Especial 800 anos da morte de São Francisco de Assis
- Na morte, a plenitude de uma fé reta, uma esperança certa e uma caridade perfeita
- “A imaturidade espiritual é a fixação no 'eu' que nos impede de transitar para o 'nós'”
- Francisco de Assis: juventude, sonhos e conversão
- Primeiros companheiros e desenvolvimento da Ordem
- O conceito de pecado na ótica de Francisco
Na morte, a plenitude de uma fé reta, uma esperança certa e uma caridade perfeita
A celebração dos jubileus franciscanos nos últimos anos tem-nos proporcionado um tempo favorável para recordar os momentos iniciais do carisma, vividos há 800 anos. Além disso, a celebração tem-nos levado a reafirmar a atualidade deste carisma, por ser uma resposta às principais necessidades de nossos dias: o cuidado com a Criação e a fraternidade universal.
Na celebração dos jubileus franciscanos, somos levados a recordar ao mundo que neste carisma jubilar encontram-se os fundamentos capazes de pôr fim às guerras, à violência, às políticas contra os imigrantes, a todo tipo de exclusão e à destruição da Criação. Quem sabe, a celebração dos jubileus nos conduza, ainda mais, à certeza de que este carisma pertence a Deus, foi-nos dado por Ele e através de nós, deseja chegar a todos os homens e mulheres e, por meio da fraternidade com eles, a toda a Criação.
Assim, a celebração destes jubileus não se resume a um simples olhar para o passado. Ela é também o reconhecimento de que, nos fatos vividos pelo Seráfico Pai Francisco e seus primeiros companheiros, se manifestou a ação do Espírito que perdurou por todo este tempo e continua, nesses nossos dias, por meio de nós, chegando a todos os destinatários a quem este mesmo Espírito quer chegar.
Neste ano, a celebração dos jubileus fez com que nos voltássemos à recordação dos oitocentos anos da morte de São Francisco de Assis, celebrada não como fim, mas como a nova vida que brotou com a sua morte, pela participação de Francisco na Vida Eterna e pela vida revigorada de todos aqueles que, ouvindo a voz do Espírito, o acolheram e se tornaram participantes deste carisma. Com a morte de Francisco, cumpre-se novamente a palavra do Senhor: “se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só, mas se morrer, dá muito fruto” (Jo 12,24).

É evidente que a morte de Francisco é um marco para todo o carisma que, no Pobrezinho de Assis, encontra a sua referência. Em sua morte, celebramos a chegada da esperança de Francisco “cheia de imortalidade” (Sb 3,4), ele que, também nesta hora, testemunhou a todos nós que “a vida dos justos está nas mãos de Deus” (Sb 3,1).
Por outro lado, por maior que seja a certeza desta imortalidade que alcança a sua plenitude na participação da Ressurreição de Cristo (Rm 6,3-9), não se afasta de nós, diante da experiência da morte, até mesmo no caso de Francisco, o estigma de um aparente fracasso humano.
Em todo caso, não se pode negar que, por maiores que possam ser essas experiências humanas de fracasso da vida diante da morte, a experiência da morte não se reduz à diminuição das forças humanas até o último suspiro. A vida tem a capacidade de olhar para além da morte, não por uma mera necessidade para minimizar os sofrimentos humanos diante do seu possível fim aqui na terra, mas porque há uma experiência que transcende a morte, celebrada na esperança, garantida pela fé e que nos é ofertada pela Morte e Ressurreição do Senhor.
A morte, por sua vez, é um marco para todos nós. Será nela, quando a segurança deste mundo perde seu sentido e quando de mais nada poderemos gloriar-nos neste mundo a não ser de nossas fraquezas (Ad 5), é que poderemos nos deparar mais intensamente com determinadas realidades, como a falta de fé e a desesperança, que até então poderíamos ter colocado entre aquelas realidades que, como descreveu Dostoiévski nas Memórias do subsolo, “confessamos somente a nós mesmos, e isso em segredo”, ou, quem sabe, entre aquelas realidades “que nem a nós mesmos confessamos”.

O homem, sua falta de fé e sua desesperança
Cada ser humano, certamente, é uma vida que não permite ser generalizada. Mas isso não nos impede de imaginarmos que o momento mais decisivo de prova da fé e da esperança poderá ser o momento em que cada um de nós estiver diante da sua própria e única experiência de morte.
Será neste momento que todas as realidades que até então poderiam trazer segurança deixarão de ter sentido, e nos depararemos com o terreno propício que favorece que a tentação da dúvida recaia com todas as suas forças sobre a fé e a esperança. Será aqui que teremos de responder qual é a largura, o comprimento, a altura e a profundidade da fé e da esperança de cada um de nós. Se as temos, ou se nos entregaremos a uma profunda crise de fé e desesperança.
A crise de fé, como incapacidade de depositar em Deus a nossa última confiança, leva à desesperança. Não distante de nós, esta crise é incentivada pelas propagandas que nos levam a acreditar ser possível ter esperança naquilo que é passageiro, mas que não nos dá a garantia de sua presença e eficácia no momento em que mais precisaremos, na hora de nossa despedida deste mundo.
Além disso, a crise de fé e, por consequência, a desesperança, é resultado de uma busca individualista de Deus, que não pressupõe que outros caminhem comigo, o que acaba levando a depositar a fé não em Deus, mas num deus criado às minhas necessidades. Nesta experiência não se ouve a ninguém, nem a maneira como Deus se manifesta hoje ou se manifestou na história passada, não permitindo que a experiência de Deus realizada por outros possa purificar-me das minhas idolatrias, o que acaba por impedir que eu possa ver o verdadeiro rosto de Deus.
