O tempo voa. Já estamos quase no meio do ano de 2018. Maio? Mês das ladainhas de Nossa Senhora? Não mais. Maio, simplesmente maio. A vida continua. O que estamos fazendo de nossa vida? Não podemos desperdiçar o tempo da peregrinação errando um lado para outro. Cuidado para não ficarmos corcundas com tanto acesso ao celular e suas mensagens! Levando essas mensagens tantas para o nosso “liquidificador” interior o que sobra ou o que resulta?

Boa leitura!

Frei Almir Ribeiro Guimarães

O que lhe faz viver?

A crítica cinematográfica costuma saudar com muito entusiasmo os trabalhos de um cineasta sul-coreano chamado Hong Sang-Soo. Há tempos atrás apareceu nas telas um de seus filmes bastante apreciado “Na praia à noite sozinha”. Agora está sendo exibido outro: “O dia depois”. Um homem cansado das rotinas da vida, buscando o novo, procura envolvimento com outras mulheres. Na verdade não ama nenhuma delas. Trata-se de um homem de letras famoso. De mais nada somos informados. O filme, em preto e branco, mostra alguém vazio, fechado, estranho, egoísta, sem delicadeza interior, não enxergando o coração das pessoas. Os diálogos são extremamente interessantes. Quase sempre duros. Os atores muito colaboram para o sucesso do filme com invulgar talento.

Logo nas primeiras cenas, no café da manhã, a mulher do personagem central entra em cena e começa a fazer perguntas: Por que sair tão cedo? Por que está emagrecendo? Por que mal come? Está namorando alguém? O homem hesita, não encara a mulher. Hesita, nega, esquiva-se. Na realidade está envolvido com uma funcionária de sua loja-editora. Um desses romances muito quentes. Esta última desaparece. O “chefe” contrata uma outra.

Outro envolvimento, que também será descartado rudemente com a volta da funcionária anterior, amante do “chefe”. Ele descarta a precedente sem nenhum remorso. Num determinando momento do diálogo uma das amantes, sentada em face do homem, coloca uma pergunta simples e difícil de ser respondida: “O que lhe faz viver?” A esta pergunta todos precisamos responder. O que estamos fazendo do tempo de viver?

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O que nos faz viver? Queremos viver porque somos seres humanos, homem ou mulher, vivemos com outros, dependemos de outros, prestamos serviços alegres aos outros. Não constituímos uma ilha. Existimos para a partilha e é na partilha e no relacionamento transparente e belo com os outros que pensamos encontrar qualquer coisa parecida com felicidade. Existimos para a esposa, para o esposo, para os filhos. Cuidamos de não nos possuirmos uns aos outros como coisas. Queremos ser profundamente pessoas de dom, sem posse. Talvez seja quase banal dizer que vivemos para o amor…

Nesse tempo que passa, nesse espaço entre o nascer e o morrer, queremos dar o melhor de nós mesmos. Trabalhamos não mecanicamente, não somente pelo lucro. A dedicação ao trabalho nos faz viver… escrever, plantar, cuidar do corpo e da mente das pessoas, incentivar pesquisas em todos os campos, trabalhar para que leis melhorem a condição de vida das pessoas. Não é apenas o gozo e interesse pequeno com nosso ego doentio que nos faz viver: viagens, lucros, prazeres pequenos. Sou um operário do mundo, nesse mundo globalizado. O que faz me viver não é querer que meu nome faça parte de relatos grandiosos, mas que digam que passamos a vida tentando melhorar o mundo.

Não queremos rolar pela vida, de perfume em perfume, de flor em flor. Sentimos uma saudade do Mistério. De onde viemos? Para onde vamos? Quem nos tirou do nada e colocou dentro de nós essa sede do Infinito? Será que podemos dizer que andamos essa Luz que clareia nossos passos.

Sabemos que somos seres dilacerados, rasgados, fissurados. Somos uma penca de contradições. No dizer de Pascal “caniço pensante”. Com Paulo dizemos: “Quem nos livrará deste corpo de morte?” Queremos o bem e fazemos o mal. Será que somos seres que buscamos esse Deus, esse Mistério, essa Fonte. Fomos criados por um Outro, por amor e no amor. Esse que nos amou primeiro e nos ama para sempre se fez um pedaço de gente em Jesus. O que nos faz viver seria essa vontade doida de nos configurar a esse Cristo? Ou será que isso é apenas uma teoria?

Uma das amantes do ilustre protagonista do filme pergunta queima roupa se ele acredita em Deus. Não há resposta.

O que nos faz viver? “Seja o mundo real ou sonhado, com Deus ou sem Deus, todas as hipóteses levam a um mundo nem de santos, nem de demônios. Somos mais seres levados por correntes, por acasos” (Inácio Araújo, crítico, Folha de São Paulo, 12 de abril de 2018, Ilustrada C5).

Acreditar que existe um amanhã para esse mundo e nosso mundo. Não perder a esperança. Sempre esses outros e esse Outro: “Ninguém está na origem de si mesmo, recebemos tudo de um outro, como tudo recebemos do Todo-Outro, nosso Pai em Jesus Cristo. É que o afirmamos quando confessamos Deus criador. Fomos criador por amor e para o amor. A cada um de nós cabe transmitir vida e amor, à imagem de Deus” (Arnaud Corbic).

O que realmente nos faz viver?