Clara de Assis: formação para a transparência

Vida consagrada, vida franciscana,  vida das irmãs de Santa Clara.  Conservar o que vem do passado e  abrir as portas do amanhã.  Vida de transparência.  Buscar estruturas também diáfanas.  Frei  Giacomo Bini, OFM, antigo Ministro  Geral  dos frades menores, visitou inúmeros mosteiros de clarissas. Extraimos este texto de uma coletânea de pronunciamentos de Frei Giacomo dirigidos às  Irmãs de Santa  Clara.

 Uma vida para Deus

             A vida consagrada expressa-se teologicamente  na  ordem do sinal:  manifesta, indica que o Reino de Deus está entre nós.  Isto tem um peso profético muito forte no ser e no fazer, na vida pessoal e fraterna, no estilo de vida concreto e cotidiano. Tudo deve “conduzir, lembrar, assinalar, indicar”. Porém para “conduzir” ao Reino é necessário uma transparência, “que seja um sinal claro” e estrutural, necessário uma contínua purificação de nossas convicções, de nossas imagens de consagrados, de pessoas que pertencem ao  Senhor  “como testemunhas  da luminosa presença do Senhor em meio a nós”  (Bento XVI).  Vida que é revelação: revela o amor do Pai pelos homens, manifesta uma vida  totalmente orientada para o Reino, uma vida serena e reconciliada consigo mesmo e com os outros. Somos chamados a liberar esta imagem que habita em nós para fazê-la brilhar em nós e ao nosso redor, remetendo-a a Ele, ao Deus da vida. Isto supõe uma visão unificada de nossa vida.

 Fidelidade é também mudar

Se de uma parte ocorre “habitar” serenamente a própria corporeidade, os próprios gestos, a própria palavra, as próprias ações, de outra é necessário tornar transparentes e significativas as estruturas nas quais a vida consagrada está inserida no cotidiano.  É importante não viver para as estruturas, mas torná-las sinais vivos, eloquentes e provocativos para encaminhar, nós e os outros, na direção do Evangelho.  Elas, essas estruturas, devem estar a serviço de valores, e não vice-versa.

Quão fácil é transformar a vida religiosa numa moldura vazia, fazer das estruturas a razão de nossa vida esquecendo, inclusive, o mandamento do amor. Quão difícil é adaptar ou criar novas estruturas  mais eloquentes, mais significativas, mais transparentes, sobretudo nesse mundo que muda com tanta rapidez, num mundo habituado à imagem dos sinais!

Ser fiel não significa repetir, mas responder a Deus que pede em cada estação, em cada etapa uma resposta nova! O verdadeiro consagrado é fiel a Deus e ao homem de seu tempo:  é um apaixonado por Deus e pelo homem.  A fidelidade ao carisma não significa imutabilidade rígida e estrutural, mas requer a capacidade de tornar vivas e eloquentes todas as estruturas e mediações tanto para nós como para os outros.  Portanto,  formar-se e viver a transparência  exige um empenho sério que possa convergir para uma única paixão a nossa experiência espiritual.

Frei Almir Guimarães