Frei Moser escreve sobre o início do Sínodo

Frei Antônio Moser

Nestes últimos tempos muito se tem falado sobre um certo Sínodo, aquele que iria acelerar as declarações de nulidade de certos casamentos, aquele que iria readmitir recasados aos sacramentos da Penitência e da Eucaristia, aquele que iria acolher a união dos gays, inclusive adoção de filhos e filhas, e assim por diante. No que se refere à necessidade de acelerar as declarações de nulidade, o Papa Francisco já se antecipou. E no tocante aos problemas mais ventilados, eles certamente serão discutidos, mas dentro de um quadro bem mais amplo, que é o da pastoral familiar.

O texto que a partir desta segunda-feira, dia 5, entra em discussão, já foi muito trabalhado. E é preciso dizer que ele traz as marcas bem nítidas da mentalidade do Papa Francisco. É um texto que parte de um levantamento da realidade, convida ao discernimento e procura abrir novos caminhos de vida para todos, mormente os mais fragilizados pelas diversas circunstâncias da vida. Por este texto já se percebe outro clima, que é o da acolhida de todos que queiram caminhar seja na vida pessoal, seja na vida conjugal, familiar e social.

sinodo_2Por circunstâncias históricas aos olhos de muitos, a Igreja passou a ser a Igreja do “não”. “Não pode”, “não deve”, é pecado. Ora, desde que Francisco se tornou “bispo de Roma” o clima mudou totalmente. Claro que não se trata de mudanças propriamente doutrinais. Trata-se de uma atitude pastoral, onde se coloca maior acento numa pedagogia do encantamento. Quem fica encantado por uma pessoa ou por uma causa, passará logo a não ser mais a mesma pessoa. Não existe maior “apagador” de atitudes e comportamentos inadequados do que o encantamento. Em outros termos, tudo indica que agora a Igreja deixa de ser a Igreja do “não” para tornar-se a Igreja do “sim”. Claro que é o “sim” de Maria, que carrega consigo um “não” a tudo o se contrapõe à causa do Reino.

Neste domingo, dia 4 de outubro, festa de São Francisco, deu-se a solene abertura do XIV Sínodo Ordinário. Com a Basílica e a praça São Pedro totalmente lotadas, cercado por 359 padres sinodais, o Papa Francisco presidiu a missa solene de abertura. Claro que os trabalhos mesmo vão começar na segunda, dia 5, e deverão se prolongar até o dia 25. Por sinal, a pauta é bastante cheia e se esperam debates mais ou menos intensos, pois o próprio Instrumento de Trabalho já deixa entender, em vários passagens, que “nem todos concordam com estas colocações”. Ou até mesmo se lê a expressão de que “alguns discordam”. Isso já revela muito bem que este evento deverá se caracterizar pela transparência e não haverá fronteiras intransponíveis.

Um primeiro sinal dos novos ventos que sobram no Vaticano já pode ser constatado no salão onde os concelebrantes se paramentaram. Era um ambiente totalmente descontraído, todos saudando a todos de maneira bastante efusiva. Até parecia uma grande confraternização, onde Cardeais, arcebispos, bispos e assessores pareciam uma grande família.

Outra coisa que ficou logo evidenciada, é que neste Sínodo a Igreja toda está representada, inclusive com a diversidade de cores, de línguas e de tradições. Chamou atenção o grande número de africanos, sendo que quem estava diretamente ao lado do Papa na celebração era um africano. E naturalmente o Oriente também se fez bem presente, com vestes e mitras diferentes, e outros apetrechos. Enfim, o clima e o cenário estão prontos para um grande evento, do qual deverão emergir novos raios de luz e esperança para todos. Buscaremos traduzir aos poucos os avanços e recuos.