A experiência missionária de Aline Alves na Bahia

Neste Ano do Laicato, celebrado pela Igreja do Brasil, o papel do leigo na sociedade e nas comunidades ganhou um destaque especial. Cada vez mais cresce a consciência de que os leigos têm papel importante na formação e animação da comunidade cristã. Para tanto, fazem-se necessários o engajamento e o compromisso pastoral, características que fazem parte da vida destes dois jovens - Aline Neves e Carlos Fernandes -  formados a partir de nossa presença evangelizadora de frades menores. O testemunho deles deve servir de estímulo a nossas fraternidades a outros jovens leigos que sentem o chamado a se aprofundar cada vez mais no modo franciscano de ser presença na Igreja e no mundo.

Acompanhe a entrevista de Aline Neves!

Aos 32 anos, a jovem Aline Neves, natural de Nilópolis (RJ) faz uma experiência missionária na Diocese de Barra (BA), como voluntária na Paróquia Nossa Senhora da Piedade. A paróquia possui 30 comunidades e fica no distrito de Cocal, município de Brotas de Macaúbas, sertão da Bahia. Frei Moiséis Beserra de Lima é o pároco local. A Diocese de Barra é pastoreada por Dom Luís Flavio Cappio, bispo franciscano pertencente à Província da Imaculada Conceição do Brasil.

Frei Diego Melo, coordenador do Serviço de Animação Vocacional (SAV), ajudou neste processo. Aline conta que o desejo de ser missionária nasceu depois da participação em eventos organizados pelo SAV, como as Caminhadas e Missões Franciscanas. Em 2017, surgiu o convite para uma missão na Diocese de Barra. Ela voltou sozinha, em setembro e depois decidiu deixar sua vida no Rio de Janeiro para ser missionária em Cocal.

Site Franciscanos – Como começou seu envolvimento mais direto, mais engajado, na vida da Igreja?

Aline Neves – Meu envolvimento aconteceu desde quando comecei a fazer a catequese, ainda criança. Fui sozinha num batizado e gostei. Pedi aos meus pais para entrar na catequese. Logo em seguida, depois da catequese, continuei. Ajudava na Pastoral do Negro, sempre que necessário, e na Pastoral do Teatro. Atuava na Pastoral da Juventude, Catequese, mas com uma atuação mais intensa com a juventude e catequese. Até começar a conhecer a Caminhada Franciscana e me encantar por São Francisco e querer vivenciá-lo cada vez mais. Desde então, eu não saí mais. Entendi bem a proposta de servir à comunidade, aquela comunidade que me acolheu enquanto criança na catequese, que me preparou. Depois fiz Crisma, entrei no grupo de jovens e fui me engajando nos movimentos.

Site Franciscanos – O que este engajamento crescente representa na sua vida?

Aline – A minha caminhada na Igreja foi aos poucos. Em cada fase da minha vida fui vivendo um tipo de atividade, contribuindo com um serviço na Igreja. Da catequese fui para o grupo de jovens e lá, enquanto Pastoral da Juventude (PJ), nas formações sobre Igreja, sociedade, políticas públicas, abri minha cabeça pra uma Igreja em saída, que olha o povo, sobretudo os pobres, e despertou o meu interesse em querer continuar aquele trabalho. O engajamento e o discernimento que eu tenho hoje começaram na PJ. Eu devo isso a ela, até a carreira que quis seguir tem a ver com as questões que refleti a partir da PJ, com a formação e o preparo que ela me deu. Fiquei muito tempo servindo à Pastoral da Juventude. Em seguida, passei a coordenar o Encontro de Jovens que amam a Cristo (EJAC), que está no seu 12º encontro. Depois, houve a necessidade de eu ir para a catequese. Meu pároco, na época, perguntou se eu podia assumir uma turma e a coordenação da Catequese na Comunidade Santo Antônio, que estava precisando. A comunidade estava sem ninguém e eu acredito que uma Igreja sem catequese é uma Igreja que carece de um importante pilar. E assim eu aceitei.

