Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Solenidade de Cristo Rei – Ano B

Solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo - Ano B

O Reino Amor-Serviço-Entrega

 

Frei Gustavo Medella

Em entrevista a um programa de TV, a consagrada cantora Elza Soares, ao narrar os dramas e dificuldades do início de sua trajetória, marcado por gravíssimas restrições de ordem econômica e social, contou como chegou a um dos programas de calouros mais importantes do rádio na época. Sem dinheiro para comprar roupas, vestiu-se com o deu, improvisadamente desajeitado sobre seu corpo hiperfranzino à época. Em tom debochado, o apresentador perguntou, para gargalhada da plateia: “De que planeta a Senhora vem?”, ao que ela respondeu: “Eu venho do ‘Planeta Fome’, ao que se seguiu um silêncio desconcertado, tanto do comunicador quanto da claque. Elza cantou com maestria.

O diálogo acima descrito fez-me lembrar o colóquio retratado no Evangelho deste Domingo, quando celebramos a Solenidade de Cristo Rei (Jo 18,33-37). Entre o desprezo e a descrença, Pilatos interroga Jesus sobre a natureza do reinado do qual Cristo se apresenta como Rei. “Não é deste mundo”, responde o Filho de Deus. Cristo não é rei do Reino Força, do Reino Fama, do Reino Ostentação. Seu reinado ocorre em Reinos sem brilho e sem glória. O Reino Amor, o Reino Serviço, o Reino Entrega. Ali o Filho de Deus escolheu reinar, para decepção dos que apostam no imediatismo das glórias humanas e do poderio do dinheiro e do sucesso. Reinar com Jesus e como Jesus exige empenho, desprendimento e muita conversão.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.


Imagem ilustrativa de Frei Fábio Melo Vasconcelos

Leituras bíblicas deste domingo

Primeira Leitura: Dn 7,13-14

13“Continuei insistindo na visão noturna, e eis que, entre as nuvens do céu, vinha um como filho de homem, aproximando-se do Ancião de muitos dias, e foi conduzido à sua presença.

14Foram-lhe dados poder, glória e realeza, e todos os povos, nações e línguas o serviam; seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado, e seu reino, um reino que não se dissolverá”.

– Palavra do Senhor.


Salmo Responsorial: Sl 92

— Deus é Rei e se vestiu de majestade,/ glória ao Senhor!

— Deus é Rei e se vestiu de majestade,/ glória ao Senhor!

— Deus é Rei e se vestiu de majestade,/ revestiu-se de poder e de esplendor!

— Vós firmastes o universo inabalável,/ vós firmastes vosso trono desde a origem,/ desde sempre, ó Senhor, vós existis!

— Verdadeiros são os vossos testemunhos,/ refulge a santidade em vossa casa,/ pelos séculos dos séculos, Senhor!


Segunda Leitura: Ap 1,5-8

5Jesus Cristo é a testemunha fiel, o primeiro a ressuscitar dentre os mortos, o soberano dos reis da terra. A Jesus, que nos ama, que por seu sangue nos libertou dos nossos pecados 6e que fez de nós um reino, sacerdotes para seu Deus e Pai, a ele a glória e o poder, em eternidade. Amém.

7Olhai! Ele vem com as nuvens, e todos os olhos o verão, também aqueles que o traspassaram. Todas as tribos da terra baterão no peito por causa dele. Sim. Amém!

8“Eu sou o Alfa e o Ômega”, diz o Senhor Deus, “aquele que é, que era e que vem, o Todo-poderoso”.

– Palavra do Senhor.


Evangelho: Jo 18,33b-37

Naquele tempo, 33bPilatos chamou Jesus e perguntou-lhe: “Tu és o rei dos judeus?” 34Jesus respondeu: “Estás dizendo isto por ti mesmo ou outros te disseram isto de mim?”

35Pilatos falou: “Por acaso sou judeu? O teu povo e os sumos sacerdotes te entregaram a mim. Que fizeste?”

36Jesus respondeu: “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui”.

37Pilatos disse a Jesus: “Então tu és rei?”

Jesus respondeu: “Tu o dizes: eu sou rei. Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”.