Uma experiência que não leva em consideração a manifestação de Deus em toda a história da sua Criação e da Salvação e que fixa o seu olhar num deus que se cria e que deve ser tudo aquilo que se quer, nos leva, por consequência, à desesperança. Isso se dá porque esta postura impede de reconhecer Deus na história passada e a sua presença no presente, impedindo de se ter a esperança da sua presença no futuro, inclusive no momento da experiência da morte, que será vivida na desesperança de Sua presença.
Por fim, a busca individualista por Deus reduzirá e apagará a nossa capacidade de reconhecer o sopro da vida que recebemos d’Ele, nos levando ao medo de Lhe devolver o nosso último respiro, pois estaremos marcados pela desesperança por não termos sido capazes de recordar que, no deserto, o Senhor “achou o seu povo, num lugar de solidão desoladora; cercou-o de cuidados e carinhos e o guardou como a pupila de seus olhos” (Dt 32,10).

Francisco de Assis e a superação da crise de fé e desesperança
Como itinerário para a superação da crise de fé e da desesperança, é possível encontrar na vida de São Francisco de Assis, descrita em suas biografias e indicada em seus escritos, um testemunho de quem, após sua conversão e desejo de seguir o Senhor, com os irmãos, encontrou aquilo que pedira em sua oração diante do Crucifixo de São Damião: “Altíssimo, glorioso Deus, iluminai as trevas do meu coração, dai-me uma fé reta, uma esperança certa e caridade perfeita”. Por isso, afirma Marino (1995): “certamente, para Francisco, Deus é o seu grande absoluto. Referindo-se a Ele em seus Louvores (4,7), assim diz: ‘Tu és a nossa esperança’. E essa esperança o converteu no peregrino do amor infinito, no testemunho vivente d’Aquele de lá e no irmão universal daqueles daqui”.
E é neste irmão universal que encontramos um modelo de como é possível superar a falta de fé e a desesperança. Assim narra Celano (1Cel 8,110): “no fim, mandou que lhe trouxessem o livro dos Evangelhos e pediu que lessem o Evangelho de São João (…). Juntaram-se muitos irmãos, de quem ele era o pai e guia, e ali estavam com reverência esperando o fim ditoso e bem-aventurado. Sua alma santíssima desprendeu-se da carne e, quando foi absorvida pelo abismo da claridade, seu corpo adormeceu no Senhor”. Ao celebrar a sua paixão, Francisco de Assis, rodeado pelos seus irmãos, volta-se, novamente, confiante, ao Evangelho para, por meio deles — Evangelho e irmãos —, chegar ao Senhor de sua vida.
Deparamo-nos aqui com a experiência do homem de fé e esperança, que, diante do “fracasso” do seu corpo, não olha somente para si, ou para um fim que poderia ser considerado com a chegada da sua morte, mas é capaz de recordar, por meio do Evangelho e da presença dos irmãos que lhe foram dados pelo Senhor (Test 14), a manifestação de Deus em toda a história da Salvação. Por isso, “esperar, em chave franciscana, não é somente confiar em Deus e na história da salvação, mas significa também dar crédito à realidade (…). Para Francisco, a virtude da esperança era certamente um esperar em Deus e na sua promessa, mas era também um esperar nos outros, com os outros e pelos outros” (Marino, 1995).
O olhar de Francisco para o passado, reconhecendo Deus presente na história e de modo ainda mais pleno em Jesus Cristo (Evangelho), o levou a reconhecer-se, com seus irmãos, parte desta história. Por isso, aí também, no momento de sua morte, poderia reafirmar a sua fé naquele que é o Deus vivo e verdadeiro que, na plenitude dos tempos, enviou o seu Filho. Enquanto a fé colocava Francisco a caminho da terra prometida, a esperança o enchia de vigor com a presença de seus irmãos, inclusive neste momento dramático de sua morte.
Francisco não ouve individualmente, na hora da sua morte, o Evangelho, mas junto com aqueles que lhe foram dados pelo próprio Senhor. A fraternidade torna-se aqui a expressão da fé verdadeira que Francisco teve em sua vida, não apenas crendo naquilo que poderia experimentar sozinho, mas reconhecendo e discernindo com seus irmãos a manifestação de Deus em toda a história e também agora aqui, ainda mais plenamente, quando suas forças humanas o querem deixar. Francisco celebra a fraqueza de sua vida diante das duas realidades que o levam a viver a plenitude da sua fé e da sua esperança: a Palavra de Deus (Evangelho) e a presença dos irmãos.
Fazer memória da história da Salvação (Evangelho) permitiu a Francisco reconhecer a manifestação de Deus em sua história pessoal, levando-o à plena esperança de que Deus não o abandonaria. Os irmãos presentes o ajudam a purificar a sua fé e esperança também neste momento, não deixando que o medo da morte o tome, mas o fazem recebê-la como uma Irmã entre os irmãos. É aqui que Francisco dá a sua resposta de fé: “Eu me apresso em ir para Deus, a cuja graça recomendo-vos todos” (2Cel 216).
Diante da Palavra de Deus, de seus irmãos e da Irmã Morte, Francisco devolve à Criação o seu último respiro que chega ao Criador. Já não havia mais nada do que temer. Já não havia mais nenhum sofrimento que poderia lhe causar incertezas na sua fé ou levá-lo, pela falta de fé, à desesperança. Escutando a Palavra de Deus que o leva a celebrar a sua participação na história da Salvação e, diante dos irmãos que lhe foram dados pelo Senhor, Francisco torna-se ainda mais livre de si, o grão deitado na terra que morre para si para não ficar só e permite que aquilo que o Senhor lhe inspirou, e que o tornou marco inicial de um carisma, reafirmasse o seu vigor, capaz de mover homens e mulheres até chegarem a oitocentos anos deste momento em que, com fé e esperança, Francisco entregou o seu último respiro ao Criador.
