Notícias - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

“Viver na Terra Santa é como fazer uma peregrinação de vida”

25/06/2026

Notícias

Na Terra Santa (assim reconhecida pelo cristianismo, judaísmo e islamismo), localizada no Oriente Médio, as três maiores fés do mundo se encontram. A admiração do Frei Luiz Henrique Ferreira Aquino pela região nasceu ainda nos anos de formação, no Seminário Franciscano, quando tomou contato com a missão. A partir dali, foi-se formando um desejo silencioso de um dia conhecer a terra onde a história da salvação se tornou concreta. 

Esse “sonho” também se alimentava das narrativas bíblicas, especialmente das celebrações da Semana Santa, quando a expressão “Vale do Cedron” chamou a sua atenção. Anos mais tarde, a vida lhe reservaria uma coincidência: ao viver em Jerusalém, residiria justamente no Getsêmani, de frente para o Vale do Cedron.

Com o passar dos anos, ao longo da sua caminhada franciscana, a possibilidade de ir à Terra Santa foi sendo discernida com paciência e perseverança. Em 2010, durante uma Visita Canônica, foi manifestada, pela primeira vez, o desejo de servir à Custódia da Terra Santa. No Capítulo Provincial, recebeu autorização, mas naquele momento foi solicitado que permanecesse em outra função na Província, atuando como vice-secretário. 

“Esperei por mais 12 anos e novamente manifestei a vontade de realizar esse serviço junto à Custódia e obtive a permissão. A minha expectativa era de poder conviver em uma Fraternidade Internacional, com culturas, comidas e estilos de vida diversos. Senti-me muito à vontade desde que cheguei”, afirma.

A Custódia da Terra Santa é uma espécie de “Província internacional” da Ordem dos Frades Menores, formada por frades de diferentes partes do mundo, unidos pelo serviço de guardar os Lugares da Redenção. Pelos Estatutos Particulares da Custódia, o frade de outra Província que chega para prestar serviço deve permanecer por pelo menos quatro anos, podendo estender esse tempo, conforme julgarem os superiores. 

Primeiras impressões na Terra Santa

A chegada do Frei Luiz Henrique à Terra Santa ocorreu em 2022. Nesse início, ele recorda, como uma das experiências mais marcantes, a vida cotidiana no Getsêmani, considerado um dos locais de peregrinação cristã mais importantes do mundo. 

O Frei explica que o Getsêmani compreende três locais de acolhimento. O primeiro é a Basílica, conhecida por três nomes: Igreja das Nações, Basílica da Agonia e Basílica do Getsêmani. Em frente ao altar, encontra-se a Pedra da Agonia, onde a tradição diz que Jesus suou sangue. Ele também destaca que na entrada do recinto do Getsêmani há uma placa com a inscrição em hebraico, árabe e inglês que diz: ‘Aqui Jesus iniciou sua Paixão’. 

“Antes de entrar na Basílica, os peregrinos rodeiam o Jardim das Oliveiras (local da Vigília de Jesus antes da Paixão, antes da sua prisão e de ter celebrado a Ceia com os apóstolos no Cenáculo). Ali resistem ao tempo oliveiras milenares testemunhas da noite da Agonia e também oliveiras plantadas pelos últimos papas que lá estiveram. Um segundo local, visitado pelos peregrinos é a Gruta dos Apóstolos (ao lado do Túmulo vazio de Nossa Senhora, lugar da sua Assunção, cuidado pelos padres Gregos Ortodoxos e Armênios), local onde Pedro, Tiago e João dormiam enquanto Jesus orava. Um terceiro lugar compreende um segundo Jardim com Oliveiras, situado ao lado da rua que desce do Monte das Oliveiras. Esse local é o preferido dos Peregrinos Evangélicos para seu momento de Oração. Podemos dizer que no Getsêmani se deu a primeira Hora Santa do mundo”, complementa. 

A rotina diária era exigente: às 6h30, a comunidade se reunia para a Celebração da Eucaristia com Laudes; em seguida, havia o café da manhã e o início da acolhida dos peregrinos, que chegavam até o meio-dia. Após o almoço fraterno, o serviço recomeçava às 14h e seguia até as 18h, com o atendimento contínuo aos grupos vindos de diversas partes do mundo. À noite, após as Vésperas e o jantar, a Basílica voltava a abrir para momentos de vigília e oração, muitas vezes prolongados até as 22h. Em média, cerca de trinta grupos de peregrinos eram recebidos todos os dias. Além da acolhida dos grupos, os frades locais também realizam o serviço de sacristia. 

“Um grupo de Peregrinos pode viver todo o Ano Litúrgico em duas semanas, seguindo um roteiro pelos lugares santos”

O Frei, que retornou ao Brasil neste ano, relata que a Terra Santa é uma espécie de coração pulsante do cristianismo: terra dos Profetas, de Jesus, de Nossa Senhora e dos Apóstolos. Ele explica ainda que desde 1217 os Frades Menores são guardiães dos Lugares Sagrados, levando adiante uma missão de fé e diálogo em uma região rica em história.

