Vida CristãNotícias › 08/01/2014

Confira a reflexão de Frei Almir para este mês de janeiro

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É com indisfarçada alegria que começamos neste mês de janeiro a oferecer a nossos “frequentadores”  textos e reflexões para um eventual retiro mensal. Pensamos nos religiosos franciscanos, nas religiosas e também nos franciscanos seculares e naqueles que simplesmente são amigos de Francisco e de seu jeito de ser. O tema do mês de janeiro pode ser expresso deste modo:  precisamos sempre de novo nos deixar cativar pelo Cristo. Há orações,  indicações de leituras das Sagradas Escrituras, uma reflexão central apoiada desta vez em testemunhos e outros textos. Tendo a mão este roteiro poderá ser feito um retiro pessoal ou em fraternidade.

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM
freialmir@gmail.com

ENCONTRO PESSOAL COM CRISTO

Que o Senhor Jesus volte a nos cativar

oracao

Ó Eterno, dize-me o tempo de minha vida,
qual a medida de meus dias.
Conheço bem minha fragilidade
Se existo e persisto na vida devo tudo à generosidade de teu amor.
Na verdade todo homem é como um sopro.
Ele passeia como uma sombra e todo
rumor que produz nada é senão vaidade.
Que posso esperar, Senhor?
Tu és a minha esperança.
Perdoa minha faltas.
Escuta meus pedidos, ó Eterno!

(Sl 39-38 adaptado).

texto

João  1, 35-51 (ler na Bíblia)

seguimento

Reflexão

Cristãos que somos pretendemos ser discípulos do Senhor. Cultivamos e cultivaremos cada vez mais intensamente nossa amizade pessoal pelo Senhor. Sentimos que precisamos de despojamento, simplicidade e gosto de mergulhar no silêncio. Discípulo e Mestre caminham juntos e caminham a vida inteira.

● O ideal mais decidido de Francisco: “Sua maior intenção, seu desejo principal e plano supremo era observar o Evangelho em tudo e por tudo, imitando com perfeição, atenção, esforço, dedicação e fervor os passos de Nosso Senhor Jesus  Cristo no seguimento de sua doutrina. Estava sempre meditando em suas palavras e recordava seus atos com muita inteligência. Gostava tanto de lembrar a humildade de sua encarnação e o amor de sua paixão, que nem queria pensar em outras coisas” (1Celano 84).

 Quando chegam os irmãos, Francisco compreende que viverão todos do Evangelho e buscarão a amizade com Cristo: “Depois que o Senhor me deu irmãos ninguém me mostrou, o que eu deveria fazer, mas o Altíssimo mesmo me revelou que devia viver segundo a forma do Santo Evangelho. E eu o fiz escrever com poucas palavras e de modo simples e o Senhor Papa mo confirmou”  (Testamento 14).

● Caminho de formação do seguidor de Jesus:  “Olhamos para Jesus o Mestre que formou pessoalmente a seus apóstolos e discípulos. Cristo nos dá o método: “Venham e vejam” (Jo 1, 39). “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”(Jo 14,6). Com ele poderemos desenvolver as potencialidades que há nas pessoas e formar discípulos missionários. Com perseverante paciência e sabedoria, Jesus convidou a todos que o seguissem. Àqueles que aceitaram segui-lo, os introduziu no mistério do Reino de Deus, e depois de sua morte e ressureição os enviou a pregar a Boa Nova na força do Espírito” ( Doc. Aparecida, 276).

● O seguimento é fruto de uma fascinação pelo Mestre: “O caminho da formação do seguidor de Jesus lança suas raízes  na natureza dinâmica da pessoa e no convite pessoal de Jesus Cristo que chama os seus pelo nome e estes o seguem porque lhe conhecem a voz. O Senhor despertava as aspirações profundas de seus discípulos e os atraía a si  maravilhados. O seguimento é fruto de uma fascinação que responde ao desejo da realização humana, ao desejo de vida plena. O discípulo é alguém apaixonado por Cristo, a quem reconhece como mestre que o conduz e acompanha”  ( Doc. Aparecida, 277).

● Quando o Senhor chama não quer que a resposta demore a ser dada.  Há uma urgência. Chama:  “Vem  e segue-me!”   O Senhor  pede pressa:  “O Senhor é impaciente: quer que o chamado responda logo à ocasião oferecida. Esta espécie de “pressa divina” é sublinhada em diferentes textos vocacionais dos evangelhos:  imediatamente deixaram as redes e o seguiram (Mc 1, 18). Imediatamente Jesus os  chamou e eles puseram-se a segui-lo (Mc 1,20);  Jesus disse: “Segue-me”. “Ele se levantou e seguiu-o” (Mc 2,14). Ao imediatamente do chamado corresponde o imediatamente da resposta. Elemento para seguir o Mestre é  abandono ou desapego  dos bens. Exige-se um desapego radical de tudo e de todos, de modo a estar plenamente disponível  para segui-lo. Para ir atrás dele expeditamente, é preciso deixar a existência de antes.  No entanto, não é  um simples e obre deixar,  mas é uma opção.  De fato nos textos evangélicos não é colocado tanto o acento  no deixar como no seguir.  “(…)  deixaram as redes e seguiram” (Mc 1, 18)  (…) e eles deixando o pai, puseram-se a seguir Jesus” (Mc 1,20).  “Ele se levantou e seguiu-o” (Mc 2,14). Portanto, o “deixar” não é fim em si mesmo, mas está em função do “seguir”. É o verbo seguir que caracteriza o discípulo e não o termo aprender, muito menos o “deixar”.  O desapego, o abandono, o deixar constituem o momento negativo; ao contrário, o momento positivo é constituído por aquilo que se tem em contrapartida. Deixa-se uma existência por outra; abandona-se todo o resto para viver a aventura da “sequela Christi” (Ubaldo Terrinoni,  Projeto de pedagogia evangélica,  Paulinas, p. 46-47).

● Os que se encontram com Jesus e ouvem seu chamado passam por um processo de transformação que sempre foi designado pela palavra conversão.  “A pessoa divina de Jesus investe e envolve de algum modo o chamado que lhe muda o projeto de vida, o modo de viver, de pensar e de agir. Lentamente, o discípulo se encontra com um  novo modo de escolher e de avaliar as coisas, as pessoas, os acontecimentos. O mestre Jesus exerce sobre o discípulo tal poder de atração que se torna irresistível! O apóstolo Paulo  dirá de si que foi “agarrado”  por  Jesus Cristo (Fl 3, 12)  (Terrinoni, op.cit., p. 47).

● O Papa Francisco na Exortação Apostólica Evangelli Gaudium   mostra que precisa haver um laço estreito entre o encontro pessoal com o Senhor e a tarefa da evangelização  -  A primeira motivação para evangelizar é o amor que recebemos de Jesus, aquela experiência de sermos salvos por ele, que nos impele a amá-lo cada vez mais. Um amor que não sentisse necessidade de falar da pessoa amada, de apresentá-la, de torná-la conhecida, que amor seria? Se não sentimos o desejo intenso de comunicar Jesus, precisamos nos deter em oração para lhe pedir que volte a cativar-nos.  Precisamos implorar a cada dia a sua graça para que abra o nosso coração frio e sacuda nossa vida tíbia e superficial. Colocados diante dele com o coração aberto, deixando que ele nos olhe, reconhecemos aquele olhar de amor que descobriu Natanael no dia em que Jesus se fez presente e lhe disse: “Eu te vi, quando estavas debaixo da figueira” (Jo 1,48). Como é doce permanecer  diante de um crucifixo ou de joelhos diante do Santíssimo Sacramento, e fazê-lo simplesmente para estar  à frente de seus olhos!  Como nos faz bem deixar que ele volte a tocar nossa vida e nos envie para comunicar a sua vida nova!  Sucede, então, que, em última análise  “o que nós vimos e ouvimos, isto anunciamos” (1Jo 1,3). A melhor motivação para se decidir a comunicar o Evangelho é contemplá-lo com amor, é deter-se em suas páginas e lê-lo com o coração. Se o abordarmos dessa maneira, sua beleza deslumbra-nos, volta a nos cativar constantemente. Por isso, é urgente recuperar o espírito contemplativo que nos permita redescobrir, a cada dia, que somos depositários de um bem que humaniza e ajuda a levar uma vida nova. Não há nada melhor a transmitir aos outros” ( n. 264).

seleto

Carinho e ternura de Francisco por Cristo

● A recordação de Jesus crucificado permanecia constantemente em sua alma, como a bolsa de mirra  sobre o coração da esposa do  Cântico dos Cânticos, e na veemência de seu amor estático ele desejava ser inteiramente transformado nesse Cristo crucificado. Uma de suas devoções particulares era, durante os quarenta dias que seguem a Epifania que é tempo de retiro de Cristo no deserto, procurar a solidão e, oculto em sua cela, dedicar-se ininterruptamente, observando um jejum  rigorosíssimo, à oração e ao louvor de Deus. Nutria por  Cristo um amor tão ardente, e seu Bem-amado correspondia-lhe com uma afeição tão familiar, que o servo de Deus imaginava ter diante  dos olhos a presença quase contínua do Salvador; ele mesmo, por diversas vezes, o disse confidencialmente a seus irmãos. O sacramento do Corpo do Senhor o inflamava de amor até o fundo do coração: admirava, espantado, misericórdia tão amável e amor tão misericordioso. Comungava muitas vezes e com tanta devoção, que comunicava aos outros sua devoção  quando todo inebriado do Espírito e inteiramente absorto em saborear o Cordeiro, era arrebatado em frequentes êxtases.

São Boaventura, Legenda Maior  IX, 2

final

TU ÉS MEU ALIMENTO

Senhor, tu és meu alimento e minha  bebida:
quanto mais me nutro de ti, mais fome tenho,
quanto mais bebo, mais sede sinto,
quanto mais possuo, mais desejo.

Tu és mais doce a meu paladar que um favo de mel,
estás acima de toda medida mensurável.
Permanecem em mi fome e desejo.
Tu és inesgotável.

És tu que devoras ou eu que me absorves ou eu que te devoro?
Não sei. No fundo de minha alma sou absorvido e te devoro.
Queres que eu seja um contigo
Mas não consigo livrar-me de minhas coisas
Para adormecer em teus braços.

Nada posso fazer a não ser agradecer-te, honrar-te,
porque tu és a minha vida eterna.

Ruysbroeck  (Místico da Renânia do sec. XVI)