Hoje, somos nós as testemunhas e futuros participantes da Ressurreição que, por meio do carisma, não guardam para si a fé e a esperança nesta realidade, mas as partilham com todos por meio daquilo que mais pode nos identificar como participantes deste carisma: a caridade fraterna.
Referências:
Dostoiévski, Fiódor: Memórias do Subsolo, Editora 34, 2015.
Marino, José Antônio, In: Dicionário Franciscano, Esperança, Editora Padova, 1995
Frei Robson Luiz Scudela
“A imaturidade espiritual é a fixação no 'eu' que nos impede de transitar para o 'nós'”
Há oito séculos, Francisco de Assis morria… em êxtase e alegria… cantando para a Irmã Morte, numa imagem plena de integração e maturidade. Aquele jovem ambicioso e profundamente imaturo de outrora havia crescido, amadurecido, se tornado santo… não escapando ou negando suas fragilidades, mas abraçando-as.
O jovem Francisco começou fútil, ambicioso, profundamente imaturo e vazio. A imaturidade é parte da condição humana. Todos começamos a vida buscando autoafirmação, fugindo do sofrimento, querendo controlar tudo. Mas amadurecer, à luz do Evangelho, é reconhecer que a força não está nem na aparência nem no exterior, mas sim n’Aquele que se faz nossa força e na experiência pessoal com Ele.
Francisco descobriu isso quando deixou de se olhar como o centro do mundo e passou a ver Cristo no centro de tudo. Para isso, sua vida foi repleta de encontros com o Cristo pobre e pequeno: guerra, prisão, doença, crucifixo, leprosos… Ao final da vida, cego, doente, com estigmas sangrando, chama a morte de Irmã! Ser imaturo não é um defeito, é uma etapa. O problema não é ser pequeno, mas recusar-se a crescer. A espiritualidade franciscana ensina que Deus não rejeita a nossa fragilidade; Ele a assume e a transforma. Francisco descobriu isso lentamente.
Antes da conversão, vivia no supérfluo: buscava a alegria nos banquetes, a honra nas batalhas, a glória nos aplausos. Com a confiança infantil que reconhece nisso tudo valores que não estão ali. Quantas vezes ainda fazemos isso… Quando só rezamos em público, ou para grandes públicos. Ao nos avaliarmos pelos likes ou número de seguidores. Quando buscamos holofotes reais e virtuais. O conteúdo? O evangelho? Quantas vezes fica em segundo plano… precisamos impactar, chamar a atenção, ou agradar a quem nos interessa. Não reconhecer os verdadeiros valores de nossa vocação também é fruto de imaturidade e falta de doação.
Imaturidade é confundir euforia com alegria, brilho com luz, sucesso com sentido. A imaturidade espiritual não nos deixa crescer em autonomia. Ser imaturo é depender de aprovação, é cultivar o agir movido pela inveja, é centrar tudo em si, em seus desejos ou em sua forma de ver o mundo.
A verdadeira maturidade, principalmente no olhar franciscano, nasce quando deixamos de fugir das nossas feridas e passamos a encará-las com fé. Deus amadurece o coração humano não pela força, mas pela paciência, a mesma paciência com que esperou Francisco descobrir quem era e a quem pertencia.
Vivemos tempos de pressa e superficialidade. Queremos resultados imediatos, emoções rápidas, facilidades… espiritualidade sem cruz. É uma forma nova de imaturidade: a incapacidade de esperar, de escutar e de sustentar vínculos e responsabilidades. A vida fraterna, como descobriu Francisco, é a escola onde crescemos e amadurecemos. É convivendo com o limite dos outros que descobrimos o nosso próprio limite. É servindo que crescemos. A fraternidade não é lugar de perfeitos, mas de aprendizes. É uma construção.
Amadurecer é, portanto, aprender a amar concretamente: perdoar, escutar, cuidar. “Perder” tempo com o outro. A fé infantil busca milagres; a fé amadurecida confia na Graça que age silenciosamente. Maturidade espiritual não se mede por certezas, mas pela capacidade de permanecer fiel nas incertezas: quanto eu consigo permanecer fiel, confiante e prestativo, quando tudo parece dar errado? Ou quando não acontece da forma que acho ser melhor?
A imaturidade espiritual também se disfarça sob a aparência de “zelo pela lei”. O frade imaturo busca segurança não na relação com Deus, mas na obsessão por regras, normas, “rubricas” e cumprimentos formais. Seja cobrando de si ou cobrando dos outros. Jesus o denunciou nos fariseus: “Coais o mosquito e engolis o camelo” (Mt 23,24); é se apegar ao detalhe enquanto negligenciamos os “preceitos mais importantes: a justiça, a misericórdia e a fé” (Mt 23,23).
O legalismo é sintoma de insegurança e imaturidade. A pessoa que não se sente segura no amor incondicional de Deus precisa “ganhar” esse amor através de “falso zelo”. Isso cria muros de “santidade aparente” em volta de si. O frade legalista não consegue ver o outro em sua fragilidade; vê apenas a transgressão, o desvio, a falha… ou pior: vê apenas um rival. Não tem maturidade para entender a limitação do outro e a sua; há apenas a insegurança quando ainda não crescemos na vocação fraterna. Frades que não se elogiam, não se gostam nem demonstram gostar… apenas se suportam. Não cultivam compaixão, cultivam julgamento: “Esse eu não aceito para a Fraternidade”; “Aquele é difícil, não precisamos de ajuda, damos conta aqui”… Expressões que, mais do que dos outros, dizem muito de quem as profere, e mais ainda da situação da fraternidade (provincial) como um todo.
