Ir. Roger – Unidade, esperança de vida

Ir. Roger Schutz, fundador da Comunidade Taizé, escreveu, em 1964, uma coleção de livros sobre o Ecumenismo. No texto abaixo, ele falava a respeito do Concílio Vaticano II e a esperança que este novo tempo na Igreja Católica suscitou entre os cristãos.

Conservar-se diante de Deus para que venha a unidade

Como poderá cada um, a toda hora e pessoalmente, responder à vocação ecumênica? Alimentando a chama acesa pela unidade, através do mundo. Conservando-se diante de Deus, com essa intenção; a sós ou na oração comum; de joelhos, de pé, assentados, pouco importa! Sabemos que a unidade é obra sobrenatural de Deus e que nossa ação só é válida na medida em que continua essa oração e a torna verdadeira. Conservar-se diante de Deus não é atitude que ultrapasse nossas forças, nossa estatura humana. Podemos fazê-lo, mesmo sem perceber em nós uma só ressonância sensível de Deus, e até nos tempos de aridez completa. Lembrar-nos-emos, então, de que a presença objetiva de Deus em nós não se prende a nossa sensibilidade.

Alguns cristãos, tendo caminhado longamente nessa via, farão, talvez, um dia, nova diligência, apresentando a Deus a oferenda de sua vida pela unidade.

Eis que desponta uma grande esperança: encontros ecumênicos, pequenos e grandes, se multiplicam. Nova consciência da unidade vem surgindo e animando importantes reuniões. Provam-no, por exemplo, a preparação do Sínodo pan-ortodoxo de Rodes e a grande assembleia do Conselho Ecumênico em Nova Delhi.

No catolicismo, o anúncio do próximo Concílio do Vaticano abriu caminhos novos que não mais se fecharão. Sobrevirão, no decurso desse concílio, acontecimentos decisivos para a unidade? O que, desde já podemos assegurar é que: o Senhor da Igreja responde às orações dos seus. Compete-nos implorar o Espírito Santo que falará aos Padres conciliares.

O acontecimento explodirá, talvez, subitamente, iluminando os cristãos de maneira fulgurante. E se o acontecimento suscitado por Deus sobreviver no coração da Igreja, sem se tornar visível aos olhos da carne, nem por isso deixará de existir.

A atitude que consistisse em nada esperar, para não decepcionar nem ser decepcionado, não procederia da fé. No plano ecumênico, nossa vocação se extinguiria assim.

Alegremo-nos, porque a consciência católica, em particular, se abre para o ecumenismo, só pelo fato de preparar o Concílio. Cabe aos cristãos não-romanos o dever de entreter essa chama, com suas orações, vivendo a dor da divisão em sua vida profunda e oculta, com o Cristo.

Assim, após longa separação, notamos que, nestes tempos, Deus nos visita e nos abençoa. Mais do que nunca, conservemo-nos diante dele, rendendo-lhe graças por seu “hoje” e recusemos olhar para trás, para a história de nossas divisões.

Conservar-nos diante de Deus é permitir que Ele nos penetre, sem que saibamos como; é consentir que Ele transforme, pouco a pouco, nosso próprio olhar e nos dê o olhar de Cristo para considerar todo irmão separado e também o de nossa confissão. Porque, enquanto não considerarmos nosso próximo, e com maior razão nosso irmão na fé, com o olhar de Cristo, nós nos condenamos a não compreender aquele que fala conosco.

frere-roger_1991-grEstaremos bem certos de que somos todos feitos da mesma massa? Talvez nos convençamos disto, nestes tempos em que, uns e outros encontramos a mesma resistência ao que representamos; resistência vinda do mundo que, não podendo crer, parece pressentir, melhor que nós mesmos a identidade do que nos anima.

Por que, então, entre nós, cristãos, procuraríamos sublinhar o que nos opõe? Lembremo-nos de que: todo argumento que provém de surdo rancor, nada prova. Somente as generosas tentativas feitas para compreender o comportamento de nossos irmãos separados, podem autorizar-nos a sublinhar o que nos diferencia.

Aliás, estranha-nos descobrir como, entre as duas partes, há similitudes, até mesmo no fundo de certas reações negativas, assim como certas aspirações grandes e elevadas. A psicologia das profundezas de uns e de outros é marcada pelo mesmo cunho.

O protestantismo mesmo, por sua história e origem, existe somente em função do catolicismo, por causa dele e com relação a ele. Por isso, dele não se pode distinguir radicalmente, sem se renegar em suas próprias origens. Queiramo-lo ou não, somos feitos da mesma massa e isto constitui uma esperança.

Esta é a razão pela qual, hoje – movidos pelo senso eclesial e pela busca da unidade visível de todos: católicos, ortodoxos, anglicanos, protestantes – há cristãos que, vendo doente um membro do corpo, com ele querem sofrer. E, ao invés. de fugirem, por medo do contágio, nada desejam tanto como manifestar à Igreja sua presença, do mesmo modo que desejam manifestá-la ao mundo.

Animados por esse espírito, quando veem em dificuldades cristãos de outras confissões, procuram ser testemunhas ativas da unidade, consolando-os, restabelecendo-os com doçura em suas posições, como desejariam, eles mesmos ser restabelecidos, em circunstâncias semelhantes. Porque, hoje de pé, poderiam, por sua vez, estar amanhã por terra. Quem os viria, então, levantar?

SCHUTZ, Roger. Unidade, Esperança de vida. Coleção Ecumenismo, vol. 3. São Paulo: Duas Cidades, 1967.