Notícias - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Um jovem missionário em um país em reconstrução

05/01/2009

Entrevistas, Notícias

Moacir Beggo

No livro “A África nos chama”, Frei Atílio Abati lembrava que em 1995, a situação do povo era muito difícil no pós-guerra: preços altos, faltava ajuda internacional (mantimentos e remédios) e crescia a violência. “Havia grande intranquilidade por causa do grupo de soldados que, à noite, invadia as hortas para roubar. Os soldados “pediam” produtos ao povo com a arma apontada e facas encostadas no pescoço. Em toda parte existiam ainda campos minados, que volta e meia, tolhiam as vidas de inocentes”, descreve Frei Atílio. Nesse quadro, é inaugurado no dia 14 de junho de 1996, o Mosteiro das Clarissas, em Luanda, dedicado ao Sagrado Coração de Jesus. A fundação, que contou com 14 irmãs vindas do Mosteiro de Malange, era um desejo do Cardeal D. Alexandre de ter uma comunidade contemplativa em Luanda.

É neste cenário que Frei Samuel Ferreira de Lima, recém-ordenado presbítero, chega para ser capelão das Clarissas e trabalhar como formador no Aspirantado, inaugurado em janeiro de 1996, com a admissão dos quatro primeiros jovens angolanos vocacionados: Domingos, Nélson, Cândido e Adão. Nesta entrevista, Frei Samuel conta como foi esta primeira experiência como neo-sacerdote e missionário. 

Site Franciscanos – Como foi a chegada e o início do trabalho missionário?

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Frei Samuel (esq.), sr. Adávio e Frei Augusto

Frei Samuel Ferreira de Lima – O início foi muito desafiador e exigente, pois quando viajei para Angola só sabia que seria capelão das Irmãs Clarissas. Não tinha noção de onde moraria e de como seria a nossa fraternidade. Eu estava saindo de uma fraternidade de 70 frades em Petrópolis, para uma de dois; eu e mais um em Luanda. A própria viagem de ida foi tensa já no voo, pois muitos passageiros eram soldados brasileiros que iriam participar da UNAVEM III da ONU.  Cheio de incertezas e apreensões, marinheiro de primeira viagem a caminho de uma terra desconhecida e em guerra civil, eu e uma irmã clarissa convalescente de cirurgia, frágil e deslocada de seu mundo. Dentro do avião dava para sentir no ar a apreensão de todos e, para piorar, o ar condicionado não funcionava. O calor era insuportável. Eu ficava imaginando se todo aquele calor era por que estávamos próximos do Continente Africano. Nunca havia feito uma viagem internacional. Chegando a Luanda, no dia 28 de junho de 1996, a paisagem era cinzenta, o aeroporto cheio de sucatas de aviões por todo o lado. Havia apenas um ônibus para levar os passageiros do avião até o desembarque. Já na abertura da porta do avião, uma jovem que viera ao Brasil comprar seu enxoval de casamento, recebeu a notícia de que seu noivo havia falecido. Os gritos de desespero nos deixaram estarrecidos. Perguntávamo-nos o que estaria acontecendo? Passado o primeiro susto, eu e a irmã ficamos por último para fugirmos do tumulto que se formou na entrada do ônibus. Só fomos na quinta viagem, e ao chegar no desembarque, o irmão da irmã Clarissa, que era funcionário da migração, pegou nossos passaportes e resolveu todos os trâmites. Frei Dílson A. Geremias e Frei Genildo Provin nos esperavam. Foi uma alegria vê-los. No caminho para o Mosteiro, cenas desoladoras de um país agonizante, cheio de sucatas, montanhas de lixo, esgoto a céu aberto, veículos sucateados andando sem porta, para-brisa, poucas pessoas na rua. Quanto mais próximos de nossa nova morada, mais aterradora ficava a paisagem. Finalmente chegamos ao Mosteiro do Sagrado Coração de Jesus. O sorriso contagiante das irmãs era um elixir para o nosso coração apavorado e desconcertado diante da nova realidade. Nunca em minha vida havia sentido uma mistura tão grande de sentimentos ao mesmo tempo: medo, angústia, vazio, incerteza, dúvida etc. Na minha mente vinha apenas uma frase: “Agora somos eu e Deus. Seja feita a sua Vontade!”.

