Notícias - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Frades Menores partem de Amparo mas deixam o legado franciscano

29/12/2019

Notícias

Moacir Beggo

 São Paulo (SP) – Depois de 108 anos de presença franciscana, os frades da Província Franciscana da Imaculada Conceição passaram o cuidado pastoral da Paróquia São Benedito de Amparo (SP), neste sábado (28/12), à Diocese desta cidade. A Celebração Eucarística, às 19 horas, presidida pelo bispo diocesano Dom Luiz Gonzaga Fechio e concelebrada pelo Ministro Provincial Frei César Külkamp, por frades da Província (o Definidor Frei Mário Tagliari, Frei João Manoel Zechinato, natural da cidade, assim como o postulante Vinícius de Oliveira Betim) e sacerdotes da Diocese, marcou este momento que já vinha sendo preparado antes no campo jurídico e canônico entre as duas entidades e que faz parte do processo de redimensionamento reafirmado pela Província no último Capítulo Provincial (2018).

Os paroquianos e lideranças de diferentes pastorais e movimentos demonstraram toda a gratidão ao trabalho evangelizador franciscano e aplaudiram demoradamente os frades em vários momentos da celebração, mesmo com todo do clima de tristeza que acompanhou a celebração, tendo como tema da liturgia a fuga para o Egito da Sagrada Família.

Dom Luiz partiu de um pensamento do filósofo Antístenes de Atenas – “A gratidão é a memória do coração” – para resumir este momento. “Com essa frase, a gente reconhece muito o que Deus fez na vida de tanta gente que não está mais aqui através desses irmãos padres, mas antes de padres, freis. E cada um tem os nomes de muitos guardados em seu coração. Nós agradecemos muito”, disse.

O bispo usou as expressões “Que bom e que pena!” no seu agradecimento. “Que bom porque nós tivemos a presença religiosa franciscana por mais de 100 anos e quando eles chegaram não tinha ninguém que está aqui. E quanta coisa bonita, com certeza, para nossas famílias Deus fez por meio desses nossos irmãos! Que pena, justamente, por causa disso. Que pena que eles têm que deixar aqui para outras missões, para outras frentes missionárias de ação pastoral evangelizadora! Que esse legado dos franciscanos, dos Frades Menores, possa ficar entre nós!”, desejou.

“Eu comecei a homilia dizendo como todos nós gostamos muito de usar essa expressão de ‘Paz e Bem’. Então, continuemos. Não é porque os freis vão embora que estamos proibidos de falar. Mas também não é só falar. Justamente pelo legado dessas comunidades que vamos trazer essa saudação franciscana para a nossa vida, para o nosso coração, de uma maneira que a gente transmita, que a gente comunique, que a gente faça a pessoa acreditar no que nós estamos falando”, pediu. Segundo ele, isso vai ser sempre um desafio neste mundo e dentro da própria Igreja ou dentro da comunidade.

“Então, mais uma vez, muito obrigado aos freis por essa presença que guardamos na memória do nosso coração. Certamente, onde estiverem vão se lembrar de nós e nós vamos nos lembrar deles. E dentro dessa grande família que todos nós somos – agora não estou falando de uma, de tipo de sangue ou de sobrenome – vamos trazer mais belamente esse espírito de Francisco, esse jeito de Francisco na nossa vida, com nosso querido Papa Francisco, para que avancemos em águas mais profundas na nossa missão, na nossa ação evangelizadora. Que Maria e José, com esse Menino de Belém, interceda por nós para que a gente viva melhor essa salvação que verdadeiramente Ele nos trouxe. E quando a gente contemplar o presépio, não tem como não se lembrar de Francisco. Vamos colocar isso no coração de uma maneira que a gente possa continuar em frente sabendo que o Senhor vai à nossa frente”, completou o bispo.

O TRABALHO INCANSÁVEL DE SEMEAR A PALAVRA

O Ministro Provincial destacou o grande trabalho evangelizador que os frades fizeram em 108 anos na cidade e na região. “Muitos são bem lembrados, outros deixaram a sua contribuição, mas o tempo se encarregou também de deixar permanecer aquilo que é mais importante e essencial, que é exatamente o trabalho de semear a Palavra de Deus”, enfatizou.

