“Somos luzes que faíscam no caos”, afirma Frei Gabriel no encerramento da Festa da Penha
14/04/2026

Vila Velha (ES) – A Festa da Penha 2026 foi encerrada na tarde desta segunda-feira (13/04), no Parque da Prainha, em Vila Velha, reunindo milhares de fiéis para a missa solene presidida pelo Arcebispo Metropolitano de Vitória, Dom Ângelo Ademir Mezzari. A celebração marcou o encerramento da festa que ao longo de seu Oitavário reuniu romarias, peregrinações e expressões de fé, consolidando-se mais uma vez como a maior manifestação religiosa do Espírito Santo e uma das maiores do Brasil.
Logo no início da celebração, Dom Ângelo destacou o sentido de comunhão vivido ao longo dos dias: “Com o coração cheio de alegria aqui nos reunimos nesta celebração para concluir esses dias de fé, de oração, da Palavra de Deus, dos encontros, das romarias, das peregrinações que uniu o nosso povo capixaba”. Saudando os bispos, o clero, religiosos e todo o povo de Deus, o arcebispo convidou os fiéis a viverem o encerramento “cheios da alegria do Cristo ressuscitado”.

Na homilia, marcada pelo tema da paz, Dom Ângelo conduziu a reflexão a partir do Evangelho da visitação de Maria a Isabel. “A Festa da Penha é uma grande visita. É um grande encontro”, afirmou, ressaltando o significado da presença de Maria na vida do povo. Ele recordou ainda a força da devoção: “Quantas graças, quantas bênçãos, quanta força e coragem que nasce dessa devoção a Maria”. Ao longo da reflexão, repetiu com o povo expressões que marcaram o Oitavário, como “Nós queremos viver em paz” e “A paz esteja convosco”.
O arcebispo também destacou que a verdadeira alegria nasce da paz e da vivência concreta do Evangelho: “Se há um valor da Virgem da Penha que marca este povo capixaba… é a paz”. Em tom firme, fez um apelo direto à sociedade: “Não à violência, não à morte, não à guerra, não às armas. Não ao feminicídio. Não ao racismo. Não a todas as formas de morte”. E completou: “Quem vive a fé em Cristo e a devoção a Nossa Senhora da Penha, torna-se artesão da paz”.

Outro ponto de destaque da homilia foi o reconhecimento da unidade proporcionada pela festa: “Aqui está o povo de Deus, aqui estão as autoridades públicas, aqui estão irmãos e irmãs de outras denominações religiosas. Como é bela a Festa da Penha. Ela nos reúne a todos como um único povo”. Dom Ângelo ainda ressaltou o valor cultural e religioso do evento: “Esse patrimônio é nosso. Vamos conservá-lo, promovê-lo e dinamizá-lo”. Após a comunhão, os bispos presentes também dirigiram palavras ao povo.
Nos agradecimentos, Frei Gabriel também recordou o esforço coletivo para a realização da festa: “Esta festa não caiu pronta do céu. Ela foi erguida em reuniões exigentes, em decisões difíceis, em renúncias silenciosas, em cansaços que ninguém viu, mas que Deus sabe”. Inspirado na mensagem do Papa, afirmou: “A paz é uma obra de artesãos”.

CONFIRA, NA ÍNTEGRA, O AGRADECIMENTO DE FREI GABRIEL
“Irmãos e irmãs, Paz e Bem. Os fiéis que todos os dias acorrem ao Convento da Penha fazem um pedido simples, mas ao mesmo tempo muito profundo: pedem a paz. Quem aqui já pediu a paz em suas orações?
E esse dom nem sempre se aproxima de nós. Será que Deus não nos ouve? E eu digo que ouve, sim. Ouve muito e responde. E esta Festa da Penha 2026 é uma resposta ao pedido de paz que fizemos a Deus.
Mas a paz que vem de Deus não é um presente pronto, onde nós só recebemos. Não é um alívio passageiro. A paz verdadeira é o seguimento a Jesus Cristo, o Ressuscitado. E, no ano passado, nesse agradecimento, eu expressei que, para “quem tem fé, a festa nunca tem fim”. E realmente a festa não teve fim, porque mal acabou a festa de 2025 e já começamos a pensar a Festa da Penha 2026, com as preocupações e as alegrias, numa dedicação sem fim de todos.

E esta festa é a festa da paz, é a resposta que Deus tem a nos dar ao nosso clamor de paz. Esta festa não caiu pronta do céu. Ela foi erguida em reuniões exigentes, em decisões difíceis, em renúncias silenciosas, em cansaços que ninguém viu, mas que Deus sabe. E, como disse o Papa Francisco, a paz é uma obra de artesãos. Vamos repetir? A paz é uma obra de artesãos.
Por isso, eu quero agradecer a alguns artesãos. A Dom Ângelo Mesari, nosso arcebispo, artesão da paz, que sempre tem uma pacífica presença. A Dom Anderson Franklin, artesão da paz, que com o diálogo construiu, junto com esta comissão, esta festa da paz. Ao Padre Cláudio, pela dedicação na coordenação de pastoral. Mencionando-os, agradeço a todos os irmãos presbíteros, diáconos, seminaristas e os nossos amados bispos do nosso regional. Construtores da paz são os artesãos que o Papa Francisco também nos lembrou.

Agradeço aos meus irmãos frades, aqui representados pelo nosso Vigário Provincial, Frei Gustavo Medella. Dizem que melhor do que contar com muitos é contar com os certos. E o lado bom dessa Festa da Penha é que eu contei com os certos, e eles são muitos. Deus seja louvado. Que, no ano que vem, tenhamos o dobro de freis.
Agradeço também aos artesãos da paz, que foram os voluntários e os profissionais de diversas áreas que trabalharam nesta Festa da Penha, garantindo um evento organizado. Uma salva de palmas aos voluntários e profissionais que trabalharam nesta festa.
Menciono também aqui, neste agradecimento, a presença do nosso governador Ricardo Ferraço, a quem agradeço, em seu nome, a todas as autoridades constituídas. Também agradeço o nosso prefeito municipal, Arnaldinho Borgo, que se empenhou junto com toda a prefeitura na organização deste evento. Mencionando-os, agradeço a todas as autoridades pelo esforço. Uma salva de palmas. Também às nossas autoridades que nos ajudaram na realização desta festa.

Citando todos esses artesãos, nós dizemos que a Festa da Penha 2026 é a festa da paz. Mas vamos parar aqui: acabou a festa, acabou a paz? Não. A paz não ficou presa aqui. Ela está no coração de todos aqueles que agora também se decidem ser artesãos da paz, construtores da paz. E esta não pode ser só mais uma festa. Que ela seja um marco, um divisor, um envio. E que cada um de nós volte para a sua realidade com a decisão clara, não de esperar a paz, mas de construí-la. Vocês não vieram aqui para sentir paz. Vieram aqui para se comprometer com ela. Por isso, eu gostaria de pedir que cada um agora pegue o seu celular e acenda a sua lanterna.
A banda “O Rappa”, na música “Alto Reverso”, diz que nós somos luzes que faíscam no caos. Vamos repetir? Somos luzes que faíscam no caos. Vamos de novo? Somos luzes que faíscam no caos. No mundo ferido, dividido, acelerado, nós escolhemos ser faíscas de paz. Pequenas faíscas, talvez, mas reais e suficientes para iluminar o campinho, para iluminar a praça, para iluminar o convento, para iluminar todo o mundo.

Por isso, olhando para a imagem de Nossa Senhora da Penha, eu vou convidar todos vocês para que fiquemos de pé e, empunhando os nossos celulares com as lanternas acesas, façamos deste momento uma forma de buscar a luz da paz na Virgem Maria.
E cantaremos a primeira estrofe e o refrão do Hino Nacional do Convento da Penha, como uma homenagem a esta Mãe que nos colocou aqui nesta missão da construção da paz. Viva Nossa Senhora da Penha! Para finalizar, vamos repetir: somos luzes que faíscam no caos. Somos luzes que faíscam no caos. Somos instrumentos da paz.
Viva a Festa da Penha! Viva! E até 2027. Paz e Bem”.
A programação seguiu com o show de encerramento com Thiago Brado, que reuniu os fiéis em um momento de louvor e oração no Parque da Prainha. O cantor entoou canções clássicas da Igreja.

Em seguida, teve início a despedida da imagem de Nossa Senhora da Penha, que saiu do palco do Parque da Prainha em direção ao Convento da Penha, um dos eventos mais emocionantes da festa. Conduzido por Frei Gabriel, os frades carregaram o andor da santa até a entrada do convento. Os fiéis acompanharam a procissão que foi marcado por uma sequência de intercessões, nas quais rezou-se pelas famílias, crianças, voluntários e doentes, repetindo com fé a oração da Ave-Maria e confiando a ela as intenções vividas ao longo de toda a festa. É claro que o hino “Virgem da Penha” acompanhou toda a peregrinação.

Já no portão do Convento o guardião destacou: “Pode parecer pequena a luz que carregamos, mas nós somos uma faísca de paz. É isso que essa festa quis trazer para cada um de nós”. E retomando para o tema da festa, reforçou o compromisso espiritual assumido pelos peregrinos: “Depois dessa festa, nós só podemos dizer: Senhor, fazei de nós instrumentos da paz”. Em tom de gratidão, também recordou os desafios e a dedicação de todos os envolvidos na realização do evento: “Tinha um monte de gente preocupada: será que vai dar certo? Deu certo!”, afirmou, sendo ovacionado pelos presentes.
Ao final, entre orações e cânticos, Frei Gabriel conduziu a bênção e a despedida da imagem, que seguiu em direção ao convento. “Amanhã a vida volta ao normal no convento. Mas nós estamos totalmente diferentes”.

FÉ, EMOÇÃO E TRADIÇÃO: FESTA DA PENHA 2026 CELEBRA 456 ANOS COMO PATRIMÔNIO CULTURAL DO BRASIL
O Parque da Prainha, em Vila Velha, transformou-se em um mar de devoção e alegria para o encerramento da Festa da Penha 2026. Celebrando 456 anos de história, a edição deste ano carregou um simbolismo especial: o reconhecimento oficial como patrimônio cultural do Brasil. Sob o tema “Fazei de nós instrumentos da paz”, inspirado no legado de São Francisco de Assis, a maior festa religiosa do Espírito Santo reafirmou sua posição como a terceira maior celebração religiosa e mariana do país e a mais antiga das Américas.
NOVE DIAS DE DEVOÇÃO

A programação, que teve início no domingo de Páscoa (5/04), culminou nesta segunda-feira (13/04) com uma multidão ocupando cada espaço aos pés do Convento da Penha. Ao todo, foram realizados oito dias de preparativos, conhecidos como Oitavário, envolvendo paróquias de todas as dioceses do estado: Vitória, Cachoeiro, Colatina e São Mateus.
A intensidade da festa foi marcada pelas 14 romarias que cruzaram as ruas da Grande Vitória. Entre os destaques, a Romaria dos Homens reuniu uma multidão em um percurso de 14 quilômetros na noite de sábado, seguida pela Romaria das Mulheres, que coloriu as ruas no domingo. A Remaria e a Vigília dos Jovens, que lotou o campinho do Convento durante uma madrugada chuvosa, mostraram a capacidade do evento de se renovar e atrair novas gerações.
HISTÓRIAS DE FÉ QUE ATRAVESSAM GERAÇÕES
O que move a Festa da Penha, contudo, são os relatos individuais de graças alcançadas. Dona Maria Cleusa de Almeida Valadares, por exemplo, chegou à Prainha às 6h20 da manhã para garantir seu lugar, mantendo uma tradição que ela descreve como “amor à Nossa Senhora”.

Pelos arredores do palco, multiplicavam-se testemunhos emocionantes. Lina compartilhou a história de sua sobrinha, que após 18 anos tentando engravidar, atribui o nascimento dos filhos à intercessão da santa. Rosângela, por sua vez, relatou ter sobrevivido a um câncer e presenciado milagres na saúde de suas irmãs. Outra fiel, Iranete, emocionou os presentes ao contar que, após 18 abortos, conseguiu realizar o sonho da maternidade.
CULTURA E IDENTIDADE CAPIXABA
A conexão entre a fé e a identidade do estado é profunda. Frei Róger Brunorio, museólogo, lembrou que a construção do Convento, iniciada por Frei Pedro Palácios no século XVI, ocorreu em etapas que atravessaram quatro séculos. Até mesmo as cores do manto de Nossa Senhora são uma homenagem a bandeira do Estado do Espírito Santo, reforçando que a simbologia da festa dialoga diretamente com a história da colonização capixaba.
Frei Róger, que também é pesquisador, trouxe detalhes riquíssimos sobre a evolução do Convento da Penha, explicando que o monumento é fruto de um processo de construção que se estendeu pelos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX. Ele destacou que a estrutura atual começou apenas como uma pequena capela para abrigar o quadro da Mãe das Alegrias e que o “primeiro conventinho” só começou a ser erguido por volta de 1650, época em que os frades cruzavam a Baía de Vitória de barco para atender o povo de Vila Velha. Ele também ressaltou a dimensão ecológica do local, descrevendo-o como um santuário da natureza que convida os fiéis a louvar a Deus por meio de todas as criaturas, reforçando assim, o legado franciscano de cuidado com toda a Criação.

Frei Roger a esquerda e Frei Gilberto Silva a direita
Outra curiosidade que chamou a atenção foi o “Penhômetro”: estatísticas indicam que o Espírito Santo é o estado com o maior número de mulheres registradas com o nome “Penha” (ou variações compostas), ultrapassando a marca de 44 mil pessoas.
AMOR SOB O MANTO DA PADROEIRA: NOIVADO AOS PÉS DO CONVENTO SELA COMPROMISSO DE FÉ
Em meio ao mar de fiéis no Campinho do Convento, no dia da Padroeira, um gesto de amor e devoção chamou a atenção e personificou o espírito de gratidão da festa. O casal Luiz Guilherme Gomes da Silveira e Meire Amine de Souza, moradores da Serra, escolheu o dia de Nossa Senhora da Penha para oficializar o noivado. Para Luiz Guilherme, a escolha da data foi uma decisão consciente de colocar o futuro da união sob o olhar da “Mãe das Alegrias”, buscando intercessão tanto para os momentos de felicidade quanto para os desafios da vida conjugal.

A relação de Meire com o santuário é não é recente. Ela relatou que, em 2020, subiu ao Convento para fazer um pedido especial e, ao receber o pedido de noivado exatamente no dia 13 de abril, viu a confirmação das “graças de Deus” e do “singelo cuidado de Nossa Senhora” em sua vida. O casal, que se autodefine como “mariano” e apaixonado por Maria, afirmou que a intercessão de Nossa Senhora da Penha é o que os motiva a seguir. O pedido de noivado, realizado no campo aos pés do Convento, tornou-se mais um dos inúmeros testemunhos de fé que compõem o mosaico humano da edição de 456 anos da Festa da Paz.
UM ENCERRAMENTO COM TONS FRANCISCANOS
O tom franciscano da festa deste ano não foi por acaso. A Ordem celebra os 800 anos do encontro definitivo de São Francisco com o Pai, e a devoção a Nossa Senhora das Alegrias é uma marca própria desta ordem religiosa.

O encerramento oficial das festividades contou com a solene missa presidida pelo Arcebispo Dom Ângelo Ademir Mezzari e com a presença dos bispos de todo o estado. A imagem de Nossa Senhora da Penha entrou solenemente no Parque da Prainha, sob aplausos e vivas de fiéis vindos não apenas de cidades vizinhas como Cariacica, Viana e Fundão, mas também de outros estados como Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Para fechar a noite com chave de ouro, o cantor Thiago Brado subiu ao palco para um show aguardado, mantendo a atmosfera de celebração e paz que definiu a edição de 2026. Como destacou o Frei Gabriel, guardião do Convento, a festa serviu para “costurar” as pessoas em um sentimento de fraternidade, transformando o “quintal do convento” em um refúgio para todos os corações.
A Festa da Penha 2026 encerra-se deixando a promessa de que, embora as estruturas físicas do Campinho e da Prainha sejam desmontadas, a “casa da mãe” permanece aberta durante todo o ano para os devotos que buscam consolo e alegria.
Equipe de Comunicação da Festa da Penha: Frei Augusto Luiz Gabriel, Frei Gustavo Medella, Frei Roger Strapazzon e Marcos Souza (Grupo Celinauta)







































