Especial 800 anos da morte de São Francisco de Assis
- Francisco de Assis: juventude, sonhos e conversão
- “A imaturidade espiritual é a fixação no 'eu' que nos impede de transitar para o 'nós'”
Francisco de Assis: juventude, sonhos e conversão
Quando nos preparamos para celebrar os oitocentos anos do nascimento de Francisco de Assis, muitas vezes, somos levados a refletir sobre a figura do santo ao final de sua jornada e corremos o risco de não recordar que a santidade de Francisco de Assis é fruto de um longo percurso onde a busca por um sentido maior para sua existência percorreu caminhos onde os conflitos e as incertezas fizeram parte do percurso. Aos tomarmos contato com os biógrafos de Francisco é possível perceber isso de maneira explicita ou de forma implícita. Ao longo de sua vida, Francisco passou por uma transformação radical, que teve início em sua juventude, período repleto de sonhos e conflitos internos. Ao examinar a juventude de Francisco, podemos compreender melhor os fatores que contribuíram para sua conversão espiritual e, subsequentemente, para sua influência duradoura na Igreja e na sociedade.
Sua vida, inicialmente, foi marcada por excessos e ambições terrenas, até que iniciasse o seu processo de conversão a uma vida de humildade e espiritualidade. É justamente no contexto deste processo que os sonhos e as experiências de Francisco moldaram sua identidade, culminando com o seu trânsito (1226) e sua canonização em 1228. Francisco tornou-se assim, uma figura central na tradição cristã, reverenciado não apenas por sua vida de pobreza, mas também pela sua profunda conexão com a natureza e sua ênfase na fraternidade universal.
A Juventude de Francisco: Sonhos e Ambições
Nascido em 1181, em Assis, na Úmbria, Francisco era filho de um próspero comerciante de tecidos. Crescendo em um ambiente de abundância, desde cedo alimentou sonhos de glória, desejando se tornar cavaleiro e conquistar prestígio. Suas experiências de vida na juventude foram marcadas pela busca incessante por reconhecimento e status, refletindo o espírito de um jovem inteiramente imerso nas normas sociais de sua época e, muito provavelmente, sob uma forte influência paterna (1Cel 1).
Francisco envolveu-se em atividades típicas de um jovem rico de sua época, incluindo festividades e batalhas. Sua participação em uma campanha militar contra Perugia, em 1202, representa um ponto crítico em sua trajetória. Capturado e aprisionado por quase um ano, essa experiência vai além da dor e do sofrimento; ela se torna um catalisador para uma autoavaliação profunda sobre suas verdadeiras aspirações e o sentido da vida (1Cel 3).

Alguns aspectos da realidade cultural e social de Francisco de Assis
Diversos elementos culturais da época medieval influenciaram a juventude de Francisco em seus sonhos e ambições. Esses elementos culturais, combinados com suas experiências pessoais, formaram a base da juventude de Francisco e, subsequentemente, seu processo de conversão e busca por um significado mais profundo na vida. Esses elementos incluem:
- Estrutura Social e Econômica: A sociedade medieval era amplamente hierárquica e feudal, onde o status social estava intimamente ligado à riqueza e à propriedade. Francisco, como filho de um comerciante próspero, foi exposto a um estilo de vida que valorizava o poder econômico e a conquista de prestígio social. Isso o levou a sonhar com fama e glórias associadas à nobreza e ao espírito de cavalaria.
- Cavalheirismo: A cultura cavalheiresca foi um forte influenciador na juventude de Francisco. Cortesia, honra e bravura eram ideais elevados para os jovens da época. O desejo de se tornar um cavaleiro e lutar em batalhas ilustres refletia a aspiração por um ideal de heroísmo e prestígio, que estava profundamente enraizado na literatura e nas tradições orais da época.
- Religião e Espiritualidade: A Igreja tinha um papel central na vida cotidiana das pessoas. Movimentos religiosos, com elevados ideais de ascética e misticismo, estavam ganhando popularidade, criando um ambiente de crescente exploração espiritual. Francisco foi influenciado por essa busca espiritual, que fluía por baixo das normas sociais que frequentemente valorizavam as riquezas materiais.
- Conflitos e Inseguranças: O ambiente político da época era marcado por guerras e conflitos, como as lutas entre cidades da península itálica. As Cruzadas também era outro elemento que impactava a mentalidade jovem. Esses conflitos criaram um senso de incerteza e a necessidade de uma identificação com causas maiores, o que pode ter influenciado os sonhos de Francisco de se tornar um herói por meio do combate.
- Arte e Literatura: As narrativas de aventuras e heroísmo, comuns nas obras literárias da época, também moldavam os sonhos de jovens como Francisco. Livros de cavalaria e epopeias influenciavam a visão de um mundo repleto de aventuras e conquistas, fomentando uma imaginação romântica sobre o que significava ser um herói.
- Cultura Popular: Festividades, músicas e danças que celebravam a vida e os prazeres eram comuns em sua juventude, contribuindo para a atmosfera de festa em que Francisco foi criado. Esse ambiente festivo influenciou suas ambições de uma vida repleta de alegria e socialização.
Conflitos Internos e Abertura para a Conversão
O retorno de Francisco a Assis após a guerra não trouxe a satisfação esperada. Em vez disso, ele começou a sentir um vazio existencial em relação à sua vida anterior. Tal realidade o levou a um processo de redescoberta e reflexão. Em um contexto cultural de crescente espiritualidade, marcado por uma Igreja que enfrentava desafios internos e externos, Francisco se viu atraído por uma busca por valores mais autênticos (1Cel 6).
Suas primeiras experiências místicas ocorreram em um momento de crise pessoal, levando-o a se isolar em eremitérios e capelas. A mais significativa delas foi em São Damião, onde, segundo relatos, ele ouviu a voz de Cristo chamando-o para reparar Sua Igreja (LM 2, 1). Esta revelação não apenas selou seu destino, mas também encapsulou a essência de seu novo propósito: uma vida de serviço e simplicidade.

A Conversão: Da Riqueza Material à Pobreza Evangélica
A conversão de Francisco não se limitou a uma transformação pessoal; ela se tornou um movimento espiritual que reverberou por toda a Europa. Abandonando suas riquezas e bens materiais, decidiu adotar a pobreza radical como um ideal de vida. Tal decisão, embora ousada, estava alinhada com os ensinamentos cristãos sobre a simplicidade e o amor ao próximo.
O surgimento da Ordem dos Frades Menores, fundada em 1209, simboliza o impacto de sua conversão. A ordem enfatizava a fraternidade, a humildade e um compromisso com a paz, desafiando as instituições e práticas da época. O estilo de vida franciscano propagava uma mensagem de esperança e compaixão, particularmente em um momento em que a sociedade lidava com divisões sociais, desigualdades e fundamentalismos.
A juventude de São Francisco de Assis, marcada por sonhos e ambições, o levou a um processo profundo de conversão que alterou não apenas sua vida, mas também a de inúmeros homens e mulheres ao longo dos séculos. Sua trajetória é um testemunho da capacidade humana de transformação e autodescoberta. À medida que nos aproximamos do 800º aniversário de sua morte, revisitar a juventude de Francisco nos permite compreender as raízes de sua espiritualidade e a profundidade de seu legado. Explorar as diversas facetas da vida e da influência de Francisco de Assis, confirma sua relevância contínua no mundo contemporâneo. Entretanto, resta nos um questionamento: como um jovem que viveu séculos atrás em um mundo cheio de guerras, violência, fundamentalismos e divisões conseguiu se tornar um anunciador da paz e do bem, da justiça e da união, do respeito pela natureza e pela fraternidade universal? Talvez, a beleza de tudo isso não se encontre numa resposta especifica, mas no indagar-se continuamente como fez Francisco ao suplicar ao Senhor: “Onipotente, eterno, justo e misericordioso Deus, dai-nos a nós míseros, por causa de vós fazer o que sabemos que quereis e sempre querer o que vos agrada, para que, interiormente purificados, interiormente iluminados e abrasados pelo fogo do Santo Espírito, possamos seguir os passos de vosso dileto filho Jesus Cristo e unicamente por vossa graça, chegar até vós, ó Altíssimo, que em Trindade perfeita e unidade simples viveis e reinais e sois glorificado como Deus onipotente por todos os séculos. Amém.” (Ord 50-52)
Siglas e abreviações
1Cel – Primeira Vida, de Tomás de Celano
LM – Legenda Maior, de São Boaventura.
Ord – Carta a toda a Ordem, de São Francisco
Referências bibliográficas
BARTOLI, Marco. La nudità di Francesco: riflessioni storiche sulla spogliazione de Povero di Assisi. EBF. Milão. 2019.
Boaventura de Bagnoregio, Legenda Maior. In: Fontes Franciscana e Clarianas. Editora Vozes/FFB. Petrópolis. 2023.
CONTI, Martino. Estudos e pesquisas sobre o franciscanismo das origens, Editora Vozes/FFB, Petrópolis, 2004.
Francisco de Assis. Carta a toda a Ordem. In: Fontes Franciscana e Clarianas. Editora Vozes/FFB. Petrópolis. 2023.
Tomás de Celano. Primeira Vida. In: Fontes Franciscana e Clarianas. Editora Vozes/FFB. Petrópolis. 2023.
Frei José Antonio dos Santos
“A imaturidade espiritual é a fixação no 'eu' que nos impede de transitar para o 'nós'”
Há oito séculos, Francisco de Assis morria… em êxtase e alegria… cantando para a Irmã Morte, numa imagem plena de integração e maturidade. Aquele jovem ambicioso e profundamente imaturo de outrora havia crescido, amadurecido, se tornado santo… não escapando ou negando suas fragilidades, mas abraçando-as.
O jovem Francisco começou fútil, ambicioso, profundamente imaturo e vazio. A imaturidade é parte da condição humana. Todos começamos a vida buscando autoafirmação, fugindo do sofrimento, querendo controlar tudo. Mas amadurecer, à luz do Evangelho, é reconhecer que a força não está nem na aparência nem no exterior, mas sim n’Aquele que se faz nossa força e na experiência pessoal com Ele.
Francisco descobriu isso quando deixou de se olhar como o centro do mundo e passou a ver Cristo no centro de tudo. Para isso, sua vida foi repleta de encontros com o Cristo pobre e pequeno: guerra, prisão, doença, crucifixo, leprosos… Ao final da vida, cego, doente, com estigmas sangrando, chama a morte de Irmã! Ser imaturo não é um defeito, é uma etapa. O problema não é ser pequeno, mas recusar-se a crescer. A espiritualidade franciscana ensina que Deus não rejeita a nossa fragilidade; Ele a assume e a transforma. Francisco descobriu isso lentamente.
Antes da conversão, vivia no supérfluo: buscava a alegria nos banquetes, a honra nas batalhas, a glória nos aplausos. Com a confiança infantil que reconhece nisso tudo valores que não estão ali. Quantas vezes ainda fazemos isso… Quando só rezamos em público, ou para grandes públicos. Ao nos avaliarmos pelos likes ou número de seguidores. Quando buscamos holofotes reais e virtuais. O conteúdo? O evangelho? Quantas vezes fica em segundo plano… precisamos impactar, chamar a atenção, ou agradar a quem nos interessa. Não reconhecer os verdadeiros valores de nossa vocação também é fruto de imaturidade e falta de doação.
Imaturidade é confundir euforia com alegria, brilho com luz, sucesso com sentido. A imaturidade espiritual não nos deixa crescer em autonomia. Ser imaturo é depender de aprovação, é cultivar o agir movido pela inveja, é centrar tudo em si, em seus desejos ou em sua forma de ver o mundo.
A verdadeira maturidade, principalmente no olhar franciscano, nasce quando deixamos de fugir das nossas feridas e passamos a encará-las com fé. Deus amadurece o coração humano não pela força, mas pela paciência, a mesma paciência com que esperou Francisco descobrir quem era e a quem pertencia.
Vivemos tempos de pressa e superficialidade. Queremos resultados imediatos, emoções rápidas, facilidades… espiritualidade sem cruz. É uma forma nova de imaturidade: a incapacidade de esperar, de escutar e de sustentar vínculos e responsabilidades. A vida fraterna, como descobriu Francisco, é a escola onde crescemos e amadurecemos. É convivendo com o limite dos outros que descobrimos o nosso próprio limite. É servindo que crescemos. A fraternidade não é lugar de perfeitos, mas de aprendizes. É uma construção.
Amadurecer é, portanto, aprender a amar concretamente: perdoar, escutar, cuidar. “Perder” tempo com o outro. A fé infantil busca milagres; a fé amadurecida confia na Graça que age silenciosamente. Maturidade espiritual não se mede por certezas, mas pela capacidade de permanecer fiel nas incertezas: quanto eu consigo permanecer fiel, confiante e prestativo, quando tudo parece dar errado? Ou quando não acontece da forma que acho ser melhor?
A imaturidade espiritual também se disfarça sob a aparência de “zelo pela lei”. O frade imaturo busca segurança não na relação com Deus, mas na obsessão por regras, normas, “rubricas” e cumprimentos formais. Seja cobrando de si ou cobrando dos outros. Jesus o denunciou nos fariseus: “Coais o mosquito e engolis o camelo” (Mt 23,24); é se apegar ao detalhe enquanto negligenciamos os “preceitos mais importantes: a justiça, a misericórdia e a fé” (Mt 23,23).
