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“Com seriedade e diligência, Frei Constantino procurou retornar às origens do franciscanismo”

25/02/2022

Entrevistas, Notícias

Natural de Jacarezinho, no Paraná, Frei Gilberto da Silva nasceu no dia 24 de maio de 1982. É filho de Pedro e Maria de Lourdes da Silva e vestiu o hábito franciscano quando ingressou no Noviciado São José de Rodeio (SC), no dia 9 de janeiro de 2003. Fez a profissão solene no dia 5 de novembro de 2009 e foi ordenado presbítero no dia 28 de abril de 2012. Em 2015, viajou para Roma com a nova missão de continuar a sua formação teológica na Pontifícia Universidade Antonianum, onde obteve a “Licença” em Teologia com especialização em Espiritualidade Franciscana e, no último dia 18 de janeiro, tornou-se o novo doutor da Ordem Franciscana. No seu estudo, debruçou-se sobre o seguinte tema: “Frei Constantino Koser e o início do aggiornamento conciliar na Ordem dos Frades Menores: um caminho a ser descoberto. Um estudo introdutório às meditações, com a edição do ano de 1967”.

Antes de regressar para Petrópolis, onde será vice-mestre e professor, Frei Giba, como é conhecido, falou sobre a conclusão deste trabalho e porque o tema o cativou.

FranciscanosFrei Gilberto, o que o levou a se dedicar ao estudo sobre Frei Constantino Koser?

Frei Gilberto da Silva – A primeira motivação nasceu ao escutar os frades de nossa Província contarem e recontarem os episódios que envolviam Frei Constantino, especialmente quando ele voltou de Roma ao Convento do Sagrado Coração de Jesus, em Petrópolis. Como não o conhecia, ficou na minha memória o relato dos frades, a imagem de um ancião, de um “sábio” e de um “santo”. Sábio porque seu conhecimento era amplo e rico, homem culto, refinado e engraçado. Santo, porque buscava cultivar a sua amizade com Deus, na celebração eucarística, na meditação diária, na prática da justiça e da caridade fraterna.

Podemos imaginar o que acontece quando a sabedoria e o desejo de santidade se encontram na vida de uma pessoa: uma explosão. Assim foi a vida de São Francisco e Santa Clara de Assis, do Beato Frei Egídio, de Snto Antônio e tantos outros franciscanos que nos precederam na Ordem Seráfica. A sabedoria e o desejo de santidade na vida de Frei Constantino adornaram a sua vocação franciscana, tesouro, talento multiplicado, um zeloso presbítero, exímio pregador, professor estimado e exemplar.

A segunda motivação deve-se ao fato de que muitas coisas que os frades diziam a respeito do seu serviço como Ministro Geral, não era exagero ou vanglórias por ser membro de nossa Província. A decisão de estudar Frei Constantino se deu por três motivos: o primeiro foi porque, além de seu necrológio escrito por Frei Clarêncio e uma publicação chamada In memoriam, na revista de ciências humanas da Universidade de São Boaventura de Cali, na Colômbia, ainda não tínhamos um estudo sobre o nosso confrade. O segundo ocorreu quando no curso de História do Franciscanismo II, na Pontifícia Antonianum, o professor Buffon fez alguns referimentos ao período conciliar e a Frei Constantino, incentivando os alunos a pesquisarem também sobre o franciscanismo contemporâneo. A terceira razão é o trabalho realizado na OFM, conduzido por Frei Constantino, que, ainda hoje, suscita algumas questões sobre a nossa identidade carismática.

Franciscanos – Qual foi o tema desenvolvido na sua tese e como foram estruturados os capítulos e os conteúdos?

Frei Gilberto – O trabalho inicial foi a escolha do argumento a ser estudado. Assim, analisando as Meditações (o seu texto escrito à máquina de escrever), observei a riqueza teológica e franciscana desses escritos. Como esta obra foi escrita entre 1956 e 2000, em 32 volumes e 16.266 páginas, optei por transcrever o texto de 1967 à máquina de escrever para o “software” de texto. Após uma criteriosa avaliação, concluí que o texto poderia ser editado acrescentando informações em forma de nota de rodapé. Este trabalho continuou por um ano, resultando na primeira edição do texto das Meditações de Frei Constantino Koser, a edição completou com 695 páginas.

Após analisar às Meditações e editar o ano de 1967, escolhi o seguinte tema: “Frei Constantino Koser e o início do aggiornamento Conciliar na Ordem dos Frades Menores: um Caminho a ser descoberto. Um estudo introdutório às Meditações, com a edição do ano de 1967”.

O objetivo da dissertação é introduzir o leitor nas Meditações de Frei Constantino, especialmente no texto em que escolhemos editar. Neste caso, o primeiro capítulo da tese faz uma introdução geral à produção literária, construindo a história da composição da obra, seu gênero textual, o método escolhido e utilizado por Frei Constantino. Privilegiou-se também uma análise do contexto onde a obra foi escrita, os seus fundamentos bíblicos, teológicos e franciscanos.

O segundo capítulo é o estudo da edição das Meditações de 1967, e de algumas de suas características: delimitação, estado de conservação, estrutura, passagens bíblicas e outras fontes utilizadas. Além disso, oferece uma análise do contexto social, político e religioso de 1967, e de alguns elementos do Concílio Vaticano II que ajudaram os religiosos a entrar na dinâmica da renovação conciliar.

No terceiro capítulo optei por analisar o início do governo de Frei Constantino na OFM e o seu envolvimento no aggiornamento da vida religiosa no período pós-conciliar. Este capítulo, evidencia algumas novidades pensadas e implantadas por Frei Constantino na OFM, como: a metodologia do Capítulo Geral diferente dos capítulos anteriores, a condução do trabalho no resgate da vida fraterna, a implantação dos capítulos conventuais, o uso do dinheiro pelos frades, etc.

Franciscanos – Como Frei Constantino apresentou a sua teologia e a sua espiritualidade franciscana na obra Meditações?

Frei Gilberto – Curiosamente, as Meditações foram escritas durante um período de transição em meados do século XX. Durante este período, muitas mudanças ocorreram na história da humanidade. O historiador Eric Hobsbawm classifica esse período como “a era dos extremos”. As mudanças na vida da comunidade eclesial católica chegaram também à vida religiosa e a Frei Koser. A sua teologia passou por três períodos: pré-conciliar, conciliar e pós-conciliar. No período pré-conciliar, a obra apresenta muitos elementos da teologia escolástica e temas ligados aos movimentos de reforma na Igreja: litúrgica, teológica, catequética, ecumênica, etc.

Frei Koser se inseriu no contexto conciliar, prestando serviços de assessor ao Ministro Geral Agostinho Sépinski e dos bispos Adriano Hipólito e Edilberto Dinkelborg para os assuntos do Concílio. Participou da formação de alguns Bispos brasileiros, na casa Domus Marie, em Roma, ao lado de teólogos como: Karl Rahner, Hans Küng, Yves Congar, Schillebeeckx e Ratzinger. Participando da quarta Sessão do Concílio, ele relatou pessoalmente suas impressões e algumas intuições para onde a Igreja deveria ir no período pós-conciliar. Em suas Meditações, ele comentou os muitos documentos ecumênicos desse período, sua teologia e os teólogos que ajudaram a formulá-los.

A participação de Frei Koser nos assuntos conciliares foram a base de sua teologia pós-conciliar, transferida da sala de aula para uma teologia franciscana na OFM. Com seriedade e diligência, ele procurou retornar às origens do franciscanismo. Toda a sua energia foi empregada analisando a estrutura da OFM e desenvolvendo um plano para identificar e implementar as atualizações conciliares.

Durante o período conciliar, Frei Koser não trabalhou somente em vista da OFM, quando voltou à Província, ele viajou por todo país e para o exterior, dedicando-se como pregador de retiros e nas formações para numerosas congregações sobre a teologia conciliar da vida consagrada. O tema da teologia conciliar em especial e o da nova teologia da vida consagrada também estão presentes na sua obra.

No governo da OFM, Frei Koser criou o novo modelo de celebrar o Capítulo Geral, ajudando a refletir sobre o resgate da fraternidade e o que ela representa, como uma das colunas da vida e da espiritualidade franciscana. Ajudou também a refletir sobre a criação do capítulo local, no novo modo do uso do dinheiro pelos frades, e a repensar a divisão de “classes” entre frades leigos e presbíteros na Ordem, quando todos os frades voltaram a ter os mesmos direitos e deveres.

Franciscanos – De 1956 a 2000, Frei Constantino meditou com a sua máquina de escrever, deixando à OFM e à Igreja um patrimônio intelectual, cultural e espiritual. Qual é a principal contribuição de seu trabalho para a OFM e para a Província da Imaculada?

Frei Gilberto – As Meditações são suas orações a Deus. Para além do patrimônio intelectual, teológico e cultural, o seu método convoca a cada um de nós a mantermos os pés firmes na terra e os olhos e coração voltados para o essencial da vida. No caso dos Frades Menores, a sua intimidade com Deus reflete na fraternidade local, provincial, na Ordem e na Igreja.

Frei Koser deixou transparecer nas cartas escritas entre ele e Frei Walter Kempf, um amor incondicional à nossa Província. Preocupou-se com as saídas de muitos frades jovens, foi justo ao defender os frades que trabalhavam na Editora Vozes, perseguidos por algumas publicações teológicas na revista REB e Grande Sinal, por serem consideraras pelos conservadores e tradicionalistas da Igreja no Brasil, como publicações progressistas. Lembrava-se com carinho da biblioteca do Instituto Teológico, contribuindo com a doação de inúmeros exemplares de livros. Preocupou-se também com a formação dos jovens frades: sempre que podia, visitava as casas de formação. Incentivou e pediu à Província para enviar alguns frades como missionário para Chile. Talvez, a vida e a história de Frei Koser nos ensinem a intensificarmos a nossa vida com Deus no hoje e no amanhã.

Franciscanos – Na conclusão da sua tese, você destaca que Frei Constantino foi o Ministro Geral do aggiornamento conciliar. O que significa este título atribuído a Frei Constantino?

Frei Gilberto – Este título não é pouco. Vem se somar aos títulos Honoris causa que ele recebeu. Ele foi um homem do seu tempo, lúcido, pés no chão e olhar para o futuro. Fiel na busca por uma revisão dos ideais originários da OFM e de Francisco de Assis e, sobretudo, adequá-los às exigências do seu tempo. Frei Estêvão Ottenbreit escreveu, por ocasião do centenário de nascimento de Frei Koser, sobre como ele conduziu a Ordem e afirmou que ele manteve as mãos firmes no remo e, talvez, eu possa complementar dizendo que ele manteve as mãos firmes no remo e coração unido a Deus pela Meditação. Tal justificativa pode ser encontrada no texto escrito por ele, a partir da meditação do livro De sex Ali Serafim quando afirmou: “Mais e mais me convenci que a tarefa mais importante do superior não é jurídica, nem administrativa, mas é de vida santa em progressão acelerada de aquisição de virtudes e de vida de oração”.

De fato, Frei Koser ocupa um lugar privilegiado na história da OFM. Devido aos seus muitos “desabafos” a Deus, podemos considerar que o aggiornamento conciliar para ele foi a experiência franciscana do amargo que se tornou doce. Amargo porque toda experiência de transformação traz o abandonar, muitas vezes, o real (o velho) pelo ideal (a construção do novo). O fruto doce dessa experiência talvez ele não tenha visto e experimentado, mas nós sim!

Frei Koser, ao lado de São Francisco e de tantos outros Ministros Gerais, será lembrado na história pela busca da santidade diária, não sem erros, e revisando cotidianamente o seu projeto de vida evangélica pessoal e fraterno.

Franciscanos – Frei Gilberto, quais são os principais desafios que a OFM enfrenta e que o estudo sobre Frei Constantino pode ajudar, outra vez, a despertar na OFM o espírito de autocrítica e revisão?

Frei Gilberto – Certa vez ouvi uma frase que me pareceu dura, porém, no contexto que vivemos pode provocar em nós ao menos uma atitude de atenção. Um frade falando a um grupo de religiosas sobre a falta de vocações na congregação, perguntou às freiras se elas ainda mereceriam receber de Deus tal dom.

Penso que o nosso testemunho fraterno, convicção pessoal de amor ao Evangelho e o serviço generoso ao reino de Deus é facilmente trocado por nossas comodidades e incoerências. Não temos respostas para superar a crise na vida consagrada, mas, ao menos, deveríamos nos deixar ser interrogados pelos fatos. Certas vezes, nem isso conseguimos fazer. Algumas coisas que não condizem como nossa “Forma de Vida” e passaram a ser “normais”, aceito e integrado na vida como “acordo de cavalheiros”.

O estudo sobre Frei Koser me deu a convicção de que é necessária uma ação que reinicie a partida. Sabemos bem que não basta estarmos no campo esperando o final do jogo. Retornemos ao aggiornamento conciliar e seus resultados, e quiçá redescobriremos a fonte carismática de nossa vocação franciscana. Talvez a ação que reabrirá a partida, seja nossa vida com Deus, de forma sincera e transparente.

Franciscanos – Como foi o seu período de estudos, de vida fraterna e pastoral no Antonianum?

Frei Gilberto – Roma e os seus mistérios! Muitas vezes escutei os confrades falarem dos perigos e do processo de romanização que um frade poderia passar através dos estudos na capital italiana. Temos que convir que, com a “globalização eclesiástica”, não é necessário vir a Roma para ser “romanizado”! A experiência na Fraternidade do Antonianum foi mais uma etapa de formação humana e franciscana. Morar em uma fraternidade internacional é viver a riqueza da multiplicidade cultural, formativa e intelectual dos frades. Foi um tempo de graça, não sem dificuldades.

Aproveitei também este tempo para me dedicar à pastoral na Igreja Italiana. Estive na periferia de Roma (zona rural), substituindo um padre aos finais de semana por um ano. Encontrei gente boa, acolhedora, em um verdadeiro espírito de comunidade eclesial. Tive também a oportunidade de, nos finais de semana, por mais de um ano, a pedido do bispo de Rieti: marcar presença com outro frade nas comunidades da região de Amatrice, local onde aconteceram os terremotos em 2016. Uma experiência forte que marcou minha vocação franciscana. Um período de muita escuta e diálogo, pois, muitas pessoas perderam seus entes queridos e outras os seus bens materiais. O desafio foi visitar as famílias, escutá-las e partilhar a palavra de Deus de esperança e conforto a todos. Outra experiência significativa foi no antigo convento de Vicovaro, lugar histórico, onde viveu São Bento antes de ir para o Monte Subiaco. Como a antiga província Romana fechou o convento, as celebrações religiosas continuaram no sábado e no domingo. Na periferia de Tivoli, fui bem acolhido, fiz bons amigos e procurei continuar o trabalho que os frades já realizavam. Depois de um ano e meio, veio a pandemia e a nova província de São Boaventura teve o Capítulo Provincial e a fraternidade mais próxima assumiu os cuidados pastorais desta igreja. Destas experiências, sou grato e levo com carinho o sorriso do povo, o olhar atento ao estrangeiro que procurava proclamar a palavra de Deus no ritmo latino-americano e brasileiro.

O estudo na Pontifícia Universidade Antonianum foi positivo, para além do específico da formação franciscana, o contato com a família franciscana internacional ajudou a ampliar os horizontes e projetar tantos sonhos e projetos. Não tenho dúvidas e incentivo aos meus confrades a estudarem e a buscar uma profissionalização que ajude na sua realização pessoal para servir melhor à Província, à Ordem e à Igreja.

Franciscanos – Frei, poderia deixar uma mensagem aos frades?

Frei Gilberto – Aproveito esta oportunidade para agradecer à nossa Província pela oportunidade dos estudos, pela generosidade e proximidade do Governo Provincial nestes anos, especialmente dos secretários para formação e estudos. Agradeço a tantos confrades que me incentivaram e apoiaram neste caminho. O meu muito obrigado aos freis: Walter de Carvalho Júnior, Lauro Both, Walter Hugo de Almeida, Estêvão Ottenbreit e José Antonio dos Santos, que Deus os recompense.

Agradeço também ao Frei Sandro Roberto da Costa, por aceitar fazer parte da comissão avaliadora e por suas ricas contribuições e observações. Estendo os agradecimentos ao professor Giuseppe Buffon, OFM e à Irmã Chiara Codazzi.

Não poderia deixar de agradecer ao bom Deus por nos ter dado um irmão, Frei Koser, que generosamente dedicou sua vida à nossa Província, à Ordem e à Igreja.


Entrevista a Moacir Beggo