O ditado de Voltaire sobre a vida religiosa: “os religiosos se ajuntam sem se escolher, vivem sem se amar e morrem sem se prantear”, não deveria ser uma descrição tão precisa sobre nossas Fraternidades. O que podemos fazer para transformar essa realidade? Precisamos crescer juntos, amadurecer as relações com diálogo, transparência e confiança mútuas: entre nós e com aqueles que estão à frente.
O teólogo jesuíta Adroaldo Palaoro explica bem essa situação: “A imaturidade espiritual é a fixação no ‘eu’ que nos impede de transitar para o ‘nós’. O imaturo vive em torno de suas carências e feridas, incapaz de ver que a vida só ganha sentido quando é doada. Amadurecer é o processo de passar do egocentrismo à alteridade.”
Somos imaturos quando não conseguimos (ou nem nos esforçamos para) compreender o outro e perceber que, muitas vezes, o que nos incomoda no outro é reflexo de nossa limitação. Outra manifestação clara da imaturidade é a incapacidade de assumir responsabilidade pelas próprias emoções e ações. Com bem define Augusto Cury, o imaturo “é escravo das próprias emoções”; ou seja, como uma criança birrenta, não reconhece no desejo, no ciúme, na inveja, lacunas em seu próprio comportamento; apenas agride e acusa o outro.
O frade imaturo culpa sempre o outro e vive reclamando, resmungando: “Os que mandam são sempre os mesmos”; “Nunca sou ouvido”; “Alguns sempre são privilegiados”; “Não tenho espaço aqui”… Mas o faz sempre “pelos cantos”, não tem coragem suficiente para apresentar sua insatisfação nos momentos adequados: é nisso que está sua imaturidade, não no senso crítico que é necessário, mas em preferir não participar para se fazer de incompreendido. Essa mentalidade de vítima impede o diálogo genuíno. Quando confrontado com a própria falha, não reflete nem se desculpa, defensivamente ataca quem o questiona. A falta de responsabilidade emocional o torna incapaz de trabalhar em equipe.
Nossas comunidades deveriam ser espaços de fraternidade, onde cada um oferece seus dons para o bem comum. Mas o imaturo não consegue fazer isso porque está sempre em guarda, sempre testando se será “ferido” ou rejeitado. Sua baixa tolerância à crítica o faz interpretar qualquer correção fraterna como ataque pessoal. Não cultiva a escuta empática e fraterna, essencial para diálogo, porque filtra tudo através de lentes de ameaça e desconfiança. Assim, ao invés de contribuir para a construção comunitária, sabota-a constantemente. O imaturo espera que os outros “façam o trabalho duro por ele”: que resolvam conflitos que ele mesmo criou, que tomem decisões difíceis que seria responsabilidade dele. Isso coloca peso enorme sobre a comunidade.
Maturidade então, tem muito a ver com aceitação. Não com comodismo. Mas com autoconhecimento. Reconhecimento de que somos limitados, de que não damos conta de tudo. Que eu preciso do outro. E tudo bem. Nem por isso vamos “jogar a toalha” e desistir. Deus nos ama assim mesmo. Não apesar de nossas falhas, mas plenamente com elas. Amadurecer é crescer no reconhecimento desse Amor, para, então, um dia, podermos ecoar em nossa vida o mesmo Cântico do Poverello de Assis:
Louvado sejas meu Senhor, pelo irmão que discorda de mim, mas que me ensina sobre o ser fraterno;
Louvado sejas meu Senhor, pelo superior que impõe sua vontade sobre a minha, mas que ressoa cuidado e gratidão;
Louvado sejas meu Senhor, pelo confrade difícil de conviver, o chato, o moralista, o preguiçoso, que tantas vezes o espelho revela ser na verdade, eu…
Frei Germano Guesser
Francisco de Assis: juventude, sonhos e conversão
Quando nos preparamos para celebrar os oitocentos anos do nascimento de Francisco de Assis, muitas vezes, somos levados a refletir sobre a figura do santo ao final de sua jornada e corremos o risco de não recordar que a santidade de Francisco de Assis é fruto de um longo percurso onde a busca por um sentido maior para sua existência percorreu caminhos onde os conflitos e as incertezas fizeram parte do percurso. Aos tomarmos contato com os biógrafos de Francisco é possível perceber isso de maneira explicita ou de forma implícita. Ao longo de sua vida, Francisco passou por uma transformação radical, que teve início em sua juventude, período repleto de sonhos e conflitos internos. Ao examinar a juventude de Francisco, podemos compreender melhor os fatores que contribuíram para sua conversão espiritual e, subsequentemente, para sua influência duradoura na Igreja e na sociedade.
Sua vida, inicialmente, foi marcada por excessos e ambições terrenas, até que iniciasse o seu processo de conversão a uma vida de humildade e espiritualidade. É justamente no contexto deste processo que os sonhos e as experiências de Francisco moldaram sua identidade, culminando com o seu trânsito (1226) e sua canonização em 1228. Francisco tornou-se assim, uma figura central na tradição cristã, reverenciado não apenas por sua vida de pobreza, mas também pela sua profunda conexão com a natureza e sua ênfase na fraternidade universal.
A juventude de Francisco: sonhos e ambições
Nascido em 1181, em Assis, na Úmbria, Francisco era filho de um próspero comerciante de tecidos. Crescendo em um ambiente de abundância, desde cedo alimentou sonhos de glória, desejando se tornar cavaleiro e conquistar prestígio. Suas experiências de vida na juventude foram marcadas pela busca incessante por reconhecimento e status, refletindo o espírito de um jovem inteiramente imerso nas normas sociais de sua época e, muito provavelmente, sob uma forte influência paterna (1Cel 1).
