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Política como exercício da busca do bem comum

21/02/2019

Entrevistas

Neste ano, a Campanha da Fraternidade, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), tem como tema “Fraternidade e Políticas Públicas” e lema: “Serás libertado pelo direito e pela justiça” (Is 1, 27). O objetivo geral da CF nos orienta a buscarmos o bem comum, à luz da Palavra de Deus e da Doutrina Social da Igreja.

Para ajudar na compreensão do tema, a Província Franciscana da Imaculada Conceição, através da Frente de Evangelização da Comunicação, produziu uma série de entrevistas abordando diversos aspectos das Políticas Públicas e suas áreas de atuação.

Na terceira entrevista da série, Felix Fernando Siriani fala sobre a política com exercício da busca do bem comum. Ele é formado em gestão de Políticas Públicas, especialista em Pedagogia Social, Pastoral Escolar e mestrando em Mudança Social e Políticas Públicas.

Acompanhe a entrevista concedida a Frei Gustavo Medella.

Site Franciscanos – De maneira geral, como pode ser definido o conceito de política?

Felix Fernando Siriani – A palavra política vem do grego, “politikós”, que se referia à “pólis” grega, local onde os gregos tomavam as decisões na busca do bem comum. Era um espaço que garantia a ordem e estabilizava a sociedade, para que as pessoas pudessem conviver pacificamente. As “pólis” eram marcadas por um conjunto de interações e conflitos de interesses. Hoje, consideramos a política como um espaço de poder e construção de opiniões. É ela quem vai direcionar a vontade daqueles que participam dela. Todos somos seres políticos, pois toda vez que emitimos uma opinião, estamos fazendo política. Gosto muito da ideia de política segundo Aristóteles. Ele afirma que política é a ciência que tem como objetivo a felicidade humana. Acredito que a política deve produzir essa felicidade. Mas para isso, precisamos participar, garantir os direitos e a dignidade das pessoas.

Site Franciscanos – Em sua opinião, a que se deve a aversão dos brasileiros à política?

Felix Fernando Siriani – Acredito que pela realidade do país. As pessoas perderam a crença de que o sistema político brasileiro e os políticos eleitos vão resolver os problemas das pessoas. São inúmeros casos de corrupção, descaso com saúde, educação, meio ambiente, segurança pública. Isso faz com que a população fique cada vez mais infeliz, mais descrente. A sociedade e as pessoas acabam ficando mais pobres, enquanto a classe política vai ficando cada vez mais rica. Essa aversão, ao invés de contribuir, prejudica. Quanto mais nos afastamos da política, mais pessoas vão assumir nossos lugares. O brasileiro sofre demais, nossa vida é muito corrida. Por isso, queremos resultados imediatos, e na política não é assim. Nos últimos anos, apesar dos grandes avanços que tivemos, no dia a dia não percebemos os resultados. A partir daí, cria-se esse discurso de aversão à política. Acredito que a Campanha da Fraternidade pode romper com este preconceito de que a política é coisa suja e contribuir para que os leigos e leigas compreendam o seu papel na transformação social.

Site Franciscanos – Quais são as consequências da omissão dos cidadãos, e também dos cristãos, em relação à política?

Felix Fernando Siriani – As consequências são graves. Não dá para falar que a omissão de um cristão em relação à política é algo simples ou passível. O cristão que não participa da política gera consequências graves. Cada um tem os seus interesses, valores e opiniões formadas. Na política não é diferente. Temos opiniões divergentes, mas se não conseguirmos participar, ser presença nestes espaços de debate político, não teremos voz. Sem voz, o cristão não consegue manifestar a sua opinião e não consegue defender aquilo que acredita, nem mesmo auxiliar na tomada de decisão para formulação de uma política pública. Que autoridade o cristão terá para defender sua visão de mundo se ele não participar? São diversos temas importantes, como família, juventude, saúde, aborto. Como o cristão vai defender os valores do Evangelho se não se envolve com a política? Não estou falando que o Estado precisa acatar todos os interesses da Igreja, mas nós precisamos participar destes debates. Como o Papa Francisco ensina: “Não nos façamos de distraídos”. Quem não participa da política não consegue ver o problema do amigo do lado, do irmão caído. Devemos agir no mundo, ajudar o próximo é a vocação do cristão. Por isso, deve ser o objetivo da nossa política.

Site Franciscanos – Além do voto, quais são as outras formas de envolvimento político disponíveis para a população?

Felix Fernando Siriani – O voto é um importante aliado, mas a Constituição Federal garante outros instrumentos de participação. Depois do voto, uma das formas mais comuns são os conselhos de direito, os conselhos gestores, que têm como objetivo garantir a eficácia na gestão da política pública. Ele educa para a cidadania, monitora projetos e programas. Temos os Conselhos da criança e do adolescente, mulher, idosos, saúde, cultura. Outra forma de participação são as Audiências Públicas, que são importantes para debater e propor soluções para problemas específicos. São espaços de diálogo que podem acontecer em diferentes temas: saúde, transporte público, IPTU, trânsito. Depois, de uma maneira diferente de discussão, temos os fóruns e as reuniões, que podem acontecer em diversos locais. Eles têm como proposta ações consultivas. Alguns municípios e estados têm os fóruns de turismo, cultura, hip-hop. Assim como as reuniões, em que são convocados agentes políticos para participar e a população pode falar sobre determinados problemas. Depois temos as Conferências, que são espaços importantes para debater e tomar decisões. Tivemos, nos últimos anos, a Conferência de juventude, direitos humanos, cidades. Temos os Movimentos Sociais e organizações da sociedade civil, que são especialistas em determinados temas; as ouvidorias; o Orçamento Participativo, onde a população contribui com o Poder Público na tomada de decisão para onde será investido o dinheiro público. Temos também os plebiscitos e referendos, que são duas formas de participação e, por fim, e não menos importante, a forma mais direta de contribuir na elaboração das Políticas Públicas: o agente político, através dos cargos eletivos, como vereador, prefeito, governador, deputado, senador, presidente. São formas que temos de participação e de contribuição para o bem comum.


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Confira todas as entrevistas:

Tema e Lema da CF | Entrevistado:     Dom Leonardo Ulrich Steiner

Bispo Auxiliar de Brasília e secretário-geral da CNBB.

Conceito de Políticas Públicas | Entrevistado: Robert Soares do Nascimento

Agente de Pastoral, compõe o Núcleo em Educação e Direitos Humanos da UNISAL (Centro Universitário Salesiano de São Paulo) e participa do Grupo de Trabalho de Justiça Restaurativa da Comarca de Americana (SP).

Política como exercício do bem comum | Entrevistado: Felix Fernando Siriani

Formado em Gestão de Políticas Públicas, especialista em Pedagogia Social, Pastoral Escolar e mestrando em Mudança Social e Políticas Públicas.

Doutrina Social da Igreja | Entrevistado: Prof. Dr. Fernando Altemeyer Junior

Chefe do Departamento de Ciência da Religião da PUC-SP.

As ações e ensinamentos de Jesus como inspiração para políticas em favor da cidadania |Entrevistado: Francisco Orofino

Leigo, professor de Teologia Bíblica em Nova Iguaçu (RJ) e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) e do ISER Assessoria (Instituto de Estudos da Religião).

Os franciscanos e o engajamento político | Entrevistado: Frei Vitorio Mazzuco

Mestre em espiritualidade e coordenador da Pastoral Universitária da USF.

A importância dos Movimentos Sociais na busca do bem comum | Entrevistado: Dom Guilherme Werlang

Bispo da Diocese de Lages (SC) e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Social Transformadora da CNBB.

Políticas Públicas na área da saúde | Entrevistado: Fernando Pigatto

Presidente do Conselho Nacional de Saúde (CNS) e Representante da Confederação Nacional das Associações de Moradores (CONAM).

Políticas Públicas na segurança | Entrevistado: Ricardo Bedendo

Jornalista e Mestre em Ciências Sociais, integra o núcleo de Estudos de Violência e Direitos Humanos da Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

Políticas Públicas e Assistência Social | Entrevistada: Rosangela Pezoti

Doutora em Serviço Social, responsável pelas áreas técnica e de articulação política do Sefras – Serviço Franciscano de Solidariedade.

Políticas Públicas em favor dos negros | Entrevistado: Frei David Raimundo Santos

Presidente da Educafro (Educação e Cidadania de Afrodescendentes e Carentes).

Importância da participação nos espaços de controle social | Entrevistada: Valdênia Paulino

Advogada, integra o Centro de Direitos Humanos de Sapopemba (SP)

Políticas Públicas em favor dos índios e dos povos originários | Entrevistado: Egon Heck

Assessor do secretariado do Conselho Indigenista Missionário – Cimi.

Políticas Públicas e Juventude | Entrevistada: Anna Luiza Salles Souto

Coordenadora da área de Democracia e Participação do Instituto Pólis.

Políticas Públicas e na área da educação | Entrevistado: Professor Dilnei Lorenzi

Pró-Reitor de Ensino, Pesquisa e Extensão da Universidade São Francisco (USF).

Saúde e o bem comum | Entrevistado: Pe. Christian de Paul de Barchifontaine

Assessor Internacional dos Camilianos na Área da Saúde, Relações Públicas das Organizações Camilianas.

O exemplo concreto no Rio de Janeiro | Entrevistado: Adriano de Araújo

Sociólogo, coordenador do Fórum Grita Baixada.