Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

O Alverne: o amor do Crucificado e para o Crucificado

27/08/2026

Paz e Bem, queridos irmãos e queridas irmãs.

Gostaria de iniciar nossa reflexão com uma afirmação: Francisco não se limitou a falar sobre Jesus Cristo. Não se limitou a admirar Jesus Cristo. Francisco permitiu que Cristo transformasse progressivamente toda a sua existência. E o Alverne representa o momento culminante dessa transformação.

Quando contemplamos Francisco marcado pelos estigmas, corremos o risco de enxergar apenas um acontecimento extraordinário, distante de nossa realidade. Podemos transformar o Alverne numa cena bonita da história franciscana, admirada, celebrada e piedosamente recordada.

Mas o Alverne não é apenas um episódio extraordinário. É a manifestação visível de um caminho interior percorrido durante muitos anos. É o fruto de uma vida que procurou não reter nada para si. É a expressão de um amor que, contemplando o Crucificado, tornou-se progressivamente semelhante àquele que amava.

A questão central de nossa reflexão será esta: O que aconteceu na vida de Francisco para que o amor do Crucificado se tornasse também o destino de sua própria existência?

O caminho que conduziu Francisco ao Alverne

Francisco não chegou ao Alverne de repente. Antes do Alverne, houve o encontro com o leproso. Houve a ruptura com a lógica do prestígio e da ascensão social. Houve a escuta do Evangelho. Houve a escolha da minoridade. Houve a fraternidade, a missão, as incompreensões e as crises.

O Alverne não pode ser separado de São Damião, da Porciúncula, dos leprosários, das estradas e da convivência concreta com os irmãos. Ao longo desse caminho, Francisco foi sendo despojado não somente das coisas materiais. Foi sendo despojado da necessidade de controlar a própria obra, de ser compreendido, de ser reconhecido e de ver seus projetos realizados exatamente como imaginara.

Essa talvez seja uma das pobrezas mais difíceis: entregar a Deus não apenas aquilo que possuímos, mas também aquilo que pretendemos controlar.

Francisco chega ao Alverne fragilizado fisicamente e atravessado por provações. Não chega como um vencedor que contempla o sucesso de seu empreendimento. Chega como um irmão menor que continua procurando compreender a vontade do Senhor. No silêncio da montanha, ele não procura uma experiência mística para sua própria satisfação. Procura colocar-se novamente diante de Deus.

Por isso, antes de ser o monte dos estigmas, o Alverne é o lugar da escuta, do silêncio e da desapropriação.

“Nada retenhais para vós mesmos”

Uma das passagens mais profundas dos escritos de Francisco encontra-se na Carta a toda a Ordem. Contemplando a humildade de Cristo, especialmente sua entrega na Eucaristia, Francisco escreve:

“Nada de vós retenhais para vós mesmos, para que totalmente vos receba aquele que totalmente se vos oferece.”

Essa frase nos oferece uma chave fundamental para compreender o Alverne. Francisco contempla um Deus que não retém a si mesmo. Na Encarnação, Cristo entra na fragilidade da condição humana. Na cruz, entrega-se inteiramente. Na Eucaristia, continua oferecendo-se sob uma aparência humilde e cotidiana.

Diante desse Deus que se oferece totalmente, Francisco percebe que a resposta humana também não pode permanecer pela metade.

“Nada de vós retenhais para vós mesmos.”

Não se trata apenas de abandonar bens. Trata-se de deixar de reservar áreas da existência nas quais Deus não possa entrar.

Podemos entregar nosso trabalho e reter nosso prestígio. Podemos entregar nosso tempo e reter nossa vontade. Podemos professar pobreza e continuar apropriados de nossas funções, opiniões e posições. Podemos viver numa fraternidade e, ao mesmo tempo, defender cuidadosamente nosso espaço, nosso poder e nossa imagem.

A desapropriação franciscana atinge o centro do eu.

Isso não significa destruir a personalidade ou negar a dignidade humana. Ao contrário, significa libertar a pessoa da necessidade de colocar-se no centro de tudo.

Na Admoestação V, Francisco recorda a grande dignidade da pessoa criada à imagem do Filho de Deus, mas pergunta também: “Em que, então, podes gloriar-te?”

Não podemos nos apropriar nem mesmo do bem que Deus realiza por nosso intermédio. E, na Admoestação VI, Francisco adverte os irmãos: “Consideremos todos, irmãos, o Bom Pastor, que, para salvar suas ovelhas, suportou a paixão da cruz.”

Em seguida, Francisco observa que é vergonhoso desejar apenas a honra de contar o que os santos fizeram, sem percorrer o caminho de fidelidade que eles percorreram. Essa palavra é incômoda e atual.

Podemos falar muito sobre Francisco, celebrar seus centenários, estudar suas fontes e repetir suas palavras. Mas a questão é outra: estamos permitindo que o mesmo Evangelho transforme nossa maneira de viver?

O acontecimento do Alverne

Em 1224, próximo à festa da Exaltação da Santa Cruz, Francisco encontrava-se retirado no Alverne. Segundo Tomás de Celano, uma das fontes mais antigas sobre o acontecimento, Francisco contemplou a figura de um homem crucificado, envolvida pelas seis asas de um serafim.

São Boaventura, posteriormente, descreve essa visão reunindo duas imagens aparentemente opostas: o serafim, associado ao ardor do amor, e o homem crucificado, expressão da entrega e do sofrimento.

O amor e a cruz aparecem unidos. Mas precisamos compreender corretamente essa união.

Francisco não procurava o sofrimento pelo sofrimento. A espiritualidade cristã não transforma a dor num bem em si mesma. Deus não precisa de nosso sofrimento para nos amar.

A cruz é consequência de um amor que permanece fiel mesmo quando amar exige renúncia, perseverança e entrega. O Crucificado contemplado por Francisco não é a glorificação da violência. É a revelação de um Deus que não abandona a humanidade, mesmo quando é rejeitado por ela.

Francisco percebe que o amor verdadeiro não é somente entusiasmo, emoção ou consolação. Amar como Cristo significa permanecer fiel, doar-se e não responder à violência reproduzindo a violência.

Depois da visão, os sinais da paixão de Cristo aparecem no corpo de Francisco. Os estigmas não devem ser tratados como uma condecoração espiritual nem como prova de superioridade. São o sinal corporal e extraordinário de uma configuração interior que vinha acontecendo há muitos anos.

Francisco carregou no corpo aquilo que procurou viver no coração. Podemos compreender essa experiência à luz das palavras de São Paulo: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim.”

Isso não significa que Francisco tenha deixado de ser ele mesmo. Ao contrário: quanto mais se deixa transformar por Cristo, mais plenamente se torna Francisco, irmão menor, reconciliado consigo, com Deus, com os irmãos e com a criação.

O Alverne revela que a santidade não é uma imitação exterior. É permitir que os sentimentos, as escolhas e a forma de amar de Cristo adquiram espaço real em nós.

O Alverne como questionamento para os religiosos e para a OFS

O que o Alverne pode dizer hoje aos frades menores, às irmãs consagradas e aos franciscanos seculares? Primeiramente, ele questiona nossa vida de oração. Rezamos apenas para encontrar consolo ou rezamos também para sermos transformados?

A oração franciscana não é fuga da realidade. Francisco sobe ao Alverne, mas precisa descer da montanha. O encontro com Deus devolve-o à vida com maior capacidade de amar, servir e reconciliar. Uma oração que não modifica nossa relação com os irmãos, com os pobres e com a criação corre o risco de tornar-se uma experiência fechada em nós mesmos.

Em segundo lugar, o Alverne questiona nossa vida fraterna. É relativamente fácil chamar alguém de irmão quando ele concorda conosco. A fraternidade evangélica, porém, começa a ser provada quando existem diferenças, conflitos, limites e decepções.

A cruz da fraternidade não consiste em tolerar abusos, nem silenciar diante da injustiça. Consiste em não desistir do outro, não transformar divergências em inimizades e não usar o serviço ou a autoridade para impor a própria vontade.

Para a OFM e as irmãs consagradas, o Alverne pergunta se a minoridade continua sendo uma forma concreta de vida ou se corre o risco de se tornar apenas uma palavra tradicional. Para a OFS, pergunta se a profissão do Evangelho está transformando as relações familiares, profissionais, sociais, econômicas e políticas ou se permanece restrita aos encontros da Fraternidade.

Em terceiro lugar, o Alverne questiona nossa relação com a pobreza. A pobreza franciscana não é romantização da miséria. A miséria deve ser combatida, porque fere a dignidade dos filhos e filhas de Deus. A pobreza evangélica é a liberdade diante da posse, do poder e da apropriação.

É possível não possuir muitos bens e, ainda assim, estar profundamente apegado a cargos, títulos, funções, opiniões e reconhecimentos. O Alverne nos pergunta: o que ainda retenho para mim? O que não consigo entregar? Que espaço defendo como se fosse exclusivamente meu?

Em quarto lugar, o Alverne questiona nossa missão. Francisco não evangelizava simplesmente transmitindo conceitos. Sua vida conferia credibilidade às suas palavras.

Em uma sociedade saturada de discursos religiosos, talvez o testemunho mais necessário seja o da coerência: fraternidades que acolhem, religiosos que vivem com simplicidade, leigos que atuam com honestidade, cristãos que recusam o ódio e comunidades que permanecem próximas dos pobres.

Nossa missão não consiste em reproduzir externamente os sinais extraordinários de Francisco. Os estigmas que nos cabem hoje são as marcas concretas do serviço: o tempo oferecido, a escuta paciente, a defesa dos vulneráveis, o cuidado com a Casa Comum, a reconciliação e a presença junto de quem sofre. Não somos chamados a buscar feridas. Somos chamados a cuidar das feridas existentes no mundo.

Conclusão

Queridos irmãos e queridas irmãs, todos nós admiramos Francisco no Alverne. Admiramos sua união com Cristo, sua oração e os sinais que recebeu. Entretanto, a Admoestação VI nos impede de permanecer apenas na admiração. Francisco nos adverte sobre o risco de buscar honra narrando o que os santos fizeram, sem desejar seguir a fidelidade que marcou a vida deles.

O Alverne não é apenas um lugar geográfico. Também não é somente uma recordação extraordinária da história franciscana. O Alverne é uma pergunta dirigida a cada um de nós: O que ainda retemos para nós mesmos? O que precisa ser entregue para que Cristo encontre mais espaço em nossa vida?

Nossa pertença franciscana está nos configurando ao Evangelho ou apenas acrescentando uma identidade religiosa ao que já somos?

Francisco não recebeu os estigmas porque procurou tornar-se extraordinário. Recebeu-os depois de uma longa caminhada na qual procurou tornar-se menor, irmão e discípulo. Que o Senhor nos conceda não apenas admirar Francisco, mas acolher o Evangelho que o transformou.

E que, contemplando o Crucificado, aprendamos não a procurar o sofrimento, mas a amar com fidelidade; não a conservar nossas posições, mas a servir; não a viver para nós mesmos, mas a nos oferecer àquele que inteiramente se oferece a nós.

Paz e Bem.


Angelo Fernando Vaz Rosa, OFS

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