Frei Fidêncio: “O mundo carece de fraternidade e de pessoas que saibam ouvir”
04/08/2026

Em meio à programação do segundo dia do Capítulo das Esteiras 2026, realizado no Seminário Santo Antônio, em Agudos (SP), a TV Celinauta conversou com o Frei Fidêncio Vanboemmel.
Em uma entrevista para a repórter Adriana Loduvichak, marcada por recordações pessoais e reflexões sobre a história franciscana, o frade revisitou momentos decisivos dos 350 anos da Província, destacando o processo de restauração no final do século XIX, além de apontar os desafios que o carisma de São Francisco continua a lançar à Igreja e à sociedade.
A seguir, confira a transcrição da entrevista. Se preferir, ao final desta página também está disponível a versão em vídeo, publicada no canal da TV Celinauta no YouTube.
Adriana Loduvichak: Frei, é verídica essa história que a Província Franciscana quase foi extinta há um tempo atrás?
Frei Fidêncio: É verdade. A nossa Província nasceu da Província Santo Antônio do Brasil, que abrange a parte do Nordeste, e os frades do Nordeste foram descendo pelo litoral e foram criando os conventos no Espírito Santo, Rio de Janeiro, litoral de São Paulo, se tornando uma Província autônoma em 1675. Então tinha grandes conventos missionários. Os frades moravam nos conventos e daí eles partiam a cavalo ou davam um jeito, barco, conforme a necessidade, para evangelizar. Depois houve a Lei de Pombal, vamos sintetizar, que proibiu o ingresso de noviços, ou seja, cortou a das vocações. Com isso, a nossa Província foi diminuindo. E chegamos no ano de 1891, quando havia apenas um frade, chamado Frei João do Amor Divino Costa, que residia sozinho no Convento Santo Antônio. Em 1891 veio o reforço da Alemanha para a restauração da Província da Imaculada Conceição.
Adriana Loduvichak: Então a Província chegou a ficar com apenas um frade?
Frei Fidêncio: Um frade apenas. Frei João do Amor Divino Costa, que residia no Convento Santo Antônio. Todos os outros conventos que os frades portugueses antigos construíram ficaram praticamente ou sendo cuidados por irmandades ou abandonados e alguns deles se transformaram em ruínas.
Adriana Loduvichak: Então o reforço para reerguer e reestruturar a Província veio da Alemanha?
Frei Fidêncio: Exatamente. Aí vem uma coisa curiosa: no caso, a restauração da Província não começou por rehabitar os velhos conventos. A reconstrução da Província se iniciou, por coincidência, na minha terra natal, em Teresópolis, no município de Águas Mornas, na região da Grande Florianópolis. Em 1891 chegaram os primeiros quatro frades alemães e começaram por ali, uma colônia alemã, iniciando a restauração da Província. E lentamente foram chegando outros alemães. Na primeira leva foram os quatro, depois chegaram oito e assim foram chegando frades e mais frades da Alemanha que, lentamente, a partir de Teresópolis, de Santo Amaro da Imperatriz, foram subindo em direção à serra, Lages, depois para Curitiba, Blumenau e, lentamente, voltaram de novo para São Paulo, para o Rio.
Adriana Loduvichak: Frei, o senhor começou muito jovem a sua trajetória como frade dentro da Província. Qual é o sentimento de acompanhar essa comemoração de 350 anos?
Frei Fidêncio: Eu entrei muito jovem, com 12 anos de idade, usava até calça curta na época, né? Mas chorava todas as noites com saudade da minha família e da minha casa. Mas a gente persistiu, fiz toda a trajetória formativa nas casas de formação. Comecei em Rodeio ainda, depois passei por Ituporanga, inauguramos aquele seminário, depois vim para Agudos, onde eu fiz na época o ginásio e o colegial. Depois disso, então fiz o noviciado em Rodeio, Santa Catarina, o noviciado, os estudos de filosofia e teologia em Petrópolis. Depois comecei minha trajetória evangelizadora em Campos do Jordão, primeiro na paróquia. Mas praticamente todos os demais 50 anos de vida religiosa foram vividos na formação. Tenho aqui “uma tonelada” desses frades que foram todos formandos ou passaram na minha vida. E hoje nós temos esses guerreiros aí que estão tocando a vida da Província.
