A InstituiçãoNotícias › 17/04/2018

O acontecimento espiritual chamado Capítulo

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Reflexões em torno do tema do capítulo

 Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM

 Os ideais são como estrelas: nunca os alcançaremos, mas eles podem nos orientar ( Karl Schurtz).

Um capítulo é sempre uma celebração pascal. Deve ser vivido num contexto essencial de Páscoa, no sentido de que a Páscoa comporta cruz e esperança, morte e ressurreição. Um capítulo não é uma simples reunião de estudo, um encontro superficial ou uma transitória revisão de vida. É portador de uma grande novidade pascal – uma criação  nova do  Espírito –  uma firme empenhada esperança (Cardeal Pirônio).

1. Nós, franciscanos, como outras famílias espirituais no seio da Igreja, estamos acostumados a participar de encontros fraternos e “jurídicos” denominados de “capítulos”. Não poucas vezes aguardamos com espírito alegre e certa ansiedade sua chegada. Penso nos capítulos em geral, embora mais precisamente enfoque aqui os capítulos da I e III Ordens. Tenho em mente tanto os capítulos avaliativos e, de modo especial, os eletivos.

2. Capítulo vem da palavra latina “caput” que quer dizer cabeça. Em outras palavras, reunião principal, cérebro da “organização”, reunião dos pareceres de muitos em vista de se realizar, da melhor maneira possível, aquilo que o Espírito pede para todos. Os irmãos (e irmãs) são convocados para um tempo de avaliação da caminhada ou para a escolha daqueles que deverão prestar um alegre serviço à fraternidade composta de discípulos de Jesus e irmãos de São Francisco. No que concerne ao capítulo eletivo não se trata apenas de uma mudança de quadros ou de uma “troca de cadeiras”, mas de uma retomada do fôlego de um grupo que, por muitas razões, pode se mostrar ofegante. Sangue novo, novas esperanças, tentativa de deixar o marasmo, abanar brasas para que sejam reavivadas. Os que são escolhidos são investidos da missão de tornar presente na Igreja e no mundo o carisma franciscano, ou seja, viver em plenitude o mandato conferido pelo Senhor a Francisco e a seus irmãos. Que fique bem claro: trata-se de um acontecimento espiritual. Decisões e nomes para exercer os serviços precisam ser referendados pelo Espírito.

3. Qual o espírito dos capítulos no tempo de São Francisco? Assim escreve Éloi Leclerc: “Uma ou duas vezes por ano, todos os frades se reúnem em capítulo. Esses encontros desempenham papel importantíssimo na vida da fraternidade. Não são somente um tempo forte durante o qual os irmãos na alegria do reencontro se reabastecem na oração e no louvor, mas também ocasião de tomada de consciência comum: todos e cada um se sentem solidários e responsáveis pela vida do grupo e por sua missão no mundo” (E. Leclerc, Francisco de Assis. O retorno ao Evangelho, p.60). Trata-se de uma cuidadosa e séria revisão da caminhada feita e da elaboração de um programa para o futuro.

4. Precisamos, efetivamente, deixar-nos impregnar do Vento que pode nos questionar e da Chama que pode nos aquecer e iluminar. Os capítulos, em todos os níveis, não se improvisam. Quaisquer que sejam precisam de uma inspiração, de um sopro, de uma prospectiva. Serão perpassados por uma paixão. Onde, com efeito, encontrar esse Sopro?

5. A Ordem Franciscana em todos os seus ramos conheceu um vigor novo no pós-concílio do Vaticano II: retorno ao carisma primitivo e aggiornamento, nova Regra para a OFS, novas Constituições. Conhecemos os bons resultados e, ao mesmo tempo, ínhamos esperado que tudo teria podido ir mais adiante. Conhecemos as transformações operadas em todos os setores da vida humana sobretudo da década de 90 em diante. Como pano de fundo de nossa vida e de nossos capítulos estão estes dois elementos: retorno ao carisma fundante e leitura dos sinais dos tempos. No momento atual, o jeito de viver e de encarar a missão da Igreja do Papa Francisco estará presente nas preparações e realizações de nossos capítulos. O Papa Francisco nos ajuda a descobrir o novo.

6. Através de documentos e textos preparatórios os participantes de um capítulo chegam a colocar no papel partes de um “sonho” a ser realizado. Esse sonho, e somente ele, pode animar a assembleia capitular. Não se trata apenas de uma ou duas palestras bem ou mal assimiladas. Por vezes, a etapa da reflexão é encurtada pela pressa em fazer tudo rapidamente para se poder chegar aos finalmente das eleições. O clima da sala capitular começa a ser feito nas fraternidades.

7. Os relatórios não podem parecer estatísticas e frias constatações. Os que preparam o capítulo e, de modo especial, aquele ou aquela que o preside provocam uma séria revisão: fraternidade, vida de intimidade com Deus e de louvor ao Altíssimo, presença no mundo, ação apostólica, inserção na Igreja local, sentido dos votos. O tema escolhido para um capítulo deveria ser bem elaborado e, durante uns meses, estudado por todos os irmãos. Os que participam de um capítulo deverão “dominar” o tema, terem refletido com certa profundidade e estarem em condições de sugerir pistas. Isso não pode limitar-se a um círculo de reflexão feito depois uma palestra proferida na aula capitular. O tema, já estudado nas fraternidades, será retomado na aula capitular, será rezado na liturgia, fará parte das conversas à mesa e nos corredores. No fundo se trata de descobrir jeito de sermos mais santos, santos diante de Deus, amigos e devotados servidores dos irmãos. O que está em jogo é nossa identidade e nosso destino como família religiosa viçosa. O certo seria que, depois de um capítulo, o documento capitular fosse, de fato, a alma da fraternidade durante um bom tempo.

8. Há sempre o risco que em nossos capítulos fiquemos numa monótona audição de falas, votações, liturgias mais ou menos grandiosas. Insistimos: o Sopro deve a tudo perpassar. Pode acontecer que alguns dos membros da Fraternidade tenham perdido a esperança na transformação do grupo devido a diversos fatores: envelhecimento, rarefação das vocações, dificuldades econômicas e encontrar pessoas capazes de gerir os bens, irmãos que pediram afastamento ou um tempo fora da fraternidade, crises pessoais, atrativo por outras maneiras de se viver o seguimento e diferentes maneiras de agir pastoral e missionariamente. Pode acontecer que em certas circunstâncias o capítulo se torne enfadonho. Os participantes inventam razões para sair antes da hora. Esse fazer por fazer não enche de viço o coração dos capitulares.

9. Insistimos: vivemos um tempo especial da vida da Igreja. Penso na influência do estilo de animação da vida da Igreja implementado pelo Papa Francisco. Fez-se ele um pastor muito próximo de nós. Fala muito de uma Igreja em saída, de uma comunidade misericordiosa que busca e resgata os que estão jogados à beira do caminho. Pede que voltemos ao Evangelho. A radicalidade do Evangelho não é somente pedida aos religiosos, mas a todos os discípulos. Parece que a mentalidade do Papa manifesta em seus documentos e a volta ao espírito do Evangelho são como que o ar que respiraremos em nossos capítulos. Os capítulos precisam despertar em nós a capacidade de sonhar.

10. Sonhar ou estar aberto à utopia. Os que ingressam na sala capitular deveriam ter em mente estas reflexões: “Estar aberto à utopia significa esperar uma sociedade melhor: mais veraz, justa, solidária e trabalhar por ela. A utopia é precisamente a meta que alguém deseja conseguir. A utopia é necessária para dar sentido e sabor à vida, sem ela o combate cotidiano se torna quase insuportável. Para fazer possível a utopia necessário ver o Invisível. Somente aqueles que são capazes de ver o invisível pode a utopia realidade” (Joan Bestard, Diez valores éticos, PPC Madrid, p. 191). Utopia? Pessoas utópicas ou pessoas com senso crítico misturado com esperança?