Esse engajamento é a chama que aquece a minha vida. Tem época que essa chama está alta ou baixa. Teve um período na minha vida em que a chama estava um pouco mais baixa e aí vieram as Caminhadas e Missões Franciscanas, que acenderam essa chama de novo. Estar engajada é o combustível que eu preciso para sobreviver. Como a gente precisa se alimentar, trabalhar, eu preciso estar engajada na Igreja, com as coisas de Jesus. Quando eu não estava muito engajada, minha vida estava triste, mais sombria. Quando eu volto a me engajar, a servir à Igreja, às pessoas, como Cristo pediu, isso me trouxe uma vida nova, isso me fez reviver, me fez renascer. A minha chama aumenta! O engajamento pra mim é o que mantém a minha vida.

Site Franciscanos – Como surgiu no seu coração este desejo missionário?

Aline – Acho que este desejo sempre esteve aqui, só que não o identificava como desejo de ser missionária. Por alguns anos da minha vida, trabalhei nas periferias da minha cidade, as periferias existenciais. Trabalhei com jovens e mulheres em situação de vulnerabilidade social e me descobri nesse trabalho, ao ajudar o jovem, aquele que está excluído, aquele que ninguém quer, que por alguma dificuldade se perdeu na vida e se entregou às drogas ou cometeu um ato ilegal e está preso. Ninguém quer saber deles, as pessoas esquecem que ali Cristo também está. Eu me envolvi demais nesse trabalho e cada vez mais queria estar trabalhando, queria estar nas periferias ajudando, contribuindo de alguma forma. Mas até então era um trabalho profissional. Eu era gestora de projetos sociais, mas não deixei de ser cristã, então não tinha como separar a ‘Aline profissional’ da ‘Aline cristã’, que tem consciência de que deve levar a Palavra de Cristo a todos os povos e a todas as pessoas. Eu tinha consciência de que Cristo estava ali, naqueles jovens e naquelas mulheres que estão excluídas da sociedade.

Aí veio todo esse movimento na nossa Província, o trabalho do Frei Diego Melo, animando a juventude, promovendo as Caminhadas e as Missões Franciscanas. Quando veio o convite pra participar da primeira Caminhada, passei a perceber que aquele meu anseio, na verdade, era um anseio missionário. Na primeira caminhada, quando cheguei na Fazenda da Esperança e encontrei aquelas pessoas, para quem a sociedade virou as costas, aqueles excluídos, onde conseguimos perceber o rosto misericordioso de Deus, ali percebi que era aquilo que eu queria pra minha vida: estar no meio de quem precisa ouvir a Palavra de Cristo, ir ao encontro de Cristo no meu irmão, perceber que aquelas pessoas fazem parte da minha vida, da sociedade onde eu moro e que eu não posso ser conivente com essa lógica que exclui, porque Jesus não excluiu ninguém. Se é ali que Cristo está, é ali que eu quero estar também.

Depois da caminhada, veio a minha primeira missão na Província, em Curitiba (PR). A missão foi perfeita, eu fiquei num assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), onde senti fortemente a presença de Cristo. Senti que queria mais. Num destes encontros, estava muito angustiada e conversei com o Frei Diego. Disse que não estava mais satisfeita com o meu trabalho na Paróquia. Aquilo que eu estava fazendo lá, na Catequese, aquela contribuição, já não inflamava mais o meu coração, senti que era pouco, que eu precisava fazer algo mais. Ele me aconselhou e disse: “Você precisa jogar suas redes em águas mais profundas, chega um momento em que só ali não dá mais pra gente”. E de fato, aquilo ficou no meu coração, foi passando alguns anos e surgiu a oportunidade. Um belo dia surgiu o convite de vir fazer missão aqui em Cocal, não pensei duas vezes e vim. Foi uma missão muito boa e eu tive certeza que eu queria era viver essa vida de missionária, de levar o Cristo, de encontrar o Cristo onde Ele está.

Site Franciscanos – Quais desafios você enfrentou a partir desta decisão?

Aline – Eu tive alguns desafios. Estou aqui no Cocal, no Sertão Baiano. Saí do Rio de Janeiro, da minha Paróquia e vim pra cá. O maior desafio foi me afastar da minha família, que é minha base, meu porto seguro, o que eu tenho de mais valioso na minha vida. Mas o apoio deles me deu força. Antes de vir, estava triste, por conta dessa chama que estava bem fraca lá. Eles sentiram essa necessidade e me apoiaram. A despedida ali, no aeroporto, eu entrando no avião e vendo-os ficar foi a parte mais dura. E ainda é, quando acaba o dia aqui, quando eu fecho a minha porta e vou deitar. Aí eu lembro e bate saudade da família. Mas eu sei que eles estão bem e a hora que eu quiser eu posso voltar, mas as graças e bênçãos que eu recebo aqui suprem minhas necessidades, esse anseio de tê-los perto de mim.

