Personagens da Província Restaurada

Frei Pedro Sinzig

 (1876 – 1952)

Frei Pedro - assim ele era chamado e conhecido – nasceu na romântica cidadezinha de Linz, às margens do Reno, a 29 de janeiro de 1876. Naturalizou-se brasileiro a 9 de fevereiro de 1898, às vésperas de sua ordenação sacerdotal na Bahia. Pertenceu ao grupo dos primeiros franciscanos alemães que restauraram a Província. Veio para cá ainda noviço, em 1893, a bordo do “Leipzig”. Faleceu a 8 de dezembro de 1952, em Düsseldorf, Alemanha.

Alma franciscana

Frei Pedro amava o seu burel franciscano com todas as forças de sua grande alma, não hesitando jamais em colocar o ideal franciscano acima de qualquer outro ideal ou aspiração terrestre, por mais nobre que fosse. Nunca seus brilhantes talentos ou o extraordinário prestígio de que gozava nas classes mais altas da sociedade e nas rodas culturais e artísticas mais finas, eram capazes de alterar sua humildade que, sem dúvida, constituía um dos traços característicos de sua personalidade. Se teve algum orgulho, foi o de ser filho de São Francisco e sacerdote de Jesus Cristo.

Foi frade exemplar, pois batalhou em muitos domínios para a glória de Deus e o bem das almas, para o engrandecimento da cultura e da arte; foi propugnador do ideal cristão na imprensa, na tribuna, no cinema, nas pesquisas históricas.

O artista

Frei Pedro dividia o seu tempo pregando missões, fazendo conferências, dirigindo retiros espirituais, e cultivando a música. Mas, para ele, entregue ao ideal, não bastava ainda a atividade religiosa e musical. A sua missão em terras brasileiras podia abranger outros campos que precisavam também de apostolado. Assim Frei Pedro não foi indiferente aos problemas sociais além de dedicar-se ao jornalismo católico e às letras. Publicista distinto, saíram de sua pena os mais diversos gêneros literários, da obra religiosa ao romance e à novela, dos assuntos históricos e geográficos aos da arte.

Tornou-se conhecido por grande parte de artistas e intelectuais como músico, compositor, musicólogo, regente de coros e de orquestras, professor e diretor da Escola de Música Sacra e redator da sua própria revista, sob o título: “Música Sacra”, através da qual cultivou a crítica musical por mais de 12 anos. Criou no âmbito cinematográfico a revista “A Tela”, cujo fim era orientar sob o ponto de vista estético, moral e religioso, a criação de novos filmes.

O musicista

O trabalho de Frei Pedro em favor da música sacra foi deveras notável. Mais de cem composições surgiram de sua rica inspiração, de oratórios a missas festivas, de ladainhas à própria ópera. Nos últimos três anos de sua vida, Frei Pedro trabalhou na elaboração da ópera “Frei Antônio”, que deveria ser apresentada por ocasião das festas comemorativas de fundação de São Paulo, em 1954.

Frei Pedro lançou o Dicionário Musical, um dos mais sérios trabalhos de sua lavra, recebido pela crítica com efusivas manifestações. Regeu concertos sinfônicos no Teatro Municipal. Foi exímio crítico de arte. Atuou junto ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Fundou a “Pró-Arte”, cujo objetivo era o Intercâmbio Cultural entre o Brasil e a Alemanha. Pertenceu à Academia Brasileira de Música, na época presidida por Villa-Lobos, seu grande amigo.

É difícil detalhar toda a produção musical deste notável religioso que, além de abundante obra publicada, deixou muitos trabalhos inéditos, alguns sem título. Das obras editadas, destacamos como mais importantes: “Benedicite”, “Sursum Corda” e “Cecília”, catorze Missas, seis Ladainhas, cinco Hinos Eucarísticos, quatro marchas de Procissão; “Cem Prelúdios para Órgão”, um “Catecismo em Cânticos”, e a “Jóia do Cantochão”. Além destas obras, Frei Pedro Sinzig escreveu ainda uma “Paixão” segundo São João, os “Oratórios Natal! Natal!”, “São Francisco Seráfico”, “Maria Santíssima” e a “Cantata Santa Cecília”. Não deixando de lado o folclore brasileiro, compôs: “Cancioneiro de Modinhas Populares”, “Modinhas Brasileiras”, “Minha Terra”, “Salve Brasil”, “Estrelas e Flores” e “O Brasil Cantando”.

O escritor

Como escritor propriamente dito, Frei Pedro possuía as mais invejáveis qualidades da concepção artística, aliada a uma cultura harmoniosa e profunda.

Escritor exímio, com quatro dezenas de obras publicadas, escreveu romances, novelas, ensaios e fez traduções.
Destacamos apenas uma parcela de suas obras: “A Caricatura na Imprensa Brasileira”, “Pelo Brasil e pela Fé”, “Frei Fabiano de Cristo”, “Tempestades”, “Os nossos Escritores”, “O Nazismo sem Máscara” (1938), “Pela mão de uma menina”. Nos últimos anos publicou ainda: “O Zepelim e o cão de casa”, “O mês de maio e a Folhinha” e “De automóvel para o céu”. Notável repercussão teve a sua obra: “Reminiscências de um Frade”. Nela Frei Pedro relata as suas aventuras e andanças pelos sertões baianos, e dá a sua versão da Campanha de Canudos e dos fanáticos da região.

Em “Através dos Romances” apresenta breve crítica a uma infinidade de obras de ficção para orientar, literária e moralmente, os leitores cristãos.

Outra obra de grande valor é a vida de “Frei Rogério Neuhaus”, confrade e companheiro de ideal por longos anos. Frei Rogério faleceu em 1934 e ficou conhecido como o sacerdote das massas sofredoras.

O jornalista

Frei Pedro era um jornalista nato. Em abril de 1902, fundou o “Cruzeiro do Sul”, em Lages, SC, que contrastava em idéias e comentários com os outros dois órgãos locais, sendo um porta-voz da política, e outro da maçonaria.

Mais tarde, em Petrópolis, fundou o “Centro da Boa Imprensa” (1910), dando nova orientação à revista “Vozes de Petrópolis”, que ele redigiu por 12 anos (1908-1920).

Foi o organizador do 1° Congresso Nacional dos Jornalistas Católicos, e foi nesse Congresso que lançou as bases do “Diário Católico”, na capital do País. Desde então, desdobrando-se em rara capacidade de trabalho, colaborou com quase todos os jornais do Brasil. Para maior e melhor organização desse futuro diário, seguiu para a Europa, em 1910, fazendo diversas conferências em que apresentava o Brasil como um grande país de possibilidades espirituais e artísticas. Lá angariou recursos e adquiriu uma rotativa para a impressão do futuro jornal. Foi convidado pelo Reichstag (Alemão) a expor o seu trabalho jornalístico no Brasil, pelo que foi condecorado por governos de vários países.
Frei Pedro viveu 60 anos como frade menor. Frei Pedro é a prova de que a inteligência e o coração de um franciscano não envelhecem.

Os restos mortais de Frei Pedro Sinzig foram trazidos da Alemanha e descansam desde o dia 18 de dezembro de 1952, no Cemitério de São João Batista – Botafogo – Rio.