“Esteira é o chão comum”: São João Maria Vianney inspira reflexão sobre fraternidade e missão
04/08/2026

O segundo dia do Capítulo das Esteiras 2026 teve início na manhã desta terça-feira (4), no Seminário Santo Antônio, em Agudos (SP), com a Celebração Eucarística em memória de São João Maria Vianney, padroeiro dos sacerdotes.
A celebração foi presidida por Frei César Külkamp, Definidor Geral da Ordem dos Frades Menores, tendo como concelebrantes o presidente da Conferência dos Frades Menores do Brasil e Cone Sul (CFByCS), Frei Fernando Antônio dos Santos, e o Ministro Provincial, Frei Paulo Roberto Pereira.
A celebração contou com a participação de diversos membros da Família Franciscana na animação litúrgica: Frei Fabrício Andreosa Martins conduziu os cantos; as leituras ficaram a cargo da Irmã Maria Pereira da Silva e de Natalin Filippi; o salmo foi rezado por Cláudia Kuhnen; além dos postulantes, que exerceram o serviço do altar.
“É bonito celebrarmos esta Eucaristia no coração de um Capítulo das Esteiras. O nome já nos ensina alguma coisa antes mesmo de abrirmos a Palavra: esteira é o chão comum, é o lugar onde ninguém está mais alto que o outro, onde frades, vocacionados e leigos se sentam ao mesmo nível, diante do mesmo mistério, para discernir juntos por onde o Espírito quer conduzir a família de Francisco. E é significativo que este dia de fraternidade e discernimento coincida com a memória de um padre simples, quase sem talentos aos olhos do mundo, que Deus fez santo: São João Maria Vianey”, refletiu Frei César durante a sua homília.
Ao refletir sobre o Evangelho, ele afirmou que Deus não permanece distante diante das fragilidades humanas, mas age no interior do indivíduo, restaurando sua vida a partir da graça. Relacionando essa reflexão ao Capítulo das Esteiras, o orador recordou que o encontro é um momento que, de forma espontânea, convida a fraternidade para se deixar iluminar pelo Senhor e renovar sua confiança naquele que continua conduzindo a missão franciscana.
“É o espaço onde a fraternidade se deixa olhar por Deus com verdade — reconhecendo o que dói, o que fracassou, o que ainda sangra — para deixar que seja Ele, e não nós, quem promete a cura e a reconstrução”, complementou.
Dirigindo-se especialmente aos jovens em formação e aos vocacionados, ele reforçou que a vocação franciscana não exige protagonismo ou reconhecimento, mas disponibilidade para responder com sinceridade ao chamado de Deus, a exemplo de São João Maria Vianey.
“E é aqui que o Cura d’Ars nos visita hoje. Não era brilhante nos estudos, quase não conseguiu ser ordenado, foi enviado para a paróquia mais insignificante do lugar. Nada nele correspondia às tentações do nosso tempo: não foi espetacular e não teve poder algum. O que teve foi oração longa diante do sacrário, penitência, disponibilidade total ao confessionário, e um amor concreto pelos pobres e pecadores de Ars. Sua santidade não nasceu de uma capacidade extraordinária, mas de deixar-se atravessar pela graça, como o ramo que permanece na videira. Para nós, hoje, ele é um espelho honesto”.
Segundo o orador, a fidelidade cotidiana e silenciosa ao Evangelho é o que sustenta a missão e permite que Deus realize grandes obras na vida daqueles que se colocam a seu serviço.
“Aos frades: a fecundidade do ministério não vem do quanto somos vistos, mas do quanto permanecemos unidos a Cristo. Aos jovens vocacionados ou formandos: vocês não precisam ser ‘os melhores’ para serem chamados — precisam apenas dizer um ‘aqui estou’ verdadeiro e deixar-se formar, mesmo através das próprias limitações. Às irmãs religiosas e aos leigos: a sua força não está na sua visibilidade, mas na fidelidade silenciosa e concreta ao Evangelho vivido em família e comunidade”.
“Talvez a graça pedida hoje seja exatamente esta: que este Capítulo seja um lugar onde, como em Jeremias, nomeamos com honestidade o que em nós e entre nós parece ‘incurável’ — e confiamos que é Deus quem restaura a tenda; e que seja também, como no Evangelho, um tempo de purificação do coração, para que ninguém aqui seja ‘guia cego’ de outro cego, mas irmãos e irmãs que se ajudam a enxergar com os olhos de Cristo”, concluiu.
Até quinta-feira (6), a programação do Capítulo das Esteiras reunirá momentos de oração e convivência fraterna, encerrando o tempo jubilar dos 350 anos da Província em sintonia com as celebrações dos 800 anos do Trânsito de São Francisco de Assis.
No site e nas redes sociais da Província será possível acompanhar, ao longo dos próximos dias, a cobertura completa do evento, com notícias, entrevistas, galerias de fotos e os principais momentos da celebração.
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Confira a homilia na íntegra:
Homilia — Memória de São João Maria Vianey
Capítulo de Esteiras — Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil
04 de agosto de 2026 Leituras: Jr 30,1-2.12-15.18-22 | Mt 15,1-2.10-14
Queridos confrades, jovens vocacionados, aspirantes e postulantes, irmãs e irmãos da Família Franciscana e demais irmãs e irmãos da família ampliada de nossa Província,
O Senhor lhes dê a Paz!
É bonito celebrarmos esta Eucaristia no coração de um Capítulo das Esteiras. O nome já nos ensina alguma coisa antes mesmo de abrirmos a Palavra: esteira é o chão comum, é o lugar onde ninguém está mais alto que o outro, onde frades, vocacionados e leigos se sentam ao mesmo nível, diante do mesmo mistério, para discernir juntos por onde o Espírito quer conduzir a família de Francisco. E é significativo que este dia de fraternidade e discernimento coincida com a memória de um padre simples, quase sem talentos aos olhos do mundo, que Deus fez santo: São João Maria Vianey.
A primeira leitura começa de modo duro: “Incurável é a tua fratura, dolorosa é a tua ferida… Não há remédio para o teu mal, não há cura para ti” (Jr 30,12-13). Deus não maquia a realidade do seu povo. Há feridas — pessoais, comunitárias, institucionais — que humanamente não têm solução. Toda vida fraterna conhece isso: cansaços, incompreensões, promessas não cumpridas, sonhos que não deram certo como se esperava.
Mas o texto vira. Do “incurável” ao “eu trarei cura” (Jr 30,17). Do “ninguém defende tua causa” ao “restaurarei as tendas de Jacó”. Deus não cura de fora, com um remédio genérico: Ele reconstrói a partir de dentro, refaz a tenda, retoma a aliança — “vós sereis o meu povo e eu serei o vosso Deus” (Jr 30,22).
Um Capítulo das Esteiras é exatamente este lugar teológico: não é uma reunião de gestão fraterna que finge que está tudo bem, nem um tribunal que só aponta feridas. É o espaço onde a fraternidade se deixa olhar por Deus com verdade — reconhecendo o que dói, o que fracassou, o que ainda sangra — para deixar que seja Ele, e não nós, quem promete a cura e a reconstrução.
O Evangelho nos coloca diante de outra ferida, mais sutil: a dos fariseus, escandalizados porque os discípulos não observam a tradição dos anciãos. Jesus não desqualifica a tradição em si, mas desloca o centro do problema: “não é o que entra pela boca que contamina o homem, mas o que sai da boca” (Mt 15,11). E depois, com uma imagem que atravessa a história: “são cegos, guias de cegos. Se um cego guia outro cego, ambos cairão no fosso” (Mt 15,14).
Para uma família franciscana isto é sempre atual. Podemos observar perfeitamente as normas, as Constituições, os horários, os ritos — e ainda assim ter o coração distante. A radicalidade do seguimento não se mede pela perfeição das formas externas, mas pela pureza do coração que ama de verdade, que serve sem procurar reconhecimento, que se deixa lavar os pés e lava os pés dos outros sem perguntar se isso é “relevante”.
São João Maria Vianey: a santidade sem espetáculo
E é aqui que o Cura d’Ars nos visita hoje. Não era brilhante nos estudos, quase não conseguiu ser ordenado, foi enviado para a paróquia mais insignificante do lugar. Nada nele correspondia às tentações do nosso tempo: não foi espetacular e não teve poder algum. O que teve foi oração longa diante do sacrário, penitência, disponibilidade total ao confessionário, e um amor concreto pelos pobres e pecadores de Ars. Sua santidade não nasceu de uma capacidade extraordinária, mas de deixar-se atravessar pela graça, como o ramo que permanece na videira.
Para nós, hoje, ele é um espelho honesto. Aos frades: a fecundidade do ministério não vem do quanto somos vistos, mas do quanto permanecemos unidos a Cristo. Aos jovens vocacionados ou formandos: vocês não precisam ser “os melhores” para serem chamados — precisam apenas dizer um “aqui estou” verdadeiro e deixar-se formar, mesmo através das próprias limitações. Às irmãs religiosas e aos leigos: a sua força não está na sua visibilidade, mas na fidelidade silenciosa e concreta ao Evangelho vivido em família e comunidade.
Talvez a graça pedida hoje seja exatamente esta: que este Capítulo seja um lugar onde, como em Jeremias, nomeamos com honestidade o que em nós e entre nós parece “incurável” — e confiamos que é Deus quem restaura a tenda; e que seja também, como no Evangelho, um tempo de purificação do coração, para que ninguém aqui seja “guia cego” de outro cego, mas irmãos e irmãs que se ajudam a enxergar com os olhos de Cristo.
Que São João Maria Vianey, nosso pai Francisco e a Mãe Imaculada intercedam por nossa Província e por todos e todas que participam de sua vida e de sua missão: que cada um de nós encontre a coragem de ser pequeno como eles foram pequenos — e, por isso mesmo, disponíveis para que Deus faça, como fez neles também hoje em nossa fraternidade capitualar, grandes coisas.
Amém.
04-08-26
Fr. César Külkamp, ofm
Guilherme Coutinho

















