Vida CristãLiturgia dominical

25º Domingo do Tempo Comum/Ano B

liturgia-25-820

Quem é o maior?

1ª Leitura: Sb 2,12.17-20
Sl 53
2ª Leitura: Tg 3,16-4,3
Evangelho: Mc 9,30-37

-* 30 Partindo daí Jesus e seus discípulos atravessavam a Galiléia. Jesus não queria que ninguém soubesse onde ele estava, 31 porque estava ensinando seus discípulos. E dizia-lhes: «O Filho do Homem vai ser entregue na mão dos homens, e eles o matarão. Mas, quando estiver morto, depois de três dias ele ressuscitará.» 32 Mas os discípulos não compreendiam o que Jesus estava dizendo, e tinham medo de fazer perguntas.

33 Quando chegaram à cidade de Cafarnaum e estavam em casa, Jesus perguntou aos discípulos: «Sobre o que vocês estavam discutindo no caminho?» 34 Os discípulos ficaram calados, pois no caminho tinham discutido sobre qual deles era o maior. 35 Então Jesus se sentou, chamou os Doze e disse: «Se alguém quer ser o primeiro, deverá ser o último, e ser aquele que serve a todos.» 36 Depois Jesus pegou uma criança e colocou-a no meio deles. Abraçou a criança e disse: 37 «Quem receber em meu nome uma destas crianças, estará recebendo a mim. E quem me receber, não estará recebendo a mim, mas àquele que me enviou.»


* 30-37: Os discípulos não compreendem as conseqüências que a ação de Jesus vai provocar, pois ainda concebem uma sociedade onde existem diferenças de grandeza. Quem é o maior? Jesus mostra que a grandeza da nova sociedade não se baseia na riqueza e no poder, mas no serviço sem pretensões e interesses.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

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Ser discípulo: a humildade

A 2ª predição da Paixão (evangelho), que forma o núcleo da liturgia de hoje, tem um acento próprio. Enquanto a primeira fala da rejeição pelas lideranças religiosas, a segunda acentua o fato de “o Filho do Homem ser entregue em mãos humanas” (a terceira, mais completa, acrescentará ainda sua condenação à morte e extradição aos pagãos). A 1ª leitura é bem escolhida, no sentido de mostrar a inveja dos homens ímpios contra o justo, que considera Deus como seu pai. (Mt 27,43 interpreta expressamente a morte de Cristo a partir desta idéia, presente também em Sl 22[21],9; Sb 2,18.) A idéia da inveja da virtude do justo forma, assim, o laço que une as leituras de hoje: a 1ª leitura, a 2ª leitura (os males da inveja) e o evangelho, que prolonga o anúncio da Paixão numa admoestação contra a ambição, o “pecado da comparação”.

Atinge-se assim um nível fundamental, tanto do ponto de vista cristológico quanto antropológico. Pois o “pecado da comparação” não é outro senão o pecado de Adão, o pecado originante, presente em todo ser humano: não agüentar que alguém seja maior, querer ocupar o lugar de Deus. E o que Cristo vem cumprir (e anuncia nas predições da Paixão) é exatamente o contrário: o despojamento, a obediência até a morte. Neste contexto do homem velho, corrompido por sua inveja, Jesus aparece como o homem novo, completamente filho de Deus, realizando por sua obediência o que o orgulho de Adão tentou alcançar em vão: a condição divina.

A lição de humildade (Mc 9,33-37) completa, portanto, de modo adequado, o tema da Paixão de Jesus; não dilui a trágica realidade da cruz, nem a troca em miúdos para a vida cotidiana do cristão bem comportado … A humildade não é a virtude do medroso, a carência transformada em virtude. É a opção pelo caminho do Cristo, o caminho da obediência até a morte por amor, contrariamente ao orgulho, que leva à morte absurda. Tg atribui toda a espécie de males ao orgulho e à ambição, e não sem razão. Não é o competicionismo uma forma de inveja que leva os homens a desarticular sempre mais a própria sociedade? Onde cada um quer ter e ser mais do que os outros, a ruína é inevitável.

O exemplo de Cristo nos ensina a escolher o caminho oposto. Olhar para os outros, sim, mas não para nos comparar com eles porém, para ver como servir melhor. Ser grande é ser o servo de todos. Até o mais pequeno merece ser acolhido como o próprio Senhor. Jesus toma, por exemplo, o acolhimento de uma criança. Coisa fácil? Quem é que não gosta de crianças? Todavia: 1) no tempo de Jesus a criança era de pouquíssimo

valor aos olhos da sociedade (só importava para os pais e familiares); 2) será que hoje, realmente, todas as crianças são bem-vindas?

