Carta das Igrejas-membro sobre a Semana de Oração pela Unidade Cristã

Queridos irmãos e irmãs,

Temos a graça de celebrar a Semana de Oração pela Unidade Cristã de 2018. Ela tem como tema “A mão de Deus está no meio de nós”. Ele, o enviado do Pai, nos une e liberta. Agradecemos às igrejas do Caribe a preparação da Semana de Oração Cristã.

No processo de reflexão para a preparação do material, as igrejas assumiram que, tanto no Caribe quanto na América Latina, a Bíblia foi instrumentalizada pelo colonialismo que subjugou as populações originárias destas regiões para justificar a escravidão. É uma história que não pode ser negada. Ela precisa ser revista e reconhecida para que
seja superada.

As igrejas do Caribe reafirmam que Deus é Deus de libertação. No Êxodo vemos como Ele não aceitou a escravidão do povo hebreu pelo Egito. Deus ouviu o clamor e solidarizou-se com o sofrimento do seu povo escravizado. A sua solidariedade foi política no sentido de desafiar as pessoas escravizadas a se organizarem para a libertação. A mão de Deus não foi assistencialista, nem foi conformista. Ela movimentou as pessoas para se unirem e se organizarem para sair da dominação a que estavam submetidas.

Muitas vezes, pensamos que o trabalho escravo é algo que pertence ao passado. Infelizmente, isso não é verdade. O trabalho escravo ainda hoje é realidade. No ano de 2017, lemos nos jornais sobre o leilão de pessoas refugiadas como escravas realizado na Líbia. No Brasil, o trabalho escravo não findou com a Lei Áurea. Ainda hoje são descobertas pessoas obrigadas a se submeterem a condições de trabalho análogas à escravidão. Em 2017, foi publicada a Portaria MTB N° 1129 que alterou as regras que combatiam o trabalho escravo. Segundo a Portaria, para poder caracterizar um trabalho como análogo à escravidão, é necessário que a pessoa tenha reduzido o seu direito de ir e vir. As demais variáveis presentes em um trabalho análogo à escravidão, sozinhas, não são mais considerados elementos suficientes para caracterizar o trabalho escravo, entre elas: trabalho forçado, jornada exaustiva e condições degradantes.

O racismo é outro elemento que escraviza. O racismo continua sendo o principal fator de dominação e violência contra pessoas negras. A grande maioria de jovens vítimas por homicídio no Brasil é negra. O racismo expresso contra imigrantes negros é outra realidade presente em nosso país no século XXI.

O tema da Semana de Oração pela Unidade nos desafia e desacomoda. Ele tira o véu de realidades escondidas, invisibilizadas e que nos incomodam. A fé em Jesus Cristo e seu Reino abre nossos olhos para o sofrimento dos irmãos e irmãs provocando-nos a sair da indiferença. A nossa fé cristã desacomoda, pois exige que não compactuemos com
projetos colonialistas que querem continuar exercendo poder e definindo que algumas pessoas serão sacrificadas para que outras vivam em abundância. Participar do Reino de Deus é estar aberto para que a mão de Deus nos una em favor da libertação de projetos. sociais, econômicos, políticos e religiosos que degradam a dignidade humana.

A Semana de Oração pela Unidade Cristã fortalece a nossa comunhão para a edificação do Reino de Deus e sua justiça.

Dom Leonardo Ulrich Steiner
Secretário-Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

Pastor Dr. Nestor Paulo Friedrich
Pastor Presidente da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB)

Dom Francisco de Assis da Silva
Bispo Primaz da Igreja Anglicana

Presbítera Anita Sue Wright Torres
Moderadora da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil (IPU)

Dom Paulo Titus
Arcebispo da Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia

Pastor Joel Zeferino
Aliança de Batistas do Brasil (ABB)

Fonte: Caderno Semana de Oração pela Unidade Cristã – Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC)