São Francisco: inspirado pela cruz

Frei Jack Wintz

A oração de Francisco de Assis diante do Crucifixo não começa com “Ai de mim” ou alguma triste miséria do coração. Em vez disso, concentra-se na glória e sublime beleza de Deus.

“Altíssimo e glorioso Deus”: Apenas dizendo as palavras com um espírito de louvor, meu coração se torna mais leve. Sinto como se estivesse envolvido na gloriosa presença de Deus! A oração começa – como toda boa oração deve começar – com palavras de adoração.

A adoração tem um jeito de tirar-me da minha autorreferencialidade e ansiedade. A própria adoração ajuda a iluminar a escuridão do meu coração.

Agrada-me que Francisco use a palavra coração em vez de mente quando ora: “Ilumine as trevas do meu coração”. A palavra mente leva-me muito à minha cabeça. E esse não é o verdadeiro São Francisco. ‘Coração’ é muito São Francisco. O coração sugere as complexidades do amor humano e o mistério do anseio mais íntimo de alguém – com todas as suas alegrias e tristezas.

A visão do amor ardente de Cristo

Francisco, naturalmente, tinha um coração muito sintonizado com o mistério do amor transbordante de Deus. Uma vez, enquanto rezava em um lugar solitário, Francisco teve uma visão de Cristo olhando para ele da cruz com um amor tão intenso e ardente que “sua alma se derreteu”, segundo seu biógrafo, São Boaventura. Só podemos acreditar que, após este evento de derreter a alma, cada vez que Francisco orou diante de um crucifixo, ele experimentou um derramamento similar do incrível amor de Deus.

E quando Francisco pede em sua oração: “Dai-me uma fé reta”, essa fé reta de alguma forma implicaria essa mesma visão transformadora do coração do amor transbordante de Deus, um amor pelo qual Deus nada retém de nós! Esse é o tipo de fé correta que Francisco – assim como você e eu – solicitamos nesta oração. E essa fé reta, que é o cerne glorioso da autorrevelação de Deus, não ilumina a escuridão de nossos corações?

Em seguida, São Francisco pede na oração por “esperança certa” que deriva da “fé reta”. E onde há um lugar melhor para encontrar essa esperança segura do que na ressurreição de Jesus? Os discípulos literalmente testemunharam a esperança certa quando o Cristo Ressuscitado apareceu para eles naquele primeiro domingo de Páscoa. Eu penso especialmente no apóstolo Tomé. O Ressuscitado iluminou de tal maneira o coração obscurecido pela dúvida deste apóstolo que Tomé, em adoração, proclamou sem hesitação: “Meu Senhor e meu Deus!” (cf. Jo 20,28).

Isso possibilita que São Francisco responda ao amor de Deus com o mesmo tipo de generosidade total. Francisco ainda pede a Cristo “sensibilidade e conhecimento, a fim de que eu cumpra o vosso santo e veraz mandamento”. Esse “mandamento” é realmente o plano glorioso de Deus para que todos os filhos de Deus perseverem no amor de Cristo e um dia ressuscite com Cristo no abraço amoroso de Deus.

A cruz de São Damião

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Documentos franciscanos do século XIII indicam que o crucifixo diante do qual São Francisco rezava essa oração não era outro senão o famoso crucifixo na pequena capela de São Damião, perto de Assis. Este amado crucifixo, conhecido pelos seguidores de São Francisco em todo o mundo, é conhecido como a Cruz de São Damião.

O corpo de Cristo, tal como pintado nesta cruz, não é sangrento ou torcido em angústia. Em vez disso, seu corpo é bastante luminoso, como se já estivesse ressuscitado, irradiando a plenitude de Deus. Em vez de uma coroa de espinhos, esta imagem de Cristo tem uma auréola gloriosa. Seu corpo, com os braços estendidos, parece estar subindo para o céu. Em resumo, a imagem sugere claramente o Jesus ressuscitado.

Se, de fato, era essa a imagem de Cristo sobre a qual São Francisco estava olhando quando esta oração surgiu em seu coração, faz sentido que Francisco se dirigisse a Jesus como “Altíssimo e glorioso Deus!”

Ó glorioso Deus do amor transbordante, ilumine as trevas do meu coração!

Oração de Francisco Antes do Crucifixo

Altíssimo, glorioso Deus,
iluminai as trevas do meu coração,
dai-me uma fé reta,
uma esperança certa
e uma caridade perfeita;
sensibilidade e conhecimento, Senhor, a fim de que eu cumpra
o vosso santo e veraz mandamento. Amém.

Via Franciscan Media