Cultura franciscanaNotícias › 13/03/2018

Editora Vozes entra na cena política do Brasil

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Frei Augusto Luiz Gabriel e Moacir Beggo

São Paulo (SP) - No coração financeiro de São Paulo e próximo do templo das indústrias do Brasil, a boa política pediu passagem e apontou uma luzinha no fim do túnel nesta segunda-feira à noite, 12 de março. O “quarteto do bem”, formado pelos pensadores Clóvis de Barros Filho, Viviane Mosé, Eduarda La Rocque e Oswaldo Giacoia Junior se reuniu no Teatro Gazeta, na av. Paulista, para falar do novo projeto da Editora Vozes: “Política, nós também sabemos fazer”.

Depois de apresentar os autores e protagonistas da noite, o professor e mediador Gustavo Fernandes Dainezi recordou que a Vozes é uma das mais tradicionais editoras do mercado editorial. No conturbado mundo político, o novo lançamento de 184 páginas, traz “iluminações para os nossos cotidianos”,  destacou Dainezi.

“Política é a presença enérgica de cada pessoa na vida comunitária; por isso, fazer política, em vez de somente receber política, é o caminho mais humanizante”, prefaceia Mario Sergio Cortella, dando o tom da obra. Clóvis de Barros, que abre a discussão no livro sobre o conceito o “que é a política”, foi o primeiro convidado a falar para o auditório lotado. Segundo ele, a própria ideia de política já faz parte de uma disputa propriamente política. “Então, quando você ouve a expressão como politicagem, politiqueiro, evidentemente flagra uma tentativa de desligitimação de um certo fazer, provavelmente com algum interesse”, explica.

livro-clovisTendo polis na raiz da palavra, política é mais do que representação, do que instituições; transcende os três poderes, seus detentores, palácios e praças. “Requer participação de todos os cidadãos. Afinal, toda polis é o que quer ser. O que vai sendo deliberado por seu povo soberano”, acrescenta Clovis.

Segundo o autor, a política é também a arte de gerir conflitos. “Se todos concordássemos com todos a respeito de tudo, a política sequer existiria”, disse. “Acredito que o trabalho político propriamente dito seja um trabalho de definição de interesses supostamente coletados na sociedade mas que só se convertem em interesses propriamente políticos quando isso interessa aos agentes que participam do jogo do campo”, emendou.

Barros observa que esse mecanismo de se apresentar como representante do povo, de jogar um jogo em que só o que importa é a própria carreira política, a própria obtenção do poder político, talvez esse cinismo, que tenha funcionado muito bem durante muito tempo,  nunca tenha sido tão claramente denunciado como nos dias de hoje. De tal maneira que – claro continuaremos assistindo aos candidatos ocultando seus verdadeiros interesses, fazendo esquecer os troféus que estão em disputa, falando dos problemas de todos, tentando mascarar aquilo que efetivamente pretendem – ainda assistiremos muito a isso, mas não tão impunemente como em outros tempos”, observou, citando que por isso, talvez, estamos assistindo ao surgimento de soluções alternativas de resoluções de conflitos que estão em voga no Poder Judiciário, mas que também possam contaminar todos os poderes do Estado.

“Não bastam surgimento de novas formas de manifestação de poder e de instâncias decisórias se elas não vierem acompanhadas de uma genuína legitimação na sociedade em que estão envolvidas”, adiantou, lembrando que vivemos em tempos de desligitimação do trabalho político. “Desacreditá-los parece ganhar pontos junto à maioria. Toda simplificação é atraente onde a complexidade apavora. Faríamos bem em ter cautela. Olhar mais de perto. Dar um tempo de exame calmo e lúcido”, ponderou.

O PODER E AS REDES

livro-vivianeMosé revelou que a sociedade em rede que vivemos hoje jamais esteve nos seus apontamentos. “Sequer passava pela minha cabeça que um dia poderíamos compartilhar conteúdo diretamente e conectar pessoas diretamente, quebrando um tipo de hierarquia que já existia e produzindo um novo espaço. Então, quando essas mídias se transformam, a sociedade se transforma. Portanto, estamos num momento em que a democratização da informação, do acesso à informação e ao conhecimento – porque a internet não reproduz apenas um banco de dados, a gente tem produção cotidiana como estamos fazendo aqui ao vivo neste debate -, então isso é uma possibilidade nova que as pessoas têm. E essa sociedade pode caminhar tanto para uma possibilidade de ampliações humanas como para um retrocesso”, avalia. “Para isso, precisamos fortalecer o pensamento, a autonomia, a ousadia intelectual e artística, para alimentar novos e mais democráticos movimentos nessa rede”, pede Mosé.

Esse fortalecimento é importante na guerra da informação que se trava hoje. “Não tenho dúvidas de que vivemos uma mudança de valores. Tentamos ordenar o pensamento em linha, mas as linhas agora são redes que se ligam e se retroalimentam. Tudo se relaciona. O conflito de informações, o excesso nos aproxima do caos. Como cegos em tiroteio, vivemos a guerra da informação”, acrescentou.