11. Necessário entrarmos no capítulo sustentados pela esperança. O mesmo autor acima mencionado fala de utopias básicas que podem dar sentido e vigor à nossa existência: utopia da realização pessoal e da comunicação sincera e afetiva com as pessoas; utopia da construção de uma sociedade mais justa, humana e fraterna; utopia de uma natureza não poluída e bela; utopia de uma cultura que fomente o valor da vida e da dignidade de pessoa humana; utopia da tolerância e da paz. Utopia? Busca das estrelas? “Muito importante na vida ter ideais, estrelas que possamos olhar. Sem ideais a vida se torna anódina, monótona e sem gosto. Sem sonhos a existência nos conduz por senda vulgar e triste.

12. Como as pessoas entram e vivem nas terras do capítulo? As mais das vezes vive-se a alegria do reencontro. Quantas novidades temos a dizer uns aos outros! Outros, talvez, venham ruminando certo pessimismo devido a suas experiências pessoais não tão felizes. Vive-se o tempo do capítulo com atenção e um espírito de otimismo. As coisas não mudam porque houve “pacote” de decisões. Precisamos acreditar na engrenagem do capítulo que é obra do Espírito Santo. Não podemos esquecer que a vida é portadora de novidades de surpresas. Uns e outros chegamos ao capítulo com “nossas” ideias. A troca de ideias, a convivência, os momentos de profunda oração podem levar os capitulares a um consenso: pessoas maduras em estado de conversão, abertas ao Espírito.

13. Tudo indica que os capítulos devam ser precedidos por uns dias de retiro (ao menos um dia inteiro). Já dissemos: trata-se de um evento espiritual. Nesses dias será preciso responder a uma pergunta simples e complexa: Nós, franciscanos, de onde viemos e para onde queremos ir? Ou para onde o Espírito quer nos levar? Não se faz capítulo sem pedido de perdão e sem momentos densos e suficientes de oração. Não se ingressa num capítulo como se entra numa convenção dos empregados no setor da panificação. Os capitulares são convidados e convocados a criar espaços de comunhão. Dois elementos ajudam a criar comunhão: fé na presença de Jesus deixando-se modelar por sua palavra e uma paixão pelo ser humano. Oração ao Senhor presente e paixão pelo ser humano. Quanto mais estivermos centrados em nos mesmos, sentimentos de cansaço experimentares. Cuidado para não se ficar escravos de certas dinâmicas do capítulo.

14. Como se sai de um capítulo? Necessário querer fazer a verdade, realizar o que foi decidido, fazer com que as conclusões se tornem vida. As conclusões de um capítulo não constituem uma peça literária, mas roteiro de vida para os irmãos e irmãs. A experiência nos diz que, para podermos evitar surpresas pouco agradáveis para o futuro é fundamental dar importância aos capítulos avaliativos. Os capítulo eletivos, por sua vez, precisam mostrar mais claramente estarem sendo realizados na força do Espírito.

15. Os capítulos eletivos constituem uma realidade mais delicada. Antes do capitulo, sem intenções “politiqueiras”, será fundamental que se faça uma reflexão sobre as possibilidades de uns e de outros, sobre os talentos para o serviço de uns e de outros. As prévias funcionam como elemento orientador. Um clima de recolhimento pode ajudar a assembleia a melhor captar a ação do Espírito. No processo eletivo os irmãos haverão de se colocar numa postura pascal, morrer para viver. O capítulo é um acontecimento espiritual.

16. Luciano Baronio afirma: “Necessário se faz dar corpo à esperança e voltar abrir o coração à utopia porque sempre é melhor morrer de utopia do que de aborrecimento”. E Joan Bestard: “Hoje nosso mundo, em geral, carece de utopias. Tem-se a impressão de que foram eliminadas por um pragmatismo frio e calculista que nada busca senão o juntar sempre mais e o bem estar individual a qualquer preço. O pragmatismo mercantilista leva ao tédio e o tédio, por vezes pode desembocar no mais absurdo suicídio”( op.cit. p 192).