Francisco envolveu-se em atividades típicas de um jovem rico de sua época, incluindo festividades e batalhas. Sua participação em uma campanha militar contra Perugia, em 1202, representa um ponto crítico em sua trajetória. Capturado e aprisionado por quase um ano, essa experiência vai além da dor e do sofrimento; ela se torna um catalisador para uma autoavaliação profunda sobre suas verdadeiras aspirações e o sentido da vida (1Cel 3).

Alguns aspectos da realidade cultural e social de Francisco de Assis
Diversos elementos culturais da época medieval influenciaram a juventude de Francisco em seus sonhos e ambições. Esses elementos culturais, combinados com suas experiências pessoais, formaram a base da juventude de Francisco e, subsequentemente, seu processo de conversão e busca por um significado mais profundo na vida. Esses elementos incluem:
- Estrutura social e econômica: A sociedade medieval era amplamente hierárquica e feudal, onde o status social estava intimamente ligado à riqueza e à propriedade. Francisco, como filho de um comerciante próspero, foi exposto a um estilo de vida que valorizava o poder econômico e a conquista de prestígio social. Isso o levou a sonhar com fama e glórias associadas à nobreza e ao espírito de cavalaria.
- Cavalheirismo: A cultura cavalheiresca foi um forte influenciador na juventude de Francisco. Cortesia, honra e bravura eram ideais elevados para os jovens da época. O desejo de se tornar um cavaleiro e lutar em batalhas ilustres refletia a aspiração por um ideal de heroísmo e prestígio, que estava profundamente enraizado na literatura e nas tradições orais da época.
- Religião e espiritualidade: A Igreja tinha um papel central na vida cotidiana das pessoas. Movimentos religiosos, com elevados ideais de ascética e misticismo, estavam ganhando popularidade, criando um ambiente de crescente exploração espiritual. Francisco foi influenciado por essa busca espiritual, que fluía por baixo das normas sociais que frequentemente valorizavam as riquezas materiais.
- Conflitos e inseguranças: O ambiente político da época era marcado por guerras e conflitos, como as lutas entre cidades da península itálica. As Cruzadas também era outro elemento que impactava a mentalidade jovem. Esses conflitos criaram um senso de incerteza e a necessidade de uma identificação com causas maiores, o que pode ter influenciado os sonhos de Francisco de se tornar um herói por meio do combate.
- Arte e literatura: As narrativas de aventuras e heroísmo, comuns nas obras literárias da época, também moldavam os sonhos de jovens como Francisco. Livros de cavalaria e epopeias influenciavam a visão de um mundo repleto de aventuras e conquistas, fomentando uma imaginação romântica sobre o que significava ser um herói.
- Cultura popular: Festividades, músicas e danças que celebravam a vida e os prazeres eram comuns em sua juventude, contribuindo para a atmosfera de festa em que Francisco foi criado. Esse ambiente festivo influenciou suas ambições de uma vida repleta de alegria e socialização.
Conflitos internos e abertura para a conversão
O retorno de Francisco a Assis após a guerra não trouxe a satisfação esperada. Em vez disso, ele começou a sentir um vazio existencial em relação à sua vida anterior. Tal realidade o levou a um processo de redescoberta e reflexão. Em um contexto cultural de crescente espiritualidade, marcado por uma Igreja que enfrentava desafios internos e externos, Francisco se viu atraído por uma busca por valores mais autênticos (1Cel 6).
Suas primeiras experiências místicas ocorreram em um momento de crise pessoal, levando-o a se isolar em eremitérios e capelas. A mais significativa delas foi em São Damião, onde, segundo relatos, ele ouviu a voz de Cristo chamando-o para reparar Sua Igreja (LM 2, 1). Esta revelação não apenas selou seu destino, mas também encapsulou a essência de seu novo propósito: uma vida de serviço e simplicidade.

A conversão: da riqueza material à pobreza evangélica
A conversão de Francisco não se limitou a uma transformação pessoal; ela se tornou um movimento espiritual que reverberou por toda a Europa. Abandonando suas riquezas e bens materiais, decidiu adotar a pobreza radical como um ideal de vida. Tal decisão, embora ousada, estava alinhada com os ensinamentos cristãos sobre a simplicidade e o amor ao próximo.
O surgimento da Ordem dos Frades Menores, fundada em 1209, simboliza o impacto de sua conversão. A ordem enfatizava a fraternidade, a humildade e um compromisso com a paz, desafiando as instituições e práticas da época. O estilo de vida franciscano propagava uma mensagem de esperança e compaixão, particularmente em um momento em que a sociedade lidava com divisões sociais, desigualdades e fundamentalismos.
A juventude de São Francisco de Assis, marcada por sonhos e ambições, o levou a um processo profundo de conversão que alterou não apenas sua vida, mas também a de inúmeros homens e mulheres ao longo dos séculos. Sua trajetória é um testemunho da capacidade humana de transformação e autodescoberta. À medida que nos aproximamos do 800º aniversário de sua morte, revisitar a juventude de Francisco nos permite compreender as raízes de sua espiritualidade e a profundidade de seu legado. Explorar as diversas facetas da vida e da influência de Francisco de Assis, confirma sua relevância contínua no mundo contemporâneo. Entretanto, resta nos um questionamento: como um jovem que viveu séculos atrás em um mundo cheio de guerras, violência, fundamentalismos e divisões conseguiu se tornar um anunciador da paz e do bem, da justiça e da união, do respeito pela natureza e pela fraternidade universal? Talvez, a beleza de tudo isso não se encontre numa resposta especifica, mas no indagar-se continuamente como fez Francisco ao suplicar ao Senhor: “Onipotente, eterno, justo e misericordioso Deus, dai-nos a nós míseros, por causa de vós fazer o que sabemos que quereis e sempre querer o que vos agrada, para que, interiormente purificados, interiormente iluminados e abrasados pelo fogo do Santo Espírito, possamos seguir os passos de vosso dileto filho Jesus Cristo e unicamente por vossa graça, chegar até vós, ó Altíssimo, que em Trindade perfeita e unidade simples viveis e reinais e sois glorificado como Deus onipotente por todos os séculos. Amém.” (Ord 50-52)
Siglas e abreviações
1Cel – Primeira Vida, de Tomás de Celano
LM – Legenda Maior, de São Boaventura.
