Carisma - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Especial Capítulo das Esteiras 2026

Poema de Frei Walter Hugo de Almeida, escrito para o Capítulo das Esteiras de 1982

Terra Encantada

A mensagem de Paz vem trazer,
Que este mundo só quer guerrear
Vem, Francisco, na terra acender,
Vivo fogo de amor atear.

Vem, Francisco, que a gente apressada,
De um viver já sem graça, ruim
Já não quer mais parar pela estrada,
Ver as flores do lindo jardim. 

A este homem que escravo ficou
Dos inventos que fez, e faz guerra,
Vem mostrar que o Senhor o talhou
Para além destas coisas da terra.

Onde está neste mundo o Condão?
A criança na Terra Encantada?
Vem, Francisco, ensinar a canção,
A ciranda que enfeita a jornada. 

Vem mostrar nesta alfombra divina:
Fauna… Flora… Que dança! Que amores!
Vem beijar na vereda a bonina,
Vem cantar o matiz destas flores.

Vem, Francisco, levar esta terra
Para Deus que a criou para a glória,
Não permitas ao monstro da guerra
Devorar nosso Irmão, sua História.

Vem plantar teu segredo na gente,
Esse jeito de festa viver,
Pra este mundo ficar mais contente,
E deixar de brincar de morrer.

(Frei Walter Hugo de Almeida)

Os “Capítulos” na Ordem Franciscana

Desde os inícios da Ordem, os momentos de encontro fraterno mais intensos ocuparam um lugar importante na vida dos irmãos, seja pela necessidade de pensar e organizar juntos os rumos da fraternidade e da missão, seja pelo prazer de se encontrar, conversar, comer, se alegrar juntos. Francisco sempre tomou as decisões mais importantes da fraternidade junto com seus irmãos. Depois de 1209, quando o papa Inocêncio III deu a aprovação oral para a Regra, os irmãos se espalharam por todas as regiões da Itália, e o seu número cresceu rapidamente. Sentiu-se a necessidade de uma reunião mais articulada para avaliar a caminhada e fixar algumas normas mais precisas. Em 1212, Francisco reuniu seus frades nos arredores de Assis, próximo ao Mosteiro de São Verecundo. Diz o cronista do mosteiro: “Nos últimos tempos, o bem-aventurado Francisco pobrezinho, frequentes vezes se hospedou no mosteiro de São Verecundo… E nas imediações do mesmo mosteiro, o bem-aventurado Francisco realizou um capítulo dos trezentos primeiros irmãos, e o abade e os monges, generosamente, como puderam, doaram as coisas necessárias. Houve grande abundância de pão de cevada, de sêmola, de trigo, de milho, água potável límpida e vinho de maçã diluído em água para os mais fracos, como atestava o velho senhor André, que esteve presente; e houve grande abundância de favas e legumes” (Legenda da Paixão de São Verecundo, Fontes Franciscanas e Clarianas, 1449).

Entre estes momentos de encontro de todos os frades, destaca-se aquele que aconteceu em Assis, na festa de Pentecostes, no ano de 1221, que passou para a história como o “Capítulo das Esteiras”. É São Boaventura quem nos dá uma ideia desta grande reunião fraterna: “Também, já multiplicados os irmãos no decorrer do tempo, o solícito pastor começou a convocá-los ao Capítulo geral no eremitério de Santa Maria da Porciúncula, a fim de distribuir a cada um deles a porção da obediência, segundo a medida da distribuição divina na terra da pobreza (cf. Sl 77,54; Gn 41,52). Aí, embora houvesse penúria de todas as coisas necessárias – e uma vez se reunisse uma multidão de mais de cinco mil irmãos -, no entanto, com a ajuda da divina clemência, havia suficiência de alimento, acompanhava uma boa saúde corporal, e fluía a alegria espiritual”. (Legenda Maior IV, 10, 1-2, Fontes Franciscanas e Clarianas 576).

Imaginemos os frades se preparando para a viagem: hábito surrado, numa das mãos uma sacola com o mínimo necessário, na outra um cajado, sandálias aos pés ou descalços, punham-se a caminho. A festa de Pentecostes ocorre geralmente entre o fim do inverno e o início da primavera na Europa. A neve começa a derreter, aparecem os primeiros brotos nas árvores, as beiras das estradas se enfeitam de flores, os pássaros enchem os ares com seus cantos, festejando a vida que renasce. Os frades viajavam a pé, em grupo ou dois a dois, cruzando vales e montanhas, estradas poeirentas, sujeitos a assaltos, às intempéries. Mas viajavam contentes, pois iriam se encontrar com Francisco, aquele que lhes tinha mostrado o caminho do seguimento de Cristo e do seu Evangelho. Muitos frades iriam encontrá-lo pela primeira vez. Ver Francisco, abraçá-lo, ouvi-lo, conversar com ele, saciar-se na fonte de sua santidade e sabedoria, poder partilhar com ele as angústias, dúvidas, incertezas e vitórias, valia qualquer sacrifício.

Calos nos pés, faces cansadas, hábitos empoeirados e suados, tudo o que os frades desejavam quando chegavam a Assis para o Capítulo era um leito macio, um banho quente, um prato de sopa. Como acomodar todos esses homens? Onde alojá-los? Como alimentá-los? Os habitantes de Assis não tiveram dúvida. Organizaram-se e, generosamente, ofereceram aos frades o que tinham de melhor. Como abrigo, “esteiras”. Daí o título de “Capítulo das Esteiras”. A mesa era frugal, mas farta. O cronista Jordão de Jano, um dos primeiros frades a ser enviado para a missão na Alemanha, nos dá um relato de um desses Capítulos, realizado em 1221: “… no ano do Senhor de 1221, no dia 23 de maio… no santo dia de Pentecostes, o bem-aventurado Francisco celebrou o Capítulo geral em Santa Maria da Porciúncula. A este Capítulo, conforme o costume então existente na Ordem, compareceram tanto os professos quanto os noviços; e os irmãos que compareceram foram calculados em três mil irmãos. A este Capítulo esteve presente o senhor Rainério, cardeal diácono, com muitos outros bispos e religiosos. Por ordem dele, um bispo celebrou a missa. E acredita-se que o bem-aventurado Francisco então tenha lido o Evangelho, e outro irmão a epístola. No entanto, como os irmãos não tivessem casas para tantos irmãos, acomodavam-se sob esteiras em campo espaçoso e cercado, comiam e dormiam em vinte e três mesas dispostas de maneira ordenada… Neste Capítulo, o povo da terra servia com espírito de prontidão, fornecendo pão e vinho, alegres por uma reunião de tantos irmãos e pelo regresso do bem-aventurado Francisco. Neste Capítulo, o bem-aventurado Francisco, tendo tomado o tema “Bendito o Senhor meu Deus que adestra minhas mãos para o combate” (cf. Sl 18,35), pregou aos irmãos, ensinando as virtudes e admoestando à paciência e aos exemplos a dar ao mundo. De modo semelhante era feito o sermão ao povo: e tanto o povo quanto o clero ficavam edificados. Quem poderia explicar quanta caridade, paciência, humildade, obediência e alegria fraterna existiam naquele tempo entre os irmãos? De fato, não vi na Ordem um Capítulo como este, tanto pela multidão dos irmãos quanto pela solenidade dos que serviam. E embora fosse tão grande a multidão dos irmãos, no entanto, o povo fornecia tudo tão alegremente que, após sete dias de Capítulo, os irmãos foram obrigados a fechar a porta e a nada receber e a permanecer dois dias a mais para consumirem as coisas oferecidas e recebidas” (Crônica de Jordão de Jano, Fontes Franciscanas e Clarianas, 1270-1271). 

Uma vez terminado o Capítulo, os irmãos retornavam para suas casas, levando na mente e no coração as palavras e ensinamentos de Francisco, mas também o carinho e o exemplo de generosidade e doação dos habitantes de Assis, que tanto amavam Francisco e seus frades.


Frei Sandro Roberto da Costa

“Se morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele” (Rm 6,8)

Um tempo de celebração! Assim tem sido os nossos últimos anos como franciscanos, um grande e contínuo convite a colocarmo-nos nessa fundamental postura cristã: a de que nossa fé, vida e história merecem e precisam ser celebradas! E razões não faltam para celebrarmos os 350 anos de criação da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, o cume dos jubileus franciscanos com os 800 anos do Trânsito de São Francisco e, ainda mais agraciados, a promulgação do “Ano Jubilar Franciscano” para toda a Igreja pelo Papa Leão XIV. Podemos, sem medo e com toda a licença, tomar o famoso adágio dos navegadores portugueses “navegar é preciso” e bradarmos nós, franciscanos da Província da Imaculada: “celebrar é preciso”!  