“Viver na Terra Santa é como fazer uma peregrinação de Vida, que atravessa a alma. Cada lugar representa uma peça importante na história da salvação e na caminhada da Igreja. É compensador ver os peregrinos fascinados, por exemplo, pelo Lago de Tiberíades: as mesmas névoas, as mesmas rajadas de vento repentinas e violentas, as mesmas margens desertas e silenciosas de quando Jesus por ali passava, com seu pequeno grupo de amigos e os muitos que acorriam para ouvir sua palavra e ver seus milagres”.

Nesse contexto, segundo o Frei, até mesmo o deserto, as montanhas áridas e as estradas empoeiradas reforçam o diálogo com o sagrado. “Para um Franciscano, a Terra Santa não é apenas um local geográfico, mas uma componente essencial de seu carisma. O próprio Francisco nos ensinou que não há encarnação sem um lugar concreto: Belém está ligada a Greccio, e o Calvário ao Alverne. Guardar a memória da Encarnação é uma das principais tarefas dos franciscanos, que vivem na Terra Santa para preservar e reviver a experiência de Jesus. Um grupo de Peregrinos pode viver todo o Ano Litúrgico em duas semanas, seguindo um roteiro pelos lugares santos”, acrescenta.  

Outro aspecto significativo da experiência do Frei foi a convivência com diferentes ritos cristãos e tradições religiosas. A vida em Jerusalém e nos santuários o colocou em contato direto com comunidades ortodoxas e outras expressões do cristianismo oriental, ampliando sua compreensão da universalidade da Igreja e da sua riqueza litúrgica.

A missão franciscana na Terra Santa hoje

Entre os principais desafios enfrentados pelos franciscanos na região está a responsabilidade de manter e administrar santuários centrais da tradição cristã, como o Santo Sepulcro, o que envolve não apenas a conservação estrutural, mas também relações delicadas com autoridades civis e com diferentes comunidades que partilham esses espaços. “Em Jerusalém estão ocorrendo situações cada vez mais frequentes de violência, ofensas e ultrajes contra lugares sagrados, religiosos e pessoas que pertencem à religião cristã”, comenta. 

Atualmente, os cristãos representam menos de 2% da população da Terra Santa e seu número continua diminuindo por conta de guerras, instabilidade econômica e falta de perspectivas para o futuro. Grande parte dessa população depende do turismo religioso, fortemente afetado após a pandemia e os conflitos subsequentes, o que tem levado muitas famílias à migração. 

“Cito aqui as palavras do Custódio da Terra Santa:  ‘A Custódia não diz respeito apenas a Israel e Palestina, mas também ao Líbano, Síria, Jordânia, Chipre, Egito… é um mosaico de sofrimentos. Em Gaza, a guerra deixou milhares de vítimas e destruição, mas mesmo na Cisjordânia a vida se tornou quase impossível. As pessoas perderam o trabalho, o turismo religioso desapareceu, as famílias estão sem recursos. E além da miséria material, o que falta é a esperança. As pessoas não conseguem mais imaginar um futuro bom. Nós, franciscanos, permanecemos lá por isso: não apenas para oferecer pão ou remédios, mas para testemunhar que a esperança ainda é possível’”. 

Por outro lado, em meio às tensões, o testemunho dos cristãos locais também marcou profundamente o Frei. Nesse sentido, a cruz, por exemplo, assume também um sinal de perseverança para comunidades que continuam a sustentar a sua identidade. “Devo mencionar ainda que me chamava muito a atenção, nas sextas-feiras e durante o mês do Ramadã, a Oração dos Mulçumanos. Passava uma multidão diante do Getsêmani de homens com seus filhos e tapetes, seguindo rumo à Mesquita Al Aqsa, ao som dos minaretes”, complementa o Frei. 

“Nos momentos difíceis da guerra, quando muitos incentivavam fazer as malas e voltar, pensava: aqui está o agora da minha vida, meus amigos, meu trabalho, sendo julgado por mim mesmo e por meus pensamentos. Talvez esse foi o melhor momento de experiência franciscana. Não encontramos, na Terra Santa, ‘muçulmanos’ ou ‘judeus’, encontramos pessoas que vivem sua fé muçulmana ou judaica, e hoje também pessoas que não vivem a perspectiva da fé, mas são justamente pessoas com quem é possível se relacionar, fazer parte da viagem juntos e até cooperar. Esse é o método de evangelização, feito através do testemunho de vida e do anúncio da Palavra. A palavra deve vir depois de uma escuta respeitosa e profunda. Ao ouvir os outros, aprende-se a ouvir Deus”, finaliza.


Guilherme Coutinho