Ord – Carta a toda a Ordem, de São Francisco
Referências bibliográficas
BARTOLI, Marco. La nudità di Francesco: riflessioni storiche sulla spogliazione de Povero di Assisi. EBF. Milão. 2019.
Boaventura de Bagnoregio, Legenda Maior. In: Fontes Franciscana e Clarianas. Editora Vozes/FFB. Petrópolis. 2023.
CONTI, Martino. Estudos e pesquisas sobre o franciscanismo das origens, Editora Vozes/FFB, Petrópolis, 2004.
Francisco de Assis. Carta a toda a Ordem. In: Fontes Franciscana e Clarianas. Editora Vozes/FFB. Petrópolis. 2023.
Tomás de Celano. Primeira Vida. In: Fontes Franciscana e Clarianas. Editora Vozes/FFB. Petrópolis. 2023.
Frei José Antonio dos Santos
Primeiros companheiros e desenvolvimento da Ordem
A vida de Francisco de Assis foi marcada por sua busca pela simplicidade e pela vivência do Evangelho em sua forma mais pura. Após sua conversão, Francisco não apenas transformou sua própria vida, mas também inspirou outros a seguirem um caminho semelhante, resultando no surgimento da Ordem dos Frades Menores em 1209. Seus primeiros companheiros desempenharam papéis cruciais na formação da Ordem, bem como as circunstâncias que possibilitaram seu crescimento e desenvolvimento.
Ao lançar um olhar sobre a formação da Ordem, a partir da figura de Francisco de Assis e seus primeiros companheiros, é necessário explorar os contextos históricos e espirituais que facilitaram o seu surgimento, bem como o impacto de seu modo de vida na Igreja e na sociedade medieval.
A conversão e a formação de uma comunidade
Algum tempo após sua conversão, o modo de viver de Francisco de Assis começou a atrair a atenção de muitos daqueles que buscavam um sentido mais profundo para suas próprias vidas. Entre os primeiros a se unirem a ele era comum o desejo de viver o estilo de pobreza evangélica proposto por Francisco (1Cel 3). Esses primeiros companheiros foram fundamentais na consolidação do novo movimento espiritual, baseando-se na fraternidade, na humildade e na devoção.
O modo de vida de Francisco de Assis teve um impacto profundo e decisivo na formação da Ordem. Diversos aspectos de sua espiritualidade contribuíram para moldar os princípios e a estrutura da Ordem.

O nascimento da Ordem dos Frades Menores
Em 1209, Francisco e seus companheiros solicitaram ao Papa Inocêncio III a aprovação formal de sua regra de vida, que enfatizava a pobreza, a pregação e o amor à natureza como partes fundamentais da espiritualidade franciscana através da vivência dos conselhos evangélicos. Inicialmente, eles receberam uma aprovação oral da regra. Essa aceitação da Regra pelo papa marcou o início oficial da Ordem. Com a aprovação papal, ela começou a se expandir rapidamente. Francisco e seus seguidores dedicaram-se à pregação itinerante, difundindo os ideais de paz, amor e reconciliação. Esse estilo de vida atraiu muitos outros, desejosos de seguir o exemplo de Francisco. A Ordem se estabeleceu, rapidamente, em várias regiões da Europa, no norte da África e em diversos pontos da Ásia, respondendo aos anseios de um mundo ávido por espiritualidade e simplicidade frente à crescente corrupção e divisão da sociedade da época.
O movimento iniciado por Francisco influenciou significativamente a Igreja e a sociedade medieval, introduzindo um modelo de vida que desafiava a estrutura clerical tradicional. A ênfase na simplicidade e no contato direto com a população proporcionou uma nova compreensão do papel do religioso no mundo. Francisco e seus companheiros mostraram que a santidade poderia ser vivida no cotidiano através da humildade, da itinerância e do serviço aos outros. Entre diversos aspectos desse novo estilo de vidas é possível citar:
Pobreza Evangélica e Itinerância: A ênfase de Francisco na pobreza evangélica como um caminho para se aproximar de Deus estabeleceu um pilar central da Ordem. Ao renunciar às riquezas e à posse de bens materiais, Francisco e seus seguidores buscavam viver uma vida de simplicidade e itinerância, refletindo os ensinamentos evangélicos sobre desapego e generosidade (RnB 14).
Fraternidade Universal: A ideia de que todos são irmãos e irmãs diante de Deus foi uma das grandes influências de Francisco. Ele acreditava na importância da comunidade e do amor entre os seres humanos, o que fomentou um espírito de camaradagem e solidariedade entre os frades, que se viam como parte de uma grande família unida pela fé. Não somente os que vestiam o mesmo hábito era chamado de irmão, mas todos: as pessoas e também os elementos da natureza.
Conexão com a Natureza: A profunda reverência de Francisco pela criação e seu amor pelos animais e pela natureza inspiraram os frades a viverem em harmonia com o meio ambiente. Essa relação com a natureza refletia uma espiritualidade que reconhecia a presença amorosa de Deus em todas as criaturas, promovendo um entendimento mais holístico da vida.