Eu, recém-ordenado, nem sabia o que seria ser capelão de Clarissas. A minha primeira Missa no Mosteiro foi na Solenidade de São Pedro e São Paulo. Os cantos, as danças, a celebração, tudo foi magnífico e de uma alegria indescritível. Aos poucos, as celebrações que presidia, os momentos de oração, as aulas de espiritualidade clariana e franciscna davam um suporte interior e me enchia da alegria do Cristo, ajudando a me equilibrar diante de toda aquela situação social e conjuntural. Nosso principal trabalho era ser apoio logístico para as duas missões no interior do país, a saber: Malange e Kibala. Correr atrás de mantimentos, documentação, materiais diversos. Era um peregrinar durante o dia inteiro para tentar resolver as necessidades de nossas fraternidades no interior. Logo fui convidado a ajudar no Seminário Maior de Luanda, ministrando aulas de História da Filosofia para os seminaristas do primeiro e segundo anos. O povo do bairro que participava das missas com as Clarissas passou a me chamar para visitar os doentes. Assim fui me inserindo na realidade sofrida daqueles irmãos na fé. A alegria deles era contagiante e, mesmo diante de tantas dificuldades, o sorriso meigo confortava e animava a nossa caminhada.

Site Franciscanos – Quanto tempo você ficou lá?

Frei Samuel – Fiquei um ano em Luanda e nove anos e cinco meses em Malange, até o meu retorno ao Brasil. De Junho de 96 a dezembro de 2006.

Site Franciscanos – Por que escolheu fazer parte do grupo dos missionários?

Frei Samuel – Eu não escolhi. Fui convidado pelo Frei Johannes Bahlmann, hoje Bispo de Óbidos, PA, que era na época o Moderador da Evangelização Missionária. Ele fez o convite se eu estaria disposto a ir para a Missão em Angola.  Respondi prontamente que sim, pois sempre desejei estar junto dos que fazem a experiência concreta do leproso, como o fez nosso Seráfico Pai São Francisco.

Site Franciscanos  – Como o povo angolano recebeu os missionários?

Frei Samuel – Com muito carinho e alegria. Via o quanto fazia para, mesmo tempo pouco, nos oferecer o melhor que tinha. O cuidado, a preocupação com a nossa segurança e bem-estar. As pessoas estavam sempre atentas para nos ajudar em nossas dificuldades e preocupações. Quando cheguei a Malange, me comoveu ver as mamás dançando e cantando, fazendo uma roda em torno da gente e oferecendo os produtos da terra que elas produziram com tanto esforço e sacrifício. Eu me sentia um membro da família.

Site Franciscanos – Quais os desafios que viveram naquela época?

Frei Samuel – O principal desafio era ser, junto àquele povo sofrido e apavorado com os constantes ataques e raptos de seus filhos para serem soldados, uma presença de fé, esperança e solidariedade. Havia muita fome, carência de quase tudo: medicamentos, roupas, sapatos, livros, médicos, etc. Éramos na missão a única centelha de esperança e de apoio para o povo: celebrar a Eucaristia, ministrar os sacramentos, dar catequese e formação para os catequistas, organizar junto com a Cáritas diocesana e a PAM-ONU as cozinhas comunitárias para alimentar as crianças e idosos. Com a cooperação das Irmãs Franciscanas de São José, fazíamos o atendimento médico e, com as Irmãs Franciscanas de Missionárias de Maria, o atendimento educacional através da escolinha da missão. Também íamos às aldeias para dar o atendimento religioso, recursos básicos de sobrevivência, atendimento ambulatorial e medicamentos. Fazia-se o que era possível. De tudo um pouco. Em determinados momentos, éramos requisitados para transportar um doente ao hospital, em outro, para buscar um falecido do hospital e levá-lo para uma aldeia.

As viagens eram verdadeiras epopeias: seja ir de Malange à capital Luanda buscar mantimentos e materiais diversos para a missão, pelos riscos e constantes de ataques na estrada, seja enfrentar caminhos esburacados, com atoleiros, rios sem pontes ou pontes improvisadas com troncos para chegarmos a aldeias distantes onde ninguém havia ido.

Depois, com a intensificação do conflito, dos bombardeios à cidade, a cidade de Malange ficou cercada por sete meses, de onde só se saia em comboios escoltados. As coisas tornaram-se muito mais difíceis e desafiadoras para, em meio a todo este contexto, formar jovens angolanos que desejavam abraçar o caminho da vida religiosa franciscana, assim como construir as primeiras casas de formação. Tudo era um grande desafio e exigia de nós uma intensa vida de oração, comunhão fraterna e solidariedade com as outras congregações, ONU e Ong’s. No mútuo apoio, fortalecíamos a certeza de lutar pela paz e pelo bem de todos.

Site Franciscanos – Que Mensagem você deixaria para quem quer ser um missionário em Angola?

Frei Samuel – Primeiro e acima de tudo, ir por causa de Deus. Despojar-se de qualquer expectativa de ser “salvador da Pátria”, mas colocar-se na dinâmica do discipulado, de quem vai para aprender, para fazer penitência, para estar e ser junto do povo angolano, um homem de Deus, um servo amigo e um irmão de todos.