Reflexões sobre São Francisco e o futuro da Ordem pautam as manhãs no Capítulo das Esteiras
06/08/2026

Além das celebrações litúrgicas e dos momentos de oração, as manhãs dos dias 5 e 6 de agosto proporcionaram aos participantes do Capítulo das Esteiras espaços de reflexão no anfiteatro sobre o legado espiritual de São Francisco de Assis e os desafios da missão franciscana.
Ao final da manhã de cada dia, os participantes também foram distribuídos em diferentes grupos de reflexão, organizados por perfil e etapa de caminhada. Na ocasião, frades (divididos conforme o tempo de profissão religiosa); religiosas; leigos; frades em profissão temporária; e vocacionados, postulantes e noviços ocuparam salas do Convento para refletirem separadamente sobre as temáticas pertinentes a cada agrupamento.
Na quarta-feira (5), a dinâmica foi conduzida por Frei Gabriel Dellandrea, introduzindo um itinerário espiritual inspirado nos principais momentos da vida de São Francisco. As reflexões foram intercaladas por músicas executadas ao vivo, com violão, cajón, triângulo e outros instrumentos percussivos.
O chamado da Cruz de São Damião
A primeira reflexão foi realizada por Frei Fidêncio Vanboemmel, que partilhou a sua própria experiência vocacional à luz da Cruz de São Damião, símbolo do chamado dirigido por Cristo a Francisco de Assis: “Vai, Francisco, e reconstrói a minha Igreja.”
Ao recordar seus mais de cinquenta anos de vida consagrada, Frei Fidêncio destacou que esse chamado nunca se apresentou como um caminho completamente definido. Na ocasião, ele recordou momentos decisivos de sua formação, as dúvidas vividas durante o noviciado, a missão assumida em diferentes fraternidades e a experiência de acompanhar a enfermidade de sua mãe, que o incentivou a permanecer fiel à vontade de Deus.
Segundo ele, o “vai” dirigido a Francisco continua ecoando na vida de cada frade. “O ‘vai’ não é um caminho pronto e acabado. Até hoje Deus continua dizendo ‘vai’, e eu deixo que Ele mesmo construa a minha história”, compartilhou.

O Alverne como lugar de transformação
Na sequência, Ângelo Fernando Vaz Rosa refletiu sobre o Monte Alverne, lugar onde São Francisco recebeu os estigmas, ressaltando que esse episódio não pode ser compreendido isoladamente.
Segundo ele, o Alverne representa o ápice de um longo caminho iniciado no encontro com o leproso, alimentado pela escuta do Evangelho, pela escolha da minoridade, pelas crises, incompreensões e sucessivos despojamentos.
Durante a fala, também lançou algumas provocações aos participantes:
- Rezamos apenas para encontrar consolo ou para sermos transformados?
- O que ainda conservamos para nós mesmos?
- O que ainda não conseguimos entregar a Deus?

“Viver é uma obra inacabada”
Encerrando a dinâmica, Frei João Manoel Zechinatto propôs uma reflexão sobre a morte como encontro definitivo com o Criador. Inspirando-se em uma Pietà inacabada de Michelangelo, conservada em Florença, comparou a vida humana a uma escultura que permanece sendo talhada até o último instante da existência.
Ao recordar os últimos momentos de São Francisco, afirmou que sua morte foi, na verdade, a conclusão natural de uma vida inteiramente doada aos irmãos, tornando-se sinal de criatividade e liberdade.
“Viver e morrer não são realidades opostas, mas uma única experiência de entrega. Viver é uma obra inacabada. Cada pessoa é chamada a talhar a própria existência com criatividade e sentido, permitindo que a vida seja moldada pelo encontro com Deus e com os irmãos. A história da nossa Província foi construída por gerações de frades que souberam dar significado à própria existência por meio da missão”, concluiu.
O clima contemplativo teve seu ponto alto diante da Cruz de São Damião e da imagem de São Francisco estigmatizado. Nesse momento, a audiência entoou o refrão do Hino de São Francisco: “Cheio de amor, cheio de amor, as chagas trazes do Salvador”.

Um olhar para o futuro da Ordem
Na manhã desta quinta-feira (6), a dinâmica voltou-se para os desafios da Ordem dos Frades Menores em perspectiva mundial. A atividade foi aberta por Frei Vitório Mazzuco Filho, que recordou que o último dia do Capítulo não representava um encerramento, mas um momento de convergência de tudo o que havia sido vivido durante aqueles dias. Em seguida, a assembleia rezou a tradicional Oração diante do Crucifixo de São Damião, iniciada pelo canto “Altíssimo, glorioso Deus, iluminai as trevas do meu coração”.
Na sequência, houve a exibição da mensagem enviada pelo Ministro Geral da Ordem, Frei Massimo Fusarelli, diretamente da Porciúncula. Em sua saudação, o Ministro Geral destacou três palavras que marcaram sua reflexão: retorno à origem, bênção e nudez (o despojamento de si mesmo).
“Nesse tempo relembramos que nada devemos guardar para si. A missão é entregar-se por inteiro. Com este mesmo espírito vos saúdo os 350 anos de Província, saúdo os irmãos que souberam plantar o evangelho no coração do Brasil. Agradeço também pelo grande empenho em Angola, que foi levada a Custódia, e que é fruto do vosso trabalho. Que a memória deste caminho não seja um momento do passado, mas uma memória viva de irmãos menores e fraternos”, concluiu.

Após a mensagem, o Definidor Geral Frei César Külkamp conduziu uma apresentação sobre o caminho de preparação para o Capítulo Geral da Ordem, que será realizado em maio de 2027, no Vietnã.
Com o tema “Frades Menores em missão: seguir Cristo e anunciar o Evangelho hoje, rumo ao futuro de Deus”, o encontro apresentou alguns dos principais desafios atuais da Ordem, entre eles: o anúncio do Evangelho em uma sociedade marcada pelas novas tecnologias; a reflexão sobre as estruturas internas atuais; o fortalecimento da evangelização da juventude; e a promoção de uma cultura cada vez mais sinodal.
Também foram apresentadas algumas novidades previstas para o Capítulo Geral, como a realização do encontro no Vietnã, a presença de uma equipe especializada em processos de escuta e discernimento sinodal e a participação de leigos que compartilham da missão franciscana.

A programação do Capítulo das Esteiras segue até hoje (6), reunindo momentos de oração e convivência fraterna, encerrando o tempo jubilar dos 350 anos da Província em sintonia com as celebrações dos 800 anos do Trânsito de São Francisco de Assis.
No site e nas redes sociais da Província é possível acompanhar a cobertura completa do evento, com notícias, entrevistas, galerias de fotos e os principais momentos da celebração.
Guilherme Coutinho


