Cultura franciscanaNotícias › 03/07/2018

Como é um jogo da Copa dentro de um convento de 410 anos

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Matéria publicada no Jornal O Globo

Segunda-feira seria o dia do Convento de Santo Antônio celebrar cinco missas em seu Santuário, no Largo da Carioca, Centro do Rio de Janeiro. Mas por causa dos jogos do Brasil na Copa do Mundo, os 14 Freis Franciscanos que vivem no local, que completou 410 anos no início de junho, decidiram cancelar alguns atos litúrgicos. Nesta segunda-feira, com a bola rolando entre Brasil e México, a missa das 11h e de 12h30 não aconteceram. Eles até tentaram realizar as cerimônias durante os jogos da Seleção, mas já na primeira partida, contra a Suíça na fase de grupos, só dois fiéis compareceram. Temendo pela segurança deles na volta para casa em meio a uma cidade vazia por conta do Mundial, os religiosos optaram por suspender as atividades durante os jogos da Amarelinha.

Enquanto a missa acontecia na primeira partida do Brasil na Copa, Neymar e Cia empatavam em 1×1 com a Suíça. Desde então, com as celebrações suspensas durante as partidas, cerca de 11 freis franciscanos do Convento de Santo Antônio passaram a assistir aos jogos divididos em duas salas. Se as orações do Papa Francisco não conseguiram ajudar a Argentina a se classificar para as quartas de final, a intervenção divina dos franciscanos parece estar dando sorte ao time de Tite, já que desde que começaram a acompanhar os jogos, o goleiro Alisson não levou nenhum gol.

Quando Tite assumiu o cargo, em junho de 2016, após a gestão de Dunga com resultados ruins, o Brasil estava na 6ª colocação das eliminatórias, fora da zona de classificação para a Copa do Mundo. Acabou que a Seleção foi a primeira a se classificar para o Mundial, se juntando à Rússia, a anfitriã. Santo Antônio também é o intercessor das causas perdidas, depois do 7×1 para a Alemanha, dentro do Convento os franciscanos parecem estar ajudando na caminhada rumo ao hexa com sua torcida.

O placar ainda estava 0x0, mas Frei Lucas Izaqueu recebia inúmeras mensagens em um grupo no WhatsApp com frades brasileiros e mexicanos. Franciscano há um ano mas seguindo a vida religiosa há 12, ele conta que os colegas religiosos pediam a vitória do time de Ochoa com o argumento de que isso seria bom para o país e traria alegria ao povo.

— Sempre assisto aos jogos do Brasil na Copa e, às vezes, do Flamengo. Sempre uso a camisa da Seleção, mas dessa vez ela estava suja da última partida. Meus colegas frades mexicanos estão colocando pressão no grupo — conta o Frei Lucas Izaqueu, natural de Anápolis, interior de Goiás, que está de passagem pelo Convento de Santo Antônio no Rio.

O Convento de Santo Antônio teve papel fundamental na Independência do Brasil e já foi até chamado por historiadores de “útero da independência”. O grande mentor político de Dom Pedro I foi Frei Sampaio, com quem o príncipe se aconselhava quase diariamente, é de autoria do religioso o discurso proclamado no “Dia do fico”, com o qual o imperador comunicava ao povo que permaneceria em terras brasileiras. Ainda hoje se conserva a mesa da cela de Frei Sampaio, na qual o texto foi escrito. Desde que chegaram no país com Pedro Álvares Cabral, os Franciscanos são a única Ordem religiosa que jamais deixou o Brasil. Assim como não abandonaram a Seleção durante o primeiro tempo sem gols contra o México.

Em uma sala branca com uma janela que mostrava o Largo da Carioca, que geralmente é um dos lugares mais movimentados do Rio, praticamente deserto, os frades e oito funcionários do Convento dividiam um balde de pipoca, pizza e refrigerantes para assistir o confronto na manhã dessa segunda-feira. Frei Róger Brunorio, atencioso e de voz mansa, acompanhava pela primeira vez uma partida dessa Copa. Tranquilo, apesar de se levantar inúmeras vezes enquanto a bola rolava, ele explica que algumas das características principais da vida franciscana é a alegria e a confraternização, por isso todos comiam juntos enquanto acompanhavam o jogo do Brasil.

— Nos outros jogos eu estava estudando, lendo ou trabalhando. Usava o tempo da partida para preparar minhas aulas de arte sagrada, dou palestras sobre simbologia religiosa. Mas acompanho indiretamente o que acontece em campo por causa da gritaria e dos fogos. Então, acesso o computador e vejo o placar — conta Frei Róger.

Já o Frei Erick de Araújo Lázaro, de 25 anos, é reconhecido por ser o religioso mais animado na Copa. Em algumas partidas ele até torceu com sua vuvuzela, famosa no Mundial de 2010. Nessa segunda-feira, ele vestia seu hábito, a inconfundível roupa marrom com capuz curto e cordão branco com os três nós amarrados na cintura. Atento a todos os lances do jogo, ele assitiu praticamente a partida inteira com as mãos juntas, como se estivesse em oração. Após o fim da partida, e com a classificação brasileira para a quartas de final com placar de 2×0 sobre o México, enquanto Willian agradecia com as mãos apontando para o céu, o frade Erick vibrava pulando com a classificação.

— Trabalho na sacristia ajudando nas missas e canto. Depois que meu pai faleceu de câncer quando eu tinha 4 anos, minha mãe ficou mais intensa na igreja e sempre me levava junto. Aos 9 anos virei coroinha e isso aumentou minha vocação. Terminando a Crisma, um amigo me levou ao Convento São Francisco, no centro de São Paulo. Comecei na vida religiosa enquanto ainda estava no 2º ano do Ensino Médio. O que me mantém na religião e me completa é a vida em fraternidade e a alegria franciscana. Esse espírito missionário me comove. Temos uma missão em Angola há mais de 25 anos. E aqui servimos chá e comida a moradores de rua, também acolhemos imigrantes e o ajudamos — explica Erick.

A história dos franciscanos com o futebol não começou nessa Copa. Por achar que o esporte traria vantagens quanto a exercícios físicos, exigir inteligência para decisões rápidas e dominar os instintos agressivos, em 1956, o Frei Jerônimo Back introduziu a bola na vida dos seminaristas. O frade Guido Scottini entrou no seminário em 1949, e integrou o primeiro time dos franciscanos em Rio Negro, cidade paranaense.

— Eu era perna de pau, mas nosso time ganhou muitas partidas até de goleada. Ficamos muito tristes depois do Brasil perder a Copa de 1950, mas agora acredito no Hexa — diz frei Jerônimo Back, de 81 anos, que optou por não acompanhar a partida dessa sexta-feira.

O próximo jogo contra a Bélgica será às 15h, na sexta-feira. Valendo vaga para as semi finais, a partida também será assistida pelos franciscanos do Convento Santo Antônio. Será que Jesus (o atacante) vai finalmente abençoar a Seleção com um gol?