“Nós também nos nutrimos da presença daqueles que servimos”
06/08/2026

No contexto dos 350 anos da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil e das reflexões promovidas pelo Capítulo das Esteiras, a TV Celinauta conversou com a irmã Joselma Maria Silva Anjos e o frei Tiago Gomes Elias, do Sefras – Ação Social Franciscana.
Na entrevista com a repórter Adriana Loduvichak, eles partilham como a espiritualidade de São Francisco de Assis se traduz, diariamente, no cuidado com pessoas em situação de vulnerabilidade, refletindo sobre os desafios da missão, a dignidade humana, a fraternidade e a esperança que nasce do encontro com quem mais precisa.
Confira a entrevista!
Adriana Loduvichak: Vocês estão na Grande São Paulo, a maior cidade do nosso país. Eu gostaria que vocês começassem falando pra gente sobre os desafios, as dificuldades, as dores que vocês veem e presenciam diariamente.
Irmã Joselma Maria: Começaria dizendo que São Paulo é uma cidade mãe, que acolhe todo mundo que está ali, que está aberta para esse acolhimento. Uma das dores que destacaria é a população imigrante, os imigrantes e refugiados, um dos públicos que atendemos no Sefras, que chegam com as suas malas e não têm para onde ir. Uma outra dor seria a população idosa, uma população que sofre com a ausência de escuta, de presença, e que estamos ali para também nutrir um pouco e nos nutrirmos da presença dessa pessoas. E uma terceira dor seriam as crianças, adolescentes e também a população em situação de rua, que é um público extremamente carente dessa presença. Nós entramos como aqueles e aquelas que nos colocamos à disposição e na generosidade do serviço de todos esses públicos atendidos.
Frei Tiago Gomes Elias: É desafiador ser Igreja no mundo de hoje, que muitas vezes é apático, não tem empatia sobre o sofrimento do outro. É desafiador ser Igreja diante de tantos sofrimentos. Um dos símbolos do Sefras são as chagas, o símbolo das mãos chagadas de Nosso Senhor. Também como diz São Francisco, nós vivemos num mundo estigmatizado, com muitas pessoas estigmatizadas, sem casa, sem lar, sem um aconchego e pessoas abandonadas. Mas nós também estamos feridos por muitas coisas na vida. Então, trabalhar na frente da solidariedade é fazer esse encontro de almas, de pessoas que estão sofridas. Então um encontro também, uma oportunidade de estar numa casa onde nos curamos uns aos outros. Não vamos resolver os problemas do mundo, mas é possível sim darmos as mãos e construirmos uma nova sociedade. Ferida, muitas vezes manca, que não enxerga muito bem, mas que um pode ser a muleta do outro, outro pode ser a atadura, um sorriso… E assim a gente vai juntando e levantando e, juntos, procurando um rumo para um mundo melhor.
Adriana Loduvichak: Frei Tiago, quando você fala sobre “estamos feridos” e você nos fala sobre esse trabalho do Sefras, entre as necessidades dos seres humanos com as quais vocês se deparam, nem sempre é só de um prato de comida, de uma roupa limpa, de um banho, correto?
Frei Tiago Gomes Elias: Sim. Por exemplo, nós trabalhamos com pessoas idosas que têm o seu dinheirinho, têm sua casinha, mas não têm o calor ou aconchego muitas vezes dos filhos, dos parentes mais próximos, uma vizinhança que tem mais aquela amizade da troca de uma xícara de açúcar, da conversa na beira do muro. Então essa grande selva de pedra que são nossas cidades, não vou falar só São Paulo, mas essa grande selva de pedra torna-se muito fria para as pessoas que já são octogenárias e que muitas vezes repetem as mesmas histórias, e nós não temos paciência de escutar.
Então, nas nossas casas, nós oportunizamos esses momentos onde eles podem conversar, tem danças, atividades para ativar e continuar com a memória ativa, exercícios físicos, muita música, muita arte. São coisas que não são mensuráveis no papel. Quantos sorrisos nós conseguimos tornar ativos? Quantos abraços? Quantas amizades, laços de vida? Assim como imigrantes e refugiados que vêm de países em situações de guerra ou um mundo que vai se “amuralhando” mas que quando entra no Sefras encontra um espaço que foi criado ponte e não muro. Eu costumo dizer que os animais migram. A gente vê as aves migrarem, na África até os animais tão pesados, os elefantes se deslocam quilômetros. Por que nós, seres humanos, não podemos também ter esse direito livre de acesso ao mundo inteiro, que de longe você não vê muro nem fronteira? Quem construiu fomos nós. Então nós também podemos construir pontes, o mundo fraterno. Esse é o grande sonho de São Francisco que a gente, aos pouquinhos, vai tentando costurar.
Adriana Loduvichak: Irmã Joselma, você utiliza a seguinte frase: “Nós nos nutrimos também, quando cuida, quando assiste, quando dá atenção, quando está próxima dessas pessoas que tanto precisam”. De que forma você se sente nutrida ao servir estes seres humanos?
Irmã Joselma Maria: Pensando um pouco na esperança franciscana e na lógica de um processo formativo que a gente recebe na vida religiosa consagrada, que nos imbuídos de São Francisco de tal maneira que pegamos as fontes e estudamos legendas e histórias e admoestações em parte teórica, se nós não atualizarmos isso na presença e no cuidado e afeto a esses irmãos e irmãs, de nada vale a vivência desses escritos.
Na lógica do Evangelho à luz de São Francisco, nós entendemos que nutrir-se da presença do irmão é trazer para a nossa formação essa prática que só se dá ali estando no chão da vida deles, nessa esteira junto com eles. A gente está vivenciando o Capítulo das Esteiras e nada mais importante que pensar, vivenciar e botar as nossas esteiras no chão deles ali e pisarmos junto com eles. Então nós nos sentimos nutridos e nutridas em vez de só pensarmos que levamos a palavra ou levamos essa nutrição ou essa comida. Nós recebemos também deles para a nossa própria formação, não somente cristã, mas dentro da lógica do Evangelho: fraternidade, comunhão a partir do que eles também nos trazem.
Eu destacaria aqui, por exemplo, o meio da arte, que é onde eu trabalho hoje especificamente com a população de rua. Então quando eu levo a minha arte através da música para a população em situação de rua, eu penso que eles me trazem muito mais arte do que eu levei. Através da pintura, através da música, através do canto, através de muitas formas de se expressar que hoje a sociedade não percebe tanto.
Adriana Loduvichak: É um grande desafio continuar mantendo, levando esse carisma franciscano dessa forma?
Irmã Joselma Maria: É um grande desafio porque nós encontramos também hoje muita incompreensão de muitos lados. Eu diria que estar nesse meio, na lógica de São Francisco, é quebrar a bolha, é sair da bolha, é furar essa bolha com um ato de coragem.
Adriana Loduvichak: E em quais serviços os franciscanos atuam junto ao Sefras?
Frei Tiago Gomes Elias: Nós estamos trabalhando atualmente com cinco públicos diferentes: crianças e adolescentes (a maioria que vive em periferias, favelas, comunidades), tanto do Rio de Janeiro quanto de São Paulo; pessoas em situação de rua; pessoas refugiadas e imigrantes; também com idosos e idosas; e pessoas acometidas pela hanseníase.
Adriana Loduvichak: E como essa espiritualidade franciscana te ajuda, te ampara e te sustenta no dia a dia nesse trabalho, Frei Tiago?
Frei Tiago Gomes Elias: Penso que levando a alegria é uma das formas que eu encontrei e a gente vive isso diariamente no Sefras. Essa alegria de São Francisco de transformar, no inverno da vida de muitos, uma nova primavera, onde a gente consegue fazer brotar flores em um mundo que muitas vezes está tão frio, tão gélido. Através da arte, da música, do teatro, de mil e uma possibilidades de esparramar a espiritualidade de Francisco de Assis, é possível, sim, fazer uma ação transformadora tanto na vida daqueles que participam, que são os ditos empobrecidos, tanto na nossa vida também. Muitas vezes vamos descobrindo que somos tão ou mais empobrecidos que aqueles que estão aí, sem RG, sem CPF, faltando um banhozinho para tomar.
Muitas vezes sou eu que preciso também desse alimento, porque é Cristo que está no outro, naquele que sofre. Jesus dizia que estaria ali presente. Então é uma ação transformadora também para aqueles que se voluntariam nessa obra. É um inverno para alguns, mas para outros se torna uma primavera, um outono onde a gente frutifica junto. E pode fazer daquilo que era amargo, um doce gostoso, um suco de laranja, uma compota.
Costumo dizer que a gente vem da cultura do remendo. Quem de nós não teve uma avó, uma tia que costurava uma meia, que fazia uma bainha na calça? E é dessa costura do remendo que a gente faz uma linda colcha de retalhos. É esse colorido da vida que São Francisco consegue transformar na nossa vida e na vida dos outros. Você olhando cada um separadinho, está tão arrebentado, está tão maltratado, mas quando a gente costura junto, faz uma linda colcha colorida. E aí você pode até colocar no sofá para ostentar ou numa cama bonita. É um pouco disso que a gente vai experimentando todos os dias.
Adriana Loduvichak: E São Francisco tinha esse modo de viver. De mesmo em momentos de muita dor e muita dificuldade, conseguir ver o lado bom, conseguir apreciar até aqueles momentos de dor com o entendimento superior sobre a vida, inclusive a morte quando chama de irmã. Você, enquanto um frade franciscano que segue os passos de São Francisco, existem momentos em que precisa se lembrar disso, talvez para não se abalar diante de tantos desafios de tantas pessoas com dores e sofrimentos diferentes que, com toda certeza, você se depara nesse teu trabalho todos os dias?
Frei Tiago Gomes Elias: Sim. É impossível, não posso mentir que, ainda depois de seis anos trabalhando no Sefras, a gente ainda tem alguns impactos muito fortes. Eu pensava que a manteiga que havia no meu coração já teria derretido totalmente, mas não. Sempre há uma possibilidade da gente ser impactado, porque somos frágeis, somos humanos. E os dilemas estão aí todos os dias.
E aí que eu te digo que a fraternidade é esse chão fértil e aconchegante para gente chorar o sofrimento também. Você ter um lugar onde voltar, o convento, onde você pode partilhar com os confrades tudo aquilo que viveu durante o dia e ouvir uma palavra de conforto: “Frei, amanhã, começa de novo”. E vamos juntos. Várias vezes eu chorei sozinho e não sabia que tinha esse espaço de escuta. E depois que eu fui descobrindo: “Olha, eu posso partilhar todos os dias com os confrades”, isso vai mudando a nossa chave. E é essa possibilidade de você se reerguer, se reinventar.
Muitas vezes pensamos que com as nossas forças vamos mudar, já sonhei muito com isso, “vamos mudar o mundo”, “fazer uma nova natureza”. Não! Quem faz novas todas as coisas é o nosso Senhor. E Ele tem o tempo Dele, não é o meu. Jesus já dizia: “Pobres sempre os tereis”. Mas Ele não fala que tipo de pobre, porque eu também sou pobre e careço de muitas coisas. Então é um caminho vagaroso, paulatino, em que todos nós vamos nos construindo juntos.
Adriana Loduvichak: Irmã, essa construção se dá muito na escuta? Um olhar muitas vezes acolhedor é o que faz a diferença?
Irmã Joselma Maria: Com certeza. E, sem dúvida, uma das melhores formas é a convivência. Porque dentre todos os públicos atendidos, nós percebemos diariamente, seja o serviço de segunda à sexta ou de domingo a domingo, essa necessidade de conviver. E conviver com a pessoa que é diferente de mim.
Muitas vezes a gente até direciona, redireciona e encaminha para outros núcleos, “não, mas aqui eu convivo, aqui eu consigo ouvir e aqui eu consigo ser ouvido”. Isso a gente percebe nos grupos socioeducativos, a gente tem uma lógica também de trabalhar os públicos atendidos através de celebrações da vida, falando um pouco do carisma franciscano, a partir dessa partilha.
Isso acontece na escuta tanto da nossa parte quanto entre essas pessoas. Enquanto a gente propõe uma dinâmica circular e não piramidal, enquanto a gente propõe um momento de partilhar até de um pão com o chá ou de algum movimento específico da casa naquele dia, a gente percebe que a carência é dessa escuta e dessa convivência, principalmente.
Adriana Loduvichak: Irmã, e o que você mais aprendeu, refletiu nos últimos tempos e poderia nos falar sobre dignidade humana, solidariedade, empatia verdadeira? O que todo esse trabalho tem te ensinado sobre isso ao longo do tempo?
Irmã Joselma Maria Silva Anjos: Eu pegaria um lema de Dom Paulo Evaristo Arns, que foi franciscano, que é o “De esperança em esperança”, onde diariamente eu busco ali esperança ao levar esperança. E o que nutre a minha vocação franciscana hoje é olhar que dentro desses olhares que eu atendo diariamente tem esperança. E dentro dessa esperança tem a minha vocação, ao passo que eles olham para mim e percebem que a minha presença também traz esperança para cada um deles.
Adriana Loduvichak: Nesse trabalho, o que te move?
Irmã Joselma Maria: Eu penso que a coragem e a ousadia franciscana.
Adriana Loduvichak: Frei Tiago?
Frei Tiago Gomes Elias: São coisas que estão todas juntas, que não tem como a gente separar. Mas olhando para São Francisco e seguindo, procurando seguir um pouquinho do que ele viveu, eu colocaria a palavra diálogo. São Francisco conseguiu conversar com um grande senhor árabe, muçulmano, um sultão. Fez amizade com ele. Com aquele que era tão diferente, que era visto como o inimigo do mundo do Ocidente, e eles criaram laços.
Eu vejo que falta muito esse diálogo: eu não enxergar no diferente um inimigo meu. Esse laço que a gente vai criando, essa trama desse cordão, no qual todo mundo se segura e se aperta, eu levo comigo como uma grande identidade franciscana. Estar dentro desse diálogo de transformar tudo aquilo que pode ser diferente em fraternidade.
Adriana Loduvichak: Muito bem. Parabéns pelo trabalho de vocês, pela linda missão de vocês e que assim continue. E muito obrigada pela partilha aqui com a gente.
Frei Tiago Gomes Elias: Paz e Bem!
Irmã Joselma Maria: Paz e Bem!
Guilherme Coutinho


