Com romarias e celebrações, manhã da Padroeira expressa a fé do povo capixaba
13/04/2026

Vila Velha (ES) – A manhã desta segunda-feira, 13 de abril, Dia da Padroeira do Espírito Santo, foi marcada por uma intensa movimentação de fiéis no Convento da Penha, reunindo celebrações eucarísticas, romarias e momentos de forte expressão da fé popular. Desde a madrugada, com a tradicional missa das 0h e as celebrações que seguiram ao longo da noite e início da manhã (1h, 2h, 3h, 4h, 5h, 6h e 9h), a Capela do Convento permaneceu cheia, evidenciando a devoção do povo capixaba à Senhora das Alegrias.

No Campinho do Convento, a missa das 7h reuniu religiosos, religiosas, seminaristas e formadores na celebração promovida pela Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB) e pelo Seminário Nossa Senhora da Penha. Presidida pelo padre José Campos Ramos, a eucaristia ganhou um tom vocacional e pascal. Logo no início, foi recordado o jubileu de 75 anos do seminário e os 35 anos da presença da CRB no Espírito Santo, destacando a importância da vida consagrada na caminhada da Igreja. Em sua acolhida, Frei Paulo César Ferreira ressaltou o sentido de pertença e comunhão: “Sintamo-nos todos em casa, casa da mãe”, disse, acolhendo os presentes e os que acompanhavam pelas transmissões.

Na homilia, padre José aprofundou o tema da alegria pascal, propondo uma reflexão densa e provocativa. “A alegria pascal não é mero sentimentalismo, nem experiência intimista de êxtase com forte apelo emocional, que afasta a pessoa de si mesma e da realidade”, afirmou. Ele também destacou que “não é alegria superficial ou banal”, nem mesmo “alegria performática, ensaiada, de poses para fotos, que muitas vezes podem esconder angústias, dores e sofrimentos”. Em contraponto, explicou que a verdadeira alegria nasce do mistério da cruz: “A alegria pascal brota do mistério da cruz. Ela emerge da vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus”.

Desenvolvendo sua reflexão, o sacerdote destacou que essa alegria exige busca e vigilância: “Para experimentá-la, é preciso buscá-la na madrugada, na aurora, antes do raiar do dia. Trata-se de uma busca vigilante e atenta, que desperta no coração de quem muito ama”. Ele apresentou a alegria pascal como um caminho de transformação interior: “É a passagem da indiferença à empatia, do medo à coragem, da brutalidade à ternura, do abandono à confiança, da incredulidade à fé, do vazio à plenitude, do ódio ao amor”.
Ao relacionar a alegria pascal com a vocação, padre José tocou diretamente a realidade dos presentes: “Essa alegria que brota da cruz é também experiência vocacional, carregada de sentido, deixando marcas profundas na vida e na história de tantas pessoas e comunidades”. Ele recordou com emoção os ritos de ordenação e consagração, afirmando que “essa alegria pascal é muito palpável nos ritos de ordenação e consagração”, e lembrou o momento da imposição das mãos e da entrega total da vida a Deus como expressão concreta dessa experiência.

A celebração também evocou testemunhos marcantes da vida consagrada no Brasil. Ao citar figuras como irmã Dorothy e irmã Cleusa, o sacerdote destacou que “essas mulheres levaram a alegria de Cristo às regiões mais inóspitas e às pessoas mais distantes do nosso país”, oferecendo suas vidas pela justiça do Reino. Ao mesmo tempo, apontou para Maria como modelo dessa alegria: “O Magnificat revela a alegria pascal que transborda no coração de Maria”, disse, ressaltando que a Mãe do Senhor é sinal de confiança, coragem e fidelidade.
Enquanto a missa acontecia no Campinho, a manhã também foi marcada pelas romarias que tomaram as ruas em direção ao Convento. Às 7h30, os ciclistas partiram da Praça da Catedral de Vitória rumo à Prainha. Em Vila Velha, outro grupo saiu de Cobilândia com o mesmo destino.

Já às 8h, a Romaria dos conguistas marcou mais um momento de fé e expressão cultural na Festa da Penha 2026, reunindo bandas de congo de diversas regiões do Espírito Santo em um grande cortejo até o Convento da Penha, em Vila Velha. Ao som dos tambores, casacas e cantos tradicionais, os conguistas subiram o convento levando consigo a força de uma tradição que atravessa gerações e se renova a cada ano como sinal de devoção à padroeira do Estado.
Durante a celebração, o pároco da Paróquia Santa Clara de Assis de Colatina, Frei Pedro de Oliveira Rodrigues, destacou o significado da presença dos conguistas na festa. Em sua fala, afirmou que a “Casa da mãe acolhe a todos”, ressaltando o caráter inclusivo da devoção a Nossa Senhora da Penha, que reúne diferentes expressões de fé e cultura em um mesmo espaço de oração.

Frei Pedro também chamou atenção para o valor histórico e simbólico da romaria, definindo o momento como uma “reparação histórica”. Segundo ele, a presença das bandas de congo no alto do convento representa o reconhecimento de uma manifestação popular que, por muito tempo, esteve à margem, mas que hoje é acolhida e valorizada no coração da festa.
Ao final, em um gesto carregado de significado, o frade abençoou os conguistas com água benta, reforçando a dimensão espiritual daquele encontro. O rito foi acompanhado com reverência pelos participantes, que, logo em seguida, desceram a ladeira do Convento para a fincada do mastro na antiga entrada do Convento, expressando alegria e gratidão.
A manhã seguiu com a missa das Pastorais Sociais, às 10h, presidida pelo padre Kelder Brandão, coordenador do Vicariato para a Ação Social da Arquidiocese de Vitória. Em sua homilia, ele refletiu sobre o tema da festa: “Fazei de nós instrumentos da paz” e afirmou: “Todo cristão deve ser um instrumento da paz. Ou não será cristão?”. Ao distinguir a paz de Deus da paz do mundo, destacou: “A paz que o mundo dá é uma farsa, imposta pela violência, pelo medo e pela opressão. Essa não é paz. É silenciamento e violência disfarçada”.
Padre Kelder aprofundou ainda mais a reflexão ao afirmar que “a paz que Deus nos dá nasce junto com a justiça, o respeito, o diálogo e o desejo sincero de ver a felicidade do outro”. Ele também chamou atenção para a realidade social do Espírito Santo, denunciando situações de violência, desigualdade e exclusão, e convocou os fiéis a um compromisso concreto: “Ser instrumento da paz é assumir uma postura firme diante das injustiças, sem medo das consequências, denunciando o pecado estrutural que gera exclusão, violência e morte”.

Ao final da celebração, um gesto simbólico marcou o momento: bandeiras da paz circularam entre os fiéis, reforçando o compromisso assumido. “Que a paz corra como um rio entre nós”, foi proclamado, enquanto a assembleia renovava o desejo de construir uma sociedade mais justa e fraterna.
Encerrando a programação da manhã, a missa das 12h reuniu voluntários da Festa da Penha em um momento de gratidão. A celebração reconheceu o trabalho silencioso de centenas de pessoas que, ao longo dos dias, contribuíram para a realização da festa. Assim, a manhã do Dia da Padroeira foi marcada pela oração, pela diversidade das romarias, pela força da cultura popular, pela promoção das vocações e por um forte chamado à construção da paz.
Frei Evaldo Ludwig presidiu a celebração e destacou o encontro entre Maria e Isabel como ponto de partida da missão de Cristo, ressaltando também a dimensão do batismo na vida cristã. “Duas mulheres batalhadoras que possuíram e ajudaram o projeto de Deus. Maria encontra com Isabel. E nesse encontro… Jesus Cristo no peito de Maria, João Batista no peito de Isabel. E esse encontro foi tão majestoso que Maria diz: ‘eu assumi um projeto, eu sou serva do projeto de Deus’”, afirmou. Ele ainda recordou o simbolismo da água nesses encontros: “O primeiro encontro de Jesus com João Batista foi no ventre. O segundo encontro foi na água do Rio Jordão. A água é símbolo da purificação, da restauração e da nova vida”.

Ao aprofundar o sentido da missão, o frei ligou diretamente o batismo de Cristo ao compromisso dos fiéis, especialmente no contexto da Festa da Penha 2026. “Foi após o batismo no Rio Jordão que Jesus Cristo começou a sua missão. E é essa missão que todos nós batizados recebemos: anunciar o Reino de Deus”, disse. Em tom de reflexão sobre a vivência da festa, completou: “A Festa da Penha não é um evento social, ela é um evento de fé. E se essa festa nos ajudar a abrir os olhos e o coração para servir, então podemos dizer: Deus, muito obrigado, porque a missão foi cumprida”.
Dirigindo-se aos voluntários e participantes, Frei Evaldo reforçou o espírito de serviço e gratidão que marca a celebração, convidando todos à continuidade da missão. “Assim como Maria foi servidora, todos nós que aqui estivemos precisamos viver na lógica do serviço… tudo isso foi para o bem maior do anúncio do bem”, afirmou. Ao concluir, deixou uma mensagem de esperança e compromisso: “Nós não temos que dizer muito obrigado, nós temos que dizer até breve porque no ano que vem continuamos essa missão de anunciar o Reino de Deus. Que Nossa Senhora da Penha nos dê a graça de confiar e de viver esse tempo como um tempo de paz”, concluiu.
FREI MASSIMO REFORÇA UNIDADE E TRADIÇÃO DA FESTA DA PENHA
O Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores, Massimo Giovanni Fusarelli, em mensagem enviada a Fraternidade do Convento da Penha reforçou o sentido e a dimensão histórica da Festa da Penha. Dirigindo-se aos fiéis, ele destacou a alegria de participar deste momento, recordando que a celebração reúne séculos de fé e devoção: “É com grande alegria celebrar convosco este momento histórico. Uma festa que 456 anos depois, continua reunindo milhões de fiéis ao redor da Mãe de Deus”.
Na mensagem, o religioso ressaltou ainda o reconhecimento da festa como patrimônio cultural do Brasil, afirmando que este título ultrapassa o âmbito civil: “É o Brasil inteiro que diz: esta fé é nossa”. Ao recordar que a devoção teve início com os franciscanos, sublinhou a continuidade dessa tradição ao longo dos séculos e sua força na vida do povo.
O Ministro Geral também fez referência ao momento especial vivido pela Igreja neste ano, que recorda os 800 anos da Páscoa de São Francisco de Assis, unindo esse jubileu à história da Festa da Penha: “Dois jubileus, um só coração. Maria e Francisco juntos nos ensinam o caminho”. Por fim, dirigiu uma saudação fraterna ao Convento da Penha, aos frades, romeiros e a toda a Igreja no Espírito Santo, desejando que Nossa Senhora da Penha “continue a nos reunir, a nos consolar e a nos transformar”.
Equipe de Comunicação da Festa da Penha: Frei Augusto Luiz Gabriel, Frei Gustavo Medella, Frei Roger Strapazzon e Marcos Souza (Grupo Celinauta)





