O legalismo é sintoma de insegurança e imaturidade. A pessoa que não se sente segura no amor incondicional de Deus precisa “ganhar” esse amor através de “falso zelo”. Isso cria muros de “santidade aparente” em volta de si. O frade legalista não consegue ver o outro em sua fragilidade; vê apenas a transgressão, o desvio, a falha… ou pior: vê apenas um rival. Não tem maturidade para entender a limitação do outro e a sua; há apenas a insegurança quando ainda não crescemos na vocação fraterna. Frades que não se elogiam, não se gostam nem demonstram gostar… apenas se suportam. Não cultivam compaixão, cultivam julgamento: “Esse eu não aceito para a Fraternidade”; “Aquele é difícil, não precisamos de ajuda, damos conta aqui”… Expressões que, mais do que dos outros, dizem muito de quem as profere, e mais ainda da situação da fraternidade (provincial) como um todo.
O ditado de Voltaire sobre a vida religiosa: “os religiosos se ajuntam sem se escolher, vivem sem se amar e morrem sem se prantear”, não deveria ser uma descrição tão precisa sobre nossas Fraternidades. O que podemos fazer para transformar essa realidade? Precisamos crescer juntos, amadurecer as relações com diálogo, transparência e confiança mútuas: entre nós e com aqueles que estão à frente.
O teólogo jesuíta Adroaldo Palaoro explica bem essa situação: “A imaturidade espiritual é a fixação no ‘eu’ que nos impede de transitar para o ‘nós’. O imaturo vive em torno de suas carências e feridas, incapaz de ver que a vida só ganha sentido quando é doada. Amadurecer é o processo de passar do egocentrismo à alteridade.”
Somos imaturos quando não conseguimos (ou nem nos esforçamos para) compreender o outro e perceber que, muitas vezes, o que nos incomoda no outro é reflexo de nossa limitação. Outra manifestação clara da imaturidade é a incapacidade de assumir responsabilidade pelas próprias emoções e ações. Com bem define Augusto Cury, o imaturo “é escravo das próprias emoções”; ou seja, como uma criança birrenta, não reconhece no desejo, no ciúme, na inveja, lacunas em seu próprio comportamento; apenas agride e acusa o outro.
O frade imaturo culpa sempre o outro e vive reclamando, resmungando: “Os que mandam são sempre os mesmos”; “Nunca sou ouvido”; “Alguns sempre são privilegiados”; “Não tenho espaço aqui”… Mas o faz sempre “pelos cantos”, não tem coragem suficiente para apresentar sua insatisfação nos momentos adequados: é nisso que está sua imaturidade, não no senso crítico que é necessário, mas em preferir não participar para se fazer de incompreendido. Essa mentalidade de vítima impede o diálogo genuíno. Quando confrontado com a própria falha, não reflete nem se desculpa, defensivamente ataca quem o questiona. A falta de responsabilidade emocional o torna incapaz de trabalhar em equipe.
Nossas comunidades deveriam ser espaços de fraternidade, onde cada um oferece seus dons para o bem comum. Mas o imaturo não consegue fazer isso porque está sempre em guarda, sempre testando se será “ferido” ou rejeitado. Sua baixa tolerância à crítica o faz interpretar qualquer correção fraterna como ataque pessoal. Não cultiva a escuta empática e fraterna, essencial para diálogo, porque filtra tudo através de lentes de ameaça e desconfiança. Assim, ao invés de contribuir para a construção comunitária, sabota-a constantemente. O imaturo espera que os outros “façam o trabalho duro por ele”: que resolvam conflitos que ele mesmo criou, que tomem decisões difíceis que seria responsabilidade dele. Isso coloca peso enorme sobre a comunidade.
Maturidade então, tem muito a ver com aceitação. Não com comodismo. Mas com autoconhecimento. Reconhecimento de que somos limitados, de que não damos conta de tudo. Que eu preciso do outro. E tudo bem. Nem por isso vamos “jogar a toalha” e desistir. Deus nos ama assim mesmo. Não apesar de nossas falhas, mas plenamente com elas. Amadurecer é crescer no reconhecimento desse Amor, para, então, um dia, podermos ecoar em nossa vida o mesmo Cântico do Poverello de Assis:
Louvado sejas meu Senhor, pelo irmão que discorda de mim, mas que me ensina sobre o ser fraterno;
Louvado sejas meu Senhor, pelo superior que impõe sua vontade sobre a minha, mas que ressoa cuidado e gratidão;
Louvado sejas meu Senhor, pelo confrade difícil de conviver, o chato, o moralista, o preguiçoso, que tantas vezes o espelho revela ser na verdade, eu…
Por Frei Germano Guesser