Notícias - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Muitos caminhos, um mesmo Francisco

02/10/2026

Notícias

Talvez seja impossível responder em uma única frase o que significa ser franciscano. Há quem encontre a resposta na simplicidade; quem a reconheça na alegria; quem a perceba no cuidado com o outro e com a criação. Para alguns, trata-se de seguir Cristo; para outros, de construir pontes, resistir, servir ou simplesmente aprender a olhar o mundo de outra maneira. 

Quando diferentes frades são convidados a definir o franciscanismo, a diversidade das respostas revela algo, de certa forma, previsível: Francisco de Assis não cabe em uma única definição.

Mas, se são tantos os modos de dizer o que é ser franciscano, de onde partem essas diferentes compreensões? O que permanece quando se retiram as palavras e as circunstâncias particulares de cada experiência? Talvez seja possível encontrar um primeiro ponto de convergência justamente naquilo que esteve no centro da própria vida de Francisco: o Evangelho.

Para Frei José João Ganga, esse caminho se expressa de maneira direta: “ser franciscano é viver o Evangelho a modo de Francisco de Assis”. Frei José Antônio Cruz Duarte também encontra no Evangelho o fundamento da experiência franciscana e recorre às palavras da Regra Não Bulada: “Guardemos, portanto, as palavras, a doutrina, a vida e o Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo”, enquanto Frei Jefferson Max Maciel resume o caminho em uma expressão ainda mais direta: “Significa seguir a Cristo Crucificado”.

A partir desse ponto de vista, outras dimensões parecem ganhar forma: Frei Evaristo Seque Joaquim, por exemplo, fala em procurar, no cotidiano, nutrir os próprios sentimentos de Jesus Cristo. Frei Anacleto Luiz Gapski, por sua vez, acrescenta que essa busca (pela proximidade e semelhança) tem como objetivo a própria essência humana.

Porém, como traduzir esses pensamentos no cotidiano? O que significa, na prática, viver o Evangelho à maneira de Francisco? Talvez uma das primeiras respostas esteja justamente na maneira de olhar para a própria vida. Frei Robson Luiz Scudela identifica no franciscanismo de hoje “o caminho da simplicidade percorrido por São Francisco de Assis”, um caminho que conduz a “simplificar tudo até encontrar, em tudo, a presença de Deus”. Frei Jeâ Paulo Andrade também parte desse lugar ao falar em “olhar a vida com simplicidade e descomplicá-la”, recebê-la com gratidão e descobrir “a liberdade de ser quem se é, sem tantas pretensões”.

Mas, para onde o desapego poderia nos conduzir? Talvez a um convívio no qual há mais espaço para o outro? É nessa direção que Frei Cristian dos Santos Lopes compreende o franciscanismo como um aprendizado de olhar “o mundo e as pessoas com mais cordialidade”, reconhecendo cada pessoa como irmão. Nesse contexto, Frei Rafael Spricigo acrescenta que ser franciscano é “cuidar de si e do outro, sendo participante da criação feita e amada por Deus”.

E se o outro não se limita ao ser humano? Aqui, o próprio Francisco parece ter ampliado continuamente os limites de sua fraternidade. Frei Augusto Luiz Gabriel fala justamente dessa capacidade de reconhecer Deus “em cada irmão, em cada criatura e em cada caminho”, fazendo da própria vida um anúncio da “Paz e do Bem”. Frei Tiago Gomes Elias traduz essa mesma disposição em uma imagem simples e dinâmica: “viver em paz, espalhando fraternidade por onde a vida nos levar”. Já Frei Ruan Felipe Sguissardi acrescenta uma dimensão que acompanha toda essa experiência: “ser menor entre os menores do nosso tempo”.

Deste ponto de vista, “ser menor”, então, não seria apenas ocupar o “último lugar”, mas escolher de onde olhar e a quem se aproximar. Em outras palavras, possibilitar uma espiritualidade de encontros.

Frei Marcelo Tadeu da Silva Cardoso descreve esse movimento como “abrir portas, quebrar barreiras, construir pontes”, para uma vida que seja, ao mesmo tempo, radical, leve, desapegada e alegre em Cristo. Frei Róger Brunorio leva essa presença para as situações concretas, entendendo ser franciscano como “ser sinal de Jesus Cristo e São Francisco para todos: do calor de um sorriso ao cuidado mais exigente”.

Há, porém, algo curioso nessa imagem. Um caminho que fala de desapego, serviço, fraternidade e compromisso não precisaria necessariamente conduzir a uma vida pesada? Como Francisco conseguiu unir radicalidade e alegria? Para Frei Estêvão Ottenbreit, a resposta cabe em poucas palavras: “A alegria de viver e servir”. Frei Inácio Filipe Puto também coloca a alegria no centro: “Ser franciscano é ser portador de alegria!”. Não se trata, assim, de uma alegria “desvinculada da realidade”, mas, à maneira de Francisco, “atravessada” pela leveza. 

Aqui, podemos observar que “viver segundo o Evangelho” significa contrariar a lógica predominante. Nesse ponto, Frei Franklin Matheus da Costa fala em “respirar a coragem e a audácia de um mundo melhor”, e Frei João Manoel Zechinatto transforma essa disposição em três verbos: “Insistir, persistir, resistir!”. 

Mas de onde vem a força para insistir? Talvez a resposta esteja menos na certeza de que tudo dará certo e mais na confiança de que um sonho pode permanecer vivo mesmo quando ainda não se realizou. Frei Gustavo W. Medella fala justamente de “um sonho que permanece vivo, num ideal que nos aproxima de Deus e numa ação que transforma a realidade à nossa volta”. Há, nessa perspectiva, algo que une contemplação e movimento: imaginar outra realidade e, ao mesmo tempo, colocar-se a caminho (e à disposição) para transformá-la.

Nem tudo, contudo, se resolve pela ação. Há também um Francisco que contempla, que atravessa o sofrimento e encontra nele uma abertura para o mistério. O que acontece quando o caminho passa pelo Calvário antes de chegar ao Tabor? Frei Luiz Iakovacz encontra nessa passagem uma chave para compreender a própria experiência franciscana: “Assim como o Calvário de Cristo, o Alverne de Francisco é reflexo da eternidade”.

Talvez, nesse ponto do exercício, seja possível reconhecer, dentro do “mosaico de respostas”, uma linha narrativa: o Evangelho conduz à simplicidade; a simplicidade abre espaço para a fraternidade; a fraternidade amplia-se para a criação; o encontro exige proximidade; a proximidade pede serviço; o serviço exige coragem e resistência; e tudo isso encontra na alegria e contemplação uma maneira de permanecer vivo.

O “mosaico” de respostas revela uma das maiores riquezas de Francisco: ele não precisa ser reduzido a uma única maneira de ser compreendido. É justamente essa diversidade que talvez melhor explique a sua “constância”. Há espaço para quem procura a simplicidade e para quem precisa de coragem; para quem encontra no silêncio e para quem necessita do encontro. E, oito séculos depois, continua oferecendo a cada geração perguntas diferentes  e espaço para que cada uma encontre suas próprias respostas.

A fim de evitar uma limitação da “definição”, talvez seja seguro esboçar que ser franciscano é deixar que sua forma de seguir o Evangelho encontre, em cada pessoa e em cada tempo, uma maneira própria de continuar. Afinal, nessa multiplicidade, Francisco continua encontrando irmãos, gerações e histórias capazes de reconhecê-lo e de também se reconhecerem.


Guilherme Coutinho