Carisma - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Especial Capítulo das Esteiras 2026

“Se morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele” (Rm 6,8)

Um tempo de celebração! Assim tem sido os nossos últimos anos como franciscanos, um grande e contínuo convite a colocarmo-nos nessa fundamental postura cristã: a de que nossa fé, vida e história merecem e precisam ser celebradas! E razões não faltam para celebrarmos os 350 anos de criação da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, o cume dos jubileus franciscanos com os 800 anos do Trânsito de São Francisco e, ainda mais agraciados, a promulgação do “Ano Jubilar Franciscano” para toda a Igreja pelo Papa Leão XIV. Podemos, sem medo e com toda a licença, tomar o famoso adágio dos navegadores portugueses “navegar é preciso” e bradarmos nós, franciscanos da Província da Imaculada: “celebrar é preciso”!  

Entre os dias 3 e 6 de agosto, é no espírito de “celebrar é preciso” que nos reuniremos no Seminário Santo Antônio, em Agudos (SP), para o “Capítulo das Esteiras – 2026”. O tema proposto para essa celebração será “Francisco de Assis: viver o amor que não morre” e o lema é tirado da Carta de São Paulo aos Romanos: “Se morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele” (6,8). Certamente é a inspiração e a encarnação de um amor eterno que ruma no tempo e na história que torna possível os oitocentos anos do movimento franciscano. Carisma que quer ser tradução viva de manter aceso a paixão e o sonho do Poverello, a de que no Evangelho do Senhor encontramos a fonte da verdadeira vida! É esse também o espírito dessa fraternidade provincial celebrando 350 anos do mesmo sonho e paixão. 

Se em 1221, o famoso “Capítulo das Esteiras” era um Capítulo também com ares jurídicos, a nós, desde 1982, data do primeiro Capítulo das Esteiras em nossa Província, o mesmo tem um grande caráter festivo. Mas nem por isso deveríamos nos olvidar do dever de que “celebrar” o dom da fraternidade, da história e da vida seguem sendo tão ou mais imperioso do que decisões puramente jurídicas e institucionais. Frei Constantino Koser, ex-Ministro Geral da OFM, e frade da nossa Província, refletiu acerca do Capítulo das Esteiras de 1982: “Os Capítulos são na tradição franciscana momentos de firmar a obediência, isso através da participação ampla de todos, tanto na proposição como também na formulação. E a marca dessas discussões tem por alma o amor: um amor fraterno, de amizade, alegre, confiante. Um amor que, enquanto era no Senhor, era voltado para os Irmãos e predispunha à escuta dos outros e, portanto, à obediência; […] o Capítulo das Esteiras parece sem formalidades jurídicas e decisórias, mas nem por isso tem menos valor, porque é um Capítulo que promete, sem nenhuma pressão de tempo e de lei, ser uma convivência alegre, uma troca de experiências, um estímulo da caminhada e um aprofundamento do espírito franciscano. E é bem isto que São Francisco queria com os Capítulos”.  

“Se morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele” (Rm 6,8)

Byung-Chul Han, escritor sul-coreano tão debatido nos últimos anos, na esteira do francês Guy Debord, fala do risco de que num período histórico da falta de tempo e da multiplicidade de tantas festividades, corremos o risco de também desaprendermos a bem celebrar. O convite a celebrarmos nossa história, enquanto Família Franciscana e Província da Imaculada, é um chamado à vivermos esse tempo de graça e poder jubilar naquilo mesmo que somos. “Sabe celebrar e festejar quem sabe o que é comunidade”, afirma Han. E nós, frades, diríamos: “sabe celebrar quem sabe o que é a fraternidade”. Mais do que qualquer imagem, depoimento, texto ou registro que uma celebração ou festa possa acarretar, nada há de superar o viver em si mesmo. Esse Capítulo das Esteiras não é repetição de algo já conhecido, mas desejo de viver a novidade de algo familiar. Algo que se apresenta como único na marcação do tempo, algo que favorece o construir da fraternidade dos menores desde suas origens. Fazer novas todas as coisas (Ap 21,5) é síntese daquilo que o Espírito suscita em cada tempo no inesgotável mistério de encarnar o próprio em cada presente. O que se celebra na história é algo que não passa, é aquilo que continua ainda definindo quem somos. Byung-Chul Han reflete que é por isso que deve ser sempre imperioso poder viver profundamente os momentos de celebração como quem se maravilha com a graça da vida, tudo o mais é detalhe, o fundamento é este. 

São Francisco parece compreender muito tal questão. O que brota desse apaixonado pelas coisas do Senhor é um desejo profundo de celebrar todas as coisas da vida e suas criaturas, inclusive, tecer louvores à Irmã Morte. Não sozinho, mas acompanhado dos Irmãos. Os relatos hagiográficos desse momento derradeiro de sua passagem mostram alguém que atravessa o fim terreno como simples ocaso, mas o celebra meticulosamente, como quem sabe render ação de graças por todo o tempo do viver, alguém intimamente integrado à vida, e por isso não vê a morte como inimiga, mas cumprimento do todo da existência. Dela, não tem o que tirar, mas sim viver, sim celebrar. É assim que queremos olhar para o “Capítulo das Esteiras 2026”, como quem deseja vivê-lo e celebrá-lo, acima de tudo, assim como nos ensinou nosso Irmão Menor. 

Na trajetória de olhar para a nossa história ao longo de todo esse período dos 350 anos, fomos aprendendo que a memória não serve apenas para recordar o passado, mas sim, para interrogarmos o presente e, com as bênçãos de Deus, irmos construindo o futuro. Não qualquer futuro, mas um condizente com a memória de um passado que convida à celebração. E o futuro já vai rumando conosco, não estamos mais nos 350 anos e sim nos augúrios dos 351! O tempo que marcha, por vezes, pede parada, pede celebração do ontem construído, do hoje sendo vivido e do amanhã que está vindo! Um aniversário não é festa de um mero retorno a um dia passado, mas de marcar o quanto o tempo transcorrido merece ser refletido no hoje, pois em todo esse itinerário ele foi vida. O Capítulo vem oportuno, querendo que possamos, como o lema nos lembra, “viver o amor que não morre”! Ele quer ser jubiloso porque quer brindar tantas graças nesse rico tempo de datas tão especiais. Eis, portanto, o adágio que nos interpela: “celebrar é preciso”. 

Na carta convite do primeiro Capítulo das Esteiras da nossa Província, celebrado em 1982, por ocasião do oitavo centenário do nascimento de São Francisco, o Ministro provincial da época, Frei Basílio Prim, escreveu: “E eu, Frei Francisco, no meu oitavo centenário de nascimento, quero falar com todos os meus irmãos, em Agudos”. É sugestivo que, 44 anos depois, agora por ocasião de seu Trânsito, estejamos nos preparando para mais um Capítulo das Esteiras. E bem poderíamos ouvir: “E eu, Frei Francisco, no oitavo centenário de minha páscoa, quero falar com todos os meus irmãos, em Agudos!”    


João Manoel Zechinatto