Vida CristãLiturgia dominical

24º Domingo do Tempo Comum/Ano B

liturgia820

Jesus é o Messias

24º Domingo do Tempo Comum/Ano B
1ª Leitura: Is 50,5-9ª
Sl 114
2ª Leitura: Tg 2,14-18
Evangelho: Mc 8,27-35

-* 27 Jesus partiu com seus discípulos para os povoados de Cesaréia de Filipe. No caminho, ele perguntou a seus discípulos: «Quem dizem os homens que eu sou?» 28 Eles responderam: «Alguns dizem que tu és João Batista; outros, que és Elias; outros, ainda, que és um dos profetas.» 29 Então Jesus perguntou-lhes: «E vocês, quem dizem que eu sou?» Pedro respondeu: «Tu és o Messias.» 30 Então Jesus proibiu severamente que eles falassem a alguém a respeito dele.

31 Em seguida, Jesus começou a ensinar os discípulos, dizendo: «O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto, e ressuscitar depois de três dias.» 32 E Jesus dizia isso abertamente. Então Pedro levou Jesus para um lado e começou a repreendê-lo. 33 Jesus virou-se, olhou para os discípulos e repreendeu a Pedro, dizendo: «Fique longe de mim, satanás! Você não pensa as coisas de Deus, mas as coisas dos homens.»

O seguimento de Jesus -* 34 Então Jesus chamou a multidão e os discípulos. E disse: «Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. 35 Pois, quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perde a sua vida por causa de mim e da Boa Notícia, vai salvá-la.


* 27-33: A pergunta de Jesus força os discípulos a fazer uma revisão de tudo o que ele realizou no meio do povo. Esse povo não entendeu quem é Jesus. Os discípulos, porém, que acompanham e vêem tudo o que Jesus tem feito, reconhecem agora, através de Pedro, que Jesus é o Messias. A ação messiânica de Jesus consiste em criar um mundo plenamente humano, onde tudo é de todos e repartido entre todos. Esse messianismo destrói a estrutura de uma sociedade injusta, onde há ricos à custa de pobres e poderosos à custa de fracos. Por isso, essa sociedade vai matar Jesus, antes que ele a destrua. Mas os discípulos imaginam um messias glorioso e triunfante. 

* 34-38: A morte de cruz era reservada a criminosos e subversivos. Quem quer seguir a Jesus esteja disposto a se tornar marginalizado por uma sociedade injusta (perder a vida) e mais, a sofrer o mesmo destino de Jesus: morrer como subversivo (tomar a cruz).

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

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Jesus, o Messias “diferente”

Chegamos ao ponto culminante da “pedagogia” messiânica de Jesus (evangelho). Até agora, todo mundo e também os discípulos foram descobrindo traços excepcionais em Jesus. Uns o consideravam João Batista reencarnado; outros Elias, de volta para anunciar o Dia de Javé (cf. Ml 3,23-24). Mas Simão Pedro, falando pelos Doze, diz claramente: “Tu és o Messias”. Agora, Jesus lhes faz ver o que se deve entender por esse título. Pedro pensava provavelmente num “Filho de Davi”, num guerreiro, herói nacional, libertador da opressão estrangeira etc. Mas Jesus quer revelar um outro sentido do ser Messias. Proíbe aos Doze falar daquilo que Pedro reconheceu, pois levaria a perigosos mal-entendidos (com isso, Mc justifica por que Jesus em sua vida não se fez conhecer como Messias). Ensina-lhes que o “Filho do Homem” – a figura que encarnava a intervenção escatológica de Deus, cf. Dn 7,13-14 – devia sofrer, morrer e ressuscitar (mas parece que Pedro nem ouviu este último verbo, pois reage violentamente com “isso nunca de minha vida”). Réplica de Jesus: “Vai atrás de mim, Satanás, pois tu estás preocupado com o que Deus quer e sim com o que os homens querem”. Que censura para aquele que, pouco antes, liderou a proclamação da fé messiânica!

A partir deste episódio começa a segunda parte do evangelho de Mc. Já não descreve as lidas de Jesus com a multidão, e sim, o ensinamento aos Doze, as discussões com o judaísmo de Jerusalém e a Paixão e Morte. Explica o modo de ser messias de Jesus, não o modo do poder externo, do messianismo político, mas o modo que atinge o interior das pessoas, prefigurado na figura do Servo Padecente do Senhor (cf. 1a leitura). Jesus mostra uma nova “leitura” do messianismo veterotestamentário. Em vez do messianismo guerreiro, lembra os cânticos do Servo Padecente, sobretudo ls 52,13-53,12; os textos de Sf sobre os pobres de Javé; de Zc 9 e 12 sobre o messias manso e humilde e o bom pastor; de Dn 9,25-26, sobre o “Ungido” morto pela população da cidade etc. Mas ao mesmo tempo, diverge do messianismo corriqueiro sob um outro ângulo ainda: esse messias sofredor tem a autoridade do Filho do Homem (Mc 2,10-28; 8,38 etc.); é o executivo escatológico de Deus. E, contudo, é rejeitado e morto. Este paradoxo é que provocou a veemente reação de Pedro, e é exatamente o que devemos aprender a aceitar.

