Notícias - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Sínodo: A Igreja deve confessar os “pecados ecológicos”

09/10/2019

Papa Francisco


Cidade do Vaticano – A violação sistemática dos direitos dos povos originários da Amazônia e a vida em risco de toda a região, ferida no seu habitat, estiveram no centro da reflexão da quarta congregação do Sínodo dos bispos.

Não à indiferença, sim à responsabilidade
Foi feito um forte apelo para que a Igreja, com a sua voz de peso em âmbito moral e espiritual, tutele sempre a vida, denunciando as muitas estruturas de morte que a ameaçam. Não ao individualismo ou à indiferença que nos faz olhar a realidade como expectadores, como numa tela. Sim a uma conversão ecológica centralizada na responsabilidade e numa ecologia integral que coloque no centro, antes de tudo, a dignidade humana, muitas vezes vezes espezinhada.

Que a comunidade internacional enfrente as violações dos direitos humanos
A situação inaceitável da degradação ambiental na região pan-amazônica – assim foi denunciado – deve ser enfrentada de modo sério por toda a comunidade internacional, muitas vezes indiferente diante do derramamento de sangue inocente. As populações nativas, guardiãs das reservas naturais, evangelizadas com a cruz de Cristo, devem ser consideradas como aliadas na luta contra as mudanças climáticas numa ótica sinodal, isto é, de caminhar “juntos”, em amizade.

No pronunciamento de um delegado fraterno a respeito, foi destacada a necessidade de unir as forças e colocar-se em diálogo, porque a amizade – disse – “respeita, protege e cuida”. Vários foram os convites à Igreja para se tornar aliada dos movimentos sociais de base, a colocar-se em escuta humilde e acolhedora em relação a uma cosmovisão amazônica, a compreender o significado dado pelas culturas locais a símbolos rituais, diferente em relação à tradição ocidental.

Maior conscientização dos “pecados ecológicos”
Foi ressaltado um desenvolvimento sustentável que seja socialmente justo e inclusivo e leve em consideração conhecimentos científicos e tradicionais, porque o futuro da Amazônia, realidade viva e não de museu, está nas nossas mãos. Além disso, foi auspiciada uma conversão ecológica que faça perceber a gravidade do pecado contra o meio ambiente como um pecado contra Deus, contra o próximo e as futuras gerações. Daqui, a proposta de aprofundar e divulgar uma carta teológica que inclua, além dos pecados tradicionalmente conhecidos, os “pecados ecológicos”.

Promover o diaconato indígena permanente
O apelo a unir as forças na formação dos missionários amazônicos, leigos e consagrados, enriqueceu a reflexão sobre os ministérios. É necessário envolver mais os povos indígenas no apostolado, começando pela promoção do diaconato indígena permanente e pela valorização do ministério laical, compreendidos como autêntica manifestação do Espírito Santo. Também foi invocado um maior envolvimento da presença feminina na Igreja.

Reflexão sobre a vocação sacerdotal
O tema dos critérios de admissão ao ministério ordenado fez parte de alguns pronunciamentos. Há quem exortou à oração pela vocações, pedindo a transformação da Amazônia num grande santuário espiritual, do qual elevar a oração ao “Dono da messe” para que envie novos operários do Evangelho. A insuficiência numérica dos presbíteros – destacou-se – é um problema não somente amazônico, mas comum a todo o mundo católico. Eis então o apelo a um sério exame de consciência sobre como hoje se vive a vocação sacerdotal. A falta de santidade, de fato, é um obstáculo ao testemunho evangélico: nem sempre os pastores levam consigo o perfume de Cristo e acabam por afastar as ovelhas que são chamados a guiar.

O perfume da santidade e os jovens
Foi evidenciado ainda o exemplo luminoso dos mártires da Amazônia, como o dos dois servos de Deus assassinados no Mato Grosso: o padre salesiano Rudolf Lunkenbein e o leigo Simão Cristino Koge Kudugodu. Conversão ecológica é de fato, in primis, conversão à santidade. Esta tem um enorme poder de atração sobre os jovens, para os quais se pede uma renovada pastoral, mais dinâmica e mais atenta. Pediu-se que sejam evidenciados, inclusive através da mídia, os muitos testemunhos de bons sacerdotes e não somente os escândalos existentes que, infelizmente, ocupam muitas páginas dos jornais. Além disso, se chagas como violência, prostituição, desemprego e vazio existencial ameaçam as novas gerações, deve ser reiterado que não faltam exemplos positivos de inúmeros jovens católicos.


 

Não devemos ter medo de opiniões diferentes e são testemunhas disso São Pedro e São Paulo na questão da circuncisão. O cardeal Pedro Ricardo Barreto Jimeno recordou isso, dando uma chave importante para entender profundamente o Sínodo que, como Paolo Ruffini também sublinhou, é um espaço para discernir juntos, em oração, não em discussão. Uma riqueza de opiniões e também de temas destaca o pe. Giacomo Costa, secretário da Comissão de Informação: neste momento passamos de um tema para outro com pronunciamentos de 4 minutos, não há um discurso contínuo.

