Projeto franciscano fortalece a voz da população em situação de rua
16/03/2026

Defender direitos é parte essencial da atuação do Sefras – Ação Social Franciscana. Dentro da metodologia institucional da organização, “defender” é muito mais do que um verbo: é um compromisso permanente com o fortalecimento da autonomia política dos sujeitos e dos movimentos sociais.
Isso significa estimular a participação social, produzir conhecimento e enfrentar as violações de direitos que atingem populações em situação de vulnerabilidade. Entre as ações desenvolvidas pelo Sefras estão:
- Fortalecer a autonomia política de participantes e movimentos sociais;
- Levantar, sistematizar e disseminar evidências de Violações de direitos;
- Articular propostas com os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário;
- Garantir a defesa dos participantes atendidos pela instituição;
- Sensibilizar a sociedade para o respeito e a defesa dos direitos humanos.
É nesse contexto que surge o projeto Mobilizando para os Direitos e a Participação, desenvolvido pelo Sefras a partir de uma emenda parlamentar. A iniciativa promove espaços de diálogo e formação política com a população em situação de rua, incentivando a participação em instâncias públicas e a reivindicação de direitos.

Para entender melhor como esse trabalho acontece na prática, o Sefras conversou com Matheus Marques, educador e mobilizador político do projeto.
Quem é você e qual é o seu papel no projeto?
Sou Matheus Marques, educador e mobilizador político no projeto Mobilizando para os Direitos e a Participação, viabilizado por uma emenda parlamentar. O objetivo do projeto é dialogar sobre políticas públicas e fortalecer espaços de participação social, como o Comitê Pop Rua (instância municipal que reúne poder público e sociedade civil para acompanhar as políticas voltadas à população em situação de rua).
Na prática, o que o projeto faz?
O trabalho acontece principalmente por meio de atividades em grupo, inspiradas no conceito de educação popular de Paulo Freire. A ideia é construir conhecimento a partir da experiência das próprias pessoas que participam dos serviços.
Ou seja, não é uma lógica professoral. Partimos do diálogo. Conversamos sobre políticas públicas e sobre temas que atravessam o cotidiano da população em situação de rua, como segurança pública, saúde, assistência social e moradia.
A partir dessas conversas, pensamos juntos como organizar as demandas da população e levá-las para os espaços de participação social, para o poder público e para outros movimentos.

Onde o projeto acontece?
As atividades acontecem em duas casas do Sefras de São Paulo — o Recifran e o Chá do Padre —, mas também em outros serviços do município que atendem a população em situação de rua, mesmo que não sejam vinculados diretamente ao Sefras.
Por que falar de política com a população em situação de rua é importante?
Hoje existe um discurso muito forte, muitas vezes ligado a uma lógica neoliberal, de que as situações sociais são resultado apenas de erros individuais.
Mas quando vemos que o Brasil tem mais de 100 mil pessoas em situação de rua, um número que historicamente só cresce, fica difícil acreditar que isso seja apenas uma questão pessoal.
Esse cenário é atravessado por diversos fatores estruturais, como racismo, transfobia, machismo e desigualdade social. Por isso, é importante construir uma leitura mais política dessa realidade.

Existe resistência quando vocês propõem esse debate?
Sim, bastante. Quando falamos que vamos trabalhar o tema da política, muitas pessoas torcem o nariz, achando que vamos falar de campanha partidária ou de candidatos.
Então parte do trabalho é mostrar que política está em tudo: no lugar onde a gente dorme, na comida que a gente tem acesso, na água que a gente bebe, nos serviços públicos que existem ou não existem.
É um processo cuidadoso, que leva tempo, mas que vai despertando esse olhar crítico.
Que resultados você percebe nas atividades?
Esse é um trabalho de formiguinha. É claro que um projeto sozinho não vai resolver o problema da população em situação de rua, ainda mais sendo voltado para uma região específica de São Paulo.
Mas é muito gratificante quando encontro participantes em espaços como o Comitê Pop Rua ou em fóruns de discussão da cidade. Quando vejo essas pessoas participando, questionando, querendo mudar a realidade, percebo que algo está acontecendo.

E no plano pessoal, como você se sente realizando esse trabalho?
É muito gratificante. Estar em contato direto com a população, perceber que o trabalho está sendo útil e que as pessoas estão absorvendo e replicando o conhecimento é algo que dá muito sentido ao que fazemos.
Ao mesmo tempo, é um trabalho que mexe bastante com a gente, porque estamos lidando diariamente com realidades muito duras. Mas ver as pessoas desenvolvendo pensamento crítico e ampliando suas reivindicações — não apenas por acolhimento, mas também por saúde e moradia — dá muito gás para continuar.
Como esse projeto contribui para a defesa de direitos?
Ele contribui principalmente ao levar informação para a população. Informação sobre políticas públicas, sobre direitos existentes e sobre como acessar esses direitos.
Muitas vezes as pessoas não sabem que determinados programas existem. Um exemplo é o Auxílio Reencontro Moradia, uma política municipal de auxílio-aluguel voltada para pessoas em situação de rua. Em muitas atividades, quando perguntamos se os participantes conhecem esse auxílio, a resposta é não.
Quando compartilhamos esse tipo de informação, ampliamos o repertório das pessoas para que possam reivindicar seus direitos e participar dos espaços de decisão.

Qual é a importância do Sefras nesse projeto?
O Sefras, como organização franciscana, tem um compromisso histórico com a defesa das populações mais vulneráveis.
Nas casas onde atuo percebo muita seriedade no trabalho e também liberdade para desenvolver projetos como esse, que envolvem mobilização política e luta por direitos.
Quando pensamos em projetos viabilizados por emendas parlamentares, é importante olhar para o histórico e para os valores das organizações que executam essas iniciativas. E esse projeto está muito alinhado com os objetivos e valores do Sefras.
Quais são os principais desafios para a população em situação de rua hoje?
Um dos principais é o déficit habitacional.
Não estamos falando de falta de moradia. Na cidade de São Paulo existem mais unidades habitacionais do que pessoas em situação de rua. Há estudos que indicam que existem cerca de 20 imóveis disponíveis para cada pessoa nessa situação.
Isso mostra que o problema é estrutural. Por isso precisamos pautar a moradia como prioridade nas políticas públicas.
Esse debate se conecta com a Campanha da Fraternidade?
Sim. A Campanha da Fraternidade 2026 também traz essa reflexão sobre justiça social e dignidade.
Clique aqui para conferir o conteúdo original no site do Sefras
Melissa Galdino – Sefras








