O momento que antecede as eleições no Brasil

O momento atual, que antecede as eleições de outubro próximo, requer algumas ponderações.

1. Nós viemos da Itália passando fome. Éramos pobres, forasteiros neste mundo. Mas encontramos um país que nos acolheu. As condições encontradas aqui, mesmo muito difíceis, abriram caminho para, com trabalho e suor, construir uma vida digna. A nação que aqui encontramos é complexa desde os primeiros dias, quando foi dividida e entregue a 13 capitanias hereditárias. Herdamos desafios imensos de um tempo em que nós não estávamos sequer aqui. Mas fomos acolhidos por esta terra, vindos da fome e da pobreza. Ao crescer e construir a nossa vida nesta terra, o desafio passou a ser assumir juntos, com o povo daqui, os destinos desta nação. Este povo, mesmo trabalhando, não tem conseguido construir condições de vida digna para todos. Nas últimas décadas, no entanto, conseguimos escrever uma Carta Magna (a Constituição de 1988) que elegeu a democracia participativa como a forma adequada para construirmos juntos a nossa convivência, sem exclusões. Nós, esfomeados do passado, estamos sendo convidados a sermos solidários com os esfomeados de hoje.

2. O Brasil construiu uma economia forte. Eita povo trabalhador! O desenvolvimento econômico é impressionante, mas o progresso social não acompanhou o mesmo ritmo. Isso traz como consequência a persistente desigualdade social ou até o aprofundamento da mesma. Se hoje formamos uma mesma e única nação, este fato não pode ser desconhecido. O desafio é como organizar um espaço social tão cheio de desafios; não há como fazê-lo senão através da política. Mas qual política? Como somos plurais e marcados pela diversidade, escolhemos a manifestação livre, com direito de também nos organizarmos livremente, assinalando que melhor é fazê-lo de forma participativa. Ocorre que a democracia não é pacote pronto; é construção histórica. O desafio é crescer em termos de consciência participante e amadurecer como nação solidária. Somos ainda crianças em termos de democracia, melhor talvez adolescentes. E enquanto tais, ante o desafio da maturação, que se abre diante do desconhecido, temos por vezes a tentação e nos refugiar na infância; outra possibilidade ou chance é a de crescer em maturidade. O que fazer? Voltar à infância ou, desafiados, buscar a maturidade? Vamos assumir de maneira emancipada e livre os destinos de nosso país ou, infantilizados, delegamos a alguém outro que o faça em nosso lugar? Crescer em maturidade, democraticamente falando, requer diálogo e construção de consensos; isto faz com que a política seja a oportunidade de organizar o espaço social com a participação de todos na busca do bem comum e do respeito da dignidade humana, bem como de outros valores daí decorrentes. Mas aí aparecem obstáculos.

3. Trata-se de focar aqui os obstáculos à democracia. Destaco apenas dois para a nossa reflexão, ciente de que há outros. Os obstáculos que mais comprometem a democracia ficam escancarados quando caímos no sectarismo e no fanatismo. O sectarismo costuma aparecer sob uma forma altamente emocional; e, por isso, torna-se acrítico e adota as meias verdades dos mitos que escondem formas disfarçadas de domínio. O fanatismo cai facilmente na irracionalidade, prejudica a capacidade criativa, ama o controle e mata a vida. Um e outro se entregam ao controle do pensamento e da ação, inibem o poder de criar e atuar, permitindo formas totalitárias de organização da sociedade. A consequência mais trágica é o aumento da barbárie, embrutecendo os indivíduos, tornando-os miseráveis até espiritualmente. Esse tipo de miséria corrói a nobreza e compromete a reputação. Torna as pessoas frias e cegas diante dos outros. Para estas, a violência passa a ser a saída, tornada normal ou normalizada. O passo seguinte é eliminar quem pensa diferente. É a instalação do horror.

4. Tanto de esquerda quanto de direita, quem se deixa levar pelo sectarismo e pelo fanatismo perde a capacidade de amar, afasta a esperança, nem sequer sonha com dias melhores; até o respeito vai embora. Se embrutece e busca se armar de todas as formas. Quer a intervenção da “força”. O perigo é a regressão à barbárie. Exemplos disso não faltam. Poderíamos elencar o nazismo e o fascismo, como exemplos muito citados. Mas também cabe citar o stalinismo na antiga União Soviética e regimes totalitários em nossa América Latina. Que monstruosidades! No Brasil de hoje, enquanto cidadãos, tomados de assalto pelos malfeitos na política (e seus comparsas) nos sentimos na urgência de uma solução ante a situação criada. A corrupção é um exemplo da “praga” que nos atinge. Pressionados, na hora atual, tendemos a nos posicionar nos extremos e nos rachamos como sociedade. O diálogo, que é uma característica dos humanos, é colocado de lado e perdemos a confiança uns nos outros. O perigo é o de reagir como autômatos, nos tornando presas fáceis de mecanismos sutis de manipulação. Introjetamos isso como normal, nos identificamos com o manipulador e reproduzimos a sua versão dos fatos, sem que desconfiemos. Acabamos indo a reboque, levados de maneira mecanicista, comandados de fora. Como brasileiros, não mais italianos, na dramaticidade da hora atual, nos encontramos numa encruzilhada: Ou delegamos o destino do País à “força” ou assumimos a difícil tarefa de amadurecer pelo caminho da democracia. As águas turvas e até lamacentas dos extremismos autoritários já se anunciam, de lado a lado. Nesta hora dramática, peço ponderação, equilíbrio, diálogo. Não faltem com o respeito. Façam do amor a força que nos une, convivendo em paz, apesar das nossas diferenças. É hora de buscar mais o que nos une. Juízo! Vejo sangue nas mãos de alguns. Quero-lhes um bem do tamanho do meu coração! Coloco tudo isso sob a luz da fé no bom Deus!

Frei Nilo Agostini, ofm