Uma esteira, um Evangelho e uma herança que continua viva
03/08/2026

Teve início nesta segunda-feira (3), no Seminário Santo Antônio, em Agudos (SP), o Capítulo das Esteiras 2026 da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, reunindo cerca de 200 participantes entre frades, religiosas e religiosos, irmãos e irmãs da Ordem Franciscana Secular (OFS) e colaboradores.
A programação de abertura foi marcada pela Celebração do Trânsito de São Francisco de Assis, realizada em memória dos 800 anos da Páscoa do pobrezinho de Assis. Inspirada no tema “O amor que não morre”, a cerimônia foi presidida pelo Ministro provincial, Frei Paulo Roberto Pereira, tendo Frei Walter de Carvalho Júnior como comentarista.
Ao longo da celebração, símbolos da espiritualidade franciscana, como a Cruz de São Damião, o Evangelho, a túnica de São Francisco e a esteira, ajudaram a recordar a herança deixada pelo Seráfico Pai. Também foram elevadas preces pela reconciliação, pela paz, pelo cuidado com a criação, pelas missões, pelos irmãos idosos e enfermos e pela unidade da Família Franciscana.
“Esta celebração não é um olhar melancólico para o passado. Não celebramos o fim, mas o ‘Trânsito’: a passagem para o Amor que não morre. O Trânsito de Francisco não foi simplesmente um pôr do sol, mas um amanhecer! O amanhecer de uma presença que por oito séculos continua a iluminar a humanidade e, hoje, o nosso caminho comum”, pontuou Frei Walter de Carvalho durante a celebração.
Um dos destaques da noite ocorreu durante a leitura do relato de São Boaventura sobre os últimos momentos de São Francisco. O texto recorda que, antes de morrer, o santo pediu que fosse proclamado o Evangelho de São João e, em seguida, entregou sua vida ao Senhor rezando e cantando um salmo. Após o relato, em memória desse gesto, os frades entoaram o Salmo 141 (composição de Frei Pierbattista da Falconara, frade italiano), em latim e a três vozes, envolvendo toda a assembleia em um clima de contemplação.
Em sua homilia, Frei Paulo convidou os participantes a viverem os próximos dias como um verdadeiro tempo de escuta e renovação do carisma franciscano. A celebração também destacou o Capítulo das Esteiras como um espaço de comunhão, inspirado na tradição iniciada por São Francisco de reunir os irmãos para fortalecer a vida fraterna e o compromisso com o Evangelho.
“Durante o ano inteiro nós revisitamos a história, nos reencontramos com a memória e assumimos revigoradamente os compromissos que dão sentido a essa história tão longeva. Além dos 350 anos da Província, celebramos os oitocentos anos do Trânsito de São Francisco, com a perspectiva de que, ao reviver a história franciscana, nós tenhamos o vigor necessário para assumi-la no nosso dia a dia”, refletiu.
O Ministro provincial também afirmou que a memória franciscana deve conduzir a um testemunho concreto do Evangelho, marcado pelo desapego e pelo serviço aos irmãos, a exemplo de Francisco de Assis.
“Francisco certamente viveu o Evangelho na sua integralidade e soube interpretar com sua vida as últimas palavras de Jesus com seus discípulos. Ele se sentiu extraordinariamente livre para servir e, no gesto do Lava-Pés, compreendeu que o ser humano, o meu irmão e a minha irmã, é digno de toda reverência. Com a alma extraordinariamente livre, ele pôde voar para o céu para viver aquele amor que nunca morre. Francisco nos mostrou o caminho. Assim seja.”
Durante a celebração, os participantes também rezaram juntos a oração composta pelo Papa Leão para o XVIII Centenário do Trânsito de São Francisco. O texto recorda a serenidade com que o pobrezinho de Assis acolheu a irmã Morte e apresenta seu testemunho como inspiração para os dias atuais. Em um dos trechos, por exemplo, a oração pede: “Neste tempo afligido por conflitos e divisões, intercede para que nos tornemos operadores de paz: testemunhas desarmadas e desarmantes da paz que vem de Cristo.”
A celebração foi concluída com o acendimento do Círio Pascal, alimentado por três chamas conduzidas por um confrade, uma irmã religiosa e um leigo da Ordem Franciscana Secular, simbolizando a unidade da Família Franciscana e a continuidade do carisma ao longo dos oito séculos de história.
“Este Capítulo não é um encontro de planejamento administrativo ou estratégico; é sobretudo um exercício de escuta recíproca. A memória da Páscoa de Francisco nos convida a quebrar os muros do poder e do isolamento para redescobrir a nossa identidade comum: somos uma única Família”, afirmou o Ministro Provincial. Ao concluir sua reflexão, acrescentou: “O Amor não morre! Como Família Franciscana reunida em Capítulo, ide em paz e o Senhor vos acompanhe!”.
Um tempo de escuta e fraternidade
Ao final da celebração, o Vigário Provincial, Frei Gustavo Medella, destacou que o Capítulo das Esteiras representa um tempo privilegiado para fortalecer os laços fraternos e renovar a esperança inspirada pelo testemunho de São Francisco.
“É um momento de escuta, um momento de aprendizagem, um momento de reaproximação, um momento de reforçar os laços de consagração, os laços fraternos, os laços que nos unem. Então é um tempo de graça privilegiado para todos que aqui estamos”, observou.
Frei Gustavo também compartilhou uma lembrança pessoal despertada durante a celebração do Trânsito de São Francisco. Ao entoar o canto juntamente com os confrades, recordou os anos de infância no Coral dos Canarinhos de Petrópolis, quando, aos 8 e 9 anos de idade, aprendeu a mesma melodia para cantá-la ao lado dos frades na Igreja do Sagrado Coração de Jesus. Para o Vigário Provincial, reviver esse momento tantos anos depois, agora como frade menor, representou um reencontro com uma memória afetiva que continua alimentando sua vocação
Ao dirigir uma mensagem àqueles que acompanham o Capítulo pelas rádios, redes sociais e demais meios de comunicação da Província, Frei Gustavo expressou o desejo de que o encontro leve a todos um testemunho concreto de esperança, paz e fraternidade, inspirado nos valores do Evangelho e do carisma franciscano.
“Que esse Capítulo possa levar a cada canto onde chega o sinal das nossas rádios, das nossas redes, das nossas emissoras, das nossas paróquias, da nossa comunicação, uma mensagem de esperança e de paz. A certeza de que um mundo diferente é possível. Em vez da competição, a colaboração. Em vez da acumulação, a divisão. Em vez de olharmos só às vezes para as telas, os olhos nos olhos também dizem muito e sempre vão ter o que dizer.”
Até quinta-feira (6), a programação do Capítulo das Esteiras reunirá momentos de oração e convivência fraterna, encerrando o tempo jubilar dos 350 anos da Província em sintonia com as celebrações dos 800 anos do Trânsito de São Francisco de Assis.
No site e nas redes sociais da Província será possível acompanhar, ao longo dos próximos dias, a cobertura completa do evento, com notícias, entrevistas, galerias de fotos e os principais momentos da celebração.
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Guilherme Coutinho





