Para ela, a maior arma para não ser dominado por discursos é saber ler. “Vivemos uma sociedade em que a manipulação do discurso é um fato cada vez mais presente. Então, fazer política hoje é, antes de tudo, aprender a ler, aprender a interpretar, aprender a se desvincular das manipulações discursivas, que não são apenas políticas partidárias, mas diz respeito ao mercado, ao consumo, à produção de medicação, por exemplo. Digo sempre que, cada vez mais temos um corpo raquítico e uma cabeça obesa. Isso não é produto da internet; isso é muito antigo. Mas cada vez mais nos virtualizamos. A grande política hoje é valorizar a vida, é reaprender a existir novamente, porque a gente perdeu essa dimensão”, ensinou.

DEMOCRACIA E INFORMAÇÃO

livro-eduardaEduarda lembrou que há 70 anos, Aldous Huxley, em “Admirável mundo novo”, já apontava o cenário que vivemos hoje no mundo. “Voltamos ao risco de uma iminente guerra nuclear e assistimos a ascensão de tiranos por todo o mundo, sejam de esquerda ou de direita, aonde ainda não se estabeleceram”, introduziu.

Citando Mosé, o poder está na informação, no saber, no formato em que se enquadra o discurso. “O acesso democrático à informação trazido pela internet, novas mídias e tecnologias enfraquece o poder da imprensa e do ‘marketing enganoso’ e possibilita o surgimento de um indivíduo-cidadão, sujeito da sua relação com o Estado e com o mercado”, diz.

“Ou seja, a transformação que a gente precisa começa dentro de cada um de nós. A solução não vira de cima para baixo, por esse Estado corrupto, antiquado e paquidérmico, mas de baixo para cima, a partir da transformação do cidadão como eleitor, com direitos e deveres que isso implica. Somente quando o cidadão tomar para si o senso de propriedade sobre a ‘coisa pública’, que até pouco tempo atrás era ‘de ninguém’, é que poderá exercer o pleno direito da democracia”, acrescenta Eduarda.

“Eu falo que não é a supremacia do povo, nem da imprensa, nem do estado, nem do mercado, nem das Universidades, ONGs ou sindicatos, que vai viabilizar a democracia, mas a composição de todas essas forças e saberes. Todos têm muito a contribuir. A democracia só é possível em rede mas não sabemos usá-la para implementar um modelo de gestão participativa”, indicou, propondo o conceito de prosperidade ao invés do PIB, como uma medida de sucesso dos países. “Então, o conceito de prosperidade propõe que a gente tenha um aumento de qualidade de vida para todos, principalmente para aqueles menos favorecidos. E assim a gente consegue a sobrevivência da nossa democracia”, completou.

ÉTICA E POLÍTICA

livro-osvaldoAo abordar a ética na política, Giacoia disse que é consensual que nós vivemos hoje momentos de crise. “Crise da razão, dos valores, crise econômica, política, crise de legitimação. Parece-me que há uma inflação global de crises em todos os setores”, observou, explicando detalhadamente o conceito de ética.

“Nós entendemos a ação política ao longo da história, e sobretudo a partir do mundo moderno, que para mim é a partir do século XVI, como um espaço da representação. Ora, tenho impressão que a crise política que atravessamos hoje no Brasil e no mundo inteiro é uma crise nos modelos de representação”, explicou. “Representação não é apenas parlamentar. E que a desconfiança no modelo de representação que passou ao longo desses anos todos como único modelo de representação é responsável pela quebra de confiança que nós temos hoje na ação política levada de modo tradicional. E, justamente por isso, é importante novas formas de ação política de participação direta”, pediu.

CO-RESPONSÁVEIS

Clóvis Barros completou: “Acho que esta vinculação que o professor Osvaldo Giacoia estabelece entre ética e política é extraordinariamente bem-vinda, porque no final das contas somos todos co-responsáveis por criar para nós as condições adequadas de convivência.

Somos todos co-responsáveis por assistir no nosso meio e nos nossos coletivos o triunfo de soluções tirânicas e autoritárias.

Somos todos co-responsáveis por assistir uma espécie de desmoralização da vida, onde a palavra de cada um conta cada vez menos.

Somos todos co-responsáveis por assistir à construção de uma sociedade da desconfiança, onde nada do que dizemos parece ter valor para ninguém.

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Somos todos co-responsáveis porque se antes tínhamos práticas que revelavam essa confiança de uns e outros, essa erosão da moralidade não foi produzida por invasores extraterrestes, bárbaros, nem mesmo por povos vikings, poucos afeitos aos nossos valores éticos. Ninguém invadiu o Brasil nos últimos 50 anos. Portanto, tudo aquilo que se esfacelou em termos de moralidade só pode ter sido ou produção nossa ou com nosso endosso, com a nossa aquiescência.

É preciso entender que a ética é inseparável da liberdade para onde queremos ir, onde queremos trilhar. Estamos muitos acostumados a pensar sobre meios, mas pouquissimamente preparados para decidir os fins últimos, o que queremos para nós como sociedade, o que queremos para nós como humanidade. É por essa e por outras que o desafio é enorme, mas é auspicioso, é colorido, afinal de contas, eu dizia com muita sinceridade que as pessoas que mais amamos são os nossos filhos, e deixá-los como legado essa sociedade da desconfiança é passar pelo mundo com pouco zelo. Eu ainda me vejo com forças para, no tempo que me resta, participar com quem quiser da construção de novos coletivos onde possamos resgatar entre nós alguma confiança, amabilidade, respeito, gentileza. Somos todos co-responsáveis!

A Editora Vozes teve a parceria da Casa do Saber, Livraria Martins Fontes e Usina Pensamento neste evento.