18/05/2018

“Ser franciscano é um privilégio que Deus nos dá”

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Frei Augusto Luiz Gabriel

Frei Raul Budal da Silva foi insistente, teimoso e paciente. Na primeira vez que pediu aos seus pais para ingressar no seminário, o pedido foi duramente negado. Somente anos depois, ele viveu o melhor Natal da sua vida, quando de presente ganhou dos pais a autorização para adentrar na vida franciscana. “Disse meu pai comovido: ‘Raul vai para o seminário’, foi o melhor Natal da minha vida”, agradece o frade que, aos 90 anos, atualmente reside em Bragança Paulista (SP), na Fraternidade São Francisco de Assis. “Vivo num ambiente com outros confrades que também têm suas limitações e com eles convivo com caridade fraterna. É necessário viver em fraternidade com muito amor e aceitação”, destacou o frade.

Ao ser perguntado sobre o tempo forte do Concílio Vaticano II, Frei Raul é enfático ao afirmar que o Concílio foi um “estouro” do Espírito Santo na Igreja. Em relação ao pontificado do Papa Francisco, Frei Raul acredita que o Papa veio em um momento certo e na hora certa para movimentar e fazer a Igreja caminhar. O frade é antenado e conectado. Durante a entrevista brincou que é idoso, mas usa celular e acessa a internet quase todos os dias. Sobre sua vocação destaca com convicção: “É gratificante viver e morrer como franciscano”.

Frei Raul Budal da Silva nasceu no dia 11 de dezembro de 1926. Natural de Rio Negro (PR), é proveniente de uma família grande de 13 irmãos. Seus pais morreram cedo, pois naquele tempo não havia muitos recursos. Fez sua Primeira Profissão na Ordem dos Frades Menores no dia 20 de dezembro de 1952, no Noviciado São José de Rodeio (SC). Posteriormente, em 20 de dezembro de 1955, professou solenemente na Ordem e dois anos depois ordenou-se sacerdote, em 16 de dezembro de 1957.

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Site Franciscanos: Como se deu o discernimento vocacional?

Frei Raul: O meu chamado para o sacerdócio e para a Ordem deu-se por etapas. Eu era adolescente com 14 ou 15 anos quando em Rio Negro (PR), local onde funcionava o seminário, eu admirava aquele castelo misterioso que me chamava a atenção, e eu não tinha sequer a ideia do que seria. As minhas irmãs mais velhas eram muito religiosas, faziam parte da liderança da paróquia e me levavam para a missa. Elas sempre me entusiasmaram e indiretamente me estimularam a viver naquele castelo maravilhoso que era o Seminário Seráfico São Luiz de Tolosa. Aos poucos, eu senti vontade de ser padre e comuniquei em casa aos meus pais e irmãos que eu gostaria de ir para o seminário. A primeira ideia foi esta: ser padre. Esse desejo aumentou muito um ano depois, e eu arrisquei pedir ao meu pai. Ele não era muito religioso, era muito bom pai, mas não era de frequentar a igreja não. Pedi a ele para ir para o seminário logo no começo do ano, em janeiro ou fevereiro, e meu pai disse: “Não, para o seminário e para ser padre, não! Você vai estudar Direito em Curitiba”. Curti aquilo com bastante desengano e desprazer, mas obedeci, afinal o pai era a autoridade na família. Neste tempo, por uns dois anos, cheguei até a trabalhar numa empresa como office-boy. Mas o desejo de meus pais era que eu fosse estudar em Curitiba. O grande passo foi quando eu já tinha 16 ou 17 anos. Perto do Natal, o pai ou mãe entregavam um pedaço de papel pra cada membro da família e cada um escrevia ali o que desejava receber como presente de Natal. Eu escrevi direitinho: ir para o seminário! Não falei nada para ninguém e coloquei o papel na caixinha. Na véspera de Natal à noite, como era de costume em nossa casa, a família se reuniu para fazer a festa do Natal. Meu pai então foi lendo o pedido de cada um. Eu fiquei por último e estava ansioso. Por fim meu pai abriu e disse: “Raul vai para o seminário!” Eu me senti no céu, era isso que eu queria. Meu Deus, que Natal bonito que eu passei, celebrando dentro do coração esse grande momento do sim do meu pai. Ele custou, mas me deu como presente ingressar no seminário. Logo entrei em contato com a direção do seminário e, no dia 31 de janeiro de 1945, me levaram para o seminário e lá começou uma nova vida para mim.

