O CarismaNotícias › 10/09/2018

“Minoridade franciscana: sinal de comunhão”

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Frei Walter de Carvalho Júnior

Participantes e acolhida

Aos poucos, no dia 6 de setembro, foram chegando à Fraternidade São Boaventura, de Rondinha, os confrades que participariam do Encontro dos Irmãos leigos da Província. Muito bem acolhidos pela comissão encarregada de coordenar o Encontro (Frei Roger Brunorio, Frei Roger Strapazzon e Frei Thiago da Silva Soares) e pela fraternidade local, fizeram-se presentes: Frei Airton da Rosa Oliveira, Frei Pedro da Silva Pinheiro, Frei Róger Brunorio, Frei Elias Dalla Rosa, Frei Marcos Estevam de Melo, Frei Nazareno J. Lüdtke, Frei Thiago da Silva Soares, Frei Tiago Gomes Elias, Frei José Ulisses de Moraes, Frei Walter de Carvalho Júnior, Frei Vagner Sassi, Frei Odorico Decker, Frei Roger Strapazzon, Frei Bruno Araújo dos Santos, Frei Alexandre Rohling, Frei Sérgio Calixto, Frei Osmar Dalazen, Frei Lauro Both, Frei Lauro Formigoni, Frei Aldeci de Arcízio Miranda, Frei Estevam Gomes Pereira, Frei João Antunes Filho, Frei Rodrigo José Silva e Frei Leandro Ferreira Silva. A alegria da chegada já preanunciava como seria o clima do Encontro, que reuniu desde confrades jovens de Rondinha e Petrópolis até alguns seniores octogenários.

Tema do encontro e assessoria de Frei Éderson

O dia 7 foi todo dedicado à reflexão. O assessor do Encontro foi Frei Éderson Queiroz, capuchinho presidente da CFFB, que abordou o tema “Minoridade franciscana: sinal de comunhão”. Formado em Petrópolis, ele não economizou ao elogiar o clima de familiaridade e simplicidade que reinava nos tempos em que a Teologia era estudada no Sagrado. Comentou que, à época, a academia e a vida fraterna se davam no mesmo espaço e que os professores atendiam nos seus próprios quartos os frades que lhes acorriam com questões referentes aos estudos. Salientou a importância dos professores da Província no pós-concílio e na “redescoberta” do movimento franciscano, sobretudo através o CEFEPAL.

irmaos_100918 2Algumas colocações de Frei Edérson:

1. O Concílio incentivou a volta às fontes, ao espírito das origens, que são riqueza inesgotável. Com isso o tema da fraternidade foi revisitado decididamente. Fraternidade não apenas como instituição, mas como um modo de ser.

2. Nesse contexto, a questão da minoridade foi meio diluída no todo. Mas, ela é a arte de passar despercebido (como o juiz do jogo de futebol que, quanto menos aparece, melhor age). É a arte da descomplicação. Ela é como a água que sempre tende a correr pelos lugares mais baixos.

3. Francisco deslumbra-se diante de um Deus que se faz pequeno. A ele Francisco se confia e se abandona. A esse Deus grande, Senhor da Vida, que se fez serviço, doação, generosidade. Que deixa as riquezas e as glórias celestes para experimentar os limites do ser humano. Daí a fraternidade minorítica, daqueles que desejam ser os menores de Deus, os anawin.

4. A minoridade é como a irmã Lua, que deixa passar a luz do grande outro. Ela reflete a luz oculta do irmão sol.

5. O Deus humilde de Francisco se revela em três ícones: o presépio, a Eucaristia e a cruz (aquele que era rico se fez pobre, aquele que era do alto se abaixou, aquele que era rei se fez servo). Francisco extasia-se diante da Criança, do Deus dependente do humano, que precisou dos peitos de uma mulher, da senhora pobrezinha. Assim, nossa humanidade não é lugar contrário ao divino. É o lugar que o divino escolhe para se manifestar.

6. Francisco não tem muitos discursos sobre a cruz. Tem a experiência do Crucificado. Ali questiona-se a sua qualidade de olhar: “Francisco, você não vê?”. Os olhos são a lâmpada do corpo. Se o olhar é iluminado, todo o ser é iluminado. Francisco passa a olhar a partir de Jesus, integra o seu olhar ao Dele. Apaixonadamente. E curiosamente chega ao final da sua vida cego. E compõe um cântico cheio de luminosidade, de dança, de alegria. A partir de Jesus é que ele podia ver os leprosos e os desprovidos.

7. O Crucificado pede a Francisco para reconstruir. Não pede para destruir e depois fazer outra coisa. A reconstrução dialoga com a realidade anterior. Considera o que foi. Reconstruir faz parte da identidade e da pedagogia franciscana. A partir do Crucificado tudo pode ser reconstruído. Francisco tira o dinheiro do bolso. Compra azeite. Quer a lâmpada ardendo. Pois ele próprio foi profundamente iluminado e ele que retribuir a luz que descobriu dentro de si.

8. A humildade leva a cultivar uma disposição interior que nos faz aceitar-nos como nós somos, e aceitar os outros do jeito que eles são, sem nos considerarmos superiores ou mais dignos. Ser menor é não se prender a cargos, ofícios, títulos e honrarias… Zaqueu, baixo, sobe para ver Jesus, mas Jesus o devolve ao chão, o faz descer, o aceita na sua condição, e vai à sua casa, entra na sua vida. Jesus age assim não apesar da condição pecadora de Zaqueu, mas a partir dela, nela e por ela. Mas Zaqueu teve que fazer o exercício da descida. Jesus entra em nossa indigência, no vazio existencial que está em nós e faz ali lugar da sua presença. Francisco, por sua vez, vai ao Sultão não esperando mudá-lo, convertê-lo. Vai até ele para amá-lo.

9. A minoridade é o contrário da publicidade (hoje quem não é visto não existe). Ela não é uma disposição artificial de humilhação, mas sim uma apreciação justa e objetiva do bem e do mal que existe em nós. O menor age com naturalidade, sem exigências, faz muito bem o que é preciso ser feito. Não agride. Examina-se a si mesmo antes de criticar os outros.

10. A minoridade nos põe em condições de construir pontes, usando a linguagem do Papa Francisco, e não de estabelecer abismos. Francisco tinha paixão em ir ao encontro dos outros, para, no contato com eles, aprender.

11. A minoridade está intimamente ligada à condição de “peregrinos e forasteiros”. Ao não-lugar. Francisco vai pelos caminhos, mas também permanece em Assis, de outra forma. Ficou na Assis do século XIII, mas era homem do não-tempo e do não-lugar, ou seja, era do tempo e do lugar de Deus. Clara não saiu de casa, mas estava sempre em movimento de saída para estar com o Esposo. De casa, ela fez uma “fuga abraânica”, pois Francisco não tinha nada a lhe oferecer além do Encontro. Não lhe ofereceu casa, regra, irmãs, bens. Nos 40 anos de vida em São Damião, Clara foi peregrina e forasteira. Daí a importância de colocar o coração em movimento.

12. A itinerância nos põe na experiência de, estando no lugar dos homens, viver o não-lugar de Deus.

13. A minoridade não é um adendo à palavra fraternidade (frades menores). Ela é que vai cunhar e moldar o ser frade.

Partilha de vida, passeio e confraternização

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No sábado, 8, após as laudes da Natividade de Nossa Senhora, os irmãos reuniram-se na sala de palestras para uma partilha de vida. Memórias, projetos, desabafos, perspectivas não faltaram nas falas dos confrades. Foi um momento muito rico em que todos tiveram a chance de expor o que lhes passa pela mente, pelo coração, o que os inquieta, o que os move, o que lhes é motivo de alegria, o que esperam de melhor…

No período da tarde, os irmãos fizeram um descontraído passeio por parques da cidade de Curitiba: o Tanguá e o Jardim Botânico. Na volta, um fraterno jantar-recreio, com direito a deliciosas pizzas e pastéis, preparados cuidadosamente por Frei Leandro Ferreira e Frei Thiago Soares.

Avaliação e encaminhamentos

A avaliação do encontro deu-se após a missa dominical das 9 horas, presidida por Frei Éderson, com a participação de pessoas da comunidade eclesial. O encontro foi avaliado muito positivamente, com destaque para a assessoria e a participação em geral dos confrades. Mantém-se o interesse de promover de dois em dois anos o Encontro em uma das nossas casas de formação. No próximo ano, o Encontro dos Irmãos Leigos será das três obediências, em nível nacional, e, em 2020, o Encontro dos Irmãos Leigos da Província será de 4 a 7 de setembro, em Guaratinguetá. Os responsáveis pela preparação e coordenação de tal Encontro são: Frei Tiago Elias, Frei Vagner Sassi e Frei Walter de Carvalho Júnior.

Agradecimentos

Não poderíamos deixar de registrar nossos sinceros agradecimentos à equipe que coordenou o Encontro, à fraternidade que nos acolheu, a Frei Éderson, pela assessoria, a Frei João Mannes que custeou as camisetas e disponibilizou ônibus da Associação Bom Jesus para a tarde de passeio, a cada participante pela disposição e entusiasmo. Foi tudo muito bom, e, por tudo, damos graças a Deus.