Especial 800 anos da morte de São Francisco de Assis
“A imaturidade espiritual é a fixação no 'eu' que nos impede de transitar para o 'nós'”
Há oito séculos, Francisco de Assis morria… em êxtase e alegria… cantando para a Irmã Morte, numa imagem plena de integração e maturidade. Aquele jovem ambicioso e profundamente imaturo de outrora havia crescido, amadurecido, se tornado santo… não escapando ou negando suas fragilidades, mas abraçando-as.
O jovem Francisco começou fútil, ambicioso, profundamente imaturo e vazio. A imaturidade é parte da condição humana. Todos começamos a vida buscando autoafirmação, fugindo do sofrimento, querendo controlar tudo. Mas amadurecer, à luz do Evangelho, é reconhecer que a força não está nem na aparência nem no exterior, mas sim n’Aquele que se faz nossa força e na experiência pessoal com Ele.
Francisco descobriu isso quando deixou de se olhar como o centro do mundo e passou a ver Cristo no centro de tudo. Para isso, sua vida foi repleta de encontros com o Cristo pobre e pequeno: guerra, prisão, doença, crucifixo, leprosos… Ao final da vida, cego, doente, com estigmas sangrando, chama a morte de Irmã! Ser imaturo não é um defeito, é uma etapa. O problema não é ser pequeno, mas recusar-se a crescer. A espiritualidade franciscana ensina que Deus não rejeita a nossa fragilidade; Ele a assume e a transforma. Francisco descobriu isso lentamente.
Antes da conversão, vivia no supérfluo: buscava a alegria nos banquetes, a honra nas batalhas, a glória nos aplausos. Com a confiança infantil que reconhece nisso tudo valores que não estão ali. Quantas vezes ainda fazemos isso… Quando só rezamos em público, ou para grandes públicos. Ao nos avaliarmos pelos likes ou número de seguidores. Quando buscamos holofotes reais e virtuais. O conteúdo? O evangelho? Quantas vezes fica em segundo plano… precisamos impactar, chamar a atenção, ou agradar a quem nos interessa. Não reconhecer os verdadeiros valores de nossa vocação também é fruto de imaturidade e falta de doação.
Imaturidade é confundir euforia com alegria, brilho com luz, sucesso com sentido. A imaturidade espiritual não nos deixa crescer em autonomia. Ser imaturo é depender de aprovação, é cultivar o agir movido pela inveja, é centrar tudo em si, em seus desejos ou em sua forma de ver o mundo.
A verdadeira maturidade, principalmente no olhar franciscano, nasce quando deixamos de fugir das nossas feridas e passamos a encará-las com fé. Deus amadurece o coração humano não pela força, mas pela paciência, a mesma paciência com que esperou Francisco descobrir quem era e a quem pertencia.
Vivemos tempos de pressa e superficialidade. Queremos resultados imediatos, emoções rápidas, facilidades… espiritualidade sem cruz. É uma forma nova de imaturidade: a incapacidade de esperar, de escutar e de sustentar vínculos e responsabilidades. A vida fraterna, como descobriu Francisco, é a escola onde crescemos e amadurecemos. É convivendo com o limite dos outros que descobrimos o nosso próprio limite. É servindo que crescemos. A fraternidade não é lugar de perfeitos, mas de aprendizes. É uma construção.
Amadurecer é, portanto, aprender a amar concretamente: perdoar, escutar, cuidar. “Perder” tempo com o outro. A fé infantil busca milagres; a fé amadurecida confia na Graça que age silenciosamente. Maturidade espiritual não se mede por certezas, mas pela capacidade de permanecer fiel nas incertezas: quanto eu consigo permanecer fiel, confiante e prestativo, quando tudo parece dar errado? Ou quando não acontece da forma que acho ser melhor?
A imaturidade espiritual também se disfarça sob a aparência de “zelo pela lei”. O frade imaturo busca segurança não na relação com Deus, mas na obsessão por regras, normas, “rubricas” e cumprimentos formais. Seja cobrando de si ou cobrando dos outros. Jesus o denunciou nos fariseus: “Coais o mosquito e engolis o camelo” (Mt 23,24); é se apegar ao detalhe enquanto negligenciamos os “preceitos mais importantes: a justiça, a misericórdia e a fé” (Mt 23,23).
O legalismo é sintoma de insegurança e imaturidade. A pessoa que não se sente segura no amor incondicional de Deus precisa “ganhar” esse amor através de “falso zelo”. Isso cria muros de “santidade aparente” em volta de si. O frade legalista não consegue ver o outro em sua fragilidade; vê apenas a transgressão, o desvio, a falha… ou pior: vê apenas um rival. Não tem maturidade para entender a limitação do outro e a sua; há apenas a insegurança quando ainda não crescemos na vocação fraterna. Frades que não se elogiam, não se gostam nem demonstram gostar… apenas se suportam. Não cultivam compaixão, cultivam julgamento: “Esse eu não aceito para a Fraternidade”; “Aquele é difícil, não precisamos de ajuda, damos conta aqui”… Expressões que, mais do que dos outros, dizem muito de quem as profere, e mais ainda da situação da fraternidade (provincial) como um todo.
O ditado de Voltaire sobre a vida religiosa: “os religiosos se ajuntam sem se escolher, vivem sem se amar e morrem sem se prantear”, não deveria ser uma descrição tão precisa sobre nossas Fraternidades. O que podemos fazer para transformar essa realidade? Precisamos crescer juntos, amadurecer as relações com diálogo, transparência e confiança mútuas: entre nós e com aqueles que estão à frente.
O teólogo jesuíta Adroaldo Palaoro explica bem essa situação: “A imaturidade espiritual é a fixação no ‘eu’ que nos impede de transitar para o ‘nós’. O imaturo vive em torno de suas carências e feridas, incapaz de ver que a vida só ganha sentido quando é doada. Amadurecer é o processo de passar do egocentrismo à alteridade.”
Somos imaturos quando não conseguimos (ou nem nos esforçamos para) compreender o outro e perceber que, muitas vezes, o que nos incomoda no outro é reflexo de nossa limitação. Outra manifestação clara da imaturidade é a incapacidade de assumir responsabilidade pelas próprias emoções e ações. Com bem define Augusto Cury, o imaturo “é escravo das próprias emoções”; ou seja, como uma criança birrenta, não reconhece no desejo, no ciúme, na inveja, lacunas em seu próprio comportamento; apenas agride e acusa o outro.
O frade imaturo culpa sempre o outro e vive reclamando, resmungando: “Os que mandam são sempre os mesmos”; “Nunca sou ouvido”; “Alguns sempre são privilegiados”; “Não tenho espaço aqui”… Mas o faz sempre “pelos cantos”, não tem coragem suficiente para apresentar sua insatisfação nos momentos adequados: é nisso que está sua imaturidade, não no senso crítico que é necessário, mas em preferir não participar para se fazer de incompreendido. Essa mentalidade de vítima impede o diálogo genuíno. Quando confrontado com a própria falha, não reflete nem se desculpa, defensivamente ataca quem o questiona. A falta de responsabilidade emocional o torna incapaz de trabalhar em equipe.
Nossas comunidades deveriam ser espaços de fraternidade, onde cada um oferece seus dons para o bem comum. Mas o imaturo não consegue fazer isso porque está sempre em guarda, sempre testando se será “ferido” ou rejeitado. Sua baixa tolerância à crítica o faz interpretar qualquer correção fraterna como ataque pessoal. Não cultiva a escuta empática e fraterna, essencial para diálogo, porque filtra tudo através de lentes de ameaça e desconfiança. Assim, ao invés de contribuir para a construção comunitária, sabota-a constantemente. O imaturo espera que os outros “façam o trabalho duro por ele”: que resolvam conflitos que ele mesmo criou, que tomem decisões difíceis que seria responsabilidade dele. Isso coloca peso enorme sobre a comunidade.
Maturidade então, tem muito a ver com aceitação. Não com comodismo. Mas com autoconhecimento. Reconhecimento de que somos limitados, de que não damos conta de tudo. Que eu preciso do outro. E tudo bem. Nem por isso vamos “jogar a toalha” e desistir. Deus nos ama assim mesmo. Não apesar de nossas falhas, mas plenamente com elas. Amadurecer é crescer no reconhecimento desse Amor, para, então, um dia, podermos ecoar em nossa vida o mesmo Cântico do Poverello de Assis:
Louvado sejas meu Senhor, pelo irmão que discorda de mim, mas que me ensina sobre o ser fraterno;
Louvado sejas meu Senhor, pelo superior que impõe sua vontade sobre a minha, mas que ressoa cuidado e gratidão;
Louvado sejas meu Senhor, pelo confrade difícil de conviver, o chato, o moralista, o preguiçoso, que tantas vezes o espelho revela ser na verdade, eu…
Por Frei Germano Guesser