Entre os dias 3 e 6 de agosto, é no espírito de “celebrar é preciso” que nos reuniremos no Seminário Santo Antônio, em Agudos (SP), para o “Capítulo das Esteiras – 2026”. O tema proposto para essa celebração será “Francisco de Assis: viver o amor que não morre” e o lema é tirado da Carta de São Paulo aos Romanos: “Se morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele” (6,8). Certamente é a inspiração e a encarnação de um amor eterno que ruma no tempo e na história que torna possível os oitocentos anos do movimento franciscano. Carisma que quer ser tradução viva de manter aceso a paixão e o sonho do Poverello, a de que no Evangelho do Senhor encontramos a fonte da verdadeira vida! É esse também o espírito dessa fraternidade provincial celebrando 350 anos do mesmo sonho e paixão. 

Se em 1221, o famoso “Capítulo das Esteiras” era um Capítulo também com ares jurídicos, a nós, desde 1982, data do primeiro Capítulo das Esteiras em nossa Província, o mesmo tem um grande caráter festivo. Mas nem por isso deveríamos nos olvidar do dever de que “celebrar” o dom da fraternidade, da história e da vida seguem sendo tão ou mais imperioso do que decisões puramente jurídicas e institucionais. Frei Constantino Koser, ex-Ministro Geral da OFM, e frade da nossa Província, refletiu acerca do Capítulo das Esteiras de 1982: “Os Capítulos são na tradição franciscana momentos de firmar a obediência, isso através da participação ampla de todos, tanto na proposição como também na formulação. E a marca dessas discussões tem por alma o amor: um amor fraterno, de amizade, alegre, confiante. Um amor que, enquanto era no Senhor, era voltado para os Irmãos e predispunha à escuta dos outros e, portanto, à obediência; […] o Capítulo das Esteiras parece sem formalidades jurídicas e decisórias, mas nem por isso tem menos valor, porque é um Capítulo que promete, sem nenhuma pressão de tempo e de lei, ser uma convivência alegre, uma troca de experiências, um estímulo da caminhada e um aprofundamento do espírito franciscano. E é bem isto que São Francisco queria com os Capítulos”.  

“Se morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele” (Rm 6,8)

Byung-Chul Han, escritor sul-coreano tão debatido nos últimos anos, na esteira do francês Guy Debord, fala do risco de que num período histórico da falta de tempo e da multiplicidade de tantas festividades, corremos o risco de também desaprendermos a bem celebrar. O convite a celebrarmos nossa história, enquanto Família Franciscana e Província da Imaculada, é um chamado à vivermos esse tempo de graça e poder jubilar naquilo mesmo que somos. “Sabe celebrar e festejar quem sabe o que é comunidade”, afirma Han. E nós, frades, diríamos: “sabe celebrar quem sabe o que é a fraternidade”. Mais do que qualquer imagem, depoimento, texto ou registro que uma celebração ou festa possa acarretar, nada há de superar o viver em si mesmo. Esse Capítulo das Esteiras não é repetição de algo já conhecido, mas desejo de viver a novidade de algo familiar. Algo que se apresenta como único na marcação do tempo, algo que favorece o construir da fraternidade dos menores desde suas origens. Fazer novas todas as coisas (Ap 21,5) é síntese daquilo que o Espírito suscita em cada tempo no inesgotável mistério de encarnar o próprio em cada presente. O que se celebra na história é algo que não passa, é aquilo que continua ainda definindo quem somos. Byung-Chul Han reflete que é por isso que deve ser sempre imperioso poder viver profundamente os momentos de celebração como quem se maravilha com a graça da vida, tudo o mais é detalhe, o fundamento é este. 

São Francisco parece compreender muito tal questão. O que brota desse apaixonado pelas coisas do Senhor é um desejo profundo de celebrar todas as coisas da vida e suas criaturas, inclusive, tecer louvores à Irmã Morte. Não sozinho, mas acompanhado dos Irmãos. Os relatos hagiográficos desse momento derradeiro de sua passagem mostram alguém que atravessa o fim terreno como simples ocaso, mas o celebra meticulosamente, como quem sabe render ação de graças por todo o tempo do viver, alguém intimamente integrado à vida, e por isso não vê a morte como inimiga, mas cumprimento do todo da existência. Dela, não tem o que tirar, mas sim viver, sim celebrar. É assim que queremos olhar para o “Capítulo das Esteiras 2026”, como quem deseja vivê-lo e celebrá-lo, acima de tudo, assim como nos ensinou nosso Irmão Menor. 

Na trajetória de olhar para a nossa história ao longo de todo esse período dos 350 anos, fomos aprendendo que a memória não serve apenas para recordar o passado, mas sim, para interrogarmos o presente e, com as bênçãos de Deus, irmos construindo o futuro. Não qualquer futuro, mas um condizente com a memória de um passado que convida à celebração. E o futuro já vai rumando conosco, não estamos mais nos 350 anos e sim nos augúrios dos 351! O tempo que marcha, por vezes, pede parada, pede celebração do ontem construído, do hoje sendo vivido e do amanhã que está vindo! Um aniversário não é festa de um mero retorno a um dia passado, mas de marcar o quanto o tempo transcorrido merece ser refletido no hoje, pois em todo esse itinerário ele foi vida. O Capítulo vem oportuno, querendo que possamos, como o lema nos lembra, “viver o amor que não morre”! Ele quer ser jubiloso porque quer brindar tantas graças nesse rico tempo de datas tão especiais. Eis, portanto, o adágio que nos interpela: “celebrar é preciso”. 

Na carta convite do primeiro Capítulo das Esteiras da nossa Província, celebrado em 1982, por ocasião do oitavo centenário do nascimento de São Francisco, o Ministro provincial da época, Frei Basílio Prim, escreveu: “E eu, Frei Francisco, no meu oitavo centenário de nascimento, quero falar com todos os meus irmãos, em Agudos”. É sugestivo que, 44 anos depois, agora por ocasião de seu Trânsito, estejamos nos preparando para mais um Capítulo das Esteiras. E bem poderíamos ouvir: “E eu, Frei Francisco, no oitavo centenário de minha páscoa, quero falar com todos os meus irmãos, em Agudos!”    


Frei João Manoel Zechinatto

Carta Convite do Ministro Provincial

“E São Francisco, maravilhando-se de tamanha multidão de frades reunida na planície em torno de Santa Maria, dizia entre lágrimas e com grande devoção: “Na verdade, este sim é o campo e o exército dos cavaleiros de Deus! (…) E na mesma ocasião, por ocasião do sermão, São Francisco propôs estas palavras: “Meus filhos, grandes coisas prometemos a Deus, muito maiores foram prometidas por Deus para nós se observarmos as que nós prometemos a Ele; e esperamos de certo as que foram prometidas a nós. Breve é o prazer do mundo, mas a pena que o segue é perpétua. Pequena é a pena desta vida, mas a glória da outra vida é infinita”. E pregando com toda devoção sobre essas palavras, confortava e levava todos os frades à obediência e à reverência da santa mãe Igreja e à caridade fraterna, e a orar por todo o povo de Deus, a ter paciência nas adversidades do mundo e temperança nas prosperidades, e ter limpeza e castidade angélica, e a ter concórdia e paz com Deus e com os homens e com a própria consciência, e amor e observância da santíssima pobreza” (Fior 18).

Caros confrades, que o Senhor lhes conceda a paz!

Como é de conhecimento de todos, neste ano celebraremos nosso Capítulo das Esteiras com a intenção de coroar um bonito e significativo tempo que temos vivido enquanto Província, Família Franciscana e Igreja. A principal motivação do Capítulo das Esteiras é concluir o Tempo Jubilar dos 350 anos da Província, iniciado em julho passado, marco de uma jornada de dedicado serviço e entrega evangélica na missão estendida por todos os lugares onde temos ou já tivemos presença, marcada certamente pela espiritualidade que abraçamos, herdada de nosso Seráfico Pai São Francisco de Assis.

De São Francisco, inspiramo-nos no VIII Centenário de seu Trânsito, para permear a celebração do Capítulo das Esteiras com perspectivas sobre o Poverello que vem inspirando a tantas pessoas no decorrer dos séculos — e a cada um de nós no tempo de nossa vida, no discernimento de nossa vocação pelo modo como se permitiu ser tomado por Deus, cativado pela beleza de sua Criação, entregue à apaixonada contemplação de sua Paixão, mantendo-se irmão e menor com todos.

Tais alicerces inspiracionais nos enchem de alegria e desejo de estarmos novamente unidos para rezar, refletir e confraternizar, como uma única fraternidade unida junto ao Senhor em Capítulo, palco adequado para também podermos render graças pelo dom da consagração de nossos Irmãos Jubilandos deste ano de 2026.

Deste modo, fizemos o convite a todos os irmãos da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, em tempo de formação inicial e permanente, mas também os vocacionados que convivem conosco nas Fraternidades de Acolhimento Vocacional, e estaremos reunidos em quase 200 participantes, na Fraternidade do Seminário Santo Antônio, de Agudos (SP), entre os dias 3 e 6 de agosto de 2026, para o Capítulo das Esteiras 2026, que terá como tema: “Francisco de Assis: viver o amor que não morre” e lema: “Se morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele” (Rm 6,8).

Que Deus permita que esta seja ocasião de celebrarmos nossa vida e comunhão espiritual e fraterna, de honrar a memória de nosso Seráfico Pai São Francisco e de olhar com esperança renovada para o horizonte do futuro de nossa Província, concretizado em cada uma de nossas presenças, assumido por cada um de nós, irmãos. 

Fraternalmente,
Frei Paulo Roberto Pereira, Ministro provincial

O Capítulo das Esteiras na Província: “Fato Inédito”

É com o título de “Fato Inédito na Província” que Frei Clarêncio Neotti inicia os artigos e notícias do Capítulo das Esteiras que aconteceu em 1982 na Província, na edição da Vida Franciscana do mesmo ano. Mas essa história começa no ano anterior, 1981, quando toda a Ordem se preparava para celebrar os 800 anos do nascimento de São Francisco. Em nossa Província, foi instituída uma Comissão do 8º Centenário, que pensou quase trinta propostas para que a fraternidade provincial pudesse celebrar bem essa data. Dentre todas elas, não constava o Capítulo das Esteiras. A ideia de um Capítulo das Esteiras, segundo Frei Clarêncio Neotti, nasceu “feito grão de mostarda”. Segundo o confrade, foi em Pato Branco, durante a preparação de uma Ordenação Presbiteral, que Frei Vitório Mazzuco, Frei Gilberto Piscitelli, Frei Leonardo Ulrich Steiner e Frei Paulo Back aventaram essa “novidade” que poderia ser realizada em nossa Província. 

Os frades começaram a partilhar a ideia com outros regionais e, logo, aquilo que parecia um sonho foi assimilado com o desejo de que pudesse realmente tornar-se realidade. A Fraternidade de Agudos se animou e se dispôs a ser a anfitriã do “Esteiras”. Com desejo e convicção, foi enviado um pedido formal à Comissão numa reunião realizada em 19 de agosto de 1981, em Rodeio. Nessa reunião, a Fraternidade de Agudos, em uma carta apresentada e assinada pelo Guardião Frei Walter Hugo de Almeida, elencou três grandes razões para a realização do Capítulo das Esteiras: 1 – Necessidade de mútuo conhecimento, muitos frades não se conhecem na Província; 2 – Necessidade de convivência e recordação da caminhada feita; 3 – Necessidade de conhecimento dos inúmeros e belos trabalhos dos confrades da Província. 

A Comissão acolheu com imensa simpatia a ideia. Em 24 de agosto, foi enviado uma carta ao Ministro provincial da época, Frei Basílio Prim, e ao seu Definitório. O pedido era de que não só se desse um nihil obstat, mas, sendo aprovado, fosse também feita aos confrades “uma convocação entusiasmada e entusiasmante”. Em 28 de agosto, o Governo provincial ratificou o pedido da Comissão e dos Frades. Desde sua restauração, estava aprovado pela primeira vez na Província da Imaculada a realização de um Capítulo das Esteiras. As indicações da carta escrita pelo Ministro são interessantes e denotam uma tradição que persiste entre nós. Pede-se que a viagem seja organizada pelos Regionais e de que os frades assumam o caráter de peregrinação durante o trajeto a Agudos, num desejo de reforçar a dimensão espiritual de um Capítulo das Esteiras, recordando o primeiro, vivido em 1221, em Assis. Insiste também numa programação que “seja muito bem dosada” e possa contemplar em harmonia a fraternidade, a oração, a convivência e o recreio. 

