Partilhas e peregrinação marcam segundo dia do Capítulo das Esteiras
04/08/2026

Dando sequência à programação do segundo dia do Capítulo das Esteiras 2026, na manhã desta terça-feira (4), os participantes reuniram-se no Salão Nobre do Seminário Santo Antônio para um painel temático conduzido pelo Vigário Provincial, Frei Gustavo Medella, intitulado “Francisco aos teus olhos”.
Na abertura da atividade, o Ministro Provincial, Frei Paulo Roberto Pereira, saudou os participantes, agradecendo a presença de todos, incluindo os coralistas que participaram da celebração da noite anterior, e recordou que o Capítulo das Esteiras é um convite permanente ao amadurecimento da fraternidade.
“Que experimentemos a radicalidade da fraternidade. O Capítulo das Esteiras nos ajuda a atualizar as palavras de Francisco para os nossos dias e a renovar a alegria de viver o Evangelho. O mesmo Espírito que conduziu os irmãos no passado continua sendo a fonte da nossa missão hoje”, afirmou o Ministro Provincial, Frei Paulo Roberto Pereira, na abertura da atividade.

O Ministro Provincial destacou ainda que a presença franciscana marcou profundamente a história do Brasil, lembrando que esse legado continua desafiando a Província diante das urgências do tempo presente. Em sua reflexão, Frei Paulo também evocou a herança espiritual de São Francisco e de Santa Clara, bem como o legado do Papa Francisco, ressaltando o chamado a uma Igreja comprometida com os pobres e a construção da paz.
“Que estes 350 anos nos tornem ainda mais atentos aos projetos evangelizadores inspirados pela justiça. Que revigorem em nós a convicção de que os pobres são os nossos mestres. Que Francisco continue a nos inspirar, que nos convide sempre a seguir a teimosa utopia da fraternidade. Que faça fecundo o nosso ‘sim’”.

Ao concluir sua fala, o Ministro Provincial recitou “Terra Encantada”, poema escrito por Frei Walter Hugo de Almeida para o Capítulo das Esteiras de 1982, retomando o apelo para que São Francisco continue inspirando um mundo fraterno.
Clique aqui para ler o poema “Terra Encantada”
Diferentes olhares sobre Francisco
Na primeira etapa da dinâmica, Frei Gustavo Medella convidou ao palco Frei Pedro de Oliveira, Irmã Maria Aparecida (Cidinha) e Frei Rafael Spricigo, que compartilharam como diferentes dimensões da espiritualidade franciscana continuam iluminando suas vocações.
Refletindo sobre a juventude de Francisco, Frei Pedro de Oliveira recordou que o Pobrezinho de Assis continua desafiando as novas gerações a não perderem a capacidade de sonhar e de transformar esses sonhos em compromisso concreto com o Evangelho.
“Francisco nos desafia a vender um sonho: o sonho de um mundo fraterno, onde sejamos promotores da paz. Se deixarmos de sonhar, vamos perecer.”

Também dirigindo-se aos jovens, o frade recordou que o testemunho franciscano somente desperta novos corações quando é vivido com entusiasmo: “Como encantar os jovens se nós mesmos estivermos desencantados? A marca de Francisco sempre foi a alegria.”
Em seguida, a Irmã Maria Aparecida apresentou a conversão de São Francisco como um processo interior que o levou a reconstruir não apenas igrejas de pedra, mas corações renovados. Ao relacionar a própria história com a trajetória do santo, destacou que a vocação se fortalece na fidelidade cotidiana e no desejo constante de realizar a vontade do Pai.
Por fim, Frei Rafael Spricigo reforçou que a missão franciscana nasce da intimidade com Deus: “O que sustenta é a oração. E Francisco, nosso maior exemplo, fez da própria vida uma oração”.

Testemunho e proximidade com os pobres
Após um intervalo, a programação prosseguiu com uma nova rodada de interlocutores formada por Frei Inácio Filipe, Irmã Joana Angélica e Frei Tiago Gomes Elias, aprofundando outras dimensões do carisma franciscano.
Ao abordar a vida fraterna, Frei Inácio destacou que viver entre irmãos já constitui, por si só, uma forma de evangelização. “Antes de partirmos em missão, nós já estamos em missão entre nós. O Evangelho é uma mensagem de alegria, e essa alegria só encontra sentido quando é vivida em fraternidade.”
Na sequência, Irmã Joana Angélica refletiu sobre a força do testemunho silencioso na vida contemplativa. Com 11 anos de vida monástica, ela reforçou que a presença “fala” mais alto do que muitas palavras quando nasce de uma profunda intimidade com Deus. “Para alcançar essa condição, precisamos pacificar o nosso coração. Se não cultivamos uma vida interior, nossas palavras dificilmente alcançarão o outro.”

Encerrando a manhã, Frei Tiago Gomes Elias compartilhou sua experiência junto ao SEFRAS – Ação Social Franciscana, ressaltando que a convivência com pessoas em situação de vulnerabilidade exige mais do que assistência: pede escuta e promoção da autonomia.
“Estar entre os pobres é uma escola da vida. Não se trata de se apropriar da história do outro, mas de caminhar com ele. Não é apenas uma discussão sobre alimentar o próximo. Há pessoas empobrecidas de diálogos, que passam semanas inteiras empobrecidas de conversa, de serem ouvidas. Estar em meio aos pobres é observar esses apelos sem se apropriar de cada um deles. É fazer-se junto”, observou,
No fim da atividade, Frei Gustavo convidou os participantes a retomarem, em oração e reflexão pessoal, algumas perguntas inspiradas nas partilhas da manhã, entre elas: como estão os sonhos despertados por Francisco; por quais conversões passamos durante o nosso no cotidiano; de que forma a fraternidade tem sido vivida concretamente; e sobre quais fundamentos repousa hoje a vocação franciscana.

À luz do exemplo de São Francisco
À tarde, as atividades prosseguiram no anfiteatro com um novo momento de reflexão sobre a vida franciscana e o anunciar do Evangelho a partir do exemplo de São Francisco de Assis. Em sintonia com o tema central do encontro, as partilhas reforçaram que a identidade franciscana se fundamenta na fraternidade e na disposição para servir, recordando que a Ordem dos Frades Menores não se estrutura sobre relações de poder e hierarquias que provocam doença.
Ao longo das intervenções, os frades foram convidados a revisitar atitudes essenciais do carisma franciscano, como o espírito de diálogo, a colaboração, a reconciliação, a submissão à Igreja e a misericórdia manifestada no seguimento de Cristo. Também foram propostas provocações para a reflexão pessoal, entre elas: “Estou lavando os pés dos meus irmãos? E permito que os meus pés também sejam lavados com cuidado?”.
As partilhas também destacaram que o testemunho franciscano continua atual diante dos desafios do mundo contemporâneo. Inspirados por São Francisco, os participantes foram incentivados a serem mansos, pacíficos, humildes e promotores da paz, reconhecendo que somente esse caminho pode responder às divisões e conflitos do tempo presente.
“A semente de Francisco continua a germinar, cabe a nós fazê-la frutificar”, recordou uma das reflexões, que também foram acompanhadas por cantos e instrumentistas com violão, acordeão, cajón, triângulo e tambores.

Peregrinação encerra as atividades da tarde
Encerrando as atividades da tarde, os participantes realizaram uma peregrinação ao cemitério do Seminário Santo Antônio, em um itinerário de oração e memória intitulado “Do sonho à eternidade”.
Ao longo de nove paradas, foram retomados aspectos centrais da experiência de Francisco, como o chamado à conversão, a vida de oração, a fraternidade, a coerência no testemunho, a pobreza evangélica e a configuração a Cristo crucificado. Ao longo do percurso, as reflexões também foram entrelaçadas à lembrança de homens e mulheres que dedicaram a vida ao carisma franciscano e cuja memória permanece viva na caminhada da Província.
As leituras foram conduzidas, respectivamente, por Frei André Gurzynski, Frei Alexandre Magno Cordeiro da Silva, Frei Bruno Gonçalves Cezário, Frei Antônio Michels, Frei Marcos Prado dos Santos, Frei Germano Guesser, Frei Fábio Cesar Gomes, Frei João Baptista C. Canjenjenga e Frei Augusto Luiz Gabriel.
A celebração também contou com a participação dos postulantes, responsáveis pela cruz processional e pelo serviço do altar, dos professos temporários da etapa formativa de São Paulo, que realizaram os gestos simbólicos previstos para cada estação, além de frades responsáveis pelo acompanhamento musical durante o trajeto.
A última estação, dedicada à Páscoa de São Francisco, conduziu os participantes à contemplação da esperança cristã diante da morte. Em sintonia com o lema do Capítulo, “Se morremos com Cristo, cremos que também viveremos com Ele” (Rm 6,8), a celebração reforçou a convicção de que a missão iniciada por São Francisco continua a florescer na vida daqueles que, ontem e hoje, fazem da fraternidade um testemunho do Evangelho.
Até quinta-feira (6), a programação do Capítulo das Esteiras reunirá momentos de oração e convivência fraterna, encerrando o tempo jubilar dos 350 anos da Província em sintonia com as celebrações dos 800 anos do Trânsito de São Francisco de Assis.
No site e nas redes sociais da Província será possível acompanhar, ao longo dos próximos dias, a cobertura completa do evento, com notícias, entrevistas, galerias de fotos e os principais momentos da celebração.
Clique aqui para conhecer um pouco da história do Capítulo das Esteiras na Província
Guilherme Coutinho