Conclusão: para realizar o caminho de Jesus no dia-a-dia, impõe-se a humilde dedicação ao mais insignificante dentre os nossos irmãos. Dedicação humilde, não aquela falsa humildade que é o orgulho de quem não quer nada com nada, mas o encaminhamento de nossa vida no caminho da doação total, do “perder-se para realizar-se” (cf. dom. pass.).

A última frase do evangelho estabelece uma relação muito significativa: quem acolhe uma criança em nome de Jesus (i.é, por causa do que Jesus ensinou), acolhe Jesus mesmo (como Mestre, pois segue seu ensinamento). Mas quem acolhe Jesus (o Enviado), acolhe aquele que o enviou (Deus). Estamos a poucos passos da parábola do último juízo de Mt 25,31-46, onde o Rei e Juiz diz: “O que fizestes ao mínimo destes meus irmãos, a mim o fizestes”. O serviço humilde ao último dos homens é o critério decisivo do ser cristão (o agir em nome de Cristo), mas também de toda a salvação.

A oração do dia prepara bem o espírito deste ensinamento: o amor a Deus e ao próximo, não dois amores, mas o primeiro encamando-se no segundo e o segundo encontrando seu critério no primeiro (para que a gente não se ame a si mesmo no próximo … ).

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

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Seguir Jesus: ambição ou humildade?

Políticos em campanha eleitoral levantam crianças diante das câmeras da televisão… Mas qual deles se importa realmente com o futuro das crianças abandonadas, com os meninos de rua, com a educação popular? O que conta não é a criança, e sim, o voto.

Jesus faz da pouca importância das crianças uma lição para seus seguidores. Os discípulos não compreendiam quando Jesus falava de seu sofrimento; pelo contrário, ficavam discutindo quem era o maior dentre eles. Por causa disso, Jesus chamou uma criança, colocou-a no meio deles e disse que a criança estava aí como se fosse ele mesmo – e até mais do que isso: “Quem acolher em meu nome uma destas crianças estará acolhendo a mim mesmo. E quem me acolher, estará acolhendo não a mim, mas Àquele que me enviou” (evangelho).

A liturgia de hoje nos ajuda a cavoucar mais a fundo o mistério que está por trás dessas palavras. Enquanto os discípulos não levaram muito a sério as crianças, Jesus se identifica com uma criança, porque tem uma profunda consciência do amor paterno de Deus. Na 1ª leitura, o justo que chama Deus de pai é considerado insuportável pelos poderosos, que só dão importância à força e à arrogância. E a 2ª leitura nos mostra quanto mal faz a ambição dentro da comunidade cristã. Na lógica o mundo, o que importa é a prepotência, a ambição. Mas Deus é o pai do justo, sobretudo do justo oprimido. Na criança desprotegida, ele mesmo se torna presente.

O justo humilde, perseguido pelos prepotentes, e que chama Deus de pai, é a prefiguração do próprio Jesus. A grandeza mundana não importa. Uma criança sem importância pode ser representante de Jesus e, portanto, de seu Pai, Deus mesmo. E se não for uma criança, pode ser um mendigo, um desempregado, um aidético…. No aspecto de não terem poder, esses sem-poder parecem-se com Jesus. Nossa “ambição”deve ser: servir Jesus neles. Então, seremos grandes.

Alguém talvez chame isso de falsa modéstia: dizer-se humilde julgando-se superior aos outros. Já os empresários o chamarão de desperdício, pois quem se refugia na humildade nunca vai realizar as grandes coisas de que nossa sociedade tanto precisa… O raciocínio de Jesus vai no sentido oposto: as ambições deste mundo facilmente encontram satisfação, se há quem delas pode tirar proveito. Todo mundo colabora. Mas quem não tem poder só pode contar com Deus e com os “filhos de Deus”, os que querem ser semelhantes a ele. Então, de repente, não é a ambição que move o mundo, mas a força do amor que Deus implantou em nós. Não o orgulhoso ou o ambicioso, mas o humilde consegue despertar a força do amor que dorme no coração do ser humano. A criança desperta em nós o que nos torna semelhantes a Deus, nosso Pai.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes