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O carisma de quem chama a morte de irmã

05/08/2026

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O carisma de quem chama a morte de irmã

Durante o Capítulo das Esteiras 2026, a TV Celinauta entrevistou o Vigário Provincial, Frei Gustavo Medella, sobre a compreensão franciscana da morte à luz dos 800 anos da Páscoa de São Francisco de Assis.

Na conversa com a repórter Adriana Loduvichak, o frade refletiu sobre a esperança cristã diante da morte, o sentido da expressão “irmã morte corporal”, a experiência do luto e algumas mensagens do seu livro “Há vida após o luto”.

Confira a entrevista!

Adriana Loduvichak: Poderia nos falar um pouco sobre qual é o entendimento franciscano sobre a morte?

Frei Gustavo Medella: São Francisco ele soube, na sua sabedoria de vida, na experiência que acumulou, nas suas intuições e suas escolhas, fazer uma integração muito bonita da morte como uma verdadeira passagem para a vida eterna. Nesse aspecto, chama a atenção da estrofe do Cântico das Criaturas que ele compôs justamente louvando a Deus pela irmã  morte. Nessa estrofe, ele também já nos apresenta um pouco de como ele compreendia esse fenômeno, esse elemento constitutivo da vida. Ele diz o seguinte: “Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã, a morte corporal, da qual nenhum ser humano pode escapar. Felizes os que ela, a morte, encontrar conformes à tua santíssima vontade, porque a morte segunda não lhes fará mal.” Acho que o grande medo de Francisco não era a irmã morte corporal, mas essa segunda morte que, apesar de chamada de segunda, pode se antecipar na vida da pessoa. Quando ela, de repente, se entrega ao egoísmo, à vaidade, fecha o coração para os outros, não cultiva os seus relacionamentos, segue ou cede a uma postura de desânimo contumaz, alimenta a tristeza, a raiva, o ódio, ela começa a morrer por dentro. Essa, sim, é um ponto final, porque não traz esperança, não traz possibilidade de recomeço. É dessa morte que Francisco tinha medo. Da irmã morte corporal, ele tinha respeito. Ele teve essa sabedoria de humanizá-la e de integrá-la como alguém que vai lhe fazer um serviço. E qual é esse serviço? Pegá-lo pela mão e levá-lo para junto de Deus, aquela fonte infinita de amor que ele buscou a vida inteira.

Adriana Loduvichak: E é por isso, Frei Gustavo, que os frades franciscanos tanto falam sobre a passagem como a Páscoa? Ela é trabalhada desta forma mesmo?

Frei Gustavo Medella: Todos os santos se distinguiram por uma fé muito convicta e firme e clara na ressurreição de Jesus Cristo, que foi justamente esta passagem da morte para a vida em plenitude. Tanto que a grande maioria dos santos tem o seu dia celebrado justamente no dia da sua morte, como é São Francisco, na noite do dia 3 de outubro de 1226 para o dia 4 de outubro. Ali ele percebe estar encerrando o seu ciclo, depois de tudo que fez, depois de tudo que ensinou, viveu, experimentou, sofreu, superou, era a hora do abraço definitivo de Deus. Isso não significa, Adriana, que seja um momento fácil, que seja um momento vivido assim de forma banal, mas é uma passagem muito desafiante, porém cheia de esperança.

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Adriana Loduvichak: Como é ser franciscano e trabalhar diretamente com esse apoio emocional e espiritual para as famílias quando se despedem dos seus entes queridos? 

Frei Gustavo Medella: É uma ocasião de aprender preciosas lições, porque curiosamente, apesar de ser algo que nos mostra o fechamento de um ciclo, que vem assim como uma conclusão de um processo, é um processo também que traz consigo uma série de questões inconclusas. Não importa, às vezes, o tempo em que a pessoa parte, ou depois de viver muitos anos, ou às vezes prematuramente, sempre fica aquele ar que algo a mais poderia ter sido feito, quais experiências poderiam ter sido diferentes. E esse ar de inconclusão, especialmente para quem fica, parece que é fonte de certo sofrimento. “Poderia ter dado mais atenção para minha mãe, especialmente depois que ela alcançou certa idade”; “Poxa, aquele amigo que eu não via há tanto tempo, soube agora pela rede social que ele se foi”. Esse sentimento de algo que poderia ter sido vivido e não foi, pode gerar uma pequena dor ou uma reflexão pessoal que pode ajudar a pessoa também a crescer.

Adriana Loduvichak: Muito pouco se fala sobre a morte em vida. E existe um certo receio muitas vezes nosso, enquanto seres humanos, de olhar para nossa morte, de pensar que este momento chega, até mesmo como uma fuga de olhar para como estamos vivendo?

Frei Gustavo Medella: Acho que tem bastante nexo essa sua afirmação. Esse medo da morte ou às vezes querer iludir-se de que ela não existe, é uma espécie de fuga ou de uma justificativa às vezes para procrastinar, é a palavra da moda, né? Deixar para amanhã aquilo que se pode viver hoje, especialmente em escolhas que exigem um pouco mais de firmeza, renúncia, reorganização de valores. De certa forma, a certeza da morte pode ser uma bússola que nos impulsiona para o futuro, que nos lança num horizonte mais bonito, de maior ousadia, de maior entusiasmo pelo momento do aqui e agora que estamos vivendo.

Adriana Loduvichak: E de todas essas reflexões surge um livro: “Há vida após o luto”.

Frei Gustavo Medella: Sim. “Há vida após o luto: palavras de esperança para quem perdeu um ente querido”. É uma obra muito despretensiosa, Adriana. Ela não quer oferecer respostas, ela não quer ser um tratado, mas quer ser expressão de alguém, ou de uma Igreja, que nesta hora, mais do que palavras, oferece um abraço, um alento, uma acolhida a quem está vivendo esse drama e essa dificuldade do luto. O livro é baseado em passagens da Sagrada Escritura, em trechos de obras de literatura, pequenos versos de música e, a partir dessas intuições, dessas reflexões, busca ampliar esse abraço e chegar no coração da pessoa que está ali sofrendo a dor, a saudade, a perda, está precisando ressignificar a própria existência, está precisando reaprender a organizar a vida agora sem a presença física daquela pessoa a quem ela amava. Então o livro quer mais ser esse amigo, esse alento de todas as horas. Você pode abrir o livro em qualquer página. A ideia é oferecer essa pequena gota de bálsamo ou de encorajamento para a pessoa que vive e atravessa a dificuldade da perda de um ente querido.

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Adriana Loduvichak: Frei, você contava que o livro surge também desta mistura de sentimentos que vinham após trabalhar, conversar, dialogar com famílias que passavam pelo luto?

Frei Gustavo Medella: Sim. As situações nos ensinam muito. Por exemplo, cheguei a fazer celebrações onde estava apenas a pessoa falecida, o filho dela e mais uma amiga, mais ninguém. Mas ali havia um elo, histórias tão comoventes, elos tão sagrados que foram criados, por exemplo, entre aquela senhora falecida e aquela mulher que foi ali homenageá-la, tinha sido a sua vizinha. Aquela senhora falecida, no momento que aquela mulher mais tinha precisado, foi quem ficou com a sua filha quando a sua licença-maternidade venceu. Isso, para mim, é eternidade. Ali está uma demonstração muito simbólica do que significa a ressurreição. Para além daquilo que vemos, que sentimos, que podemos contar e mensurar, essas lembranças e esses elos inquebrantáveis que Deus nos dá a capacidade de criar quando nós passamos a olhar nos olhos uns dos outros com olhos de humanidade vocacionada à eternidade. Nós somos seres humanos, finitos, contingentes, limitados, sujeitos a muitos erros, mas chamados a construir experiências de eternidade pautadas no amor, na entrega, na superação e na generosidade. Ali nós começamos a saborear a ressurreição que, pela fé, temos certeza, vamos alcançar plenamente o dia que fecharmos os nossos olhos.

Adriana Loduvichak: Para encerrarmos, Frei Gustavo, poderia deixar uma mensagem para as pessoas diante também destes 800 anos da Páscoa da passagem de São Francisco de Assis, que muito nos ensinou e ensina? 

Frei Gustavo Medella: Essa mensagem, Adriana, eu tomo a liberdade de oferecê-la especialmente para pessoas que tiveram perdas recentes e perdas inesperadas, aquelas especialmente que nós dizemos contrariam a regra do tempo. Por exemplo, pais que enterram filhos, pessoas que têm a experiência da solidão ou de perder um ente querido ainda na juventude… É esta certeza ou esse desejo de olhar com olhos de eternidade também isso que aconteceu, trazendo consigo uma frase que eu ouvi de uma influenciadora: “A saudade é o azar de quem deu muita sorte”. Por quê? A sorte foi ter encontrado aquela pessoa, foi ter feito parte da vida dela, foi ter vivido aqueles momentos junto a ela, mais ou menos intensos em quantidade de anos, mas totalmente significativos no nível de laços que foram criados. Por isso, a você, o nosso abraço de esperança, aprendendo com Francisco, que compôs o Cântico das Criaturas numa situação de quase cegueira e dores terríveis. Quando a visão física falhou, foram os olhos do espírito e da convicção em Deus que o guiaram para louvar a Deus pelo sol, pela lua, pelas estrelas, pelo ar, pelo fogo e pela morte. Que nós possamos também ter esses olhos, olhos de gratidão, olhos de eternidade, olhos de ternura, que nos ajudem a mirar também a perda de alguém a partir do viés da esperança e da certeza de que, nesses momentos de forma especial, Deus está ao nosso lado para nos conduzir e nos consolar.

Adriana Loduvichak: E o amor que não morre.

Frei Gustavo Medella: E o amor que não morre e que nos guia nesse Capítulo das Esteiras. O amor sempre vencerá. Paz e Bem!

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Guilherme Coutinho