Vida de Serviço e Missão: Francisco encorajou seus companheiros a se dedicarem ao serviço dos pobres e marginalizados. Esse estilo de vida missionária se tornou um dos focos principais da Ordem, levando os frades a se envolverem em ações sociais e a pregar em comunidades diversas, promovendo paz e reconciliação (1Cel 23-25). Sendo a regra de vida franciscana a primeira a ter um caráter eminentemente apostólico (RbB 16; RB 12).
Simplicidade e Humildade: Francisco vivia de forma simples e humilde, descartando qualquer pretensão de status ou poder. Essa abordagem influenciou diretamente os costumes da Ordem, que buscava refletir esses valores em seu modo de vida.
Formação Espiritual e Disciplina: A espiritualidade franciscana não apenas enfatizava a simplicidade e a pobreza, mas também a necessidade de uma vida de oração e contemplação. Essa busca por uma relação íntima com Deus moldou as práticas espirituais dos frades, formando a base para a sua vida fraterna e de oração.
Flexibilidade e Adaptabilidade: O estilo de vida de Francisco, que se dedicava a discernir a vontade de Deus em cada momento do seu cotidiano, incentivou uma certa flexibilidade nas práticas e diretrizes da Ordem. Essa adaptabilidade permitiu que os Frades Menores se ajustassem às necessidades sociais e espirituais em diferentes contextos ao longo de sua história. Entre essas práticas está a oração do breviário, tão comum atualmente, mas não tão comum na vida religiosa da época de Francisco, que possuía grandes livros de oração, dificultando a locomoção.

O modo de vida de Francisco de Assis e seus primeiros companheiros não apenas inspirou a formação da Ordem dos Frades Menores, mas também delineou seus princípios fundamentais e estilo de vida. A combinação da pobreza, fraternidade, amor pela criação e um compromisso com o serviço ao próximo se tornaram características emblemáticas que definiram e continuaram a definir a Ordem ao longo dos séculos.
Desafios e mudanças
Com o crescimento da Ordem, surgiram desafios internos, incluindo a necessidade de uma estrutura mais formal e a tensão entre a vida franciscana idealizada e as realidades práticas do crescimento organizacional. Embora Francisco desejasse manter a simplicidade de sua vida e da Ordem, a administração e a política eclesiásticas exigiram a mudança de algumas práticas. Esses desafios levaram a diálogos e reflexões profundas sobre a essência do movimento franciscano. Questões como a clericalização dentro da ordem sãos desafios enfrentados até os dias atuais.
A formação da Ordem dos Frades Menores em torno da figura de Francisco de Assis e de seus primeiros companheiros representa um marco significativo na história da espiritualidade cristã. Ao promover uma vida de pobreza inspirada no Evangelho, fraternidade e devoção, a Ordem não apenas rejuvenesceu a Igreja medieval, mas também deixou um legado duradouro que continua a ressoar na atualidade. A trajetória dos Frades Menores, marcada por desafios e inovações, exemplifica a busca contínua pela autenticidade e pelo verdadeiro espírito do Evangelho.
A influência de Francisco e seus primeiros companheiros, reafirma sua relevância em uma sociedade que ainda clama por valores de simplicidade, amor ao próximo, solidariedade e fraternidade. Um importante relato sobre a importância dos primeiros companheiros na formação da Ordem pode ser encontrado no Testamento, onde o próprio Francisco afirma: “E depois que o Senhor me deu irmãos, ninguém me mostrou o que deveria fazer, mas o Altíssimo mesmo me revelou que eu deveria viver segundo a forma do Santo Evangelho. E eu o fiz escrever com poucas palavras e de modo simples e o senhor papa me confirmou. E aqueles que vinham para assumir esta vida davam aos pobres tudo o que podiam ter; e estavam contentes com uma única túnica, remendada por dentro e por fora, com o cordão e calções. E mais não queríamos ter.” (Test 14-17)
Siglas e abreviações
1Cel – Primeira Vida, de Tomás de Celano
LM – Legenda Maior, de São Boaventura.
Ord – Carta a toda a Ordem, de São Francisco
RB – Regra Bulada, de São Francisco
RnB – Regra não Bulada, de São Francisco
Test – Testamento, de São Francisco
Referências bibliográficas
BARTOLI, Marco. La nudità di Francesco: riflessioni storiche sulla spogliazione de Povero di Assisi. EBF. Milão. 2019.
Boaventura, Legenda Maior. In: Fontes Franciscana e Clarianas. Editora Vozes/FFB. Petrópolis. 2023.
CONTI, Martino. Estudos e pesquisas sobre o franciscanismo das origens. Editora Vozes/FFB. Petrópolis. 2004.
Francisco de Assis. Regra Bulada. In: Fontes Franciscana e Clarianas. Editora Vozes/FFB. Petrópolis. 2023.
Francisco de Assis. Regra não Bulada. In: Fontes Franciscana e Clarianas. Editora Vozes/FFB. Petrópolis. 2023.
MERLO, Grado Giovanni. Em nome de São Francisco: história dos Frades Menores e do franciscanismo até inícios do século XVI. Editora Vozes/FFB. Petrópolis. 2005.
Tomás de Celano. Primeira Vida. In: Fontes Franciscana e Clarianas. Editora Vozes/FFB. Petrópolis. 2023.
Frei José Antonio dos Santos
O conceito de pecado na ótica de Francisco
O que é o pecado?
Sem dúvida, se de um lado temos dificuldade de falar sobre essa temática, até nos esquivamos… do outro lado, é uma realidade que vivemos no cotidiano, que temos que nos confrontar…
Estamos no ano Jubilar Franciscano, proclamado pelo Papa Leão XIV, celebrando os 800 anos da morte ou ¨transitus¨ (passagem) de São Francisco de Assis (1226-2026), para a vida eterna, ocorrida em 3-4 de outubro de 1226. Estendendo-se a 10 de janeiro de 2026 a 10 de janeiro de 2027. É nesse contexto que irei abordar o sentido do pecado, me basearei na fragilidade existencial humana como possibilidade de ressignificação e reencontro da verdade de si, dos outros e de Deus.