 

Nas atas de preparação do Capítulo, Frei Clarêncio deixa um subtítulo: “encontro fraterno para celebrar, em caráter provincial, os 800 anos de nascimento de São Francisco, na simplicidade e na alegria. Concretamente: viver a fraternidade num clima franciscano através da liturgia, do recreio e da reflexão”. Em pouco tempo a Comissão do Centenário tornou-se também a Comissão Executiva do Capítulo e organizou grupos de trabalho e toda a logística necessária para a realização do mesmo. A data foi definida entre os dias 1º e 5 de fevereiro de 1982 e os trabalhos conjuntos entre Governo provincial, Comissão preparatória e Fraternidade do Seminário tornou concreto o Capítulo das Esteiras. Na carta convite enviada junto com a ficha de inscrição, Frei Basílio escreve: “proposta objetiva, clara, que faz lembrar as fontes do franciscanismo, veio da base, do sentimento dos irmãos”. 

A noite de 1º de fevereiro foi destinada à chegada dos frades a Agudos. No dia 2 de fevereiro, que marcou o início do Capítulo, comemorou-se o Dia da Rainha dos Menores. Nas datas seguintes, as celebrações tiveram como temas em ordem cronólogica: a Regra; o Serviço; e a Comunhão Fraterna. A liturgia e as reflexões de cada dia deveriam acompanhar a temática proposta pela Comissão. As fichas de inscrição, contabilizadas pela Comissão, registraram 264 frades presentes, entre eles, Dom Carlos Shmitt, Dom Pascásio Rettler, Dom Lino Vanboemmel e o ex-Ministro Geral Frei Constantino Koser. 

Frei Basílio, em uma de suas falas no Capítulo, disse que num encontro como esse “podemos contar com a oração, com a Palavra, com a bênção de nosso Pai. Podemos contar com a vontade do Espírito em querer nos falar.” Afirmou ainda sobre como São Francisco esperaria encontrar os seus frades: “sempre alegres e cheios de saudade, procurem reunir-se; atentos no cuidado de cada um possam evidenciar a verdadeira existência do Irmão Menor; e que em sinal de memória do Seráfico Pai possam guardar fidelidade ao chamado do Senhor e viverem o Evangelho”. 

 

Uma das celebrações desse Capítulo foi chamada de “Missa Jubilar”, comemorando os 800 anos do nascimento do Seráfico Pai e também os jubileus dos frades. Inclusive, o Ministro provincial era jubilando naquele ano. Renovou seus votos diante de Frei Godofredo Sieber, o presbítero sênior presente. Na hora do abraço da paz, todos foram ao altar dar um abraço em Frei Basílio e, dele, receberam um Tau como lembrança do Capítulo. Frei José Luiz Prim regeu os mais de duzentos frades a, no final da celebração, entoarem o Salve Sancte Pater. Diversos são os relatos da emoção desse momento, oitocentos anos do nascimento do Pai desta Ordem, seus filhos entoando sua bênção e proteção.

Trago aqui o depoimento de Frei Hugolino Becker sobre o Capítulo das Esteiras. A pedido de Frei Clarêncio, o mesmo enviou uma carta muito elogiosa do que viveu nesses dias, em Agudos. Primeiro, fala da reticência com a ideia: “quando li o primeiro anúncio desse Congresso, fiquei surpreso pela novidade do projeto, pois nunca mais havia escutado falar em Capítulos das Esteiras, a não ser na história da Ordem no tempo de São Francisco. Instintivamente pensei nas grandes distâncias que a maioria dos frades deveria vencer para chegar a Agudos. Pensei nas despesas não pequenas que estas viagens acarretariam”. Em seguida, afirma que foi ruminando a ideia até se familiarizar com ela e sentiu o desejo de fazer-se presente. Tece inúmeros elogios ao que todos viveram nos dias do Capítulo e do espírito fraterno que pôde observar. Por fim, conclui: “sou da opinião que este Congresso abriu uma nova era na história de nossa Província e deveria repetir-se periodicamente com ainda maior participação dos frades”. 

Como anedota curiosa e profética desse Capítulo, cabe destacar que a única moção proposta e aprovada foi a do envio de um telegrama ao Padre Reginaldo Veloso (1937-2022), grande líder religioso na luta contra a ditadura. Pela segunda vez, o Padre fora preso pela Polícia Federal, em Recife. O telegrama dizia: “duzentos e sessenta e quatro franciscanos reunidos em assembleia, solidários ao seu apostolado enviam abraço fraterno”. Frades reunidos em oração e celebrando o dom da fraternidade, mas com as janelas abertas e voltadas ao mundo!  


Frei João Manoel Zechinatto

Memórias do Capítulo das Esteiras de 2009

800 anos da Ordem dos Frades Menores 

Entre os dias 3 e 5 de novembro de 2009 ocorreu, no Seminário Santo Antônio de Agudos, o Capítulo das Esteiras. A celebração teve como pano de fundo as comemorações dos 800 anos da Ordem dos Frades Menores, seu lema foi: “Restituir tudo ao Senhor com palavras e vida”. O encontro contou com a presença do Ministro Geral Frei José Rodríguez Carballo. Seguido do Capítulo das Esteiras, ocorreu o Capítulo Provincial, entre 6 e 13 de novembro. 

Mais de 300 pessoas estiveram presentes para o Capítulo das Esteiras entre frades, noviços, postulantes, aspirantes e os familiares de 14 frades que fizeram sua Profissão Solene. Iniciado na terça-feira, dia 3 de novembro, com uma confraternização, o Seminário, que iniciava seu ano jubilar de 60 anos, estava mais uma vez cheio e acolheu a todos no genuíno espírito franciscano. O medo de uma lotação era acalmado pela recordação do próprio sentido das origens desse acontecimento na Ordem, “não tendo acomodação para todos, dormiram em esteiras”. Tal feito não se repetiu e a maior fraternidade de nossa Província, em área construída, acolheu bem a todos! 

 

Grande personalidade presente no Capítulo foi o Ministro Geral Frei José R. Carballo, que mostrou-se muito feliz em estar presente junto aos frades de nossa Província nesse ano tão importante para a Ordem. Ele refletiu sobre a graça de os frades, em oitocentos anos de Ordem, poderem “restituir” os bens e os dons ao Senhor. Suas reflexões aludiam ao tema do Capítulo Geral daquele mesmo ano: “Verbum Domini nuntiantes in universo mundo” (Anunciadores da Palavra do Senhor no mundo); e também sobre o documento final do mesmo Capítulo, “Portadores do Dom do Evangelho”. 

 

O encerramento do Capítulo das Esteiras ocorreu com a Celebração Eucarística em que o Ministro Geral recebeu a Profissão Solene de 14 frades. Frei José R. Carballo chegou a se emocionar, segundo relatos da ocasião, quando os 14 professos acenderam as velas no Círio Pascal e a Igreja do Seminário entoava “A nós descei, Divina Luz”. O Ministro Geral externou, em sua homilia, que é simbólico que na graça de oito séculos de Ordem possamos celebrar a graça de novos irmãos que decidem-se por essa mesma vida. Sinal de que o Espírito pode sempre animar nossa história e nossas vidas!   


Frei João Manoel Zechinatto

Memórias do Capítulo das Esteiras de 2014

“Irmãos Menores nos nossos dias”

O Capítulo das Esteiras de 2014 ocorreu entre os dias 22 e 25 de setembro também no Seminário Santo Antônio, em Agudos. O encontro reuniu 215 frades da Província, além dos postulantes, da presença do Ministro Geral, Frei Michael Perry, e do Coral dos Canarinhos de Petrópolis, que ajudaram a abrilhantar o Capítulo. 

Na acolhida dos frades, na Capela do Seminário, Frei Almir Ribeiro Guimarães disse: “Eis-nos no limiar do Capítulo das Esteiras 2014! Um sentimento de alegria profunda quase nos paralisa a voz. Esses tantos, que não vemos a toda hora, estão aí… Esses novos, bem novos, esses seres na maturidade da vida física e mentalmente, esses mais idosos caminhando com dificuldades, até com uma bengala e os joelhos cambaleantes, estamos aqui. E estamos no esplendoroso espaço do Seminário que tanto nos fala. Um sentimento de alegria quase nos paralisa a voz. São muitos e diversos… Com estes e aqueles fizemos caminhada na Penha, no Convento Santo Antônio do Rio, na cidade de Amparo, nas terras da África… Eles estão aí com seus mistérios, suas sombras e luzes, seu desejo de buscar as estrelas e a convicção de que o homem velho custa a morrer… Estão aí com o rosto aberto, com um sorriso sereno dançando nos lábios. A presença de tantos frades quase paralisa a voz…”. 


Na manhã do dia 24, os frades acolheram o Ministro Geral, Frei Michael Perry. O Ministro já tinha passado pelo Brasil no ano anterior, na Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro. Mas era a sua primeira visita oficial à Província e aos seus frades. Em sua fala, Frei Michael falou dos desafios que a Ordem e a Igreja vivem no tempo presente e de que é contínuo e corajoso questionar-se para possibilitar que sejamos autênticos frades menores. Também encorajou os frades a encontrarem maneiras criativas e novas de renovação e delineou as prioridades da Ordem que se prepara para o Capítulo Geral de 2015. Concluiu: “Devemos fazer uma escolha, uma renovação de nossa escolha por Cristo e pela vida evangélica franciscana”. 


É digno de nota na edição deste Capítulo das Esteiras, segundo relatos de Moacir Beggo, a presença dos frades angolanos, frutos da Missão da Província em terras africanas. Na época, a Província se preparava para comemorar os 25 anos da Missão a serem completados em 2015. Naquele ano de 2014, a Fundação Imaculada Mãe de Deus de Angola contava com 24 frades naturais de Angola. Participaram do Capítulo das Esteiras dez frades angolanos que residiam no Brasil no período: sete noviços e três frades estudantes do tempo da teologia. 

O encerramento do Capítulo ocorreu no dia 25 de setembro com a Missa dos Jubileus da Província. Ao final da eucaristia, Frei Fidêncio agradeceu a presença do Ministro Geral, do Definidor Geral Frei Nestor Schwartz e de todos os frades que participaram do Capítulo; disse que o retorno às fraternidades é um envio missionário, “depois de celebrar a graça da fraternidade e de sermos irmãos, somos enviados em missão”. Frei Michael, que havia se emocionado com a Bênção de São Francisco cantada pelos Canarinhos na noite anterior, pediu que o Coral cantasse novamente a linda canção do britânico John Rutter. Assim se encerrou o Capítulo das Esteiras de 2014, em votos de bênçãos e gratidão.  


Frei João Manoel Zechinatto

Memórias do Capítulo das Esteiras de 2024

Etapa provincial do Capítulo Geral das Esteiras 

Entre os dias 29 abril e 3 de maio de 2024, foi realizada a etapa provincial do Capítulo Geral das Esteiras, em Agudos. Durante 5 dias, 120 membros da Família Franciscana, entre frades, religiosas, leigos da Ordem Franciscana Secular (OFS) e de outras frentes de evangelização, participaram de momentos profundos de reflexão e debates sobre o fortalecimento da espiritualidade e o carisma franciscano. 

Neste momento histórico, questões que envolvem a realidade das frentes de evangelização, assim como a formação dos frades e a formação contínua foram abordadas, além das condições dos frades idosos e a presença dos jovens. Em todas as temáticas o foco estava no presente e nas expectativas para o futuro. A programação teve como principal objetivo promover a sinodalidade, conforme orientação do Ministro Geral, Frei Massimo Fusarelli, que evidenciou a necessidade de um revigoramento da “capacidade efetiva de escutar, aprender e transformar, na itinerância, a vontade, o coração, a inteligência e os pés”, ou seja, o caminhar a partir da vivência franciscana.

Os mesmos aspectos foram reforçados em um documento elaborado pela Comissão dos Centenários Franciscanos, que salienta “a escuta recíproca, atenta, simpática, cultivada como uma verdadeira e própria disciplina do espírito, é o estilo e a chave para o caminho sinodal que se abre diante de nós”. O Capítulo proporcionou um espaço de voz aos frades, às religiosas e aos leigos. Da mesma forma, a escuta também foi colocada em prática, sendo verdadeiramente vivenciado por todos.

A estrutura da programação do Capítulo foi liderada pelo Vigário provincial, Frei Gustavo Wayand Medella, Frei Diego Atalino de Melo e Frei Gabriel Dellandrea, com ajuda de outros frades. As contribuições a serem enviadas ao Capítulo Geral foram pontuadas nas seguintes temáticas: animação vocacional e formação inicial e permanente; vida de fé dos frades; identidade carismática, a partir da Regra Bulada; papel dos frades na Igreja e no mundo; frades e a ecologia integral; estruturas de organização; economia e uso dos bens; experiência sinodal; relação com a CFFB (Conferência da Família Franciscana do Brasil); e novas formas de evangelização (Igreja em saída e conversão missionária).

No encerramento, o Ministro provincial, Frei Paulo Roberto Pereira, disse: “A Família Franciscana, em íntima comunhão, recordou o grande dom que é a nossa vocação, dom que dividimos com as pessoas com as quais convivemos. Vamos rezar uns pelos outros, lembrando das nossas fraternidades, das nossas famílias, da nossa missão. E onde quer que estejamos, sejamos sinais do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Sejamos sinais do amor privilegiado por servir todas as criaturas, em especial os pobres”.


Frei João Manoel Zechinatto