Em entrevista, Frei Ivair avalia o primeiro ano da Custódia Franciscana em Angola
14/10/2026

No dia 16 de outubro de 2025, a presença franciscana em Angola iniciou uma nova etapa de sua história com a ereção oficial da Custódia Imaculada Mãe de Deus de Angola (CIMDA), até então Fundação Imaculada Mãe de Deus de Angola (FIMDA). A criação da nova entidade, dependente da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, marcou um passo importante na consolidação da missão no país, que completava 35 anos.
À frente da Custódia está Frei Ivair Bueno de Carvalho, eleito Ministro Custodial durante o Capítulo Celebrativo realizado em Luanda. Neste primeiro ano de caminhada, a fraternidade tem se dedicado à organização da nova entidade, à continuidade da formação dos frades e ao fortalecimento de suas frentes de evangelização, em meio aos desafios próprios da realidade angolana.
Nesta entrevista, Frei Ivair reflete sobre os frutos desse primeiro ano, os momentos que marcaram a história recente da Custódia e os desafios para consolidar a missão franciscana em Angola.
Confira abaixo!
Quais frutos mais significativos o senhor identifica neste primeiro ano de caminhada da Custódia Imaculada Mãe de Deus?
Paz e Bem!
A respeito dos frutos identificados neste primeiro ano de caminhada da Custódia, o primeiro é reconhecer que somos frutos de um passado, da história da Ordem. De maneira especial, na África, houve o apelo do Ministro Geral, expresso em sua carta “A África nos chama”. Ali, com a graça de Deus e a aceitação da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, Angola foi acolhida como lugar onde a Província poderia implantar a Ordem.
Assim, a semente do Evangelho lançada pelos franciscanos desde 25 de janeiro de 1990 começou a frutificar e amadureceu, passando de Fundação a Custódia. Portanto, o primeiro fruto é reconhecer que somos parte de uma história franciscana.
O segundo fruto é reconhecer que somos movidos pelo Espírito do Senhor e por seu santo modo de operar, pois, sem Ele, nada podemos fazer. Trata-se, portanto, de reconhecer que somos frutos de uma história franciscana e da ação do Espírito Santo.
Outro fruto bonito é o fato de os irmãos angolanos terem aceitado pertencer à nova entidade que está nascendo, a Custódia. Isso revela o espírito de pertença. Quando temos consciência de que pertencemos a algo que nos transcende, nos tornamos cada vez mais responsáveis por esse mistério que nos envolve.
Outro aspecto importante é que a Ordem reconhece a Custódia como uma entidade própria. Até então, éramos, entre aspas, “apenas” pertencentes à Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil. Agora, a Ordem nos reconhece como uma entidade própria, com identidade e razões de ser dentro da própria Ordem. Esses são os frutos deste primeiro ano.
Poderia destacar alguns momentos vividos ao longo deste período que o senhor considera especialmente marcantes para a história da Custódia?
Neste início, destacaria como especial a própria visita do Ministro Geral da Ordem. Sabemos que é o Espírito Santo quem nos conduz, mas Ele também se manifesta por meio de pessoas. Nesse sentido, a presença de Frei Massimo Fusarelli, que veio como um irmão entre os irmãos, foi um momento marcante.

Em janeiro, tivemos a abertura do Oitavo Centenário do Trânsito de São Francisco. Houve uma grande mobilização da Família Franciscana, que começou a se organizar em torno dos centenários que estamos vivendo. Outro momento importantíssimo foi a profissão solene de seis irmãos, também em janeiro. Tivemos, ainda, a visita do visitador para a África, Frei Siphelele Gwanisheni, que permaneceu um mês conosco, convivendo com a fraternidade.
Em julho, tivemos a primeira profissão de nove frades angolanos. Com isso, o seguimento de Nosso Senhor Jesus Cristo na Custódia Imaculada Mãe de Deus de Angola vai se perpetuando. Outro momento bonito, também em julho, foi a primeira Assembleia da Custódia, quando foram apresentados os estatutos, que serão encaminhados para aprovação.

Destaco ainda a participação da Família Franciscana nas atividades formativas e celebrativas deste jubileu que estamos vivendo, principalmente na novena em preparação ao Trânsito de São Francisco. Nos dias 3 e 4 de outubro, celebramos esse momento com grande participação. Foi muito bonito.
Neste período, quais foram os principais desafios enfrentados pela Custódia e o que eles ensinaram à fraternidade?
Neste primeiro ano da Custódia, tivemos alguns desafios, sendo o primeiro deles a elaboração dos estatutos. Também nos dedicamos à preparação de documentos fundamentais para a vida da Custódia, como o Código de Conduta e Proteção de Crianças e Adultos Vulneráveis e as diretrizes para a formação e os estudos.
Outro desafio é aperfeiçoar cada vez mais o plano de evangelização e o plano operacional da Custódia, tornando mais consistente o Projeto Fraterno de Vida e Missão, assim como o projeto pessoal de vida e a elaboração da ratio econômica da Custódia.

Há ainda uma grande preocupação com a dimensão da autossustentabilidade. Temos consciência de que vivemos em um país com dificuldades financeiras extremas, por isso a autossustentabilidade representa um desafio muito grande. Nesse sentido, trabalhamos sempre a dimensão de colocar tudo em comum, como faziam os primeiros cristãos, algo próprio da vida religiosa franciscana.
Também destacaria como desafio o cuidado com a dimensão carismática da Custódia. Caso contrário, podemos nos perder pelo caminho e correr o risco de sermos “padres de hábito”, mas não frades menores. Por isso, é necessário buscar sempre o carisma, voltar às origens, voltar a Jesus, a Francisco e ao nosso modo de vida.
E o que aprendemos com tudo isso? Os desafios nos ensinam a estar sempre preparados para a vinda do Reino, pois não sabemos nem o dia nem a hora. Como diz São Francisco: “Comecemos, porque até agora nada ou pouco fizemos”. Tudo isso nos ensina, cada vez mais, a confiar no Espírito do Senhor e em seu santo modo de operar, bem como na Providência Divina. Nada nos há de faltar.
Quais características do povo angolano ajudam a dar um rosto próprio ao modo como o carisma franciscano é vivido no país?
Para mim, uma das questões fundamentais é a vida fraterna. Na vida religiosa, tudo no franciscanismo parte dela. Nosso modo de viver, nossa evangelização, nossa pobreza, castidade e obediência estão a serviço do Evangelho vivido em fraternidade. Em Angola, existe a dimensão da família alargada, na qual cabem todos os parentes, mesmo os mais distantes. Essa característica cultural nos ajuda a viver a espiritualidade franciscana.
Necessário destacar ainda a alegria do povo, que certamente é parte integrante da vida religiosa franciscana. Afinal, um frade triste é um triste frade! Sabemos que o franciscano deve estar sempre alegre, porque o próprio Cristo é nosso condutor, nosso tudo. Ele é “o meu Deus e o meu tudo.”
Acredito que nos ajuda muito também a simplicidade e a humildade do povo, que têm tudo a ver com as virtudes cristãs e franciscanas. O frade deve ser simples e humilde. Isso está diretamente relacionado ao nosso nome: Ordem dos Frades Menores, os irmãos menores. A dança também é muito bonita e, a meu ver, tem tudo a ver com a alegria e a felicidade franciscanas. Outro ponto interessante é a solidariedade, que faz parte do ethos angolano e contribui muito para a espiritualidade franciscana.

Destaco também a capacidade de formar comunidades de fé. A cultura angolana tem, nas aldeias, a dimensão do ondjango. A partir dessa experiência cultural, desenvolveu-se uma reflexão teológica sobre o ondjango, que expressa a vivência própria do povo nas aldeias. Nesse espaço, há partilha e uma dimensão sinodal da Igreja. É muito bonito!
Por fim, me admira muito a fé do povo angolano. E nós, frades, precisamos aprender cada vez mais com isso. Precisamos ser homens de fé!
Como o senhor imagina a Custódia daqui a cinco ou dez anos? Quais são os caminhos que a Custódia deseja consolidar junto ao povo angolano?
Espero que tenhamos sempre presente a imagem que o Papa Francisco apresentava da vida religiosa: o Reino de Deus acontecendo na Terra.
Nós, frades, e a própria Custódia devemos buscar o Reino de Deus e sua justiça, para a salvação de todos. Creio que precisamos viver bem o presente, o aqui e agora, dando um bom testemunho do Evangelho não somente por meio das palavras, mas, de maneira especial, pela forma como vivemos como frades menores.
É interessante recordar o que São Francisco disse no final de sua vida: “Eu fiz a minha parte; que Deus vos ensine a fazer a vossa”. Não tenho dúvida de que é Deus quem continua conduzindo nossa vida, nossa história e nossa Custódia. O Espírito do Senhor e seu santo modo de operar continuarão a mostrar os caminhos franciscanos a serem percorridos nesta terra.
Quando há uma entrega total a Deus, no seguimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, vivida em oração e devoção, como fraternidade pertencente a Deus e seguindo o Senhor na humildade e na simplicidade do Pobrezinho de Assis, temos o compromisso de trabalhar para que o mundo seja cada vez melhor. É essa a missão que temos como Custódia Imaculada Mãe de Deus de Angola.

Relembre a ereção da Custódia
Após 35 anos de presença franciscana em Angola, a missão deu um passo decisivo com a criação da Custódia Imaculada Mãe de Deus. O processo foi amadurecido ao longo dos anos, com avaliações da caminhada missionária e reflexões sobre a organização e o futuro da presença franciscana no país.
Em janeiro de 2024, o Capítulo das Esteiras da Fundação Franciscana da Imaculada Mãe de Deus de Angola (FIMDA) contribuiu para esse discernimento. Posteriormente, a Visita Canônica, realizada em julho daquele ano, e a Assembleia Extraordinária, em junho de 2025, deram continuidade às reflexões sobre a nova etapa.
A proposta recebeu aprovação unânime do Definitório Geral da Ordem dos Frades Menores. Em 25 de setembro de 2025, o Ministro Geral, Frei Massimo Fusarelli, confirmou a decisão por meio de decreto, estabelecendo a criação da Custódia dependente da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, com vigência a partir de 16 de outubro de 2025.
A ereção foi anunciada oficialmente por Frei Massimo durante as Vésperas de 15 de outubro, no Capítulo Celebrativo realizado em Luanda. Na ocasião, também foi apresentado o novo governo custodial, com Frei Ivair Bueno de Carvalho como Ministro Custodial. A celebração do dia seguinte marcou oficialmente o início dessa nova etapa da missão franciscana em Angola.
Clique aqui para relembrar o Capítulo celebrativo
Guilherme Coutinho













