega de graça, sem esperar salário ou alguma recompensa. Tinha como princípio viver do trabalho de suas mãos, pois era fabricante de tendas. Assim ele sente-se livre em relação a todos e pode ser solidário com os mais pobres. Fez-se “fraco, para ganhar os fracos” e levar a todos a salvação em Cristo.

Aclamação ao Evangelho

O Cristo tomou sobre si nossas dores,

carregou em seu corpo as nossas fraquezas.

  1. Evangelho: Mc 1,29-39

Curou muitas pessoas de diversas doenças.

O Evangelho de hoje é a continuação e um “dia de atividade” de Jesus em Cafarnaum: De manhã Jesus está na sinagoga porque era sábado. Depois entra numa casa, onde cura a sogra de Pedro. À tarde, quando termina o sábado para os judeus, cura “muitos doentes e possuídos pelo demônio” que lhe são trazidos pelo povo, pois “a cidade inteira se reuniu em frente da casa”. De madrugada Jesus vai a um lugar deserto para rezar. Quando Pedro e os discípulos o encontram, querem que Jesus volte a Cafarnaum, pois “todos estão te procurando”, dizem eles. Jesus, porém, convida-os a irem com ele a outras aldeias onde também devia anunciar o Reino de Deus. Jesus não veio para colher aplausos. Ao contrário de Jó e seus amigos, não discute o sofrimento e suas causas. “No livro de Jó o mistério de Deus se aproxima do homem”. Jesus, porém, assume o sofrimento, cuida (curare) dos doentes e sofredores, curando-os. É claro que Jesus não curou todos os enfermos, mas os que dele se aproximavam com fé. Os milagres de Jesus são sinais do Reino de Deus, uma antecipação da vida definitiva, da ressurreição. Sinalizam também o que nós, como Igreja, devemos fazer: assumir o sofrimento do próximo, cuidando dele, como o fez o Bom Samaritano. Jesus não só se tornou solidário com os sofredores, mas assumiu o sofrimento e a morte de cruz por nosso amor, a fim de nos trazer a salvação.

Tem sido admirável o exemplo de amor e dedicação dos profissionais de saúde, que arriscaram suas vidas para salvar a vida de inúmeras pessoas contaminadas pelo Covid-19. Eles e elas tornaram presente o amor de Deus, manifestado por Jesus para com os enfermos e pobres. Curar é cuidar, e cuidar é amar.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

A caridade começa em casa

Frei Clarêncio Neotti

Simão e André moravam em Cafarnaum. Eram pescadores profissionais. Pedro era casado, a deduzir da existência da sogra (v. 30). Nada mais se sabe da família dos dois. É possível que, àquela altura, a mulher de Pedro tivesse morrido. Mas também é possível que ela o tenha seguido, já que eram várias as mulheres que acompanhavam Jesus e os discípulos nas andanças. Podemos concluir que Jesus tenha voltado muitas vezes à casa de Pedro, porque Cafarnaum ficou conhecida nos Evangelhos como ‘sua cidade’ (Mt 9,1). Jesus não era um pregador errante. Tinha seus pontos de retorno. Na Judeia, a casa de Lázaro. Na Galileia, a casa de Pedro.

A cura da sogra de São Pedro não é certamente um milagre espetacular. Marcos é bem sóbrio ao narrá-lo. Mas é um episódio riquíssimo de sentido. Antes de tudo, mostra um Jesus amigo, afável, misericordioso. Vale a pena pararmos para contemplar o gesto de Jesus. Ele é a encarnação da misericórdia divina. A sogra de São Pedro é o exemplo de pessoa necessitada. No lugar dela poderia estar um de nós. Jesus nos dá a mão, socorre-nos, cura-nos. Se a misericórdia é o laço que une Deus às criaturas, é também o gesto que une as criaturas entre si. E a misericórdia vira cura física e espiritual, serenidade interior, alegria sensível de amor fraterno e coragem de servir. A misericórdia é capaz de acabar com a febre de uma enfermidade e é capaz de “cobrir uma multidão de pecados” (1Pd 4,8). O gesto misericordioso de Jesus levou o Papa Francisco a afirmar que a misericórdia é uma lei fundamental do coração cristão. E ela começa sempre em casa. Passar por cima dos necessitados que estão em nossa casa, para ajudar os de mais longe é hipocrisia exibicionista.


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

Essas tantas doenças

Frei Almir Ribeiro Guimarães

A saúde que Jesus procura não é um assunto individual mas é também social, porque trata de fazer nascer um homem novo em todas as dimensões.
José Antônio Pagola

O cuidado pela vida exige do profissional da saúde um compromisso de ajuda a quem está em situação de fragilidade e limitação e respeitar a justa vontade do paciente, colaborando em atenuar seu sofrimento, a conseguir na medida do possível sua recuperação, ou ajudá-lo, finalmente, no mais difícil momento de sua vida, quando chega a hora de morrer.
José Maria Galán González-Serna

♦ Jó nos afirma que a vida do homem na terra é uma luta. Sabemos que, segundo as Escrituras, esse personagem conheceu a doença do corpo e a tristeza de se ver abandonado por todos os seus amigos, até mesmo por seus entes queridos. A enfermidade acompanha nossos dias do começo ao fim. Doenças leves, enfermidades que vieram para ficar, tratamentos longos e dispendiosos nem sempre alcançando os resultados almejados. A enfermidade nos coloca num estado de insegurança. Chega quando quer apesar de nossas precauções. Pode nos atingir em forma de um vírus potente que veio com coragem da China e muda nosso modo de viver. Reagir, procurar cura, incentivar as pesquisas de novos medicamentos. Gastar menos com armamentos e bombas e mais com o cuidado pelo ser humano e os pesquisadores.

♦ O Evangelho deste domingo nos mostra Jesus com uma agenda muito carregada solicitado por enfermos precisando de sua atenção. Esta sempre foi sempre uma de suas prioridades. Parar para estar com os doentes e que eram muitos. Como de costume vai à casa de Pedro. A sogra do apóstolo está doente. Marcos precisa que ela “estava acamada e com febre”. Jesus toma-lhe a mão, ela se levanta e se põe a servir os visitantes. Chegando o fim da tarde trouxeram-lhe muitos enfermos. Ele organizou sua agenda de forma que a todos atendesse. Não podemos considerar Jesus como um milagreiro para nos curar. Cabe aos homens, ao seu empenho, dominar a face da terra e eliminar as doenças que puder. Devido a tantos fatores internos e externos sofremos e podemos sofrer agudamente. O que nos chama atenção no caso é a presteza com que Jesus se dispõem a estar com eles. Para ele constituem uma prioridade.

♦ “Os seguidores de Jesus devemos gravar bem esta cena. Chegada a escuridão da noite, a população inteira com seus enfermos aglomera-se à porta. Os olhos e as esperanças dos que sofrem procuram a porta da casa onde Jesus está. A Igreja só atrai realmente quando, dentro dela, as pessoas que sofrem podem descobrir Jesus a curar a vida e aliviar o sofrimento. Há muita gente sofrendo à porta de nossas comunidades. Não nos esqueçamos disto” (Pagola).

♦ Há pessoas que sofrem e que não precisam e não devem ser internadas. Essa lista é sem fim: familiares em nossa casa e na casa deles, amigos, pessoas sem ninguém. Não existe uma fórmula única para manifestar nosso amor e carinho. O que parece fundamental, em todos os casos, é, certamente, uma lúcida presença junto aos que sofrem. Há, quando possível, a ajuda material para quem precisa. Somos seres em relacionamento. Coloca-se aqui a necessidade, segundo as circunstâncias, possibilidades e conveniências, da visita ao doente. Os visitantes não chegarão como “salvadores”. Estarão, simplesmente por estar.

♦ Gosto muito de advertências de Luciano Manicardi: “É preciso compreender que a cabeceira do doente não é lugar para uma pregação ou para uma aula de moral ou de teologia (…) A visita ao doente se situa no espaço significativo para o outro, o encontro faz sobressair a qualidade pessoal do doente: ele não é um número ou um “caso clínico”, mas uma pessoa que vive o dramático da doença (…) É ao doente que se deve deixar guiar a visita, é ele que deve ser escutado, é a ele que deve ser dada a palavra. É ele o mestre a ser escutado: é nele que se identifica o Cristo no visitador (Mt 25,36) (O humano sofrer, p.45).


Texto para oração e reflexão

Meu Deus,
ontem à noite colocando entre tuas mãos todo o meu ser, esperava que me desses o descanso de que tanto precisava…
Eis-me agora diante de ti, com meu coração que bate fracamente, mas tão depressa.
Uma vez mais minha vida está suspensa entre o céu e a terra.

Meu Deus, tu estás ai, tão perto… gostaria tanto de te ver, de pegar tua mão… como Pai que tu és… quem sabe que tu queres que eu vigie contigo?

Vasto mundo, são numerosos e diversos aqueles pelos quais eu teria gosto de dar meu tempo e minha vida:
Penso em todos esses do mundo inteiro, de todas as idades e condições, padres e leigos, adultos e crianças, idosos e moribundos: aceita meu corpo abatido, que seja para eles uma oferenda.

Recolhe os pensamentos que me escapam: que os padres encontrem neles palavras para convencer aqueles que te buscam.

Lá, bem distante, é a guerra: homens e crianças vivem com medo. Que minha angústia lhes dê um pouco de paz.

Na Sibéria há outros irmãos que tremem de frio, de fome.
Que a febre que queima meus membros possa aquecê-los.

Na Índia nascem numerosas crianças.
Confio-as a ti como aqueles que eu quisera ter.

Sob o sol da África, no meio da selva, homens caminham por causa do Evangelho.
Que minha imobilidade os ajude a caminhar.

Longe ou perto há tantos que te ignoram porque ignoram uns aos outros.
Que meu sorriso lhes dê teu amor, e que eles, por sua vez, sorriam também.

Meu Deus, que tantas vezes me dás a morte por companheira, porque uma vez ainda, esta noite, estou em tuas mãos, como um caniço ao vento, eu te peço, toma docemente os que hoje havereis de chamar.

Coloca tua mão na fronte deles e que assim compreendam que a vida verdadeira começa para eles.

Que também eu saiba que através deles é a ri que amo na noite.

M.H.- Une nuit entre le ciel et la terre


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

Um coração que vê

José Antonio Pagola

Os evangelhos vão relatando detalhadamente episódios e atuações concretas de Jesus. Mas também oferecem “resumos” ou “sumários” onde se descreve seu estilo de viver: o que ficou mais gravado na lembrança de seus seguidores.

O evangelho de Marcos lembra estes traços: Jesus vive muito atento à dor das pessoas. É incapaz de passar ao largo se vê alguém sofrendo. Seu interesse não é só pregar. Ele deixa tudo, inclusive a oração, para atender às necessidades e sofrimentos das pessoas. Por isso o procuram tanto os enfermos e desvalidos.

Li com alegria o terceiro escrito do papa a toda a Igreja – a encíclica Caritas in veritate – porque, junto com outros acertos, ele soube expor de maneira exata o que ele chama de “programa do cristão”, que deriva do “programa de Jesus”. De acordo com a esplêndida expressão do papa, o cristão deve ser, como Jesus, “um coração que vê onde se precisa de amor e age de acordo”.

O papa olha o mundo com realismo. Reconhece que são muito grandes os progressos no campo da ciência e da técnica. Mas, apesar de tudo, “vemos cada dia o muito que se sofre no mundo por causa de tantas formas de miséria material e espiritual”.