É como o Papa dizia para a vida religiosa em geral, acho que eu também devo olhar para a história da nossa Província com um olhar de gratidão. Gratidão por aqueles que nos formaram. Quando eu entro nessa igreja aqui, eu me lembro lá do fradezinho de cabecinha branca que passava o dia inteiro quase que numa oração permanente, idoso, o Frei Davi. E assim nós tivemos grandes formadores e grandes professores aqui em Agudos. Estudávamos muito. Creio que a Província sempre teve essa preocupação de formar bem para poder também, digamos assim, qualificar os irmãos para a missão, para a evangelização nas diferentes frentes evangelizadoras: paróquias, santuários, colégios, nos meios de comunicação, entre outros.
Adriana Loduvichak: O senhor tem uma história ligada à Província, claro, uma vida dedicada à missão franciscana, mas também muito dedicada aos estudos…
Frei Fidêncio: Não que eu fosse talvez um aluno exemplar. Tanto que me mandaram estudar depois em Roma. Mas eu fiz com o Frei Vitório Mazzuco, fiz o curso de Espiritualidade Franciscana no Pontifício Ateneu Antoniano, o que também me ajudou muito a trabalhar como formador. Acho que tínhamos os instrumentos, principalmente o estudo das fontes franciscanas, que de certa forma serviu também de base, de instrumento para direcionarmos uma formação franciscana dentro do espírito de São Francisco, e diria também de Santa Clara de Assis.

Adriana Loduvichak: Com todos esses estudos e legado de São Francisco, de Santa Clara, quais os principais ensinamentos que a gente pode extrair de tudo isso? Principalmente olhando para os tempos atuais?
Frei Fidêncio: Dos velhos frades, eu acho que aprendemos muita coisa, principalmente a ter um olhar muito amplo. Desde a restauração, fala-se que os frades tiveram essa preocupação pela evangelização, paróquias, pela educação, colégios, e também pelas comunicações. Daí nasceu também a Editora Vozes. Nos conventos havia boas bibliotecas. Acredito que essas bibliotecas ajudaram muito a termos uma formação bem eclética. Nós tivemos cientistas, nós tivemos um frade, por exemplo, que é um dos maiores especialistas em saúvas do mundo, Walter Kempf. Um grande especialista em formigas, reconhecido no mundo inteiro. Em diferentes áreas nós tivemos frades assim.
Acho que essa é a grande provocação para nós atualmente. A vida franciscana nos provoca a ouvir, ouvir a humanidade de hoje. Eu acho que as interpelações, principalmente do Papa Francisco, que até pelo nome que ele escolheu, é uma provocação para nós também, para podermos dar respostas às diferentes ansiedades, gritos, e clamores. O nosso carisma é muito aberto para acolher as diferentes necessidades. Se carece muito de conteúdo interior, de mística. Não devemos nunca irmos ao encontro das necessidades humanas com o coração vazio. Tem um texto muito bonito das fontes franciscanas que fala do pregador, mas eu acho que é da missão de todos. Devemos aquecer o nosso coração com a palavra de Deus para nunca proferirmos palavras frias. Palavras aquecidas nos diferentes trabalhos: com os pobres, na comunicação, na educação, na pastoral, na evangelização, nos santuários, no acolhimento dos peregrinos e assim por diante. Do passado, creio que nós herdamos esta história bonita, mas uma história que também nos provoca hoje. Essas últimas encíclicas papais, eu acho que são nossas. Nossas, quero dizer, de toda a Igreja, mas acho que há a presença do carisma franciscano. Francisco sempre se submeteu à obediência à Santa Mãe Igreja. Essa obediência nos faz hoje sermos porta-vozes dessas grandes encíclicas.
Adriana Loduvichak: Frei, ao escolher o nome Francisco, o Papa já sinalizava a inspiração que teria no Pobrezinho de Assis. O senhor acredita que esse pontificado contribuiu para tornar o carisma franciscano mais conhecido?
Frei Fidêncio: Sim, ele mesmo conta, que teve ao lado dele o Cardeal de São Paulo na época, né? “Não esqueça dos pobres”, como dizia. Acho que ele fez imediatamente esse link com a realidade do mundo que vivemos hoje. E, optando pelo nome “Francisco”, ele também nos provocou. Eu tive pessoalmente em uma audiência com ele. Então, às vezes, quando “soltávamos um pouco do papel”, percebíamos a espontaneidade na fala dele. Percebíamos o quanto ele também nos provocava a vivermos a dimensão do carisma de hoje. E uma das provocações dele foi nunca esquecer a humildade como característica nossa. Ele falava sobre “a humildade, o profetismo, que a gente devia viver como frade menor: a obediência, a fraternidade, saber viver como irmãos, termos projetos comuns. Quando ele fala de sinodalidade, por exemplo. A sinodalidade é muito presente na própria vida de São Francisco e Santa Clara. Quer dizer, ouvir todos, dialogar com todos, não importa quem fosse. Acho que o Papa Francisco nos provocou muito, e não podemos ficar calados, de braços cruzados, principalmente diante da realidade que vivemos hoje.
Adriana Loduvichak: Frei, para o senhor, o que é o carisma franciscano?
Frei Fidêncio: Bela pergunta. Em primeiro lugar, eu acho que é viver, sim, o Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, como nós professamos na regra: viver em pobreza, castidade e obediência. Mas tem um espírito ali que move tudo isso: é a minoridade, frades menores, irmãos menores. Não nos colocarmos acima das outras criaturas. Nos sentimos sempre irmãos, caminhamos junto como irmãos. É o significado do Capítulo das Esteiras: dormimos todos em um mesmo nível de igualdade. Creio que ser frade menor, irmão menor, é viver e fazer essa fraternidade na minoridade, na obediência, na escuta a toda humana criatura, como diria São Francisco.
Adriana Loduvichak: Depois de toda essa trajetória e de tantos anos dedicados à vida franciscana, que mensagem o senhor gostaria de deixar para quem nos acompanha?
Frei Fidêncio: A convocação para construirmos, de fato, mais fraternidade. O mundo carece de fraternidade, o mundo carece de pessoas que se escutem, o mundo carece de respeito, de irmãos que saibam ouvir, que se coloquem realmente à disposição do ouvir. Francisco de Assis nos com o espírito da minoridade. Não da superioridade, da minoridade. Essa minoridade, Francisco nos ensinou a partir da humildade do próprio Filho de Deus, seja na Gruta de Belém — Greccio —, seja no no Calvário — estigmatização —, ou mesmo na morte. Essa atitude, essa postura, esse modo próprio de viver, acho que é um convite para todos nós no mundo de hoje.
Adriana Loduvichak: Para encerrar, o senhor acredita que a escuta genuína das pessoas é capaz de transformar o mundo, ou ao menos a realidade em que vivemos?
Frei Fidêncio: Eu quero acreditar. Porque cada um só escuta a si mesmo, acho que é um dos grandes desafios, essa autorreferencialidade que o Papa Francisco tanto combatia. O narcisismo e tantas coisas mais. Acho que, com esse saber ouvir, esse saber escutar, esse saber dialogar, nós podemos transformar o mundo. Eu quero crer, porque se a gente perde esses referenciais, entramos em desânimo. Considero esse um valor fundamental.
Guilherme Coutinho