Depois vieram outros desafios. Conforme vão passando os dias, vão surgindo outros desafios na vida. Porque eu sou uma leiga, que saí da minha cidade, larguei emprego, família, para vir servir a Cristo e às pessoas daqui, porque eu senti este chamado na primeira missão que eu fiz em Cocal. Como foi algo que senti fortemente, lutei bastante para conseguir vir. Pensei, busquei conselhos, deixei Deus falar em meu coração para saber se era isso mesmo. Com a ajuda da minha família e o apoio dos meus amigos, eu consegui vir. A cada dia é um desafio novo: morar sozinha, trabalhar para me sustentar e fazer a missão. Mas estou aqui porque tenho Cristo e Ele me dá força. Quando você serve a Cristo, nada lhe falta. Tudo o que você necessita, Ele providencia. Através de um irmão, de outra pessoa, mas Ele providencia.

Site Franciscanos – Como está sendo fazer este trabalho de missão?

Aline – A experiência está sendo muito rica. Hoje eu sou uma nova pessoa por conta da vida aqui. É uma cultura diferente, pessoas diferentes, mas o Cristo é o mesmo. Eu trabalho, dou aula para as crianças, ajudo na Paróquia de todas as formas, nas celebrações, adoração, Catequese, grupos de formação.

Site Franciscanos – Como você foi recebida pela comunidade do povoado de Cocal?

Aline – A minha acolhida no Cocal foi a melhor possível. O carinho do povo comigo foi o que me motivou a vir novamente para cá. Eu vim a primeira vez em julho de 2017, fiz uma semana de missão junto aos outros 15 jovens e, na hora de ir embora, fui com dor no coração, tristeza, lágrimas e as pessoas com o mesmo sentimento. Quando chegamos pela primeira vez, fomos muito bem acolhidos. Voltei uma segunda vez, em setembro de 2017, na Festa da Padroeira. Vim sozinha e fui muito bem acolhida, muito acalentada pelo povo. Aí veio o desejo de voltar e fazer uma experiência maior, recebi essa resposta do povo, que pediu para eu ficar aqui. Só confirmei meu chamado.

Quando cheguei, fui muito bem recebida e ainda sou. As pessoas me tratam com muito carinho, com muito amor. Sempre tem alguém para me ajudar quando eu preciso. Quando você vem para um lugar que é longe de tudo e você é bem acolhida, a missão fica muito mais fácil. Esse carinho do povo foi o ponto máximo para eu ficar aqui. Eu não sei se conseguiria estar num lugar, mesmo para servir a Cristo, onde eu não fosse bem acolhida, onde eu sentisse que as pessoas não gostassem de mim.

Site Franciscanos – Quais são os seus planos para o futuro?

Aline - O futuro está na mão de Deus, como a minha vida também está entregue a Ele. Se hoje estou aqui, é porque eu ouvi o chamado d’Ele. Vou ficar nessa missão até quando Ele achar que eu devo ficar. Da mesma maneira que ouvi o chamado d’Ele para estar aqui, se for da vontade de Deus que eu retorne para minha comunidade de origem, lá eu estarei. Vou para onde Ele me guiar. A minha vida é guiada por Deus. Eu louvo e agradeço todo dia por Ele estar conduzindo a minha vida, e está conduzindo muito bem. A proposta inicial é ficar por um ano. Hoje tenho emprego para me sustentar. Pretendo ir ao Rio de Janeiro no fim do ano, passar as férias escolares e voltar no ano que vem. Aqui participo de uma escola sacramental, onde nos preparamos para receber o ministério da Eucaristia e da Palavra. Estou fazendo a missão e estudando também. Se for da vontade d’Ele que eu fique aqui mais um ou dois anos, ficarei. O quanto for necessário, o quanto Ele quiser que eu fique aqui. Eu pedi muito a Deus uma mudança de vida, um sentido novo para minha vida e Ele me deu. Vou aproveitar ao máximo desse desejo concedido por Ele para mim. Onde Ele mandar, eu irei. O futuro de fato a Deus pertence e o meu futuro, presente, a vida inteira, pertencem a Ele.