Vida CristãLiturgia dominical

15º Domingo do Tempo Comum

mensageiros-820

A missão dos discípulos

1ª Leitura: Am 7,12-15
Sl 84
2ª Leitura: Ef 1,3-14
Evangelho: Mc 6,7-13

-* Jesus começou a percorrer as redondezas, ensinando nos povoados. 7 Chamou os doze discípulos, começou a enviá-los dois a dois e dava-lhes poder sobre os espíritos maus. 8 Jesus recomendou que não levassem nada pelo caminho, além de um bastão; nem pão, nem sacola, nem dinheiro na cintura. 9 Mandou que andassem de sandálias e que não levassem duas túnicas. 10 E Jesus disse ainda: «Quando vocês entrarem numa casa, fiquem aí até partirem. 11 Se vocês forem mal recebidos num lugar e o povo não escutar vocês, quando saírem sacudam a poeira dos pés como protesto contra eles.» 12 Então os discípulos partiram e pregaram para que as pessoas se convertessem. 13 Expulsavam muitos demônios e curavam muitos doentes, ungindo-os com óleo.


* 6b-13: Os discípulos são enviados para continuar a missão de Jesus: pedir mudança radical da orientação de vida (conversão), desalienar as pessoas (libertar dos demônios), restaurar a vida humana (curas). Os discípulos devem estar livres, ter bom senso e estar conscientes de que a missão vai provocar choque com os que não querem transformações.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

ACOMPANHE A REFLEXÃO EM VÍDEO

mensageiros-820

Jesus envia seus mensageiros

Num contexto amplo que evoca a preparação dos discípulos, Jesus manda estes para uma missão urgente, não permitindo que levem mais do que o estritamente necessário: um par de sandálias e o bastão do profeta itinerante. Comparando com 2Rs 4,29 (a pressa de Giezi, levando o bastão de Eliseu), temos a impressão de que se trata de uma coisa de vida ou morte. (Esta pressa ficou melhor conservada ainda na outra ver­são, em Lc 10,4: não devem entrar em casa de ninguém só para saudá-lo, nem mesmo podem saudar alguém no caminho.) A efervescência da missão de Jesus, anunciando a proximidade do Reino de Deus, teve esta característica: a última chance!

Mc insiste, porém, sobretudo na “imitação de Cristo”. Os apóstolos recebem dele “autoridade” (assim como Eliseu, da parte de Elias: 2Rs 2,9-15) para curar, exorcizar e fazer os sinais que ele fazia. Essa imitação inclui também o ser rejeitado (Mc 6, 11; cf. 6,1-6a, dom. pass.). Nesse caso, deverão sacudir o pó de suas sandálias em testemunho contra a cidade que não os receber: a cidade teve sua chance (cf. Ez 2,5; dom. pass.).

Neste ponto, o evangelho tem ligação com a 1ª  leitura: o profeta Amós, rejeitado pelo sacerdote Amasias de Betel (em Israel, reino do Norte) e intimado a voltar à sua região de origem, Judá (reino do Sul). As razões do sacerdote são razoáveis; Amós pa­rece um daqueles nabis profissionais, videntes carismáticos, muitas vezes pouco fide­dignos e desprezados pelo povo (cf. 1 Sm 10,11). “Não, diz Amós, eu não sou um vi­dente profissional, não viro a cabeça das pessoas para ganhar dinheiro. Sou um homem com duas profissões bem honestas: pastor e cultivador de sicômoros. Mas Deus é que me tirou de trás do rebanho e me forçou a profetizar, fora de minha terra, em Israel”.

Amós pertence a um novo tipo de profetas, não mais os tradicionais videntes, mas representantes dos movimentos de renovação religiosa, dos quais o mais marcante é o que produziu o livro do Deuteronômio. Eles se sabem enviados por Deus, mesmo a re­giões fora de sua jurisdição natural, com uma mensagem de conversão. Conhecidos são os oráculos pouco reverentes de Amós contra a aristocracia de Samaria (cf. a se­qüência da presente leitura: Am 7,16-17; ou as advertências às senhoras de Samaria em Am 4). É este o tipo de missão que a liturgia de hoje evoca, na 1ª leitura e no evangelho: uma advertência ao povo instalado, para provocar sua conversão. Missão por inicia­tiva de Deus, muitas vezes contra a vontade do próprio profeta, para denunciar e assim lograr conversão. Ora, no N.T. esta missão é acompanhada por sinais de benevolência, pois o Reino que eles manifestam presente é um Reino de graça e misericórdia.