“Antes de tudo, existe um espaço amplo para o tema da formação de leigos e sacerdotes a fim de nutrir as comunidades eclesiais locais”, disse o prefeito do Dicastério para a Comunicação, Paolo Ruffini, lembrando que todo padre sinodal expressa seu ponto de vista. Portanto, existem nuances e também posições diferentes em algumas questões como a “viri probati”: todos reconhecem que há uma demanda de sacerdotes em relação à amplitude do território e procura-se uma resposta. No entanto, a questão fundamental é que não haja católicos de primeira e segunda classe, quem pode participar da Eucaristia e quem não é. O pedido de uma presença permanente e não apenas de visita vem de comunidades onde não há pessoas que possam celebrar a Eucaristia. Basta pensar que em territórios grandes quanto a Itália existem 60-70 sacerdotes, e algumas comunidades veem um sacerdote uma vez por ano e às vezes nem isso. Entre as propostas apresentadas está a dos diáconos locais temporários. Foi enfatizada a necessidade de não cair numa visão funcionalista do sacerdócio. Dentre outros temas: inculturação, Igreja com rosto indígena, ecologia integral, por uma cultura de sustentabilidade contra o extrativismo.

Em seu discurso, o cardeal Barreto, que também é vice-presidente da Rede Eclesial Pan- amazônica, recordou que a Igreja se preocupa não somente a partir de agora: “Em 1741, Bento IX escreveu uma carta acompanhando o sofrimento dos povos indígenas, São Pio X escreveu uma Encíclica a favor dos índios para o problema dos caucheros, exploradores de caucciùv. Houve, portanto, muitos mártires, mas também sombras. O anúncio do Evangelho nunca pode ser imposto e o Papa Francisco está convidando a Igreja e o mundo a ouvir”, observou ainda, “enfatizando nesse sentido a importância da figura de São Francisco de Assis e a esperança. Respondendo à pergunta de um jornalista que falou sobre cerca de vinte povos amazônicos que praticam infanticídio, o cardeal Barreto afirmou que nem tudo é flores entre os povos originários, mas que nunca ouviu falar que, neste momento, existam 20 povos amazônicos que praticam infanticídio. Ele ressaltou, no entanto, que toda vida humana é sagrada, e se alguém afirma dentro da Igreja que essas práticas são possíveis, está negando a essência do Evangelho.

Victoria Lucia Tauli-Corpuz, relatora especial da ONU sobre os direitos dos povos indígenas, proveniente das Filipinas, e convidada especial, testemunhou o sofrimento dos povos indígenas. Ela relatou sua experiência nessas regiões e os vários problemas: do mercúrio no sangue das crianças aos lugares onde o rio secou devido a uma represa, até a experiência no Equador de poços de petróleo. Expressou, portanto, a convicção de que a Igreja deve falar ao mundo e que os indígenas devem ser protegidos.

Moema Maria Marques de Miranda, leiga franciscana, falou com vigor sobre as feridas, destacando a oportunidade representada por este Sínodo: um diálogo profundo e a escuta do que provém do cristianismo, da ciência e dos povos indígenas que podem nos ensinar a conviver e defender o planeta, vivendo por milênios na floresta. Portanto, se por um lado, existe um projeto de extração e desmatamento, por outro, delineia-se a possibilidade de um projeto sustentável.

Na parte da tarde, o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Matteo Bruni, ressaltou “em relação à pergunta feita hoje durante o briefing sobre a presença de representantes das Nações Unidas no sínodo”, que “no passado houve dois convidados especiais, especificamente na Assembleia Especial para a África, em 2009”: Rodolphe Adada, ex-representante especial conjunto do secretário-geral das Nações Unidas e presidente da Comissão da União Africana, em Darfur, e Jacques Diouf, diretor-geral do Fundo das Nações para a Alimentação e Agricultura (FAO).

A defesa dos direitos humanos e o drama da criminalização dos líderes das comunidades e dos movimentos sociais foram os temas  por ocasião da 3ª Congregação Geral do Sínodo especial para a Região Pan-amazônica.

De fato, na Amazônia o número de mártires neste âmbito é assustador: entre 2003 e 2017 morreram 1.119 indígenas por defenderem seus próprios territórios. E não é tudo: muitas vezes os líderes sociais são vítimas da impunidade e da insuficiência dos poderes estatais que não garantem a segurança. Nesta ótica, reafirmou-se que a Igreja deve defender os que lutam para tutelar suas próprias terras criando, onde ainda não existem, específicas redes de proteção ou ativando, em nível diocesano, ações permanentes de solidariedade e de promoção da justiça social. A tarefa da Igreja, foi afirmado várias vezes, deve ser a de levantar a voz contra os projetos que destroem o ambiente. Ao mesmo tempo os Padres Sinodais evidenciaram a importância de promover uma política mais participativa e uma economia afastada da “cultura do descarte”, apostando antes de tudo em experiências de economia alternativa, como as das pequenas cooperativas que comercializam produtos das floresta, sem passar pela grande produção.

A luta contra modelos de extrativismo predatório
Na Sala do Sínodo, falou-se também, da contaminação do rios, nos quais são despejados os resíduos das atividades minerárias, e da desflorestação, ameaça cada vez mais concreta na Amazônia, devido à venda de madeira ou pela cultivação da coca, mas favorecida por uma legislatura ambiental frágil que não tutela as riquezas e as belezas naturais do território. Sobre este ponto, a Igreja é chamada a denunciar as distorções de modelos de extrativismo predatório, ilegais e violentos, porque o grito de dor da terra depredada é o mesmo dos povos que a habitam. A defesa das populações nativas foi recordada também através do martírio de muitos missionários que deram sua vida pela causa indígena e pela tutela dos que são explorados e perseguidos por ameaças ocultas sob a farsa de “projetos de desenvolvimento”.

Amazônia, terra de migrações
O Sínodo refletiu também sobre o tema das migrações, tanto das populações indígenas para as grandes cidades, quanto das populações que atravessam a Amazônia para chegar em outros países. Sobre este ponto deriva a importância de uma pastoral específica da Igreja: a região amazônica como zona de fluxos migratórios, de fato, é uma realidade recente – observou-se na congregação – e deve ser enfrentada com uma nova frente missionária no sentido inter-eclesial, para uma maior colaboração entre as Igrejas locais e outros organismos comprometidos no setor. Recordou-se também que o drama das migrações atinge também a juventude da amazônia, obrigada a deixar suas cidades de origem por causa de desemprego, violências, tráfico de seres humanos, narcotráfico, prostituição e exploração. Então é necessário que a Igreja reconheça, valorize, sustente e reforce a participação da juventude da Amazônia nos espaços eclesiais, sociais e políticos, porque os jovens são “profetas de esperança”.

A urgência da formação
Portanto, o Sínodo refletiu a importância de uma Igreja de comunhão com maior inclusão de leigos, para que a sua contribuição apoie a obra eclesial. De fato, a complexidade da vida contemporânea requer competências e conhecimentos específicos aos quais nem sempre os sacerdotes podem oferecer todas as respostas. Por isso, diante dos numerosos desafios da atualidade – entre os quais secularismo, indiferença religiosa, proliferação incontrolável de igrejas pentecostais – a Igreja deve aprender a consultar e escutar a voz do laicato. A valorização do papel dos leigos voltou ao centro da reflexão, também quando se falou da falta de sacerdotes e da dificuldade de levar o sacramento da Eucaristia aos fiéis: é necessário passar – foi dito – de uma “pastoral de visita” a uma “pastoral de presença”, olhando também aos novos carismas que se manifestam nos movimentos de leigos, cujo potencial deve ser reconhecido e aprofundado. Por isso, reiterando que o celibato é um grande dom do Espírito para a Igreja, alguns Padres Sinodais solicitaram que fosse pensado na consagração sacerdotal de alguns homens casados, os chamados “viri probati”, com avaliação no tempo da validade ou não de tal experiência. Para outros, ao invés, esta proposta poderia levar o sacerdote a ser um simples funcionário da Missa e não, como deveria ser, um pastor da comunidade, um mestre de vida cristã, uma presença concreta da proximidade de Cristo.

Os novos caminhos para os ministérios
Diante da urgência de pastores para a evangelização da Amazônia, é necessária maior valorização da vida consagrada, e também uma forte promoção das vocações autóctones, – foi dito na congregação – juntamente com a possibilidade de escolher ministros autorizados à celebração da Eucaristia ou de ordenar diáconos permanentes que, em forma de equipe, acompanhados por pastores, possam administrar os Sacramentos. Outro ponto de reflexão foi o da formação dos ministérios ordenados, pensado em três níveis: uma formação básica nas paróquias, com leitura e meditação da Palavra de Deus; uma formação intensiva a tempo integral, destinada a animadores e animadoras das comunidades, e uma formação teológica sistemática para os candidatos aos ministérios ordenados e para os homens e as mulheres que desejam se comprometer no ministérios leigos. O importante – foi destacado – é que a formação dos seminaristas seja reconsiderada e se torne mais próxima da vida das comunidades. Entre as propostas feitas, por fim, também a de pensar na possibilidade de uma ordenação diaconal para as mulheres, para valorizar a vocação eclesial.