– Palavra da Salvação.

Reflexão do exegeta Frei Ludovico Garmus

34º Domingo do Tempo Comum – Jesus Cristo, Rei do Universo

 Oração: “Deus eterno e todo-poderoso, que dispusestes restaurar todas as coisas no vosso amado Filho, Rei do universo, fazei que todas as criaturas, libertas da escravidão e servindo à vossa majestade, vos glorifiquem eternamente”.

  1. Primeira leitura: Dn 7,13-14

Seu poder é um poder eterno.

Os profetas preocupavam-se, sobretudo, com o momento presente, pregavam em nome de Deus a conversão e a renovação moral e religiosa dos ouvintes. Daniel, ao contrário, é um livro apocalíptico, preocupado mais com o futuro. Procura desvendar o plano futuro de Deus, a fim de dar conforto ao povo em meio aos sofrimentos do presente. A linguagem é cheia de símbolos e visões (capítulos 7 a 12), que só os iniciados podiam entender. Uma linguagem cifrada para tempos de perseguição. As visões noturnas começam em Dn 7,2 e o texto escolhido para hoje é a sexta visão. Na visão noturna, Daniel vê entre as nuvens alguém vindo como se fosse filho de homem, isto é, um ser humano. Ele o vê sendo apresentado a um Ancião e recebendo dele poder, glória e realeza. Povos e nações de todas as línguas o servem. Em seu livro o autor descreve como os reinos deste mundo são frágeis e passageiros, sucedendo-se uns aos outros. O reino que este filho de homem recebe, porém, será eterno e seu reino nunca acabará. Os reis deste mundo governam, mas quem dirige a história é Deus (2ª leitura e evangelho).

Salmo responsorial: Sl 92

   Deus é Rei e se vestiu de majestade, glória ao Senhor!

  1. Segunda leitura: Ap 1,5-8

O soberano dos reis da terra fez de nós um reino,

sacerdotes para seu Deus e Pai.

O texto faz parte da saudação às sete igrejas da Ásia Menor que representam todas as comunidades cristãs espalhadas pelo Império Romano. A saudação serve como introdução ao Apocalipse e traz em síntese o que será desenvolvido ao longo do livro. Jesus Cristo é qualificado como “a Testemunha Fiel”, “o Primeiro e ressuscitar dentre os mortos” (Primogênito dos mortos) e “o Soberano dos reis da Terra”. São os três atributos que indicam o Filho de Deus encarnado, em sua ação salvífica aqui na terra. São o tríplice nome do Filho de Deus no livro do Apocalipse. Como “testemunha fiel”, Jesus veio implantar aqui na terra o reino de Deus Pai, um reino baseado sobre o poder da verdade e do amor. Logo em seguida é especificada a obra redentora de Jesus: Ele nos ama porque derramou por nós seu sangue na cruz e nos libertou dos pecados. Ele fez de nós um reino de sacerdotes (ver o prefácio de hoje), servidores de Deus Pai. Quem tem um reino é rei, e merece reinar com glória e poder por toda a eternidade. Os imperadores romanos eram sujeitos à morte, ao passo que o reinado de Jesus Cristo, Filho de Deus, dura para sempre. Sem dúvida, uma mensagem de conforto e esperança para os cristãos perseguidos. O vidente vê Jesus vindo entre as nuvens do céu, com poder e glória, “para julgar os vivos e os mortos” (Credo). Tanto os judeus que o traspassaram na cruz, como todos povos da terra o verão e baterão em seus peitos, arrependidos. Por fim, Deus se apresenta: “Eu sou o Alfa e o Ômega” (A e Z) – Deus é o princípio e o fim de tudo; “aquele que é, que era e que vem” – é o nome de Deus no Apocalipse; “o Todo-poderoso” – título que compete somente ao Deus Trindade dos cristãos, pois o poder dos governantes deste mundo é passageiro.

Aclamação ao Evangelho: Mc 11,9.10

É bendito aquele que vem vindo, que vem vindo em nome do Senhor,

            e o Reino que vem, seja bendito, ao que vem e a seu Reino, o louvor!