Quem vive com um coração que vê, sabe “captar as necessidades dos outros no mais profundo de seu ser, para fazê-las suas”. Não basta que haja “organizações encarregadas” de prestar ajuda. Se eu aprendo a olhar o outro como Jesus o olhava, descobrirei que “posso oferecer-lhe o olhar de mor de que ele necessita”.

O papa não está pensando em “sentimentos piedosos”. O importante é “não desinteressar-se” daquele que sofre. A caridade cristã “é, antes de tudo, a resposta a uma necessidade imediata numa determinada situação: os famintos precisam ser saciados, os nus vestidos, os doentes atendidos, os prisioneiros visitados”.

É necessária urna atenção profissional bem-organizada. O papa a considera um requisito fundamental, mas “os seres humanos precisam sempre de algo mais que uma atenção tecnicamente correta. Precisam de humanidade. Precisam de atenção cordial”.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

Assumindo o sofrimento de todos

Pe. Johan Konings

As leituras de hoje estão interligadas por uma alusão quase imperceptível: enquanto Jó se enche de sofrimento até o anoitecer (1ª leitura), Jesus cura o sofrimento até o anoitecer (evangelho). O conjunto do evangelho mostra Jesus empenhando-se, sem se poupar, para curar os enfermos de Cafarnaum. E no dia seguinte, o poder de Deus, que ele sente agir em si, o impele para outras cidades – sem se deixar “privatizar” pelo povo de Cafarnaum. A paixão de Jesus é deixar efluir de si o poder benfazejo de Deus. Ele não pensa em si mesmo, não se protege, não se poupa. Ele assume, sem limites, o sofrimento do povo. Ele tem consciência de ser isso a sua missão: “Foi para isso que eu vim”. Ele não pode recusar a Deus esse serviço.

Nosso povo, muitas vezes, vê nas doenças e no sofrimento um castigo de Deus. Mas quando o enviado de Deus mesmo se esgota em aliviar as dores do povo, como essas doenças poderiam ser um castigo de Deus? Não serão sinal de outra coisa? Há muito sofrimento que não é castigo de quem sofre. Que é simplesmente condição humana, condição da criatura, porém, também ocasião para Deus manifestar seu amor ao ser humano. O evangelista João dirá que a doença é uma oportunidade para Deus manifestar sua glória (Jô 9,3; 11,4).

Por mais que o homem consiga dominar os problemas de saúde, não consegue excluir o sofrimento, pois esse tem outra fonte. No mais perfeito dos mundos – como o descreve um romance dos anos 1930 – no mundo sem doenças, os humanos sofrem pelo desamor, pela mútua manipulação, pela desconfiança, pela insignificância, pelo mal que o ser humano causa ao seu semelhante. Por isso, o relato bíblico do pecado atribui o sofrimento fundamentalmente ao pecado; porém, não ao pecado individual – o livro de Jó contesta com força tal atribuição (e também Jo 9,3, cf. acima) – mas ao pecado instalado na humanidade, o pecado das origens (Gn 3,15-19).

Que Jesus apaixonadamente se entrega à cura de todos os males, inclusive em outras cidades, é uma manifestação do Espírito de Deus, que está sobre Jesus, e que renova o mundo (cf. Sl 104 [103], 30). O evangelista Mateus (Mt 8,17) compreendeu isso muito bem, quando acrescentou ao texto de Mc 1,34 a citação de Is 53,4 (do Servo Sofredor): “Ele assumiu nossas dores e carregou nossas enfermidades”. Ora, se é pelo pecado do mundo que as dores se transformaram num mal que oprime a alma, logo mais Jesus terá de se revelar como aquele que perdoa o pecado (cf. 7º domingo). Também se hoje acontecem curas e outros sinais do amor apaixonado de Deus que se manifesta em Jesus Cristo, é preciso que reconheçamos nisso os sinais do Reino que Jesus vem trazer presente.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em Vídeo de Frei Gustavo Medella