Nova etapa formativa marca o Pós-Noviciado no Largo São Francisco
27/02/2026

“O princípio que guia a definição das escolhas e métodos que dão corpo ao processo formativo da Província, bem como de todas as demais Entidades Religiosas, é a reflexão acerca da sua identidade e da sua missão.” (Programa Formativo Provincial)
Após amplo e profundo debate, o Programa Formativo Provincial passou, nos últimos anos, por mudanças estruturais significativas. Com o desejo constante de responder aos apelos do mundo contemporâneo, a Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil buscou rever e atualizar o seu itinerário formativo.
Depois de consultas, assembleias, plenárias e fóruns, a Província apresenta sua nova linha condutiva formativa, reafirmando a centralidade da identidade e da missão franciscana no processo de formação.
Entre as mudanças mais significativas está a transferência do Pós-Noviciado da Fraternidade São Boaventura, em Campo Largo (PR), para a Fraternidade São Francisco de Assis, na cidade de São Paulo. A mudança não se restringe ao endereço; trata-se também de uma nova perspectiva de ver, servir, ser e estar em missão.

Cabe recordar que esta etapa compreende o Tempo da Profissão Temporária, período que vai da Primeira Profissão até a Profissão Solene, com duração mínima de quatro anos.
Durante essa fase, o frade de profissão temporária aprofunda sua vocação como Frade Menor por meio de uma formação sistemática que garante um tempo qualificado de estudo, integrando Franciscanismo, Filosofia, Teologia e outras ciências humanas e pastorais. Em clima de fraternidade, oração, contemplação, minoridade e pobreza, o estudo e a reflexão favorecem a interiorização dos valores do carisma, formando o coração, o pensamento e as atitudes segundo a nossa identidade (cf. EEGG 106; VC 71).
No atual formato, no início e no término de cada semestre, os formandos participam de semanas intensivas com professores convidados, que oferecem introduções e aprofundamentos nos conteúdos preparados para o período. Dando continuidade a esse caminho, nesta semana, os frades vivenciaram o segundo Regime Concentrado de Formação: uma intensa semana de estudos em Filosofia e Pensamento Franciscano com o professor Frei João Mannes.
Além dessas semanas intensivas, os formandos participam, ao longo do semestre, de aulas regulares semanais.

Aproveitando a visita de Frei João Mannes, ele nos concedeu uma significativa entrevista sobre a importância da Filosofia e do Pensamento Franciscano na formação dos novos frades. Acompanhe, a seguir, a entrevista na íntegra.
– Em seu livro “Experiência e Pensamento Franciscano”, o senhor afirma que o pensamento franciscano nasce de uma experiência antes de se tornar elaboração conceitual. Como não perder essa primazia da experiência no estudo acadêmico?
Frei João Mannes – O pensamento dos mestres da Escola Franciscana Medieval fundamentou-se na experiência originária de São Francisco e de seus primeiros companheiros no seguimento de Jesus Cristo: pobre, humilde e crucificado. Os pensadores franciscanos buscaram traduzir esse encontro com a pessoa de Jesus Cristo por meio de categorias filosóficas e teológicas, conferindo rigor racional à intuição mística do Poverello. Assim, o pensamento franciscano é, essencialmente, uma experiência expressa em uma linguagem que só se torna plenamente inteligível à medida que o estudioso se aproxima da vivência espiritual subjacente aos textos-fonte. Desse modo, estudar o pensamento franciscano é um exercício de conhecer, cada vez mais, a experiência que o originou. Afinal, a ciência, conforme argumenta Boaventura, deve conduzir à sabedoria, e esta só é alcançada quando o conhecimento teórico se converte em prática de vida.
– No contexto do novo projeto formativo, por que é fundamental que os frades do Pós-Noviciado aprofundem o estudo da filosofia e do pensamento franciscano?
Frei João Mannes – Como você bem pontuou, no contexto do novo projeto e de todo o processo formativo, é fundamental que os frades se aprofundem nos estudos filosóficos e teológicos franciscanos, pelos motivos já expostos. No entanto, considero igualmente importante promover o aprofundamento em outras áreas do saber, respeitando as aptidões individuais e as demandas das diversas Frentes de Evangelização da Província. Vale ressaltar, contudo, que a prioridade na etapa do Pós-Noviciado é a formação integral, proporcionando experiências que os qualifiquem, cada vez mais, como Frades Menores.

– Como o estudo de Boaventura, Duns Scotus e da Escola Franciscana pode iluminar a missão concreta dos frades hoje e que contribuição específica o pensamento franciscano pode oferecer ao mundo marcado pelo individualismo e crise de sentido?
Frei João Mannes – O estudo dos grandes expoentes da Escola Franciscana deve iluminar nossa vida e missão, pois traduz uma experiência existencial que se caracteriza como franciscana. Sob a inspiração de Francisco de Assis, esses mestres oferecem uma visão singular sobre Deus, a criação, o mistério da Encarnação, o ser humano e a natureza. E para superar o individualismo que impera na atualidade, Francisco convida-nos a praticar valores como liberdade, solidariedade, justiça e compaixão, respeito à alteridade e o cuidado com a vida. Enfim, Francisco nos ensina que o sentido pleno da existência reside no dom sincero de si mesmo ao próximo.
– O senhor fala em seu livro de uma “aurora de uma nova civilização”. O que caracteriza essa nova civilização à luz do pensamento franciscano?
Frei João Mannes – O pensamento franciscano é a aurora de uma nova civilização porque, iluminados pelo Sol de Assis, somos interpelados a ser éticos, afetuosos, solidários e compassivos com todas as formas de vida existentes no universo. Enfim, habitando a casa da liberdade, do amor e da responsabilidade socioambiental, realizamos o sonho de uma nova civilização.
– Para finalizar, que conselho o senhor daria aos frades do Pós-Noviciado que desejam unir estudo e vida espiritual profunda?
Frei João Mannes – Primeiramente, gostaria de salientar que o estudo rigoroso e a vida espiritual profunda não se contrapõem; ao contrário, exigem-se mutuamente no processo de uma formação integral. O estudo acadêmico é inerente ao processo formativo pelos motivos já explicitados anteriormente. Além disso, o mundo complexo em que vivemos exige de nós um grande esforço intelectual para compreendê-lo e para nele anunciar, com qualidade, o Evangelho. Enfim, estudo e presença profética no mundo não são dimensões isoladas, mas se interpenetram e formam uma dinâmica espiral no cotidiano da vida religiosa consagrada. Assim, o meu conselho é que aproveitem bem todas as oportunidades de estudo e as demais experiências que lhes são proporcionadas nesta nova modalidade de formação Pós-Noviciado, inserida em contextos geográficos mais desafiadores.
Por Cristian dos Santos Lopes