  1. Evangelho: Jo 18,33b-37

Tu o dizes: eu sou rei.

O evangelho traz uma parte do interrogatório a que Jesus é submetido diante de Pilatos. No evangelho de João Jesus não é condenado pelo Sinédrio. Apenas o sumo-sacerdote Caifás interroga brevemente a Jesus sobre sua doutrina e, depois, o encaminha ao tribunal romano (Jo 18,19-28). O interrogatório e a acusação acontecem diante de Pilatos.

Quando Jesus é entregue a Pilatos, este lhes pergunta sobre a acusação. Eles não haviam formulado nenhuma acusação concreta e disseram: “Se este homem não fosse malfeitor, não o teríamos entregue a ti” (18,30). Pilatos não se intrometia nos assuntos religiosos internos dos judeus. Devia zelar pelos interesses políticos dos romanos. Por isso pergunta a Jesus: “Tu és o rei dos judeus”? Pelos outros evangelhos sabemos da expectativa da vinda próxima do Messias, filho de Davi. Portanto uma figura real que expulsaria os romanos haveria de purificar o culto no Templo. Pilatos queria saber por quê o povo e os sumos sacerdotes lhe entregaram Jesus. Então pergunta: “O que fizeste”? Na resposta Jesus abre o jogo: “O meu reino não é deste mundo”. Se o fosse, meus discípulos lutariam para não ser entregue aos judeus. Interrogado se era rei de fato, Jesus responde: “Eu sou rei”. E logo explica em que sentido é rei: “Eu nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade (2ª leitura). A verdade testemunhada por Jesus é que Deus é Amor (Jo 13,1; 14,21). Jesus é o caminho, a verdade e a vida, que nos conduz a este Amor. Na ressurreição do último dia, Cristo entregará o reino a Deus Pai (1Cor 15,24). Então Deus será tudo em todos e nós estaremos com Deus.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

Um rei previsto pelos Profetas

Frei Clarêncio Neotti

A resposta à pergunta de Pilatos: “Tu és o Rei dos Judeus?” (v. 33) podia ser dupla e contraditória. Podia ser um sim e podia ser um não. Por isso Jesus, a princípio, não responde, mas faz outra pergunta: se Pilatos queria saber se ele tinha pretensão de ser um rei terreno, político, com corte, ministros e exército. Caso a pergunta de Pilatos tivesse esse sentido, e Jesus respondesse sim, estava configurado o crime de subversão. E Pilatos teria por onde condená-lo. Mas se a pergunta de Pilatos tivesse o sentido bíblico-religioso (o que era possível), o sim de Jesus tinha um significado que escapava à compreensão de Pilatos, romano pouco afeito às questões bíblicas dos judeus. Por isso, Jesus não respondeu com um sim ou com um não, mas com uma explicação.

E a explicação de Jesus prende-se ao conceito de rei previsto pelos profetas, como em Daniel, na primeira leitura de hoje (Dn 7,13-14): alguém animado pelo Espírito de Deus, capaz de trazer à terra a justiça, a verdadeira piedade, a paz duradoura, a alegria do serviço, a solidez terna do bem, criando uma nova humanidade, fiel ao plano amoroso do Criador. Alguém que fosse o “conselheiro admirável, o Deus forte, o Pai para sempre, o príncipe da paz” (Is 9,5) no meio das criaturas. O Apocalipse, na segunda leitura (1,5-8), confirma a figura do rei bíblico-religioso: alguém testemunha fiel, que ama ao Pai e a nós pecadores com o máximo amor, que para fazer a vontade do Pai e salvar-nos derrama seu sangue, redimindo-nos, consagrando-nos e fazendo-nos reinar com ele.


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

"Tu és o Rei dos Judeus?"

Frei Almir Guimarães

Eu sou o Alfa e o Ômega, diz o Senhor, aquele que é, que era e que vem (Apocalipse 1, 8)

Solenidade de Cristo, Rei do universo e final do ano litúrgico da vida da Igreja. Ao longo de 2028 seguimos a figura e a ação de Cristo Jesus segundo o evangelista Marcos. Hoje somos levados a escutar um diálogo entre Jesus e Pilatos, segundo o evangelista João. Solenidade de Cristo Rei e dia dos leigos. Os fiéis cristãos leigos, de modo particular, inscrevem as leis do amor e o do universo de Cristo na teia do mundo da família, da cidade, do trabalho, da política. Com suas palavras e sua vida falam da urgência de se construir uma sociedade segundo o coração de Deus.