“Esse foi o trabalho incansável. Se a gente pega os livros das crônicas, do histórico da presença dos frades, vamos perceber que desde o início eles aqui vieram com um projeto muito claro de anunciar essa palavra de Deus, de ‘salvar almas’, como escreviam bem no início. E, por isso, também essa casa não foi apenas um lugar de atendimento, mas a partir daqui os frades puderam ter uma atuação em toda a região. Iam com os meios de locomoção daquele tempo, chegavam a cidades bem mais distantes, estabeleceram-se em algumas delas, mas fizeram esse grande trabalho de levar a Palavra de Deus e semear o bem onde eles pudessem chegar com as condições de cada tempo”, assinalou.

Segundo ele, o sentimento dos frades é bastante parecido com o que disse Dom Luiz. “Gratidão”. Frei César também explicou que pela tradição franciscana, de itinerância, esse é o momento de partir. “A gente dá a nossa contribuição a um projeto que é maior, como disse Dom Luiz, não por nosso mérito, mas pela graça de Deus. Então, tudo que os frades puderam fazer nesse tempo, também foi a graça de Deus. Essa graça continua aqui presente. A gente faz aquilo que nossos esforços permitem, que a nossa qualidade, os nossos defeitos também permitem, mas essa é a nossa contribuição. A nossa missão é de seguir adiante. Para outros lugares, onde o Espírito nos manda. E nós, franciscanos, temos diferentes trabalhos. Vocês sabem, vocês que participaram mais da vida dos frades aqui em áreas de missão. Angola é uma missão prioritária para os frades, mas também outros lugares no mundo e outras realidades do Brasil, como nas frentes do trabalho social, da educação, da comunicação e também de uma grande presença em paróquias e santuários”, detalhou Frei César, lembrando também que hoje não há frades suficientes para assumir tantos trabalhos. “Nós não temos mais forças para estar em todos os lugares. Então, a gente coloca na conta de Deus cada lugar. É ele que vai nos conduzindo e nos favorecendo para que as coisas aconteçam de acordo com a vontade de Deus”, disse.

Segundo Frei César, São Francisco enviou os frades para o mundo inteiro para que evangelizassem, constituíssem as comunidades, mas não lançassem raízes. “Essas raízes precisam ser arrancadas e plantadas em outros lugares. Essa é a nossa vocação franciscana”, ressaltou.

À direita: Cláudio Luiz  e Maria José Pace, que faz o discurso.

Para ele, na alegria e generosidade os frades vão adiante, mas reconheceu o sofrimento dos que ficam depois de 108 anos de convivência com os frades. “A gente sabe que muitos de vocês sofrem e já tiveram cada qual a sua reação. Muitos de nossos frades sofrem também. A Igreja de Amparo – Dom Luiz já nos falou – sofre também por essa nossa partida, mas aquilo que é mais importante permanece, que é a graça de Deus, que é a semente da sua Palavra, do seu anúncio que permanece em cada coração. Nós temos certeza que não só esse trabalho mas também o carisma franciscano permanecem muito firmes aqui nessa terra, em tantas congregações franciscanas, também com a Ordem Franciscana Secular (OFS), com a Irmandade São Benedito, com a Pia União de Santo Antônio, mas principalmente em cada pessoa que tem esse coração franciscano”, consolou.

Frei César encerrou sua fala agradecendo à Igreja de Amparo na pessoa do seu pastor pela acolhida dos frades nesses 108 anos: “É a Igreja que entregou a igreja de São Benedito, que já existia, aos cuidados dos frades e possibilitou a construção do Convento, do Externato e dos trabalhos que aqui fizeram. Que Deus abençoe a caminhada desta Igreja e abençoe abundantemente o seu ministério e todo o clero de Amparo!”.

Antes da bênção final, Cláudio Luiz homenageia os frades e faz agradecimento

Teve também uma palavra de agradecimento aos frades desta última Fraternidade: Frei Vanilton Aparecido Leme, Frei Alberto Eckel e Frei José Lorenz Führ. “Na pessoa de vocês, quero lembrar de todas as Fraternidades ao longo dos anos”, observou. Agradeceu à Fraternidade pela condução do processo de entrega desta presença, transparente com a Igreja de Amparo, com o povo. “Esse patrimônio que existe aqui, nós sempre compreendemos que pertence ao povo, à sua Igreja viva. E por isso também, tudo que existe foi colocado no inventário entregue à Diocese, entregue aos novos padres. Tudo aquilo que também poderia estar no nome dos frades, dos franciscanos, foi passado gratuitamente, como deve ser, porque pertence ao povo, pertence à Igreja. E nós chegamos sem nada e partimos sem nada para outras regiões onde a graça de Deus nos pode permitir”, explicou.

E, por fim, dirigiu-se ao povo, que chamou de querido pela abertura que sempre tiveram aos frades desde o início, pela escuta dos mesmos, pelo cuidado de cada frade, pela partilha fraterna com eles, tanto desse projeto de Igreja, desse cumprimento da vontade de Deus, como também por partilharem a vida e o carisma franciscano. “Os frades precisam se retirar, como já falamos, mas outros irmãos franciscanos continuam e queremos agradecer bastante a vocês, Irmãs Franciscanas Missionárias do Coração Imaculado de Maria, Irmãs Franciscanas do Coração de Maria, a Ordem Franciscana Secular, a Irmandade de São Benedito, a Pia União de Santo Antônio, as Irmãs Dominicanas, que partilham o carisma da mendicância, da fraternidade, e da proximidade com os frades, e de modo muito especial o coração franciscano desse povo a quem nós procuramos servir. Peço também as bênçãos de Deus para os novos padres, o pároco Pe. Nélson Antônio e o vigário Pe. Benedito Valério, que aqui irão servir. E a cada um de vocês, quero pedir perdão por todas as nossas falhas, por nós causarmos esse sofrimento de retirada, mas, acima de tudo, um muito obrigado por tudo, pedindo todas as bênçãos sobre vocês, pedindo a intercessão de São Francisco, de Santa Clara e de São Benedito”, completou Frei César.

Frei Vanilton, em nome da Fraternidade, citou a “Carta a toda Ordem” de São Francisco para falar dessa partida. “Ele diz assim: ‘Nada de vós retenhais para vós mesmos, para que totalmente vos receba quem totalmente se vos dá’. Se queremos fazer a vontade de Deus, não podemos nos apropriar de nada. Eu penso que essa frase pode nos ajudar nesse momento de sofrimento e ajudar a continuarmos em frente, para que Deus seja o autor de toda a obra”, disse.

Maria José Pace, falando em nome da Ordem Franciscana Secular e da Comunidade, lembrou que as ações dos frades se fazem presentes até hoje. “Cada cantinho de nossa Paróquia São Benedito deixa em evidência marcas de inúmeros freis queridos que por aqui passaram”. Segundo ela, os frades foram como as águas de um rio que alimentaram as plantinhas que depois floresceram. “A todos saciaram ao passar por elas com seu encanto e carisma franciscano”, disse. “Hoje, nosso coração sofre um sentimento de perda, pois sabemos que já não teremos mais os freis na Paróquia. Mas, temos certeza de que as lágrimas que caem, no momento, em nosso coração, fortalecerão o espírito franciscano enraizado em nós pelos amados frades. Chegou a hora de colocar em prática o que aprendemos: a perfeita alegria. Vamos dar continuidade à espiritualidade franciscana! Nossa saudação continuará a ser ‘Paz e Bem’ da alma franciscana”, prometeu.

O paroquiano Cláudio Luiz Pinto pediu a todos que estendessem as mãos sobre Frei Vanilton, Frei José e Frei Alberto para fazer uma prece, agradecendo pelo dom da vida deles, por todas as aflições que “juntos conseguimos superar”, por todas as graças que “juntos conseguimos alcançar”. “Que a Santíssima Trindade ilumine os vossos passos. A Nossa Mãe do Amparo, com seu manto, vos proteja e vos guarde!”, pediu.


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