A Bíblia é o primeiro lugar onde encontramos uma descrição clara e contínua do que significa o pecado. Desde o livro de Gênesis até o Apocalipse, a Sagrada Escritura explora como o pecado surge e influencia a humanidade, revelando a misericórdia e a justiça de Deus em cada narrativa. A raiz do pecado na narrativa bíblica começa com Adão e Eva, que desobedeceram a Deus no Jardim do Éden. Este ato, conhecido como “pecado original”, não afetou apenas Adão e Eva, mas impactou toda a humanidade, separando-nos de Deus e da harmonia original da criação (Rm 3,23; 5, 12-21 e Gn 3).
No Antigo Testamento, os profetas constantemente exortam Israel a abandonar o pecado e retornar a Deus, enfatizando que o pecado não é apenas desobediência, mas um ato que fere a relação entre o povo e Deus. No Novo Testamento, o pecado é compreendido de forma mais profunda, como uma forma de escravidão espiritual. O próprio Jesus convida seus discípulos a se afastarem do pecado e a viverem na graça de Deus, prometendo a salvação àqueles que creem nele (Jo 3:16). São Paulo descreve o pecado como uma força que afeta o ser humano em sua totalidade, uma realidade que só pode ser superada pela graça de Cristo (Cor 6:18-20).
¨Do ponto de vista teológico, o pecado é muito mais que uma falha moral ou um erro humano. A Igreja ensina que o pecado representa uma ruptura na relação pessoal com Deus, pois o ser humano escolhe conscientemente afastar-se de Seu amor e de Sua vontade. Até questiona sobre o descrédito ou esvaziamento do conceito de pecado. Moser, destaca: ¨Pecado é, ao mesmo tempo, pessoal e social¨. Que devemo-nos focar salvação e conversão, e não apenas no apontamento do pecado (Livro: O Pecado, do descrédito ao aprontamento, Frei Antônio Moser, OFM).
A Igreja distingue entre pecado venial e pecado mortal. Um pecado venial é uma falta leve que não interrompe a nossa relação com Deus, embora a enfraqueça. Já o pecado mortal provoca uma separação completa da graça, pois cumpre três condições: diz respeito a uma matéria grave, é cometido com plena consciência e ocorre com consentimento deliberado. Esse tipo de pecado afasta a alma de Deus, impedindo-a de alcançar a vida eterna enquanto não se reconciliar através da confissão e de um arrependimento sincero. A existência do pecado nos lembra da liberdade que Deus nos deu e da responsabilidade por nossas escolhas. Somos seres livres e, nessa liberdade, somos chamados a escolher Deus acima de tudo. O pecado é, portanto, uma realidade espiritual que afeta nossa relação com Deus, conosco mesmos e com os outros (CIC 1849).

Como esse texto será refletido em nossas diversas fraternidades, vamos nos colocar na ótica do Pai Seráfico, que soube ¨vencer-se a si mesmo¨, pois se sentia tão agraciado por Deus, ao ponto de proclamar que o ´Amor não era amado´. Somente alguém que passou por uma transformação interior, centrando sua existência em Jesus Cristo e tornando-se um exemplo de vida, revela sua superação diante das fraquezas e limitações pessoais em prol de um propósito maior. São Francisco não via o pecado como uma falha leve, mas como uma grave enfermidade da alma que exigia cura radical através da penitência, do amor sacrificial e da fé em Cristo, que ele encontrava nos pobres da criação. Também, o pecado era o oposto do amor e da vida em Deus. Sua entrega era total a Deus, vivendo na pobreza, a humildade e a caridade para restaurar a si mesmo e a igreja, se espelhando sempre no Cristo Crucificado (Conf. https//franciscano.org.br).
Diante do pecado na fraternidade, São Francisco pede para tomarmos cuidado para não se perturbar com o pecado do irmão, pois dessa perturbação acaba entravando a caridade em si e nos outros. O cuidado para com a fraternidade, mesmo diante do pecado: ¨Bem-aventurado o homem que suporta o seu próximo com suas fraquezas tanto quanto quisera ser suportado por ele se estivesse na mesma situação¨ (Admoestação 18)
Gostaria ainda, apontar dois caminhos, que para São Francisco tem um significado espiritual e profundo:
– Buscou superar seus desejos mundanos, orgulho e apegos materiais para seguir uma vida de humildade e serviço aos pobres, como a que ele escolheu após sua conversão;
– São Francisco, procurava sempre a importância do conceito de pecado através da fé no Jesus pobre e crucificado na visão cristã. O Pecado é uma realidade central na relação entre o ser humano e Deus.
O pecado é uma ruptura com o amor divino, uma decisão consciente de se afastar da vontade de Deus. Esse conceito não se limita a “erros” ou “regras quebradas” ele envolve liberdade, responsabilidade e a possibilidade de redenção. Em uma época em que muitos questionam o sentido do bem e do mal, é essencial falar sobre o pecado de maneira profunda e acessível, para melhor compreendermos nossa fé e nosso papel no plano de Deus.
Portanto, ¨onde o pecado abundou o pecado, superabundou a graça¨ (Rm 5:20). A graça não é uma licença para pecar, mas sim a força que liberta do domínio do pecado, pois a graça de Deus é maior e mais duradoura que a culpa do pecado em si. Se torna presente de Deus que não se baseia no mérito humano. Ela não só cobre o pecado, mas reconstrói a identidade humana num todo.
Frei Paulo César Magalhães