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Convento São Francisco: o “Monte Alverne” de 375 anos no centro de São Paulo

17/09/2022

Notícias

 São Paulo (SP) – A liturgia da festa da Impressão das Chagas de São Francisco de Assis deixou ainda mais bela a Missa de Ação de Graças pelos 375 anos de fundação do Convento São Francisco, celebrada neste sábado (17/9), às 12 horas, na Igreja que compõe, com outras construções, o principal conjunto de arquitetura barroca da capital paulistana. Na saudação inicial, o guardião do Convento São Francisco, Frei Mário Luiz Tagliari, destacou o significado histórico deste patrimônio cultural e religioso para o Estado e para o país e recordou um dos momentos mais belos da vida do Povorello de Assis. Segundo ele, o Monte Alverne é o cume de toda uma vida, de uma busca incessante de Francisco em “seguir as pegadas de Jesus Cristo”.

Frei Mário saudou a todos e destacou a a presença do professor Celso Fernandes Campilongo, titular de Filosofia e Teoria Geral do Direito, diretor da Faculdade de Direito da USP; do Coronel da reserva da Polícia Militar, Marcelo Vieira Salles, administrador da Subprefeitura Sé, representando o Prefeito de São Paulo Ricardo Nunes. Também presentes as ministras da OFS, Maria Crepaldi (Fraternidade das Chagas) e Cláudia Kuhnen (Fraternidade Santa Clara).

O Definidor Provincial, João Francisco da Silva, presidiu a Celebração Eucarística, representando o Ministro Provincial, Frei Paulo Roberto Pereira, que neste sábado acolhe os novos professos solenes da Província da Imaculada, em Petrópolis (RJ). Para ele, alegria e gratidão eram sentimentos desta celebração. “São 375 anos de evangelização e presença franciscana difundindo o carisma franciscano nesta cidade de São Paulo. Os primeiros frades foram inspirados por Deus a iniciar aqui uma história duradoura de cumplicidade e fé, oferecendo a todos a fonte do carisma franciscano que é viver o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo”, disse Frei João.

Para o presidente da celebração, são quase quatro séculos de história e comunhão com o povo de Deus que habita esta cidade. “Essa história paulatinamente vai consolidando aquele desejo ardente que o próprio São Francisco nutria quando buscava um lugar ainda mais ‘solitário e secreto’ no qual pudesse mais reservadamente fazer uma profunda experiência de oração. Ele encontra no Monte Alverne, local da impressão das Chagas do Crucificado, o lugar ideal para a experiência profunda de fé, pois, como dizem os biógrafos, ‘ele já carregava a cruz enraizada em seu coração’”, refletiu o frade.

“Creio que este Convento é o Monte Alverne, o ‘lugar solitário e secreto’ que, na agitação característica da cidade, oferece às pessoas além do espaço religioso e cultural, também o acolhimento para momentos de oração e encontro com Deus no interior da igreja, nas salas de confissão e nos demais ambientes propícios ao encontro com o transcendente”, comparou o celebrante.

Segundo ele, através de sua missão evangelizadora, o Convento propicia aos fiéis momentos celebrativos que favorecem a intimidade e o encontro com o Sagrado sem abandonar o olhar pelos pobres através da sua missão social. “Por dia, mais de mil pessoas são atendidas pelos frades e leigos na parte térrea do Convento, onde funciona o Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras), oferecendo as refeições diárias, suporte social e jurídico, atividades socioeducativas, políticas, culturais e de incentivo à participação de construção de políticas públicas e fóruns de discussão a população em situação de rua”, observou Frei João.

“Portanto, os frades não estão alheios aos dramas e à vida da população da cidade, pelo contrário procuram estar atentos aos clamores da população e busca de soluções para os diversos dramas que chegam diariamente nas portas do Convento. Assim, a presença franciscana no centro de São Paulo é uma opção para compartilhar as alegrias e esperanças na construção de uma sociedade igualitária e, também, é um modo de participar e compreender as dificuldades e os sofrimentos que rodeiam a vida do povo. Neste sentido, nos dias terríveis que vivemos, queremos, a partir de nossa identidade franciscana, reafirmar o propósito da fidelidade aos valores cristãos e humanos, fidelidade aos direitos humanos, à dignidade humana, à liberdade humana e à defesa da vida como fez São Francisco em seu tempo e, também, muitos franciscanos que aqui viveram e anonimamente agiram em favor da vida e da dignidade humana”, exortou o frade.

Frei João destacou dois frades que viveram e assumiram esse protagonismo neste Convento: “Frei Galvão, o primeiro Santo que nasceu em território brasileiro e que viveu aproximadamente 60 anos neste Convento, exerceu o ofício de pregador, confessor e porteiro. Aqui, ele se consagrou como filho e escravo perpétuo da Virgem Imaculada e é dessa devoção à Virgem Imaculada que surgem as pílulas de Frei Galvão, sacramentais de fé e devoção do povo de Deus, que procurava o santo para obter alívio em suas enfermidades”, recordou. O Convento celebra 200 anos da morte de Frei Galvão neste ano.

                                                                             (toque nas imagens para ampliá-las)

“Outro ilustre franciscano é Dom Frei Paulo Evaristo Arns, Cardeal de São Paulo, falecido em 2016. Este ano estamos encerrando as atividades comemorativas do centenário de nascimento deste franciscano que, frequentemente, vinha a este Convento e que exerceu papel fundamental na defesa dos direitos humanos na cidade de São Paulo. Trabalhou incansavelmente pelas populações mais vulneráveis”, disse. Em 1997, D. Paulo declarou que o Convento passaria a ser também “Santuário São Francisco”, pois em sua missão evangelizadora já se ocupava em acolher e atender os fiéis advindos de todas as regiões da cidade e que encontravam aqui conforto espiritual.

“São Francisco, Frei Galvão, Dom Frei Paulo Evaristo e todos os frades entendem que seguir Nosso Senhor Jesus Cristo abarca algumas exigências. Implica renúncia de si mesmo, desapego dos bens deste mundo, humildade e mansidão como condição de abertura ao transcendente a partir dos pobres e do cuidado com a natureza. Estas são qualidades de quem quer seguir o Mestre Jesus. Portanto, tomar a cruz é tomar para si uma vida que se assemelha à vida do Mestre porque Ele não nos livra da cruz, do sofrimento, mas abraça-nos na cruz, salva-nos na cruz”, ensinou o frade.

“Dizem os biógrafos que São Francisco frequentemente chorava a Paixão de Jesus, numa compreensão da entrega total do Salvador. Neste sentido, a cruz indica aos discípulos que a escolha feita tem como consequência dar a vida pelo Evangelho. Ainda hoje muitos mártires que se atrevem no compromisso pela paz, pela justiça, pelo amor, pagam com o próprio sangue essa ousadia, como o Mestre. Porém, São Francisco nos convida a não abandonar o Cristo pobre, humilde e crucificado, mas a caminharmos com Ele e adotá-lo como caminho, verdade e vida. Quer que passemos de anônimos na multidão que percorre as ruas da cidade a discípulos; mudança que requer decisão, prudência, renúncia e entrega da própria vida”, emendou o celebrante.

“Está bem claro: discípulo é quem caminha com Jesus Cristo, tendo-o como senhor, mestre e salvador; anônimo na multidão é quem ainda está só olhando de longe, à distância, com curiosidade e admiração. Precisamos assumir a identidade franciscana porque seguir Jesus no caminho do esvaziamento significa entrar numa nova vida: a vida do Espírito do próprio Jesus. Por isso, vamos abraçar a pequenez e renunciar à exaltação como fez São Francisco de Assis e ‘desejar o Espírito do Senhor e seu santo modo de operar'”, pediu.

“Que essa celebração, na qual recordamos que a presença franciscana é significativa e duradoura, e a recordação dos Estigmas de São Francisco nos ajude a compreender que o amor deixa as suas marcas nas alegrias e nas cruzes do cotidiano. Que essa celebração nos inspire a recomeçar sempre com São Francisco de Assis!”, convidou Frei João.

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UM POUCO DE HISTÓRIA

O Convento São Francisco, junto com o Convento Santo Antônio do Rio de Janeiro e o Convento da Penha, em Vila Velha (ES), são as casas mais antigas da Província da Imaculada Conceição do Brasil desde a sua criação (1675). O prédio do estilo barroco luso-brasileiro, inaugurado em 17 de setembro de 1647, na antiga Vila de São Paulo, durante o período do Brasil colonial, era feito de taipa, com fundações de 3 metros de profundidade e com paredes que chegavam a 2 metros de espessura em alguns pontos.

A igreja conventual foi muito modificada a partir de meados do século XVIII, o que lhe conferiu a atual forma barroca. Destacam-se as “estalas” do coro e os móveis da sacristia talhados em madeira de jacarandá. O sino mais antigo é o que ‘Caetano Pais de Abreu fez no anno de 1776’, como está gravado no bronze. Os outros – um da ‘Premiada Fundição de Sinos Angelo Angeli’ e outro, menor, que traz a inscrição em latim ‘Soli Deo Gloria’ (Só a Deus a glória) – são do século 19. Apesar do incêndio nos finais do século XIX (1880), que danificou a igreja e convento anexo, muitos móveis como esses foram salvos, assim como a imagem de São Francisco, considerada uma das mais belas dos conventos franciscanos do Brasil, e a imagem da Imaculada Conceição, que está no altar esquerdo.

Durante a grande restauração em 2007, a fachada voltou a exibir a cor amarelo-creme, com detalhes em azul-anil, após a remoção de camadas de tintas que, ao longo de três séculos, cobriram em sucessivas e improvisadas reformas as cores originais. No interior do templo, também os altares, o coro e o teto passaram por restauração, com suas imagens e pinturas, como a do Pai Eterno com seu esplendor de raios dourados e de dois anjos grandes que o adoram.

O Convento de São Francisco abrigou a Faculdade de Direito da USP a partir de 1827. Em 1930 o prédio foi demolido e deu lugar a um projeto maior, em estilo neocolonial, concluído em 1934. Ao lado do Santuário está a Igreja de São Francisco das Chagas, em festa hoje pelo Padroeiro. Erguida pela Ordem Terceira de São Francisco, foi tombada como patrimônio histórico de São Paulo em 1982 e é considerada uma das mais importantes obras do século XVIII. A construção original foi feita em estilo barroco-rococó. Durante sete anos passou por restauro e foi reaberta em 2014.

Em um dia frio, as festividades no claustro do Convento ficaram por conta de uma deliciosa feijoada.

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Moacir Beggo,