O evangelista nos fala de diálogo reservado, de uma audiência particular. Pilatos é representante do imperador romano. Vem a Jerusalém para certificar-se que tudo funcione bem e que os impostos e riquezas sejam encaminhados para Roma e que ninguém se arvore a fazer tumultos. A ordem em primeiro lugar.

Um condenado e um procurador romano. Pilatos procura saber alguma coisa a respeito de Jesus, de maneira direta, sem intermediações. Há uma acusação a respeito do desejo de Jesus de ser rei. Pilatos, por dentro, ri disso. Talvez com ligeira pontinha de deboche pergunta:

– “Tu és o rei dos judeus?”
– Pilatos, estás fazendo esta pergunta por ti mesmo, queres saber de verdade ou simplesmente se trata de um esclarecimento judiciário, uma investigação de tua parte para satisfazer ao poder? Percebo qualquer coisa de irônico em tua voz. Tu perguntas mesmo se sou rei dos judeus?
– Onde é que se viu… vamos lá… eu não sou judeu…Estou diante da tarefa de julgar-te. Teu povo e os sumos sacerdotes te entregaram a mim… Que tu fizeste? Tenho que resolver esta questão. Tu és rei?
– Pilatos, senhor governador, eu sou rei, para isso vim, para isso o Pai me inventou. Não te preocupes porque não tenho a menor pretensão de disputar o poder imperial com Tibério…Não pertenço ao esquema a partir do qual estás a me julgar… Meu reino não é desse mundo…Não se apoia na força das armas. Vim para dar testemunho da verdade. Nada mais…É sonho de meu Pai “reinar”, fazer-se presente no mundo que saiu de suas mãos e que ele ama. Por isso eu existo e vim ao mundo. Repito: para dar testemunho da verdade.

Podemos imaginar que Pilatos tenha se sentido um tanto perturbado, mas precisava continuar a dar a impressão de estar realizando um processo… para dar satisfação aos acusadores. Ele estava convencido da inocência daquele homem “forte” que estava diante dele… mas a máquina precisava girar…

Jesus, uma criança frágil a se remexer no berço de seu nascimento e um frágil e debilitado corpo pregado ao madeiro. Antes que o mundo existisse, antes que as águas jorrassem e as trevas desaparecessem com o sol e a lua, antes que fosse tirado do barro o primeiro homem, Deus belo pensou em conviver com os mortais e sonhou de viver entre nós. Pensou na encarnação do Filho…. imaginou um mulher que o trouxesse O Filho era o primeiro nas suas intenções. Para seu Filho tudo haveria de convergir…centro de tudo… rei de verdade.

Para ele as plantas da terra, os ventos e as brisas, as fontes e nascentes, para ele todos os seres humanos… ele é o princípio, o rei, o centro de tudo, o alfa e o ômega. Os olhos de todos em todos os tempo se voltarão para esse Jesus que falou e testemunhou a criação de um mundo novo. Deus sonhou com seu enviado, seu Cristo, que deveria aparecer na plenitude dos tempos. Rei, centro de tudo. Tudo foi feito por ele, para ele e nele.

O Senhor nos deu um rei diferente, um rei coroado de espinhos, sentado no trono da cruz, empunhando um ridículo bastão. Não nos deu um rei que fosse encarnação do êxito e do sucesso, mas um soberano fracassado, um Jesus humilhado, coberto de injúrias, não respondendo às acusações contra ele proferidas. Deus nos deu um soberano sentado na incômoda, áspera e dura cadeira da cruz. Rei do serviço e rei crucificado

Dia de Cristo rei, dia do fiel cristão leigo. Quis a Igreja no momento em que se fecham as cortinas do ano litúrgico dirigir seu olhar para esses milhões de fieis leigos, homens e mulheres, jovens e idosos, professores, advogados, pedreiros e padeiros, balconistas, alfaiates, cuidadores, vereadores, motoristas, pais e mães, caminhoneiros, plantadores de alface e de soja, criadores de rebanhos e comunicadores. Estes todos sabem que têm a honrosa missão de colocar no meio do mundo o espírito do rei Cristo Jesus, morto e ressuscitado. Com ele constroem um reino de justiça e de paz, de fraternidade e de solidariedade.

