“E veio morar entre nós”
10/02/2026

Nas calçadas das grandes cidades, nas periferias esquecidas, nos becos onde a vida insiste em resistir, ecoa o clamor silencioso de quem não têm onde morar. No Brasil, de acordo com o Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua divulgado neste ano, mais de 365 mil pessoas se encontram em situação de rua.
É um grito que atravessa fronteiras, histórias e culturas, e que chega até o coração do Evangelho. Ao propor o tema “Fraternidade e Moradia”, a Campanha da Fraternidade 2026 convida toda a comunidade a abrir os olhos e o coração para uma realidade que interpela diretamente a fé cristã.
A ausência de um lar não pode ser reduzida a um problema apenas estrutural ou urbanístico. Trata-se de uma ferida humana, que compromete a dignidade, rompe vínculos e ameaça direitos fundamentais como saúde, educação, trabalho e convivência.
“A moradia é um espaço de afeto, onde as pessoas podem partilhar a vida, chorar, sorrir, repartir o pão, encontrar razões para viver e dar sentido à própria história”, explica Frei Tiago Gomes Elias, que atua no Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras). “Quando esse espaço é negado, não se perde apenas um teto, mas uma referência de identidade e pertencimento”, acrescenta.
O lema da Campanha, “E veio morar entre nós” (Jo 1,14), lança luz sobre essa realidade ao recordar o gesto central da fé cristã: a Encarnação. Deus não escolheu permanecer distante da fragilidade humana, mas assumiu nossa condição. Jesus nasceu em um presépio, viveu como peregrino e conheceu a insegurança de quem não tinha onde reclinar a cabeça.
Nessa perspectiva, a falta de moradia não pode ser tratada como um fenômeno inevitável ou natural. Pelo contrário, ela revela escolhas sociais, políticas e econômicas que negam a fraternidade como valor central.

Em contextos de violência, migração forçada, guerras e exclusão urbana, a perda do lar fragmenta não apenas a vida social, mas também o modo de se relacionar com Deus, comenta o Frei. “Quando alguém perde seu lugar no mundo, também se desestrutura interiormente: sonhos se rompem, horizontes se fecham e até a experiência espiritual pode ser profundamente ferida.”
A Campanha da Fraternidade, nesse cenário, se torna também um caminho espiritual, no qual o tempo da Quaresma nos convida a percorrer os passos da história da salvação, marcada pela sensibilidade diante da dor do povo.
“A penitência não se limita a práticas individuais, mas se traduz em rever privilégios, romper comodismos e assumir escolhas em favor da justiça social. Seguir Jesus significa perguntar constantemente: ‘O que Ele faria no meu lugar?’. A resposta, acredito, passa por estar ao lado dos mais vulneráveis, conviver com eles, escutar suas histórias e questionar as causas que perpetuam essa desigualdade”, finaliza o Frei.
Por Guilherme Coutinho