Site Franciscanos: Como é chegar aos 90 anos na Família Franciscana?

Frei Raul: Eu me sinto imensamente feliz e sinto de perto o dedo de Deus que me chamou para esta vocação. Como pecador, ninguém de nós merece, mas eu fui para o seminário com o desejo de ser sacerdote. Dentro do seminário, encontrei um educador maravilhoso, Frei Tadeu Hoenighausen, já falecido, que nos direcionou para a vocação franciscana. Ali Deus foi me abrindo a mente para ser franciscano. Antes de ser padre é preciso ser religioso franciscano, mas isso veio aos poucos. Deus não tem pressa e aos poucos foi abrindo o meu coração. Devo um grande favor a este grande educador Frei Tadeu. Então, com o decorrer dos estudos fui desejando e amando ser franciscano.

Site Franciscanos: Tem espaço para o carisma de São Francisco hoje?

Frei Raul: A vida religiosa em geral está em crise, mas o carisma franciscano -justamente por esta grandeza de coração, amor à natureza, fraternidade, simplicidade e humildade – ainda não morreu. Como já disse, em geral a vida religiosa está em crise, mas o carisma franciscano continua vivo e não vai morrer! O mundo, mesmo que muitas pessoas estejam afastadas de Deus, admira o carisma franciscano. Ser franciscano hoje é um dom e um privilégio que Deus nos dá.

Site Franciscanos: Então, vale a pena ser franciscano hoje?

Frei Raul: Vale a pena! Porque é uma vida simples de pobreza, desapego, de acolhida a todos os irmãos, sem preconceitos, pelo menos é aquilo que nós pregamos e graças a Deus muitos de nós conseguimos realizar. Isto é visto pelo povo, pois quem entra em contato conosco, com um bom franciscano, se sente acolhido, admirado e com facilidade vê um caminho largo de conversão a Deus.

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Site Franciscanos: Como foi o tempo do Concílio do Vaticano II?

Frei Raul: Para mim, o Concílio Vaticano II foi o desejo de algo que eu estava procurando e desejando naquele tempo, foi uma grande graça, o estouro do Espírito Santo na Igreja. Infelizmente, nem tudo do Concílio Vaticano II foi realizado. O próprio Papa Francisco está encontrando dificuldades na Cúria Romana para realizar plenamente algumas coisas. Uma abertura maior, aquela busca do diferente, acolhida a todos, aquele partir para a periferia. O Papa Francisco está tendo dificuldades de atualizar a Igreja dentro da linha do Concílio. Mas temos esperança de que o Espírito Santo sabe agir na hora certa.

Site Franciscanos: Fale-nos sobre a experiência do seu trabalho pastoral.

Frei Raul: Tenho 60 anos de padre. Trabalhei em duas áreas, na área de educador, no seminário em Rio Negro, foi a primeira obediência que recebi. Não tenho formação universitária, naquele tempo nosso estudo era tão exigente e reforçado que dispensava o diploma universitário. Não sei se é vaidade minha, mas a gente estava muito bem preparado. Lecionei latim e português. Ainda que não tenha sido perfeito, nunca ninguém reclamou. Depois mais tarde, em Ituporanga, como professor, também lecionando as mesmas matérias. Nesse período, senti falta de uma formação ulterior, mas fiz o essencial. Tenho muitos frades que foram meus alunos e hoje estão à frente de trabalhos na Província.

Site Franciscanos: Como o senhor vê o pontificado do Papa Francisco?

Frei Raul: Maravilhoso! O Papa que a Igreja precisava no momento certo e na hora certa para movimentar e fazer a Igreja caminhar. Creio que caminhará mais ainda se deixarem o Papa Francisco trabalhar. Ele irá inovar, para o bem da própria Igreja. Vivemos em um mundo com grandes transformações e dentro disso a própria Igreja, que é uma instituição divina, também precisa se transformar. O povo precisa se atualizar para ser Igreja hoje. O Papa Francisco com grande coragem e visão espiritual vai trabalhar ainda mais.

Site Franciscanos: Deixe uma mensagem para os jovens que desejam ingressar na Vida Franciscana hoje.

Frei Raul: Se vocês tiverem um desejo de ser franciscano, agradeçam a Deus e cultivem essa semente maravilhosa que o Espírito Santo está colocando dentro de vocês. É gratificante viver e morrer como franciscano!