IV. E a família, como vai?

A força da oração do casal e da família

Precisamos de famílias sólidas, novas, famílias que inventem uma maneira nova de viver  no seio dessa comunidade de pessoas que é também Igreja doméstica. Em família não se reza por rezar, mas porque existe uma fome do Altíssimo.

1. Todos estamos convencidos de que o casal e a família necessitam de atenções e de cuidados humanos e pastorais  urgentes, inadiáveis e persistentes. Não é agora o momento de refletir sobre toda a problemática em redor deste tema.  Ficamos muito preocupados em ver que, em muitas paróquias, não se consegue desenvolver uma pastoral familiar de verdade. Somos cristãos, somos casais e famílias cristãs e é fundamental que a oração venha a ocupar um lugar importante na agenda de nossos casais e de nossas famílias. Ficamos encantados com casais e famílias de oração. Há uma força toda especial na oração do casal e da família.

2. Um homem e uma mulher… duas histórias, duas trajetórias, duas vidas que se encontram, dois destinos que se entrelaçam. Um escolhe o outro. Um toma a decisão de fazer uma caminhada  com esta pessoa bem determinada…  Imaginamos aqui  um rapaz e uma moça que sejam cristãos. Não apenas de missa dominical frequente ou esporádica. Pensamos em jovens que, desde a sua adolescência, convivem com o Senhor, pessoas que fazem experiências de grupos onde  se escuta a Palavra, onde se rezam os salmos, onde seus membros adquirem o hábito de dias de recolhimento.  Desculpem, sei que estou idealizando. Mas para falar da força da oração do casal  será preciso que esse mesmo casal já tenha  um passado de intimidade com o Senhor, uma “folha corrida”. Não se chega a uma densa oração da noite para o dia.

3. Imagino um casal  que, na véspera de seu casamento religioso, participa de uma missa,  recolhe-se na igreja e entrega sua vida a Deus.  Que força teria esta oração!  Muitos que se casam, mesmo no religioso,  não  estão  “ligados” ao Senhor. Penso aqui num casal de fé que escolhe padrinhos de vida humana e cristã  densas. Penso num casal que vive  com toda verdade a celebração do sacramento: maridos amarão suas mulheres na força de Cristo, os que se casam são sinais e sacramentos do amor de Cristo pela Igreja.  No amor dos que se casam se insere e se inscreve a presença do Ressuscitado. Quando Cristo ressuscitado se “instala” na vida do casal  não é possível não haver oração conjugal.  Que força ela tem!

4. Esses que se unem no Senhor, constituem a Igreja doméstica. Eles se abrem para o mistério da vida, para a chegada dos filhos. São colaboradores da obra do Criador. São administradores da vida e defensores dela. Colocam crianças no mundo. Tremem diante da responsabilidade. Sabem perfeitamente que precisarão apresentar seus filhos ao Senhor Jesus. Pedindo para eles, os sacramentos da Igreja, os pais, têm consciência de sua missão de primeiros e fundamentais catequistas dos filhos. Um casal que tem apenas um verniz de fé dificilmente poderá realizar sua missão a contento. Sim, os pais cristãos sabem perfeitamente que o futuro de seus filhos no campo da fé depende em boa parte do modo que eles, pais,  iniciam os filhos nesse belo universo da fé cristã. Sabemos todos que isso é tarefa árdua porque muitos esposos estão fragilizados em seu perfil humano e cristão, sabemos que os filhos encontram na internet, nos meios eletrônicos e no ar que respiram  outros atrativos. Com tudo isso que vem acontecendo parece fundamental pensar numa séria e densa pastoral de acompanhamento dos casais.  Não basta apenas um encontro, um evento pastoral  ocasional.  Necessário que o casal se solidifique.

5. Não padece dúvida:  a oração conjugal e familiar, nesse contexto, é de fundamental importância.  Oração não é apenas um movimentar dos lábios. É questão de enamoramento entre o ser humano e o Senhor.  Oração é entrega, é apresentação de nossa fragilidade ao Deus da força e do amor sem limites.  Oração é o grito de um pobre que  precisa estar suspenso ao Senhor.  A oração não é apenas uma ladainha enfadonha de pedidos de coisas que nós mesmos temos que conseguir.  A oração é abandono, entrega, admiração, encantamento, pedido de socorro.  Desde a nossa infância vamos tentando estabelecer com o Senhor esse diálogo amoroso. Importante que ele não se interrompa. Importante que o coração dos orantes seja humilde. Importante que essa oração não seja um mero papaguear dos lábios e aconteça apenas em alguns  momentos de aflição do casal e da família.

6. Vamos agora esmiuçar alguns  momentos concretos de oração do casal e da família:

• Muitas vezes, o casal precisa ter momentos de oração a dois. Num canto da casa, no quarto.  Uns momentos de silêncio, uma invocação do Espírito Santo, um trecho da Escritura, curto e denso, uns momentos de silêncio, um salmo, a entrega da vida a dois a Deus. E o casal se coloca no seio de Deus.  Ou melhor dizendo: o Senhor se torna hóspede de seu relacionamento conjugal.

• Há a oração familiar. De preferência com todos.  Se não for diária, ao menos frequente.  À noite ou em torno à mesa.  Uma família cristã que não reza está dando o seu atestado de fracasso. Momentos de silêncio, também uma Palavra. Preces espontâneas.  Os filhos crescem quando vêm que seus pais colocam sua vida diante do Senhor. Nada de oração demorada, mas densa e que encha de profunda alegria os orantes.

• Importante a missa do casal e da família. A missa de domingo poderia ser preparada em casa, em família ou ao menos em casal.  Escolher o melhor horário do domingo. Viver a missa com toda verdade de cristão e de casal.  Que força!   Tomara que as equipes de liturgia não atrapalhem esta oração com agitação demasiada.

• Tenho sempre em mente alguns casais que conheci e que tinham  hábito da missa cotidiana. Penso que a participação em missas de semana pode fazer com que o casal cresça e tenha mais força.

• Penso ainda na oração de súplica, acompanhada de gemidos e dor.  Há mulheres que precisam ter a coragem de  perdoar um marido infiel.  Há pais perplexos diante das loucuras dos filhos:  filha que se junta a um homem casado,  filhos que colocam filhos no mundo antes da hora,  filhos que se tornam rebeldes, saem de casa.  Marido e mulher   intensificam sua oração,  fazem penitências, e  com lágrimas se apresentam a Deus pedindo sua força e suas luzes. Esta é uma oração cheia de força.

• Penso ainda em casais, e eventualmente famílias, que uma vez ou outra, durante a semana, visitam o Santíssimo Sacramento para louvá-lo e  mostrarem desejo de unir-se a ele.

7. A oração é um gesto gratuito.  Não visa interesse.  Nesses milhares de apartamentos e de casais sobem a Deus a prece pessoas que sentem frágeis para seguirem o Senhor Jesus até o fim. Dessas residências chega até o  Altíssimo esse grito de socorro.  Que bom  se nossas famílias venham a suplicar  a força do Senhor para  que seus membros sejam fortes da na fé.

Frei Almir Ribeiro Guimarães