O enviado não executa sua missão como ganha-pão. Deus revoluciona sua vida, e tem uma mensagem revolucionária a lhe confiar. Impelido por Deus, acolhido ou rejeitado pelos homens, eis a vida do enviado, ao modelo de Jesus Cristo. Na Igreja, como no antigo Israel, os porta-vozes oficiais transformaram, às vezes, a missão em ganha-pão. Mas cada época da história da Igreja é marcada por movimentos de renovação pro­fética, para que se realize sempre de novo o que Paulo resume vigorosamente em 2Cor 5,14:  “A caridade de Cristo nos impele”.

A 2ª leitura é o rico início de Ef, resumindo a palavra que deve ser anunciada, o “evangelho” de Paulo (1,13), como bênção de Deus em Jesus Cristo, eleição e vocação à santidade, “projeto”(predestinação) de adoção filial, e tudo isso, graças ao sangue do Cristo, que nos remiu. Ele remiu tudo para Deus; tudo é agora dele. Por isso, o plano de Deus é: recapitular tudo em Cristo. Dando crédito à realidade anunciada no evangelho (a “Palavra da Verdade”, 1,13), recebendo a garantia de Deus: seu Espírito, penhor de nossa herança, antegosto daquilo que esperamos. É notável o contraste entre a situação original da pregação de Jesus (a efervescência apocalíptica da iminente irrupção do Reino) e a interpretação bem mais espiritual da realidade escatológica em Ef. Há mais de trinta anos de distância; dirige-se a uma outra cultura. Mas é substancialmente a mesma mensagem: não deixeis escapar a realização da promessa. A aclamação ao evangelho sublinha bem a atitude que devemos adotar diante dessa mensagem.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

mensageiros-820

Evangelizar

Amós não era profeta nem “filho de profeta” – termo bíblico para dizer discípulo (1ª leitura). Não ganhava seu pão profetizando. Era pastor e agricultor. Tampouco era cidadão da Samaria; era de Judá, que vivia em conflito com os samaritanos. Mesmo assim, Deus o escolheu para dar um sério aviso ao sacerdote de Betel, santuário da Samaria.

Tampouco eram missionários profissionais os doze que Jesus enviou a anunciar a proximidade do Reino de Deus (evangelho). Estavam entregues à sua missão, à boa-nova que  deviam anunciar. Estavam entregues à hospitalidade das casas que encontrassem. Recebiam, sim, de Deus, o poder de fazer uns discretos sinais, curas, exorcismos. Nada  deviam ter de si mesmos: nem dinheiro, nem roupa de reserva. Só sandálias e um bom cajado para caminhar. Pois deviam avançar com pressa. O tempo se cumpriu!

Na encíclica Evangelii nuntiandi, o Papa Paulo VI escreveu que cada evangelizado deve ser evangelizador. Se acreditamos na boa-nova do Reino, não a podemos esconder aos nossos irmãos. Se acreditamos que a prática de Jesus inaugurou a salvação do mundo e mostrou o caminho para todas as gerações, não podemos guardar isso para nós. O mundo tem de ouvir isso. “Como poderão crer, se não ouvirem”(Rm 10,14). Quem crê verdadeiramente, tem de evangelizar. Mas como?

Não precisa ser especialista, capaz de discutir nas ruas e nas praças. Nem precisa de treinamento para aprender a enrolar as pessoas ingênuas e tirar um “dízimo” ou uma “aposta” de quem nem tem dinheiro pra criar os seus filhos… Jesus deu aos doze galileus poder de curar e de expulsar demônios. (Naquele tempo chamava-se demônio qualquer doença inexplicável, sobretudo de ordem psíquica). Ou seja, Jesus lhes deu força para fazer bem ao povo ao qual anunciavam a proximidade do Reino. Esses gestos eram um aperitivo do Reino. O bem que muitas pessoas fazem em sua generosa simplicidade é um aperitivo do Reino de Deus. Já  tem o gostinho daquilo que chamamos o Reino – quando é feita a vontade do Pai, como rezamos no Pai-Nosso.

A própria prática do Reino é anúncio do Reino – provavelmente, o anúncio mais eficaz. Vendo a prática do Reino, as pessoas vão perguntar o porquê: as “razões de nossa esperança” (1Pd 3,15). Se nos comportarmos com simplicidade, entregues àquilo em que acreditamos, ajudando onde pudermos – mas sem apoiarmos causas erradas, estruturas injustas – o mundo perguntará que esperança está por trás disso, que fé nos move, que amor nos envolve. Então, responderemos: o amor que aprendemos de Jesus, que deu sua vida por nós.

A palavra do pregador será fidedigna, se acompanhada de uma prática que mostre o Reino… na prática.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes