Voltar ao primeiro amor, o pedido do Conselho da Ordem

Termina amanhã, 28/6, o Conselho Plenário da Ordem dos Frades Menores (CPO). Desde o dia 12/6, 63 frades de todas as Conferências e Entidades do mundo estão reunidos em Nairóbi, no Quênia, para discutir questões importantes para a Ordem, como o fenômeno da migração, a necessidade de dar respostas à juventude, a mudança climática global, a violência, as relação com os meios de comunicação social, entre outros.

“Teríamos que olhar a questão da migração humana, que é um fenômeno/problema comum em todas as Conferências e na Terra Santa. Os desafios emergentes das novas formas de migração humana nos convocam a inventar novas respostas que derivem do nosso compromisso fundamental de Frades Menores, com a finalidade de demonstrar nossa vontade de acolher e acompanhar nossos irmãos e irmãs de modo que reflita o melhor que somos como seres humanos, discípulos do Senhor Jesus ressuscitado, seguidores de São Francisco e membros do corpo de Cristo, a Igreja”, afirma o Ministro Geral, Frei Michael Perry, em sua mensagem final.

Ele destacou também a metodologia de trabalho usada durante o CPO. Nos primeiros dias, as Conferências apresentaram alguns aspectos importantes da realidade eclesial e social em suas regiões e a presença dos Frades Menores nestes locais. Em seguida, os conselheiros discutiram alguns temas em pequenos grupos, usando a metodologia “World Café”, que consiste em uma conversa informal, onde todos podem se manifestar. Em cada mesa existe um frade referencial, um anfitrião, que fica responsável pela introdução do tema, pelo bom andamento das partilhas e pelo resumo do que foi falado.

“O que ficou claro é que, apesar de algumas diferenças muito particulares ou contextuais, muitas coisas nos unem, tanto em termos de identidade fundamental como em termos de restrições específicas e desafios particulares que enfrentamos em maior ou menor medida em todas as nossas entidades”, acrescenta o Ministro Geral.

Em sua mensagem final, Frei Michael destacou que o Governo Geral da Ordem já previa que o CPO não produziria um documento final, mas proveria conteúdo para ser redigido posteriormente, em forma de documento pós-sinodal.

Na carta, traduzida em italiano, inglês e espanhol, o Ministro Geral destacou que desde o Concílio Vaticano II, a Ordem dos Frades Menores se dedica a definir uma identidade clara, fixa e definida do que significa ser frade menor em meio de um mundo e um cosmos que mudam em ritmo cada vez maior. “Estas mudanças aceleradas às vezes deixam uma crescente sensação de perda, desenraizamento espiritual e psicológico e impotência. Um mundo em constante mudança também precisa do desafio que vem de nossa identidade humana, cristã e franciscana”, afirmou Frei Michael.

“Não é de estranhar que os Frades Menores, como a maior parte da humanidade, está buscando o que vários missiólogos descreveram como um processo de identificação e recuperação de “constantes”. Creio que possamos dizer que estas “constantes” são os elementos que consideramos verdadeiros, inalteráveis, permanentes, não sujeitos à pressão das mudanças que se produzem nos ambientes científicos, sociais ou naturais:

1. Relação profunda e permanente com Deus;
2. Compromisso com a fraternidade evangélica;
3. Compromisso de viver e trabalhar com irmãos e irmãs pobres, excluídos e marginalizados;
4. Busca de uma espiritualidade de itinerância a serviço da missão evangelizadora da Igreja;
5. Desejo de abrir-se à Formação permanente e à conversão de mente e coração.

(Cinco prioridades da Ordem)”

Na mensagem, o Ministro Geral chama a atenção para a necessidade de voltar ao primeiro amor, um tema recorrente no CPO. “É necessário um novo pensamento de como viver melhor estes valores centrais de uma maneira que desperte novamente em nosso interior nosso primeiro amor, mas também requer que reinventemos formas específicas pelas quais devemos viver e compartilhar estes valores. Não podemos simplesmente seguir fazendo o que sempre temos feito, como se os “odres velhos” pudessem receber e suportar o “vinho novo”.”, assinalou.

Sobre os novos desafios vividos no mundo, como a questão da migração, ele afirma que os Frades Menores são chamados a responder com coragem e vigor. “Não podemos fugir ou nos escondermos destes desafios que estão nos atropelando – na realidade gritando dentro de nós, de nossas fraternidades e da Ordem. Ainda, estamos chamados pelo Senhor Jesus, por São Francisco de Assis, pelo Papa Francisco e por toda Igreja a abraçar estes desafios e reconhecer dentro deles as oportunidades para reafirmar nosso carisma e para expressar a plenitude de nossa fé e confiança em Deus e nossa crença da presença e imagem de Deus em cada ser vivo (Laudato Sí’). É graças a esta crença e confiança profunda na presença de Deus no mundo, que mais uma vez expressamos nossa profunda disponibilidade de arriscar tudo para o Reino de Deus, um Reino de verdade, justiça, amor, liberdade e perdão, que são os “cinco pilares” da paz (Papa Paulo VI, São João Paulo II).”.

“Uma compreensão franciscana do acontecimento da encarnação nos conduz a abraçar simultaneamente tanto a Cristo como a pessoa humana, a Cristo crucificado e glorificado em São Damião e a colônia de leprosos, indo além das fronteiras humanas de Assis”, acrescenta Frei Michael.

Ele afirmou que o Definitório Geral começará a trabalhar o documento final assim que voltarem do CPO e levarão em consideração todos os temas levantados pelos conselheiros. “Vamos assegurar que não deixamos nenhuma ideia ou perspicácia nova ou útil que possa permitir ao Definitório Geral melhorar nossa maneira de governar e inspirar todos os frades da Ordem a aspirar um sentido mais alto e profundo da vida evangélica”, explicou.

Na conclusão, Frei Michael retomou o texto bíblico que serviu como tema central na preparação e execução do CPO:

“Conheço a conduta de você, seu esforço e sua perseverança. Sei que você não suporta os maus. Apareceram alguns dizendo que eram apóstolos. Você os provou e descobriu que não eram. Eram mentirosos. Você é perseverante. Sofreu por causa do meu nome, e não desanimou. Mas há uma coisa que eu reprovo: você abandonou seu primeiro amor. 5 Preste atenção: repare onde você caiu, converta-se e retome o caminho de antes. Caso contrário, se não se converter, eu chego e arranco da posição em que está o candelabro que você tem. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.” (Ap 2, 3-5.7a)

E fez as seguintes ponderações:

– Este texto nos chama a escuta apaixonada à voz de Deus em nossas vidas, na Igreja, na Ordem e no mundo. Estas são palavras que costumamos reunir, mas isto é, de fato, o chamado desta Escritura. Somos chamados a voltar a nossa paixão original e a escutar o Espírito com esta paixão.

– Este texto não foi selecionado para criticar aos membros do Conselho, mas como um marco, para entender o desafio que enfrentamos coletivamente na animação de nossa fraternidade global. Como Frades Menores, nos aferramos profundamente no Evangelho e no exemplo de Jesus. Sabemos, no entanto, que têm irmãos que se desalentam, que têm perguntas e dúvidas sobre o futuro de nossa Ordem e talvez sentindo-se abatidos porque eles, ou nós, caímos “das alturas”. Esta passagem do Apocalipse nos chama ao arrependimento de nos havermos separado do nosso primeiro amor. Isto não significa que devemos promover um regresso nostálgico ao passado. Não estamos sendo chamados a um novo tipo de enamoramento, que promova uma resposta infantil que pouco fará para ajudar a cada um de nós a aprofundarmos nossa fé, nossa esperança e nossa capacidade de amar e sonhar. Convida-nos a aproveitar a paixão que Deus tem por cada um de nós e levar esta paixão em nosso compromisso com nossos irmãos, a Igreja e o mundo.

– Para que este tipo de compromisso seja autêntico, para sermos fiéis ao nosso chamado de sermos Frades Menores, devemos também aprender de novo como escutar os sonhos e também as decepções que cada um de nós suportamos. Não somente devemos permitir que Deus nos guie até um amor renovado da Trindade, de Deus em nossas vidas, também permitimos que Deus nos guie até um renovado amor de nossos irmãos da Ordem. Devemos aprender novas formas de apoiá-los enquanto passam por estas noites escuras. E devemos celebrar a bondade de nossa vida em fraternidade e o dom da vocação de cada um

– Nossa escuta, no entanto, não pode deixar de escutar a Deus e nossos irmãos da Ordem. Devemos continuar desenvolvendo novas ferramentas e promovendo dentro da Ordem um novo espírito de escutar a voz de Deus falando no mundo, o grito de Deus que se levanta desde o interior do povo de Deus e desde dentro do universo criado por Deus. Nós compartilhamos e escutamos juntos, de modo contemplativo, o que o Espírito está dizendo em contextos dramaticamente diversos. Continuemos esta prática da escuta apaixonada, escutando o Espírito com corações apaixonados. Sejamos embaixadores não somente de uma mensagem, mas também de um método que promove a escuta mútua, o discernimento e a ação coletiva.