Os fiéis cristãos leigos não são feitos apenas para circular nos espaços das sacristias e em torno aos altares. Vivem no mundo, se ocupam das coisas do mundo. Desejam criar uma terra de fraternidade, de justiça e de inclusão dos mais abandonados. Deveriam até mesmo gritar um pouco mais forte nas tribunas dos parlamentos para que o mundo que Jesus veio anunciar não seja simplesmente um sonho que descansa nas páginas lidas ou não lidas do que chamamos de “Escrituras”.

Oração

IRMÃO JESUS

Irmão Jesus,
sabe, é assim que gosto de te chamar.
Pronunciar teu nome já é rezar.
É como empurrar a porta de teu coração que não tem tranca.
Sabes bem quantas vezes bato.
Os caminhos de minha fé
estão pontilhados de interrogações.
Encontrei algumas respostas para elas
nos olhos que brilham refletindo teu amor.
Os donos desses olhos escrevem o teu nome com letras maiúsculas
em cada um de seus gestos.
Falam no silêncio, amadurecidos por tua presença.
Quando nada dizem é pare te escutar melhor
e quando falam é tua voz que ouço.

Irmão Jesus,
vejo-te glorificado nos vitrais das catedrais,
mas estás conosco quando à noite
acendemos a fogueira em nossos acampamentos.
Vejo-te crucificado no madeiro ou no mármore,
mas tenho certeza de que vives no canto do pássaro
e numa espiga de milho,
nos primeiros rebentos da primavera.
Tentei encontrar no vento teu respiro e tua imagem
e os encontrei no canto e na dança.
Esperavas de mim um sinal de confiança
e já me abrias os braços no dia da promessa.

Senhor, algumas vezes te procurei
no esplendor de uma igreja românica.
Vim, no entanto, perceber-te no riso de uma criança,
no coração dos pequenos, dos excluídos, dos pobres.
Nunca estás onde pensamos te encontrar e
estarás onde não se pode imaginar.

Se eu tivesse certeza de ter encontrado
sentiria até mesmo saudade dos dias em que te buscava.
Tenho necessidade de ti para continuar.
Dá-me o tempo para atravessar meus desertos
e ter mais fome e mais sede de ti.

Irmão Jesus,
gosto de dizer teu nome.
Sim, dizer teu nome, já é rezar.

Inspirado e adaptado de Jean-Pierre Bonsirven – Revista “Prier”, julho-agosto 1986, p. 4-5


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

Testemunhas da verdade

José Antonio Pagola

O julgamento de Jesus teve lugar no palácio em que reside o prefeito romano quando vem a Jerusalém. Acaba de amanhecer. Pilatos ocupa o trono do qual dita suas sentenças. Jesus comparece de mãos atadas como um delinquente. Ali estão, frente a frente, o representante do império mais poderoso e o profeta do reino de Deus.

Pilatos acha incrível que aquele homem tente desafiar Roma. “Então, tu és rei?” Jesus é bem claro: “Meu reino não é deste mundo”. Não pertence a nenhum sistema injusto deste mundo. Jesus não pretende ocupar nenhum trono. Não busca poder nem riqueza.

Mas não lhe oculta a verdade: “Sou rei”. Vim a este mundo para introduzir a verdade. Se seu reino fosse desse mundo, teria “guardas” que lutariam por Ele com armas. Mas seus seguidores não são “legionários”, mas “discípulos” que escutam sua mensagem e se dedicam a implantar verdade, justiça e amor no mundo.

O reino de Jesus não é o de Pilatos. O prefeito vive para extrair as riquezas dos povos e levá-Ias para Roma. Jesus vive “para ser testemunha da verdade”. Sua vida é todo um desafio: “Todo aquele que é da verdade escuta minha voz”. Pilatos não é da verdade. Não escuta a voz de Jesus. Dentro de algumas horas tentará apagá-la para sempre. O seguidor de Jesus não é “guardião” da verdade, mas “testemunha”.

Sua tarefa não é disputar, combater e derrotar os adversários, mas viver a verdade do Evangelho e comunicar a experiência de Jesus que está mudando sua vida. O cristão também não é “proprietário” da verdade, mas testemunha.

Não impõe sua doutrina, não controla a fé dos outros, não pretende ter razão em tudo. Vive convertendo-se a Jesus, transmite a atração que sente por Ele, ajuda a olhar para o Evangelho, introduz em toda parte a verdade de Jesus. A Igreja atrairá as pessoas quando elas puderem ver que nosso rosto se parece com o de Jesus e que nossa vida lembra a de Jesus.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

Cristo reina pelo testemunho da verdade

Pe. Johan Konings

O último domingo do ano litúrgico é a festa de Cristo, Rei do Universo. Cristo reina. Reinar ou governar não significa mandar arbitrariamente, mas exercer a responsabilidade da decisão última num projeto de sociedade. Interrogado por Pôncio Pilatos, Jesus diz que seu reinado não é deste mundo (evangelho). Não deve seu reinado a nenhuma instância deste mundo. Ele não é como os reis locais, no Oriente, que eram nomeados pelo Imperador de Roma; nem como o Imperador, cujo poder dependia de seus generais, os quais por sua vez dependiam do poder de … quem? De uma estrutura que se chama “este mundo”. Como hoje. Os governantes deste mundo – estabelecidos por “este mundo” – dependem de toda uma constelação de poderes, influências e trâmites escusos. Devem pactuar, conchavar, corromper. E, no fim, caem de podres. Pensam que são donos do mundo enquanto, na realidade, o mundo é dono deles.

O que são os reinos deste mundo aparece bem na 1ª leitura: quatro feras que tomam conta do mundo e se digladiam entre si. Mas então aparece uma figura com rosto humano, um “como que filho do homem”, que desce do céu, de junto de Deus, e que representa o reinado de Deus que domina as quatro feras, os reinos deste mundo. Jesus na sua pregação se auto-intitula “filho do homem” no sentido de ser aquele que traz esse reinado de Deus ao mundo.

O reinar de Jesus não pertence a este mundo, nem lhe é concedido por este mundo. É reinado de Deus, Deus é seu dono. Mas, embora não sendo deste mundo, este reino não está fora do mundo. Está bem dentro do mundo, mas não depende deste por uma relação de pertença, nem procura impor-se ao mundo por aqueles laços que o prenderiam: força bruta, astúcia, diplomacia, mentira … Jesus ganha o mundo para Deus pela palavra da verdade.

“Para isto eu nasci e vim ao mundo: para dar testemunho da verdade” (Jo 18,37). Jesus é a palavra da verdade em pessoa. Nele a verdade é levada à fala. E que verdade? A verdade lógica, científica? Não. Na Bíblia, verdade significa firmeza, confiabilidade, fidelidade. Jesus é a palavra “cheia de graça e verdade” (Jo 1,14), a palavra em que o amor leal e fiel de Deus vem à tona e se dirige a nós: amor e fidelidade em palavras e atos. É Deus se manifestando. Essa “verdade”, Jesus a revela dando sua vida até o fim. Esse é o sentido desta declaração, feita três horas antes de sua morte, ao ser interrogado por Pôncio Pilatos, que não entende …

Jesus é o Reino de Deus em pessoa. Não reino de opressão, mas reino de amor fiel, reino de rosto humano – o amor humano de Deus por nós, manifestado no dom da vida de Jesus, que reina desde a cruz. A opressão exercida pelos reinos deste mundo, Jesus a venceu definitivamente pela veracidade do amor fiel de Deus. Ora, quem faz existir o amor fiel de Deus no mundo de hoje somos nós. Por isso Jesus nos convida: “Quem é da verdade escuta a minha voz”.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella