Perdão de Assis reúne milhares de fiéis em caminhada de fé, reconciliação e esperança no Convento da Penha
10/08/2026

Na última sexta-feira (7), milhares de fiéis se uniram aos freis da Paróquia Nossa Senhora do Rosário e do Convento da Penha para celebrar o Perdão de Assis, uma festa de reconciliação que recorda o berço do movimento franciscano e convida os cristãos a vivenciarem a misericórdia de Deus. A programação teve início na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, na Prainha, em Vila Velha, marco do início da história capixaba e ponto de partida para a caminhada penitencial até o alto do Convento da Penha.
Com entusiasmo e espírito de peregrinação, os participantes se concentraram em frente à igreja para dar início à caminhada. O momento foi conduzido pelo pároco da Paróquia Nossa Senhora do Rosário, Frei Vanderlei Neves, que destacou o significado espiritual do percurso. Para ele, a caminhada representa uma oportunidade de oração, meditação e experiência concreta da misericórdia de Deus.
“Nos reunimos como peregrinos da esperança, desejosos de experimentar a infinita misericórdia de Deus e de renovar a nossa caminhada de fé”, ressaltou Frei Vanderlei. O religioso também lembrou que a celebração acontece em um ano jubilar, marcado pela memória dos 800 anos do Trânsito de São Francisco de Assis, convidando os fiéis a contemplarem o testemunho de vida do santo.
“Recordamos São Francisco de Assis, que viveu até o fim como testemunha da Luz de Cristo. Somos convidados a renovar nossa caminhada de conversão e a deixar que essa mesma luz ilumine os nossos passos”, afirmou o pároco durante a abertura da celebração.
Ainda nos momentos iniciais, os penitentes receberam uma orientação especial para que utilizassem as lanternas dos celulares durante a caminhada, em substituição às velas. A medida foi adotada pelos freis como forma de preservar a vegetação do Convento da Penha e reforçar o cuidado com o meio ambiente, tão presente na espiritualidade franciscana.
Durante a subida, Frei Paulo César Ferreira conduziu o trajeto orante, convidando os peregrinos a meditarem sobre cada verso da Oração de São Francisco. Entre músicas, momentos de silêncio e reflexões, a caminhada transformou-se em uma experiência coletiva de fé, na qual o cansaço da subida foi também compreendido como parte de um caminho interior de conversão e encontro com Deus.
Ao chegar ao Campinho do Convento da Penha, os participantes foram recebidos por uma encenação alusiva aos 800 anos do Trânsito de São Francisco de Assis. A apresentação, realizada pelos adolescentes da Paróquia Nossa Senhora do Rosário, teve como inspiração a música “À Procura de Deus”, de autoria do Frei Florival, e ajudou a conduzir os presentes a uma reflexão sobre a trajetória e a espiritualidade do santo de Assis.
Após a encenação, o vice-guardião do Convento da Penha, Frei Evaldo, e o pároco da Paróquia Nossa Senhora do Rosário, Frei Vanderlei, conduziram um momento de leitura e reflexão. Frei Vanderlei apresentou o texto “O Encontro na Cúria”, de Perugia, escrito em 1216, que recorda aspectos importantes da espiritualidade de São Francisco, especialmente a misericórdia de Deus e o compromisso de viver o Evangelho.
Em sua reflexão, Frei Evaldo destacou que a trajetória de São Francisco foi marcada por um processo profundo de autodescoberta e transformação. Ao recordar o encontro do santo com um leproso, ressaltou como Francisco precisou superar o próprio preconceito e o sentimento de repulsa para abraçar aquele que antes rejeitava. “O amargo se tornou doce”, recordou, apresentando esse episódio como um dos primeiros momentos de perdão vividos por Francisco, inclusive de reconciliação consigo mesmo.
O vice-guardião também relacionou a experiência de São Francisco com o chamado à missão. Segundo Frei Evaldo, o santo foi compreendendo, ao longo de sua caminhada, que entre o desejo de ter e a missão de servir existe uma escolha fundamental. A partir desse processo, Francisco passou a olhar para as pessoas que estavam abandonadas e percebeu que a reconstrução que Deus lhe pedia ia muito além das paredes de uma igreja: era a reconstrução da própria humanidade.
Ao falar sobre a reconstrução da “Igreja humana”, Frei Evaldo destacou a dimensão da paz presente na espiritualidade franciscana. “Fazer de mim instrumento de vossa paz” foi uma das expressões repetidas pelos milhares de participantes durante a reflexão. Para ele, o diálogo e a capacidade de escutar são caminhos fundamentais para superar conflitos, intrigas e divisões, permitindo que pessoas e grupos diferentes encontrem novas possibilidades de convivência.
A reflexão também abordou a relação de São Francisco com a criação. Frei Evaldo lembrou que o santo não deve ser compreendido apenas como o “santo dos bichinhos”, mas como alguém que reconheceu a profunda ligação entre todos os seres. “Nós somos um. Tudo está interligado”, afirmou, destacando que o cuidado com a natureza também é uma dimensão da missão cristã e que os impactos causados à criação atingem diretamente a própria humanidade.
Ao longo da reflexão, Frei Evaldo reforçou ainda que a mensagem do Perdão de Assis é um convite à renovação. “Tudo pode ser renovado. Tudo pode ser mudado. Nada fica igual. Tudo pode ser diferente. Tudo pode ser novo”, afirmou. A partir da experiência de São Francisco, o religioso convidou os participantes a acreditarem na possibilidade de transformar suas próprias histórias e de fazer novas todas as coisas.
A mensagem também recordou o desejo de São Francisco de levar a misericórdia de Deus a todos aqueles que buscassem a reconciliação. Frei Evaldo explicou que o Perdão de Assis celebra justamente essa experiência: a possibilidade de cada pessoa se reconhecer como instrumento de paz e assumir o compromisso de renovar aquilo que precisa ser transformado. “Esse é o convite do Perdão de Assis: que nós sintamos em nós a capacidade de fazer novas todas as coisas”, afirmou.
Logo em seguida, Frei Gabriel Dellandrea, Guardião e Reitor do Convento da Penha, conduziu o momento de Renovação da Fé e Absolvição. Em clima de silêncio, oração e contemplação, os fiéis foram convidados a reconhecer suas fragilidades, manifestar o arrependimento e abrir o coração à misericórdia de Deus. O momento marcou um dos pontos centrais da noite, reforçando o sentido de reconciliação que caracteriza a celebração.
A celebração do Perdão de Assis foi encerrada com uma bênção coletiva dos freis do Convento da Penha e da Paróquia Nossa Senhora do Rosário. Com as mãos erguidas, os religiosos abençoaram os milhares de participantes reunidos no Campinho. Na sequência, aconteceu a tradicional bênção das velas e também a bênção da água, símbolos que recordam o compromisso dos fiéis de serem testemunhas vivas da Luz de Cristo e portadores da bênção recebida para seus lares e comunidades.
Mais do que uma caminhada até o alto do Convento da Penha, o Perdão de Assis foi vivido pelos participantes como um percurso de fé, reconciliação e renovação. Ao recordar a vida de São Francisco e sua disposição para transformar a própria história em missão, a celebração reforçou o convite para que cada peregrino retorne para sua vida cotidiana renovado, disposto a perdoar, escutar, cuidar da criação e construir a paz. Em meio à multidão, às orações e à luz das lanternas, a noite terminou com uma mensagem de esperança: a de que, pela fé e pela misericórdia, sempre é possível recomeçar
Assessoria de Comunicação do Convento da Penha


