Notícias - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

“Espero viver à altura das expectativas que Deus tem a meu respeito”

02/01/2020

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É com esse pensamento que Frei Gabriel Vargas Dias Alves, natural do Rio de Janeiro, onde nasceu no dia 14 de outubro de 1985, será ordenado presbítero no dia 11 de janeiro de 2020, na Paróquia São Pedro Apóstolo, em Pato Branco (PR). O bispo da Diocese de Palmas-Francisco Beltrão (PR), Dom Edgar Xaxier Ertl, fará a imposição das mãos durante a Celebração Eucarística, às 18 horas. Sua primeira Missa será no dia seguinte, às 9h30, no mesmo local da ordenação. Para este momento importante de sua vida, Frei Gabriel escolheu como lema: “A água que eu lhe der será nele uma fonte que jorra para a vida eterna” (Jo 4,14). Seu ingresso na Ordem dos Frades Menores se deu em 2009, quando vestiu o hábito franciscano em Rodeio. Em seguida, cursou Filosofia e Teologia. Para ele, as experiências missionárias em Angola, na Amazônia e na Rocinha marcaram sua vida. Foi ordenado diácono em 2018 e foi transferido para prestar serviço na Frente de Educação da Província, residindo na Fraternidade Bom Jesus da Aldeia. Reside atualmente na Fraternidade São Pedro Apóstolo de Pato Branco.

Conheça mais um pouco o novo presbítero da Província nesta entrevista ao site Franciscanos.


Site FranciscanosFrei Gabriel, por favor, fale um pouco de sua vida e de sua família.

Frei Gabriel – Eu venho de uma família cujo núcleo familiar mais próximo é pequeno se comparado com outras famílias. O meu pai só tem uma irmã, a minha mãe só tem um irmão e eu, para não fugir à regra, tenho só uma irmã, três anos mais velha do que eu. Meu pai nasceu em Minhas Gerais mas foi morar no Rio ainda bebê, por isso consideramos que a família vem toda da zona oeste do Rio Janeiro. Estamos inseridos dentro de um núcleo maior, porque a “bisa” por parte de mãe teve 13 filhos. Então são muitos tios-avós e primos de 2° e 3° graus. Os meus pais são católicos, juntamente com alguns poucos tios e tios-avós, mas a grande parte da família é batista. Temos 5 ou 6 pastores na família, talvez mais agora… Nos marcou desde cedo a necessidade da tolerância ao diferente, de modo especial a tolerância religiosa, nem sempre fácil, mas fundamental. Isso fez com que se construísse laços e amizades com pessoas de várias tradições, uma riqueza muito grande nessa diversidade. Da família trago a fé, o respeito, e um grande traço de franqueza. A família é extremamente sincera, fala tudo que pensa, luta pelo que acredita e eu acho que trago um pouco disso.

ComunicaçõesComo se deu o seu discernimento vocacional?

Frei Gabriel – A esse tipo de pergunta sempre temos a versão resumida, pois nem sempre dá para explicar as coisas e a versão estendida (risos). Contextualizando, venho de uma família que podemos dizer ser imagem da vivência religiosa heterogênea, que marca grande parte das famílias hoje. O núcleo católico da minha família é bem pequeno e esse convive com uma grande parcela evangélica de confissão batista, alguns kardecistas e umbandistas. Desse modo crescemos numa certa liberdade religiosa, onde cada um escolhia o seu caminho. Mesmo tendo pai e mãe católicos, desde bem pequeno frequentava a Igreja Batista com a minha avó materna e outros familiares e desse modo continuei até por volta dos treze anos, quando decidi que algo faltava naquele espaço e então deveria me encontrar em outro lugar. Passei uns dois anos conhecendo diferentes experiências religiosas sozinho até aumentar minha frequência na missa e, aos 16 anos, decidi buscar a primeira Eucaristia e o sacramento da Crisma. Isso foi seguido de uma série de experiências muito intensas, grupos de jovens, vivências pastorais e uma grande convivência com a Congregação da Irmãs de Nossa Senhora de Belém. Observando as irmãs sempre ficava intrigado: Como podiam ser tão alegres o tempo todo? O que viviam dentro do convento que as fazia tão felizes? Algumas irmãs brincaram comigo ser uma pena elas não possuírem um ramo masculino, porque sintonizava muito com o carisma da anunciação que era o delas. Isso caiu em mim como uma semente de inquietação que reacendeu questões a respeito de ‘com o que valeria a pena consumir a minha vida que é finita e única…’ Dirigi-me às irmãs em busca de auxílio e disse que pensava em ser religioso, que não sabia onde, mas o pouco que conhecia de São Francisco me atraía. Por carta, a Madre me aconselhou a procurar o Convento Santo Antônio que não o conhecia.

Comunicações – Por que escolheu a vida religiosa franciscana?

Frei Gabriel – Mais ou menos na mesma época, uma tia queria se confessar, mas disse que não poderia ser com qualquer padre; tinha que ser com o Frei Anselmo Fracasso, que ela, na época, o ouvia no rádio e me pediu companhia para ir até o Convento. Depois desse dia retornei em busca de informações sobre o discernimento e, com alguma espera devido a troca de animadores, conheci Frei Hermenegildo Pereira, que se tornou um grande amigo e fez com que me apaixonasse pela vida franciscana. No fundo é quase como se a vida franciscana tivesse me captado, não cheguei a cogitar de conhecer outros carismas.

Comunicações – Como você define a Ordem do Presbiterado?

Frei Gabriel – Muitas coisas nós vivemos ou buscamos sem tentar isolar ou definir. Mas diante da sua pergunta, penso que o presbítero encerre algumas coisas em si que podem nos ajudar a esboçar uma resposta. Fazer parte da Ordem do presbiterado não é fazer parte de um grupo seleto de pessoas, dotadas de qualidades, experiências ou mesmo conhecimentos especiais. Não é ser melhor, muito menos superior. É assumir um lugar específico dentro do imenso corpo que é chamado a amar e a servir, onde o Cristo vive em todos nós, batizados. Logo, o presbítero é sinal do Cristo-cabeça, desse imenso corpo que pulsa, vibra e que age em unidade e pela unidade. Por isso, como sinal da cabeça deve buscar sempre o bem do corpo, servindo incansavelmente à sua integralidade que busca abraçar a criação inteira. Hoje, muitos se julgam detentores da mensagem ou mesmo da autoridade de cristo a ponto de se auto-intitularem conservadores, quando na verdade mutilam e instrumentalizam os membros desse corpo sagrado. Então, cada vez mais, eu penso que o presbítero alimentado pela Eucaristia é um sacramental da unidade.

Comunicações – O que é para você ser presbítero franciscano?

Frei Gabriel – Para mim, ser presbítero franciscano é ser transparência, apenas uma visibilidade do Cristo sacerdote. Acho que alguns dos elementos mais característicos de Francisco são o seguimento de Cristo e o fato de ele não se apossar de nada. Por isso, ser presbítero franciscano significa ter sempre em mente que o único verdadeiro ministro da Igreja é o próprio Cristo. Na medida em que Ele se torna o modelo de ministério e a busca do presbítero é unicamente torná-lo sacramentalmente presente, ele é verdadeiramente pobre como o Cristo da cruz buscado por Francisco. Assim, ele pode servir a tantos crucificados e crucificadas do nosso tempo. Não porque esteja cheio de algo, mas ao contrário, porque está vazio.

Comunicações – Quais suas expectativas para esta nova missão?

Frei Gabriel – Há algum tempo que busco não criar grandes expectativas a respeito de nada. Acho que a nossa mente é sempre muito pequena para supor os pensamentos de Deus ou o que trará o nosso bem e o dos outros. Na minha pequenez imaginei muitas coisas que o amor de Deus me mostrou não serem o melhor. E assim, como todos nós, eu me reinventei muitas vezes pelo caminho para descobrir que é melhor acolher do que projetar quando se trata de algumas dimensões da vida. Apesar das minhas limitações, eu espero viver à altura das expectativas que Deus tem a meu respeito. Que eu possa estar sempre atento à sua voz, para que como no lema escolhido tudo que eu faça seja fruição que conduz à eternidade da vida para a qual Ele nos criou.

Comunicações – O que é ser presbítero na Pontificado do Papa Francisco?

Frei Gabriel – Com palavras e sobretudo com ações, o Papa Francisco tem demonstrado que ser presbítero significa ter coragem de dar a vida pelo Senhor e pelo seu povo. Alguém cujo mesmo óleo que lhe ungiu as mãos escorra até os pés para que possa ir ao encontro de todos, de modo especial, os mais excluídos e mais abandonados. Num espírito de doação cotidiana, simples, sem alarde, sem dar-se ares de importância. Fazer o que é necessário fazer pelo Reino de Deus. O próprio Papa se coloca como irmão. Desde o princípio, ele se confiou às orações do povo, vendo-se como parte dele, não acima. Tudo sempre de forma muito concreta, avesso ao culto das aparências.

Comunicações – Que mensagem deixaria para um jovem que quer ser sacerdote?

Frei Gabriel – Eu diria que se ele quer ser sacerdote franciscano, antes de tudo seja frade, seja irmão. Na entrega e mútuo serviço cotidiano, que se dá no dia a dia da fraternidade, vamos nos percebendo falhos, inacabados. Pela admiração da graça de Cristo que se mostra no irmão, posso intuir os passos que devo dar, as bagagens que devo deixar. Deus vai nos provocando e nós vamos respondendo, nos abrindo ou fechando, fazendo barulho ou aprendendo a silenciar. E, aos poucos, Ele vai nos conduzindo pelo caminho. Não se preocupe com que você terá de fazer, pois não será você a fazer nada. Só permita que Ele faça através de você.