Para apreender um mistério existe só um caminho: penetrar nele. Um teorema aprende-se rodeando-o com raciocínios: “com-preende”-se. Um mistério não. Não cabe em nossos raciocínios, transborda-os. Envolve-nos. Só se entende penetrando nele. Quem quer aceitar Jesus, tem que o conhecer por dentro. Tem que repartir sua experiência. Tem que ir com ele, ser seu seguidor, seu discípulo. O mistério da cruz só se entende assumindo-o (como espírito do Mestre, é claro). Quem se quer salvaguardar, perde sua chance. Mas quem se arrisca, realiza-se de uma maneira que nunca antes suspeitou. Nisto consiste a “revelação”. Não em doutrinas intelectuais, mas na opção por um caminho diferente para viver, que Jesus nos mostra e abre: o caminho da cruz.

A 2ª  leitura, como toda a Carta de Tiago, oferece exemplos do que é o caminho da cruz, da negação de si mesmo. Não é imediatamente um martírio público ou sei lá o quê. É a abnegação de si mesmo nas pequenas coisas práticas. Não apenas desejar bem-estar aos outros, mas repartir com eles do que é seu, tirar algo de si para ser realmente irmão e “próximo” do necessitado. Fé não é uma adesão meramente intelectual; é escolher o caminho da negação de si em prol do irmão. E isso, porque Cristo no-lo mostrou. Porque lhe damos crédito, na experiência única que ele teve de Deus e que ele quer repartir conosco.

Uma atitude fundamental para realizarmos essa participação é a “obediência”, no sentido bíblico: o “dar audiência” àquilo que é maior do que nós: o mistério de Deus, que normalmente se apresenta em nossos irmãos. Esta obediência é que caracteriza o Servo de Javé (Is 50,4b) e aquele que realiza plenamente o caminho do Servo, Jesus Cristo (Fl 2,8). Não a obediência constrangida do medo do inferno, mas a obediência do amor, o tornar-se atento para o amado. A liturgia de hoje, nas suas orações, nos convida a esta atitude: servir Deus de todo o coração, para sentir seu amor por nós (idéia da participação; oração do dia); sermos movidos não mais por nossos impulsos, mas pelo sacramento, ou seja, o sinal que toma o amor de Deus eficaz em nós (oração final).

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

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Seguir um Messias diferente…

Dizem que o povo não gosta de jogar voto fora. Vota em quem pensa que vai ganhar. Assim, quem representa os deserdados não tem ibope, enquanto os políticos corruptos são reeleitos e a situação não muda nunca. Parece que também Simão Pedro não gostava de torcer pelo time perdedor. Queria estar do lado do poder. Tinha chegado à conclusão de que Jesus era o Messias (8,29). Mas quando Jesus começou a explicar que o Messias e Filho do Homem devia sofrer e morrer, Pedro quis fazer-lhe a lição: sofrer, nunca! (8,31-32). Então, Jesus lhe dirige dura advertência: “Vai, satanás, para trás de mim, pois não tens em mente as coisas de Deus e sim as dos homens” (8,33). Pedro é chamado de satanás, não de diabo, porque o satanás é uma figura folclórica na literatura bíblica, exercendo o papel de tentador, de sedutor (cf. Jô 2,1-2). Jesus associa Pedro ao “sedutor”, porque tentou desviá-lo do caminho do sofrimento. Então, Jesus o manda para o lugar do discípulo obediente, atrás do mestre, para segui-lo carregando a cruz (Mc 8,34-35).

Jesus é Messias, mas à maneira do Servo Sofredor de que fala Isaías (1ª leitura). Este oferece as faces a quem lhe arranca a barba, não teme o fracasso, pois Deus está com ele. O Servo Sofredor é como um herói que desce na cova dos leões: desce nas profundezas do ódio para vencê-lo, por dentro, assumindo o sofrimento injustamente infligido. Seu poder não é como os poderes deste mundo; é a força de Deus que vence o poder pelo amor. Mas para isso, ele tem de escutar a voz de Deus: “O Senhor abriu meu ouvido” (Is 50,5).

Acreditar em Jesus é aderir ao Servo, o líder rejeitado e morto, mas que é também ressuscitado por Deus, como está em Mc 8,31 (Pedro parece não ter percebido esse “detalhe”). Ser cristão é seguir Jesus pelo caminho do sofrimento. Não existe fé cristã sem via sacra. E isso não pelo prazer de sofrer, mas porque é preciso enfrentar a injustiça e tudo quanto se opõe a Deus no próprio campo de batalha. Ser cristão não é compatível com sempre ter sucesso no mundo; quem não é perseguido provavelmente não está trilhando os passos de Jesus.

A Igreja não é para torcedores que pagam para ver o time ganhar; é para jogadores dispostos a enfrentar sacrifícios. Mas esta comparação esportiva é perigosa: pode sugerir auto-afirmação, e então estaríamos novamente pensando nas coisas dos homens e não nas de Deus. Não se trata de auto-afirmação, nem de heroísmo para glória própria, mas antes, de ter um ouvido aberto à voz de Deus, que nos mostra um caminho que por nós mesmos não suspeitávamos ser o caminho de Deus. Trata-se de ter um coração de discípulo, que saiba escutar Deus nos seus planos mais misteriosos. Será que Deus não está mostrando um caminho de “mais vida” quando sugere cuidar de uma criança doente, de pessoas excluídas, do silêncio de quem não pode falar, do esquecimento de si?… Tenhamos o ouvido aberto!

Cristo nos deu o exemplo. Nele confiamos. Tendo em vista sua “vitória”, não importa que “perdemos nossa vida” segundo os critérios deste mundo. Ganharemos Deus.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes